2 PERCEPÇÃO VISUAL
3 IMAGEM VISUAL E LINGUAGEM DE VIDEO
3.1 Imagem e representação
As Ciências da cognição, conforme vimos anteriormente, configuram-se num campo de investigação interdisciplinar sobre o processo de conhecer e a função do conhecimento na vida individual e coletiva dos seres humanos, considerando suas dimensões biológicas, psicológicas, sociais e culturais. Entre tantos pressupostos que fundamentam as ciências da cognição, há um que gostaríamos de destacar, por ser um ponto crucial na presente argumentação.
A ciência cognitiva está fundada sobre a crença de que é legítimo – na verdade, necessário – postular um nível de análise separado, que pode ser chamado de ‘nível de representação’. Quando trabalha neste nível, um cientista trafega por entidades representacionais tais como símbolos, regras e imagens [...] Este nível é necessário para explicar a variedade do comportamento, da ação e do pensamento humano. 78
No entanto, o estudo das representações visuais e mentais é focalizado tanto nas Ciências Cognitivas, quanto na Semiótica Peirceana. Representação é um conceito que vem sendo estudado desde a escolástica medieval, para referir-se à signos, símbolos, imagens e várias formas de substituição.79
Para S. Palmer80, hoje, o conceito de representação se encontra no centro da teoria das ciências cognitivas, para abordar temas como representação analógica, digital, proposicional, cognitiva ou, de modo mais amplo, representação mental.
Fialho diz que representação é um dos elementos que constituem a arquitetura das ciências cognitivas, ou seja, a construção de representações (estruturas cognitivas transitórias) é uma das funções do sistema de cognição. Conforme o autor, “as representações são os conteúdos do pensamento, aos quais se refere o termo compreender. São construções que constituem o conjunto das informações levadas em conta pelo sistema cognitivo na realização da tarefa”.81
78 GARDNER, 1995, p. 53. 79 SANTAELLA, 1998, p. 15.
80 PALMER, Stephen E. Fundamental aspects of cognitive representation. In: ROSCH, Eleanor &
Barbara B. LLOYD, (orgs.). Cognition and categorization. Hillsdale, N.J.: Lawrence Erlbaum, 1978, p. 259-303.
A semiótica geral trabalha com definições bastante variadas sobre representação. Desse modo, seu campo de significação compreende apresentação e imaginação, e estende-se a conceitos como signo, veículo de signo, imagem (representação imagética), bem como, significação e referência82. As iniciativas de delimitação do conceito de representação são, além de variadas, freqüentemente imprecisas. No entanto, encontramos usualmente o emprego do termo signo como sinônimo de representação.
Segundo V. Howard, “as palavras ‘representação’, ‘linguagem’ e ‘símbolo’ são virtualmente intercambiáveis nos seus usos mais vastos”83. Em Locke84, localizamos o emprego de representação como sinônimo de signo; do mesmo modo, Peirce, na primeira fase de suas pesquisas, em 1865, caracterizou semiótica como “teoria geral das representações”, utilizando, sem distinções, as palavras signo e representação.
Dan Sperber também utiliza o conceito de representação, de uma maneira geral, como sinônimo de signo, quando distingui no âmbito conceitual representação mental e representação pública. Segundo o autor,
Devemos distinguir dois tipos de representação: há representações internas ao dispositivo do processo informativo, isto é,
representações mentais, e há representações externas ao dispositivo
[...], isto é, representações públicas. [...] Há então, duas classes de processos [...]: processos intra-subjetivos de pensamento e memória, e processos intersubjetivos através dos quais as representações de um sujeito afetam as representações de outros sujeitos através de modificações dos seus ambientes comuns.85
Temos, assim, uma semelhança entre o que Sperber caracteriza como representações públicas, e o que a semiótica descreve como signo ou, mais rigorosamente, como veículo do signo, ao mesmo tempo em que, o que Sperber compreende por processos sígnicos intra-subjetivos, corresponde às representações mentais da ciência cognitiva. No modelo sígnico de Peirce, ambos os aspectos de um signo são formas de representações.
Representação é um substantivo abstrato de âmbito conceitual, que abrange também uma função sígnica, ou um processo de utilização sígnica, estendendo-se
82 SANTAELLA, 1998, p. 16.
83 HOWARD, V. A. Theory of representation. In: KOLERS, P. A., et al., orgs. Processing of visible
language, vol. 2, 1980, p. 502. New York: Plenum.
84 LOCKHE, John. An essay concerning human understanding. London: Collins, 1973.
85 SPERBER, Dan. Anthropology and psychology: Towards an epidemology of representation.
assim, da semiose até a relação de objeto, ou ainda, até a função referencial sígnica. É definida, de modo geral, como o processo de apresentação de alguma coisa através de signos. Tomás de Aquino escreve que cada representação acontece por meio de signos. A designação ampla desse conceito escolástico torna evidente a diferença entre quatro tipos de representações: (1) por um tipo de imagem, (2) por um tipo de vestígio, (3) por meio de um espelho, (4) através de um livro.86
Contemporaneamente, J. Rosenberg faz uso do conceito de representação, de modo geral, com o sentido de utilização sígnica ou semiose humana. Segundo o autor, “a atividade humana característica e essencial é a representação – quer dizer a produção e manipulação de representações”.87
Portanto, o conceito de representação também tem uma função sígnica e tanto os signos naturais como convencionais tem potencial para representar, desde que desempenhem uma função significativa, dentro de um sistema de códigos culturalmente reconhecido.
