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1 O ESTADO E O PODER SIMBÓLICO

1.1 Ideologia e legitimidade

Como é possível que a ordem social seja mantida dia após dia? Por que os indivíduos obedecem à determinada autoridade? Como a autoridade é constituída? Como o príncipe conseguiu dominar a massa de súditos? Como o Estado moderno garante a submissão de todos à ordem? Como a instância jurídica contribui para garantir a submissão? Por que as pessoas que vivem em condições sociais extremamente injustas não se revoltam?

A tentativa de construir respostas a estas perguntas mobilizou uma infinidade de empreendimentos intelectuais, desde os tratados de filosofia política até as obras mais importantes das ciências sociais.

Étiene de La Boetie, na segunda metade do século XIV, já tratava da “servidão voluntária”: “como é possível acontecer, que tantos homens, tantos burgos, tantas cidades, tantas nações, suportem às vezes um único tirano, que só tem o poder que lhe outorgam” (La Boétie, 2009, p. 32).

David Hume, em The First Principles of the Government (de Essays and Treaties on Several Subjects, publicado em 1758), colocou a questão em termos semelhantes:

Nada é mais surpreendente, para os que consideram os negócios humanos com um olhar filosófico, do que ver a facilidade com que o maior número é governado pelo menor número, e observar a submissão implícita com que os homens revogam seus próprios sentimentos e paixões em favor daqueles de seus dirigentes. Quando nos perguntamos por que meio essa maravilha, essa coisa espantosa é realizada, descobrimos que, como a força está sempre do lado dos governados, os

governantes não têm nada para sustentá-los senão a opinião. É, portanto, somente na opinião que o governo está baseado. Essa máxima estende-se aos governos mais despóticos e aos mais militares tanto quanto aos mais livres e aos mais populares (Hume apud Bourdieu, 2014, p. 223).

Max Weber fez perguntas parecidas: “quando e por que os homens obedecem? Sobre que justificação íntima e sobre que meios exteriores repousa esse domínio? (...) Como os poderes dominantes conseguem manter seu domínio?” (2010, p. 56). Norbert Elias recolocou o problema:

(...) como é possível que um único homem, decidindo direta ou indiretamente o destino de centenas de milhares, talvez até de milhões de homens, consiga conservar por anos a fio sua posição como soberano e o grande raio de alcance de suas decisões proporcionado por essa posição? (...) Por que centenas de milhares de pessoas efetivamente obedecem a um único indivíduo, não só numa situação crítica, mas no decorrer da vida social comum, em sua rotina normal? (2001, p. 46). Conforme Pierre Bourdieu, costumamos nos impressionar mais com a mudança - as rebeliões, as subversões, as insurreições e as revoluções - quando “o assombroso, o espantoso, é o inverso: o fato de ser a ordem tão frequentemente observada”. E “é essa espécie de espanto” que constitui o “ponto de partida das reflexões rigorosas” (2014, p. 224). Para o autor, o problema fundamental é: “como é possível que se obedeça ao Estado? Como é possível que os dominados obedeçam?” (2014, p. 225).8

8 Pierre Clastres contribuiu para a compreensão desta problemática, tendo partido das mesmas perguntas: “que formidável acontecimento, que revolução permitiram o surgimento da figura do Déspota, daquele que comanda os que obedecem? De onde provém o poder político?” (2003, p. 218). Em seu projeto intelectual, o autor interessou-se em estudar a dimensão política no contexto das sociedades ditas arcaicas, das sociedades sem Estado, nas quais o Estado não foi inventado, nas quais, em termos etnocêntricos, não houve a passagem da

Diversos pontos fundamentais do pensamento social encontram-se subjacentes nestas perguntas. A relação entre indivíduo e sociedade, entre a estrutura e a ação social, entre as instituições e as “escolhas pessoais”; no fundo, a compreensão sobre como as determinações sociais se tornam “sangue e carne”, produzem subjetividades. Neste contexto, foi constituído um patrimônio comum de conceitos desenvolvidos por autores de distintas tradições, mas que comumente se debruçaram sobre tais mistérios: ideologia, falsa consciência, consciência de classe, hegemonia, aparelhos ideológicos do Estado, controle social, socialização, construção social da realidade, teodiceia, sociodiceia, disciplina, etc. O interesse comum que moveu o desenvolvimento de todos estes conceitos foi compreender a gênese e a inculcação das justificativas morais da ordem social, ou da propaganda que o mundo tal como ele é faz de si mesmo, tanto do ponto de vista do modo de produção – as justificativas morais do capitalismo -, quanto do ponto de vista do modo de administração – as justificativas morais do Estado, isto é, da dominação e do exercício do poder político. Como as pessoas são convencidas a, diariamente, fazer tudo sempre igual?

