JORNAL DAS MOÇAS
Imagem 31 : Anúncio Lysol (JM, 23/04/1936)
No anúncio, o enunciador, através de um discurso em que inicialmente mantém distância da co-enunciadora (a leitora), evoca o ethos da sapiência e da autoridade. O anúncio, que mais lembra um aviso ou um comunicado, interpela a leitora, já a partir do título (“Dever de mãe”), pelas qualidades socialmente determinadas para mães: são
responsáveis e têm deveres (“O sentimento de responsabilidade impõe a uma mãe o
dever de recorrer a todos os meios a seu alcance para proteger sua família”). A autoridade
do enunciador é referendada pelo interdiscurso da Medicina, o qual remete a imagens partilhadas socialmente: a das epidemias (“perigos muito parecidos aos existentes quando há epidemias); a da maternidade (“É tão eficaz que se usa em todo mundo em casos de
maternidade e hygiene intima feminina”).
A co-enunciadora confere ao fiador da enunciação um ethos de autoridade e de sapiência; assimila essa autoridade e essa sapiência na medida em que, concordando com o enunciador, assume uma forma de estar no mundo semelhante à dele ou à da imagem de mãe por ele evocada: responsável e cuidadosa e, portanto, cumpridora de seus deveres com a família. Essa dupla incorporação permite a participação da co-enunciadora no corpo social dos que aderem a esse discurso. Em primeiro lugar, numa visão macro, tem-se a anuência ao discurso da civilidade feminina, segundo o qual a mulher, como mãe, é guardiã da família. Em segundo lugar, num sentido mais restrito, daquelas “mães cuidadosas” que usariam Lysol, nos seus mais diversos empregos.
Apresentado um exemplo de apreensão do ethos, interessa-nos agora estabelecer um elo entre a perspectiva da História da Leitura, da Análise do Discurso e da própria
noção de civilidade. Embora não tenhamos notícia de que na literatura da HL ou da AD184
e, tampouco, nas interpretações que se fazem da teoria de Nobert Elias, se tenha feito tal observação, acreditamos ser essa uma interpretação possível. Expliquemos por que: a interseção entre as duas disciplinas se dá justamente quando consideramos a noção de incorporação. Já o conceito de civilidade perpassa não só a noção de ethos quanto a de incorporação. Este último é usado na HL para justificar o fato de sociabilidades serem assimiladas via leitura. Nessa perspectiva, a leitura seria, então, uma forma de incorporação de valores sociais. Entretanto, os historiadores da leitura não explicam com clareza como se daria essa incorporação.
184 Maingueneau (2001b) já aponta a convergência de pontos de vista quando, em O contexto da obra literária, recorre a palavras de Chartier para empreender uma interessante discussão sobre o suporte material do escrito.
Por outro lado, a AD procura ver como uma participação nos sentidos sociais pode ser tecida através dos discursos e, portanto, dispõe-se a explicar o funcionamento desses discursos e termina, então, por tratar também de sociabilidades. Ora a incorporação, tanto na perspectiva da HL quanto na da AD, só é possível através da enunciação. Vejamos como se daria a costura desse quadro, considerando a civilidade.
O ethos - esse conjunto voz, caráter e corporalidade -, se manifesta através de uma variedade de tons. Como já afirmamos, a instância que profere o tom de uma enunciação não é, de modo algum, o autor efetivo do discurso. Diz respeito, na verdade, a uma representação do enunciador construída pelo co-enunciador, a partir de indícios de várias ordens promovidos pelo texto. Essa instância subjetiva assume, pois, o papel de um fiador que assume a responsabilidade pelo enunciado.
Esse fiador, por sua vez, deteria um caráter e uma corporalidade. Esse caráter corresponderia, com efeito, a estereótipos peculiares a uma época, um lugar, que o próprio discurso contribuiria para validar e nos quais ele mesmo se apoiaria. Já corporadidade ligar-se-ia à compleição física suposta para o corpo do fiador. Essa corporalidade seria inseparável de uma maneira de vestir e de se movimentar no espaço social. Considerando o fato de que tanto caráter quanto corporalidade são socialmente negociados, o ethos implicaria, pois, uma vigilância tácita do corpo, uma maneira de habitar o espaço social (MAINGUENEAU, 2001b, p. 139).
Ora, esse policiamento do corpo e [ampliando o conceito de ethos] de condutas, cuja construção se dá na própria sociedade - através de inúmeros objetos culturais, entre os quais estariam a leitura e a iconografia, por exemplo -, remete-nos ao próprio processo civilizador e, mais particularmente, à civilidade; esta última, vista como um conjunto de normas que balizam a forma de os indivíduos se movimentarem e estarem nos espaços sociais.