Peirce sustenta que representação é um processo de apresentação de um objeto a um intérprete de um signo, portanto, expressa a relação entre signo e objeto. O autor define representar como estar para, quer dizer, alguma coisa está de tal maneira relacionada a algo que, para certos fins, a coisa é tratada pela mente, como se fosse aquilo que representa.
Uma palavra representa algo para a concepção na mente do ouvinte, um retrato representa a pessoa para quem ele dirige a concepção de reconhecimento, um catavento representa a direção do vento para a concepção daquele que o entende, um advogado representa seu cliente para o juiz e júri que ele influencia.88
Existem outras determinações conceituais que acompanham o conceito de representação, como por exemplo, signo icônico, no qual o veículo sígnico mantém uma relação de similitude com o objeto que representa. Tal noção já se encontrava expressa na epistemologia medieval, na qual as formas relacionais entre as coisas eram defendidas em sua qualidade de semelhança.
86 Scheerer et al. 1992, p. 791.
87 ROSENBERG, Jay. F. Linguistic representation. Dordrecht: Reidel, 1974. 88 SANTAELLA, 1998, p. 17.
Nelson Goodman89, atualmente ainda define representação como um signo icônico; embora não apóie o critério de semelhança, o autor sustenta que representações são imagens que tem praticamente a mesma função que as descrições. Goodman diferencia duas funções para os signos – representação (é somente imagética) e descrição (possui uma natureza verbal), embora (para o autor) ambas se caracterizem por apresentar uma relação denotativa com o mundo. No entanto, o autor não restringe os tipos de função dos signos apenas à representação e descrição, mas também à expressão e exemplificação.
Piaget designou, em sua epistemologia genética, a imagem mental como uma imagem interior. O autor usou categorias semióticas fundamentando na semiologia de Saussure. E definiu por imagem interior o “esquema representativo” de um acontecimento externo, entendendo-a como uma “imitação interiorizada” e transformada do acontecimento90. O potencial de trazer à mente imagens internas foi
denominado pelo autor de função semiótica. 91
Para Piaget, a função semiótica é a capacidade geral do ser humano de “representar algo através de um signo ou um símbolo ou um outro objeto”.92 Conseqüentemente, a imagem mental é um veículo do signo que representa o objeto de referência externo.93
Piaget também se mostrou contrário à teoria da cópia ingênua, que defende a imagem mental como um tipo de vestígio da percepção passiva de um objeto dado objetivamente e, defendeu uma teoria assimilatória da imagem. Dentro dessa abordagem, a imagem mental ou interna é resultado de uma imitação internalizada e têm a função de “instrumento semiótico”; e é fundamental para evocar o percebido. Se as ciências da cognição atuam no desenvolvimento de modelos de conhecimento (portanto, representações) e modelos do processamento de suas estruturas em processos mentais (modelos de processos cognitivos), pode-se dizer que o conceito de representação mental nos conduz, da semiótica às ciências da cognição. E, se a Semiótica Peirceana parte do princípio que as representações
89 GOODMAN, Nelson. Languagens of art. Indianópolis: Bobbs-Merrill, 1968, p. 257.
90 PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança. Trad. A. Cabral e L.M. Oiticica. Rio de Janeiro:
Zahar, 1964, p. 97.
91 ______. A epistemologia genética. Trad. N. C. Caixeiro. Petrópolis: Vozes, 1970, p. 17.
92 PIAGET, Jean & INHELDER, Bärber. L’image mentale chez l’enfant. Paris: Presses Universitaires,
1966, p. 12-19.
cognitivas são signos e processos mentais que ocorrem na forma de operações sígnicas, é pertinente o questionamento sobre a natureza dos fenômenos sígnicos, bem como, a relação entre a semiótica e as ciências da cognição.
As investigações sobre representação reforçam a constatação da complexidade do estudo da imagem justificado, principalmente, porque ela aparece vinculada a diversas áreas do conhecimento, mas também porque apresenta inúmeras abordagens e diferenciadas maneiras de concebê-la. Para Santaella, o mundo das imagens pode ser dividido em dois domínios: visual e mental.
O primeiro é o domínio das imagens como representações visuais: desenhos, pinturas, gravuras, fotografias e as imagens cinematográficas, televisivas, holo e infográficas pertencem a esse domínio. Imagens, nesse sentido, são objetos materiais, signos que representam o nosso ambiente visual. O segundo é o domínio imaterial das imagens na nossa mente. Neste domínio, imagens aparecem como visões, fantasias, imaginações, esquemas, modelos ou, em geral, como representações mentais. 94
Ambos domínios da imagem não existem separadamente, pois se encontram ligados em sua gênese. Não há imagens como representações visuais que não tenham se originado na mente de quem as produziram; assim como não há imagens mentais que não tenham sua origem no mundo concreto dos objetos visuais. Santaella aponta os conceitos de ‘signo’ e ‘representação’ como unificadores dos dois domínios.
Sem desconsiderar a multiplicidade de sentidos e significados das imagens, encaminhamo-nos a partir de agora para um outro campo de estudo, que compreende os gêneros imagéticos, no caso, a imagem videográfica. Para tanto, busca-se analisar de que maneira as imagens técnicas vem sendo definidas, quais são as especificidades da imagem videográfica dentro deste universo, e quais são as tendências da linguagem do vídeo que o caracterizam como um fenômeno cultural.
94 SANTAELLA, Lucia e NÖTH, Winfried. Imagem: cognição, semiótica, mídia. São Paulo: Iluminuras,