O modelo9 construído por Karl Marx (e por Friedrich Engels)

é espécie de fonte intelectual obrigatória para a reflexão sobre estas

“barbárie à civilização”. O autor almejou compreender que características das sociedades primitivas resultam no “não surgimento” do Estado: “se parece ainda impossível determinar as condições de aparecimento do Estado, podemos em troca precisar as condições de seu não-aparecimento” (2003, p. 218). Para Clastres, trata-se de desvendar o “enigma de um poder ‘impotente’” (2003, p. 41), pois aquele que é chamado “chefe indígena” não dispõe de “nenhuma autoridade, nenhum poder de coerção, de nenhum meio de dar ordem” (2003, p. 218), de modo que “se existe alguma coisa completamente estranha a um índio, é a ideia de dar uma ordem ou de ter de obedecer, exceto em circunstâncias muito especiais como em uma expedição guerreira” (2003, p. 30). Trata-se de uma contribuição fundamental, que se constitui em um formidável recurso comparativo para os estudos acerca da gênese do Estado moderno.

9 Segundo C. Wright Mills, “um modelo é um inventário mais ou menos sistemático dos elementos aos quais devemos prestar atenção para compreender alguma coisa. Não é verdadeiro nem falso: tem graus variados de utilidade e adequação” (1968, p. 41). Conforme Mills, “quem não se viu às voltas com as

indagações. Não há dúvida que na obras de Marx encontramos contribuições valiosas sobre estes temas, que influenciaram decisivamente os posteriores desenvolvimentos levados a cabo por outros pensadores. Na elaboração do materialismo histórico como método de compreensão dos fenômenos, como ciência das formações sociais, Marx mostrou que é preciso compreender as relações entre as produções mentais (ideias, ideologias, crenças jurídicas e éticas, etc.) e as suas determinações existenciais. No prefácio de Contribuição à crítica da economia política, encontram-se as indicações essenciais para uma análise materialista da forma política, jurídica e ideológica: a estrutura econômica da sociedade, formada pelas relações de produção (relações determinadas, necessárias, independentes da vontade, que os homens travam na produção social da existência) constitui a “base concreta sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e a qual corresponde determinadas formas de consciência social” (Marx, 1983, p. 24)10. O “modo de produção dos meios materiais de existência

ideias do marxismo não pode ser um cientista social adequado; quem acredita que o marxismo encerra a última palavra, também não o pode ser” (1968, p. 13). Além disso, “não há, na verdade, um Marx: todo o estudioso tem de fazer seu próprio Marx” (1968, p. 45). Nesse sentido, a leitura de Marx inscrita nesta tese é em grande parte condicionada pela interpretação de autores que não se declaram “marxistas”, mas que dialogaram com o pensamento de Marx, utilizando seu modelo como ferramenta indispensável, embora não infalível, à compreensão dos objetos acerca dos quais pensaram. Sobre isso, vale lembrar o “eu não sou marxista” de Marx.

10 Para Althusser, “essa representação da estrutura de toda a sociedade, como um edifício que contém uma base (infra-estrutura) sobre a qual se erigem os dois ‘andares’ da superestrutura, constitui uma metáfora, ou, para ser exato, uma metáfora espacial: a metáfora de uma tópica. (...) o objetivo da metáfora do edifício é, antes de tudo, representar a ‘determinação em última instância’ pela base econômica” (1996, p. 110). Conforme Berger e Luckmann, o debate acerca da espécie de determinação (do ser social em relação à consciência; da infraestrutura em relação à superestrutura), que Marx tinha em mente, foi o motor da “grande luta com Marx” que caracterizou a “Idade Clássica” da sociologia em geral, de modo que “neste ponto a controvérsia se tornou violenta a respeito do próprio pensamento de Marx (2009, p. 16). Segundo Merton, uma das linhas do marxismo, desde A ideologia alemã até os últimos escritos de

