5. O MÉDICO VETERINÁRIO COMO AGENTE NA IDENTIFICAÇÃO DE
5.3.1. IDENTIFICAÇÃO DE CASOS COM VULNERABILIDADE
A SEDEA avaliou a situação socioeconômica dos moradores em 119 vistorias de maus-tratos aos animais desde abril até dezembro de 2016. Houve suspeita de algum tipo de vulnerabilidade em 44 fiscalizações. Em 90,9% (n= 40) dos casos identificados, os animais estiveram em situação de maus-tratos. A dificuldade econômica foi a vulnerabilidade mais frequentemente detectada. Em 13 casos (39,4%) das 33 famílias com problemas financeiros, também houve suspeita de outro tipo de limitação sociofamiliar. A descrição do tipo de vulnerabilidade identificada no total de situações examinadas e no número de casos encaminhados encontra-se na TABELA 14.
TABELA 14. CLASSIFICAÇÃO DOS CASOS DE ACORDO AO TIPO DE VULNERABILIDADE IDENTIFICADA PELOS MÉDICOS VETERINÁRIOS DA SEÇÃO DE DEFESA E PROTEÇÃO ANIMAL (SEDEA) DE PINHAIS, PR.
Tipo de vulnerabilidade Casos com suspeita* Casos encaminhados*
N % N %
Econômica 33 75 23 52,3
Violência 13 29,5 12 92,3
Abuso de substâncias 4 9,1 3 75
Fragilização de vínculos familiares 11 25 8 72,7
Vulnerabilidade geral 44 100 30 68,2
* Uma família poderia ter mais do que um tipo de vulnerabilidade resultando em uma porcentagem acumulativa total maior que 100%.
As frequências dos tipos de vulnerabilidade foram obtidas sob um valor total de 44 casos. FONTE: O autor (2017)
Os indicadores que levaram os médicos veterinários da SEDEA a suspeitar de vulnerabilidade encontram-se na TABELA 15. Observa-se que os profissionais da SEDEA relataram alguns indicadores diferentes dos propostos pelas pesquisadoras. Desta forma, foram consideradas tanto as informações fornecidas pelos tutores ou pessoas próximas às famílias, quanto os fatores observados no contexto ambiental ou familiar.
TABELA 15. INDICADORES RELATADOS PELOS MÉDICOS VETERINÁRIOS DA SEÇÃO DE DEFESA E PROTEÇÃO ANIMAL (SEDEA) DE PINHAIS, PR, PARA AVALIAÇÃO DE VULNERABILIDADE FAMILIAR DURANTE AS FISCALIZAÇÕES DE MAUS-TRATOS AOS ANIMAIS.
Tipo de vulnerabilidade
Indicador Frequência
N %
Econômica Desorganização e descuido na manutenção predial 11 25
Acúmulo de entulhos 13 29,5
Ambiente insalubre 13 29,5
Relato de impossibilidade de construir barreira física 10 22,7 Relato de desemprego da metade ou maioria das pessoas
adultas
14 31,8 Relato de possuir dificuldades para sustentar a família e os
animais
15 34,1 Família beneficiária dos programas da assistência social 9 20,4
Violência Criança (pessoa até 12 anos de idade) sozinha em casa 1 2,3 Pessoa com considerável deficiência física ou mental
sozinha em casa
2 4,5 Idoso em moradia insalubre com evidente ausência de
autocuidado
1 2,3 Evidência de medo da pessoa que acompanhou a
fiscalização frente à reação do denunciado.
3 6,8 Comportamento agressivo ou intimidador do denunciado 3 6,8 Relato da existência de violência 9 20,4 Evidente falta de cuidados fornecidos às crianças da moradia 1 2,3 Suspeita de agressão intencional aos animais 2 4,5
Abuso de drogas ou álcool
Acúmulo de recipientes de bebida alcoólica na residência 1 2,3 Visualização de uma pessoa sob os efeitos do álcool em
mais de uma ocasião
1 2,3 Relato de abuso de álcool ou drogas 3 6,8
Fragilização de vínculos familiares
Relato de ausência de vínculos ou desentendimentos familiares
11 25 FONTE: O autor (2017)
Os relatos dos tutores dos animais ou de alguma pessoa da comunidade foram fundamentais para a suspeita de vulnerabilidade. Dessa forma, os indicadores baseados nas informações expostas pelas pessoas tiveram as mais altas prevalências para cada uma das categorias. A TABELA 16 mostra a distribuição dos casos de vulnerabilidade segundo os motivos que contribuíram à sua identificação.
TABELA 16. DISTRIBUIÇÃO DOS CASOS COM VULNERABILIDADE DETECTADOS PELA SEÇÃO DE DEFESA E PROTEÇÃO ANIMAL (SEDEA) DE PINHAIS, PR, POR TIPO E MOTIVO PARA A SUSPEITA.