Resumindo: a leitura, como uma forma de apropriação ou de incorporação, mediaria, portanto, a incorporação pelo co-enunciador do conjunto de esquemas, o qual, por sua vez, corresponderia a uma maneira específica - sugerida pelo enunciador do
discurso – de estar no mundo em uma determinada época, em um determinado espaço e
nossa interpretação, não só pela assimilação do ethos do enunciador, mas também pela adesão às idéias enunciadas e pelas representações, no discurso, de outros atores sociais que não apenas o enunciador. Voltemos, agora, a nossos últimos conceitos.
Como já observamos anteriormente, o enunciador não é necessariamente o ponto zero da enunciação. Ele não escolhe enunciar desta ou daquela forma por seu livre arbítrio simplesmente. Na verdade, há uma configuração social de que ele participa e que impõe ou estende os limites daquilo que é dito. O enunciador é, dessa forma, um dos componentes de um quadro interativo, cujo desenho se apresenta sob a forma de uma instituição discursiva inscrita em uma certa configuração histórico-social, a qual, por sua vez, implica papéis, lugares e momentos de enunciação legítimos, além de um suporte material e de um modo de circulação dos enunciados.
Admitindo isso, Maingueneau (2005b) afirma que o ethos não seria, como na retórica tradicional, apenas um mecanismo de persuasão. Ele comporia, com o mesmo estatuto do vocabulário ou dos modos de difusão do discurso, a cena enunciativa. Com efeito, o discurso pressupõe uma cena de enunciação para que ele seja proferido. Num retro-movimento, esse mesmo discurso, que exige uma cena para ser enunciado, valida, por sua vez, a cena por sua própria enunciação.
A cena da enunciação é composta de três cenas: cena englobante, cena genérica e cenografia. A cena englobante diz respeito ao tipo de discurso e confere a esse último o estatuto pragmático. Ter-se-ia, assim, o discurso literário, religioso, filosófico, da civilidade etc. Já a cena genérica é aquela que coloca o discurso em um gênero, que o associa a uma “instituição discursiva”, tal como conselho, editorial, sermão, receita médica, conto, anúncio etc. Por último, a cenografia seria a situação de enunciação do discurso. A cenografia não é, pois imposta pelo gênero, mas é construída pelo próprio texto. Assim sendo, poder-se-ia ter, por exemplo, um sermão enunciado por intermédio de uma cenografia professoral, profética, afetuosa, familiar etc. Além disso, há que se chamar atenção ainda para o fato de o ethos não se desvincular da cenografia que o faz. A fim de deixar mais claro o conceito de cenografia, reproduzimos um comentário de Maingueneau (2005b, p. 77) a respeito da reconstrução da cenografia do discurso pelo leitor:
O leitor reconstrói a cenografia de um discurso com o auxílio de indícios diversificados, cuja descoberta se apóia no conhecimento do gênero do discurso, na consideração de níveis da língua, do ritmo etc., ou mesmo em conteúdos explícitos. Em uma cenografia, como em qualquer situação de comunicação, a figura do enunciador, o fiador, e a figura correlativa do co- enunciador são associadas a uma cronografia (um momento) e a uma topografia (um lugar) das quais supostamente o discurso surge.
Como vimos, o leitor se apóia em diversos índices para recompor a cenografia do discurso. Mas a cenografia, assim como já observamos na introdução deste capítulo, está inscrita numa dêixis imediata, a qual, por seu turno, remete a uma dêixis fundadora. Admitindo isso, poderíamos supor que a cenografia de toda enunciação pela natureza do próprio discurso, já nasce delimitada. Entretanto, a cenografia carrega em si um paradoxo: já a partir de sua origem, o discurso pressupõe uma cena de enunciação (integrada a uma cronografia (tempo) e a uma topografia (um lugar), que, ao mesmo tempo, se legitima à medida que a enunciação vai acontecendo.
Sendo assim, a cenografia é tanto a instância de onde o discurso vem quanto aquela que ele engendra. Dessa forma, pode-se ter um enunciado, como o anúncio publicitário que reproduzimos na imagem 23, por exemplo, em que se apresenta uma cenografia composta pela cronografia do ano de 1936 e pela topografia do JM, e que ao mesmo tempo se legitima como um enunciado através do qual se quer persuadir o interlocutor e que, para isso, interpela o leitor por intermédio de uma cenografia de um aviso ou de um comunicado, onde se expõem qualidades de uma mãe responsável. A primeira cenografia seria de onde o discurso vem; a segunda, aquela que ele engendra.
5.2 Investimento em gêneros do discurso na construção do discurso da