condiciona todo o processo de vida social, política e intelectual”, de modo que “não é a consciência dos homens que determina o seu ser; é o seu lugar social que, inversamente, determina a sua consciência” (Marx, 1983, p. 24). No modelo de Marx, a base existencial é constituída pelas relações de produção, que conformam uma estrutura de classes e posições sociais objetivamente distintas nessa estrutura. Portanto, a análise da gênese das ideias dos indivíduos deve levar em conta as suas bases sociais, especificamente a posição de classe.

No sistema de produção capitalista, “os proprietários da simples força de trabalho, os proprietários do capital e os proprietários de terra, cujas fontes de renda são, respectivamente, o salário, o lucro e a renda, isto é, os assalariados, os capitalistas e os proprietários fundiários” constituem as três grandes classes (Marx, 2013, p. 77).11 O

lugar que o sujeito ocupa na estrutura de classes condiciona decisivamente a forma pela qual vê o mundo. Robert K. Merton, tratando da relação entre o conhecimento e a base social nos autores seminais da sociologia do conhecimento, pontua que em Marx “não há um determinismo estrito das ideias pelas condições econômicas”; antes a “estrutura econômica constitui o enquadramento que limita o espectro de ideias que se tornarão socialmente efetivas” (2013, p. 144): nas

Engels, consiste “em uma definição (e delimitação) progressiva do modo pelo qual as relações de produção de fato condicionam o conhecimento e as formas de pensamento” (2013, p. 119).

11 Nesta citação encontramos a concepção estrutural de classe social, pois Marx acreditava que na “época da burguesia” os antagonismos entre as classes seriam simplificados, tendo em vista que as camadas inferiores da classe média progressivamente se tornariam proletárias, em razão da inviabilidade da competição com os grandes capitalistas e da perda de valor de suas habilidades profissionais diante dos novos métodos de produção: “a sociedade, como um todo, divide-se cada vez mais em dois grandes campos hostis, em duas grandes classes que se defrontam – a burguesia e o proletariado (Marx apud Mills, 1968, p. 51). Contudo, nos textos nos quais Marx analisa empiricamente situações históricas, como A luta de classes na França e O 18 brumário, aparecem outras classes e frações de classe, como a burguesia financeira, a burguesia industrial, a burguesia comercial, a pequena burguesia, a classe camponesa, a classe proletária e o lumpenproletariado.

palavras de Marx, em O dezoito brumário, “os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado” (Marx, 2011, p. 25).

O tema da dominação e da obediência é pensado nesta moldura analítica a partir dos conceitos de luta de classes, de ideologia e de falsa consciência. As visões de mundo que todos os indivíduos podem chegar a ter estão enquadradas pela condição de classe, “uma classe só pode ver o mundo em função de sua própria situação” (Aron, 2008, p. 272). Deste modo, mesmo a burguesia é falsamente consciente. É certo que suas definições da realidade são correspondentes aos seus objetivos de dominação, mas isso não deriva de uma consciência maquiavélica, e sim da própria posição social que ocupa. Os economistas ou os juristas burgueses, por exemplo, ao elaborarem suas teorias, não tem por objetivo enganar seus leitores; antes eles mesmos estão enganados, inevitavelmente limitados por aquilo que se oferece à visão nas suas condições de existência.

A burguesia, classe dominante, “cria o mundo a sua própria imagem” (Marx apud Mills, 1968, p. 77), e impõe esta visão de mundo, adequada aos seus interesses, aos dominados. Conforme Marx, “as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, a força espiritual dominante” (2007, p. 46):

A classe que tem à sua disposição os meios de produção material dispõe também dos meios de produção espiritual, de modo que a ela estão submetidos aproximadamente ao mesmo tempo os pensamentos daqueles aos quais faltam os meios de produção espiritual. As ideias dominantes não são nada mais do que a expressão ideológica das relações materiais dominantes, são as relações materiais dominantes apreendidas como ideias; portanto, são a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante, são as ideias de sua dominação. Os indivíduos que compõe a classe

dominante possuem, entre outras coisas, também consciência e, por isso, pensam; na medida em que dominam como classe e determinam todo o âmbito de uma época histórica, é evidente que eles o fazem em toda sua extensão, portanto, entre outras coisas, que eles dominam também como pensadores, como produtores de ideias, que regulam a produção e a distribuição das ideias de seu tempo; e, por conseguinte, que suas ideias são as ideias dominantes da época.