Tipo de vulnerabilidade
Motivos para a suspeita
Relato* Visualização do ambiente/ entorno familiar* N % N % Econômica 32 72,7 22 50 Violência 9a 20,4 9 20,4 Abuso de Substâncias 3a 6,8 2 4,5 Fragilização de vínculos 11 25 0 0 Vulnerabilidade geral 41 93 28 63,6
* Uma família poderia ter mais do que um tipo de vulnerabilidade resultando em uma porcentagem acumulativa total maior que 100%.
As frequências dos tipos de vulnerabilidade foram obtidas sob um valor total de 44 casos. FONTE: O autor (2017)
Dificuldades financeiras foram reportadas em 72,7% (n=32) dos 44 casos com suspeita de vulnerabilidade. Em 45,4% (n=20) do total de casos com suspeita de algum tipo de vulnerabilidade, as pessoas relataram aos funcionários da SEDEA problemas diferentes à situação econômica. Em dois casos (4,5%) dos 44 analisados, pessoas não integrantes do núcleo familiar responsável pelos animais, aproximaram-se dos profissionais durante as fiscalizações e manifestaram sua preocupação com os cães e gatos alvos da vistoria, fornecendo informação sobre os tutores dos mesmos. Um dos casos foi uma situação de violência, relativo a negligência de crianças e outro de abuso de drogas e álcool referente ao denunciado. Quando foi realizada comparação entre os grupos suspeita de vulnerabilidade econômica (n=33) e suspeita de outro tipo de vulnerabilidade (n=24), nos 44 casos analisados, os tutores dos animais foram mais propensos a fazer auto-relato de dificuldades financeiras (n= 32, 97%) que de outros tipos de problemas (n=18, 75%) no contexto familiar (p=0,034).
As visitas domiciliares permitiram aos funcionários da SEDEA acessar o ambiente familiar. Dessa forma, em 63,6% (n=28) dos casos, os médicos veterinários relataram ter observado alguma situação que levantou a suspeita da presença de vulnerabilidade socioeconômica durante as fiscalizações de maus- tratos (TABELA 16). Os indicadores observacionais mais frequentemente detectados estiveram relacionados com a vulnerabilidade econômica, fazendo referência ao ambiente sanitário e à infraestrutura da moradia. A FIGURA 8 ilustra alguns casos de moradias caracterizadas pela desorganização e descuido na
manutenção predial identificadas durante as fiscalizações de maus-tratos aos animais.
FIGURA 8. ILUSTRAÇÃO COMPARATIVA DE MORADIAS COM (A) E SEM (B) DESORGANIZAÇÃO E DESCUIDO NA MANUTENÇÃO PREDIAL IDENTIFICADAS DURANTE AS VISTORIAS DE MAUS-TRATOS AOS ANIMAIS REALIZADAS PELA SEÇÃO DE DEFESA E PROTEÇÃO ANIMAL (SEDEA) DE PINHAIS, PR.
FONTE: SEDEA (2017)
Ao realizar comparação entre o número de vezes que os veterinários identificaram um indicador observacional do contexto econômico (n=22, 66,7%), com o número de vezes que visualizaram um aspecto de outro tipo de vulnerabilidade (n=11, 45.8%), não houve diferença estatística significativa (p= 0,116). A FIGURA 9 exemplifica casos caracterizados por um ambiente insalubre com acúmulo de lixo e entulho.
FIGURA 9. ILUSTRAÇÃO DE CASOS CARACTERIZADOS POR UM AMBIENTE INSALUBRE COM ACÚMULO DE LIXO E ENTULHO IDENTIFICADOS DURANTE AS VISTORIAS DE MAUS-TRATOS AOS ANIMAIS REALIZADAS PELA SEÇÃO DE DEFESA E PROTEÇÃO ANIMAL (SEDEA) DE PINHAIS, PR.
FONTE: SEDEA (2017)
A detecção de fragilização de vínculos centrou-se unicamente nos relatos, sendo que nenhum indicador observacional desse tipo de vulnerabilidade foi detectado. Em 20,4% (n=9) e 4,5% (n=2) do total de famílias classificadas como vulneráveis (n=44), a visualização do entorno familiar contribuiu com a suspeita de violência e abuso de substâncias respectivamente (FIGURA 10).
FIGURA 10. ILUSTRAÇÃO QUE EXEMPLIFICA ALGUNS INDICADORES QUE CONTRIBUÍRAM COM A SUSPEITA DE VIOLÊNCIA (A) E DE ABUSO DE SUBSTÂNCIAS (B) DURANTE AS VISTORIAS DE MAUS-TRATOS AOS ANIMAIS REALIZADAS PELA SEÇÃO DE DEFESA E PROTEÇÃO ANIMAL (SEDEA) DE PINHAIS,PR.
FONTE: SEDEA (2017)