A classe burguesa difunde suas “falsas concepções interesseiras”, de modo a “erigir em lei da natureza e da razão” as relações sociais oriundas do modo de produção e de propriedade capitalistas (Marx apud Mills, 65). Produz uma ideologia correspondente aos seus objetivos de dominação de classe, dotando seus interesses particulares do selo da universalidade. A classe dominante também controla o conteúdo da cultura, os meios de produção espiritual e de difusão das ideias. Daí que a cultura é, “para imensa maioria dos homens, apenas “um adestramento que os transforma em máquinas” (Marx apud Mills, 1968, p. 34). A luta de classes também ocorre na dimensão simbólica, fundamentalmente por meio da produção de ilusões, da dissimulação acerca das reais relações de poder e de dominação, derivadas da estrutura econômica.

Assim, a ideologia dominante é compartilhada não apenas pelos que dela se beneficiam, mas também pelos dominados. As formas superestruturais (ideológicas) – religião, direito, ciência, etc – constituem uma “apologia da ordem existente” (Merton, 2013, p. 101) e contribuem para a dominação, adestrando os trabalhadores. Os proletários estão iludidos, estão enganados, estão narcotizados (“a religião é o ópio do povo”), são portadores de uma falsa consciência12.

12 “Os homens que não participam dessa classe dominante, mas aceitam suas definições de realidade e de seus próprios interesses, são ‘falsamente conscientes’” (Mills, 1968, p. 92). O tema da falsa consciência e de ideologia levanta inúmeros problemas. Na definição de Wright-Mills, acima transcrita, apenas os dominados são falsamente conscientes, o que está em contradição

Em síntese, a ideologia dominante, produzida e veiculada pela classe dominante, produz justificativas à exploração e com isso domestica os dominados, que assim “trabalham sozinhos” – “com exceção dos ‘maus sujeitos’, que vez por outra provocam a intervenção de um dos destacamentos do Aparelho (Repressivo) de Estado” (Althusser, 1996, p. 138)13.

com a ideia de que ninguém escapa às limitações que a existência impõe à consciência. Nas definições dos manuais, a ideologia é a “falsa consciência, ou a falsa representação, que uma classe social tem a respeito da própria situação, e da sociedade em conjunto” (Aron, 2008, p. 272); ou a ideologia é o “conjunto de representações da realidade que servem para legitimar e consolidar o poder das classes dominantes” (Sell, 2010, p. 52). Para Berger e Luckmann, a falsa consciência está ligada à consciência reificadora, ou seja, “a apreensão de fenômenos humanos como se fossem coisas, isto é, em termos não humanos ou possivelmente super-humanos. (...) a reificação é a apreensão dos produtos da atividade humana como se fossem algo diferente dos produtos humanos, como se fossem fatos da natureza, resultados de leis cósmicas ou manifestações da vontade divina. A reificação implica que o homem é capaz de esquecer sua própria autoria do mundo humano, e, mais, que a dialética entre o homem, o produtor, e seus produtos, é perdida de vista pela consciência (2009, p. 118). O conceito de ideologia poderia ser objeto da mesma constatação realizada por Geertz acerca do de cultura (com o qual, aliás, se confunde), cuja infinidade de definições produz o que o autor inglês chamou “pantanal conceptual” (2008, p. 04). Bourdieu também refere que a noção de ideologia é “vaga e obscura” (2014, p. 319). Para uma interessante compilação de textos sobre o tema da ideologia, conferir o livro Um mapa da ideologia, organizado por Slavoj Zizek (1996). De qualquer modo, o importante é que nessa areia movediça da ideologia e da falsa consciência encontramos uma das fundações da possibilidade de conhecimento científico do mundo social. Na conhecida passagem de Marx, de que “não se julga um indivíduo pela ideia que ele faz de si próprio”, sendo necessário “explicar esta consciência pelas contradições da vida material” (1983, p. 25), consta a fundamentação do postulado de que cabe ao cientista social interpretar os dados empíricos sobre as justificações internas das condutas, já que os homens não conseguem, em geral, compreender o conflito no qual estão inseridos.

13 Como um teórico evolucionista, Marx também elaborou uma teoria da revolução, e como um teórico racionalista, pensou esse tema a partir da hipótese de que os proletários, ao longo do processo histórico, tomariam consciência acerca do conflito, constituindo-se assim em classe revolucionária. Este processo não aconteceria por acaso, mas seria inevitável diante das contradições

Segundo Joachim Hirsch, “(...) Marx não se ocupou sistematicamente do Estado ou, mais precisamente, da forma política da sociedade burguesa. Em sua obra encontram-se mais exposições esporádicas, por vezes datadas e ocasionalmente também algo equívocas, ou pelo menos mal entendidas sobre esse tema” (2010, p. 19). Contudo, é certo que o “Estado é explicitamente concebido com um aparelho repressor”, ou seja, uma “máquina de repressão que permite às classes dominantes (...) assegurarem sua dominação sobre a classe trabalhadora, submetendo estas últimas ao processo de extorsão da mais-valia” (Althusser, 1996, p. 111).14 O aparelho repressivo não se

confunde com o poder estatal, isto é, com o domínio que uma classe ou uma aliança entre classes e frações de classe podem chegar a ter sobre tal aparelho. Por isso, “toda a luta política de classes gira em torno do Estado, (...) em torno da posse, isto é, da tomada e preservação do poder estatal por uma certa classe, ou por uma aliança entre classes e frações de classe” (Althusser, 1996, p. 113), ou seja, em torno da

e das crises inerentes ao capitalismo. É a própria burguesia quem “produz seus próprios coveiros”, quem, “dá ao proletariado seus próprios elementos de educação política e geral, (...) quem fornece armas ao proletariado para lutar contra ela” (Marx apud Mills, 1968, p. 59). A sociedade industrial, dominada pela burguesia, produziu proletários, e os aglutinou no chão da fábrica. A partir daí, esta classe (“classe em si”), começa a lutar contra a burguesia, primeiro desde a “luta de trabalhadores individuais, depois pela turma operária de uma fábrica, depois pelos que operam em um ramo do negócio, em uma localidade, contra os burgueses individuais que os exploram diretamente” (Marx apud Mills, 1968, p. 58). Também constituindo partidos operários, votando em representantes dos proletários e transformando a maioria da sociedade em maioria nas instituições da democracia moderna. Assim, progressivamente, em meio à luta, a classe estrutural vai se tornando uma classe consciente de seus interesses (“classe para si”), até que “nos tempos em que a luta de classes se aproxima da hora decisiva” (Marx Mills, 1968, p. 59), a classe revolucionária levaria a cabo sua missão histórica, colocando fim à pré-história da humanidade. Num trabalho que trata da questão criminal, é importante lembrar que no esquema marxista as condições de vida do lumpenproletariado, dos mais pobres entre os pobres, da “escória social”, “preparam-na (...) para o papel de um instrumento subordinado da intriga reacionária” (Marx Mills, 1968, p. 60). 14 “Según Marx, el Estado es un órgano de dominación de clase, un órgano de opresión de una clase por otra, es la creación del ‘orden’ que legaliza y afianza esta opresión, amortiguando los choques entre las clases” (Lenin, 2012, p. 16).

monopolização do controle dos meios para o exercício da violência. Em suma, o controle do aparelho repressivo – da polícia, dos tribunais, dos presídios, do exército – possibilita a manutenção da ordem social, a defesa da propriedade e das condições de reprodução das relações de produção: a garantia da paz burguesa.

O Estado é pensado nessa perspectiva a partir da função que lhe é atribuída, qual seja a de garantir a dominação de uma classe em relação à outra: o “poder político é o poder organizado de uma classe