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O ROSTO DA POPULAÇÃO DE RUA PAULISTANA

V. Imagens do cotidiano de quem SOBRE-vive na Rua

A coletânea de imagens52 a seguir procura retratar, em primeiro lugar, as relações que podem apontar saídas para minimizar a condição da população em situação de rua, constituindo-se uma coalizão entre os elementos da religião e da política. Em segundo lugar, permite caminhos para se construir um olhar analítico-crítico acerca dos elementos culturais e sociais oferecidos pela imagem.

Schmitt declara:

“Todas as imagens têm sua razão de ser, exprimem e comunicam sentidos, estão carregadas de valores simbólicos, cumprem funções religiosas, políticas e ideológicas, prestam-se a usos pedagógicos, litúrgicos e mesmo mágicos. Isto significa dizer que elas participam plenamente do funcionamento e da reprodução das sociedades presentes e passadas. (...) mas ao concentrar-se a atenção num tempo mais recente, é verdade que o aparecimento e o desenvolvimento exponencial das técnicas modernas de registro e transmissão de imagens fixas (fotografias) e móveis (cinema, televisão) alteram nosso campo visual e nossas referências culturais.”

Vê-se nestas primeiras imagens a população reunida na frente do templo da Sé; mais abaixo um morador de rua transitando com uma cruz, à semelhança da peregrinação do Cristo, e uma frase-chavão de crítica ao governo: “Serra você falou mas não coprio”.

A imagem a seguir reúne dois estigmas da população em situação de rua: a mulher e a negritude.

As pesquisas, tanto do Ministério do Desenvolvimento (2000) quanto da Secretaria do Bem-Estar Social de São Paulo (2007), mostram que a população feminina de rua mantém certa estabilidade, havendo até decréscimo.

As outras três imagens agrupam os segmentos em maior grau de vulnerabilidade: (1) a presença de mulheres, (2) mulher negra, (3) idoso, (4) adolescentes e crianças. Chama-se a atenção para os adolescentes sob os cobertores. Eles aparecem, à primeira vista, uma dupla de cadáveres e simetria emblemática de vulnerabilidade. Depois vemos a idosa encurvada e a

criança em estado de torpor rente à calçada, dominada pela inalação de cola de sapateiro. (1) Mulheres em movimento popular do Povo de Rua – Ilustração 2

integracaosemposse.zip.net/arch2005-08-01_200...

As imagens que seguem foram selecionadas do cotidiano retratando uma mulher negra, uma idosa, bem como dois adolescentes e uma criança no ambiente externo urbano, sendo uma numa praça, uma idosa e uma criança na calçada e dois adolescentes sob um viaduto cuja coluna grafitada dá o tom da poluição visual que a cidade oferece em que pessoas sujas se confundem com a sujeira do próprio espaço que ocupam.

O congelar destas imagens nos remete a Serge Gruzinski em sua obra A Guerra das Imagens, na qual ele traça uma linha histórica da chegada de Colombo até o domínio da imagem televisiva que não permite ao expectador ocupar-se com análise, com detalhes, com a dimensão do exposto e aponta: Este mundo de imagens e do espetáculo é mais do que nunca um mundo híbrido, do sincretismo e da mistura, da confusão das raças e das línguas [...] laboratório da modernidade e da pós modernidade, caos prodigioso de duplos e de replicantes culturas, gigantesco entreposto de resíduos onde se amontoam as imagens e as memórias mutiladas de três continentes53

Considera-se, portanto, que ao nos depararmos com uma imagem congelada, que rompe com o caos televisivo das imagens replicantes, coincidentes, pode-se evocar a possibilidade de análise, e uma delas diz respeito à mulher negra assentada sobre os seus pertences na companhia do cachorro, exposta em uma praça; a outra da idosa que sustenta, de cócoras, um recipiente no qual espera que pessoas, caminhantes, comovidas com aquela cena dramática urbana, lhe ofereça algum trocado.

(2) Mulher negra em situação de rua – Ilustração 3

www.jornalorebate.com/colunistas/cris4.htm

(3) Idosa em situação de rua – Ilustração 4

triangulo.org.br/site/index.php/20080403436/P...

Em ambos os quadros degradantes, sem que se caminhe pela discussão do mérito ou das forças sociais e políticas que conduziram a esta situação, se evoca o Estatuto do Idoso -LEI Nº. 8.842, de 4 de janeiro de 1994, que dispõe o seguinte:

Artigo 1º - A política nacional do idoso tem por objetivo assegurar os direitos sociais do idoso, criando condições para promover sua autonomia, integração e participação efetiva na sociedade.

Artigo 3º - I - a família, a sociedade e o estado têm o dever de assegurar ao idoso todos os direitos da cidadania, garantindo sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade, bem-estar e o direito à vida;

III - o idoso não deve sofrer discriminação de qualquer natureza;

CAPÍTULO IV - Das Ações Governamentais Artigo 10- Na implementação da política nacional do idoso, são competências dos órgãos e entidades públicos: I - na área de promoção e assistência social: a) prestar serviços e desenvolver ações voltadas para o atendimento das necessidades básicas do idoso, mediante a participação das famílias, da sociedade e de entidades governamentais e não-governamentais; b) estimular a criação de incentivos e de alternativas de atendimento ao idoso, como centros de convivência, centros de cuidados diurnos, casas-lares, oficinas abrigadas de trabalho, atendimentos domiciliares e outros;c) promover simpósios, seminários e encontros específicos; d) planejar, coordenar, supervisionar e financiar estudos, levantamentos, pesquisas e publicações sobre a situação social do idoso;e) promover a capacitação de recursos para atendimento ao idoso; II - na área de saúde:a) garantir ao idoso a assistência à saúde, nos diversos níveis de atendimento do Sistema Único

de Saúde; b) prevenir, promover, proteger e recuperar a saúde do idoso, mediante programas e medidas profiláticas; c) adotar e aplicar normas de funcionamento às instituições geriátricas e similares, com fiscalização pelos gestores do Sistema Único de Saúde; d) elaborar normas de serviços geriátricos hospitalares; e) desenvolver formas de cooperação entre as Secretarias de Saúde dos Estados, do Distrito Federal, e dos Municípios e entre os Centros de Referência em Geriatria e Gerontologia para treinamento de equipes interprofissionais; f) incluir a Geriatria como especialidade clínica, para efeito de concursos públicos federais, estaduais, do Distrito Federal e municipais; g) realizar estudos para detectar o caráter epidemiológico de determinadas doenças do idoso, com vistas à prevenção, tratamento e reabilitação; h) criar serviços alternativos de saúde para o idoso;54

Jung Mo Sung55 aponta que a questão da invisibilidade da velhice é mais do que uma cegueira do Estado e das agências sociais que compõem a malha assistencial do governo, mas se trata de uma cultura estabelecida na sociedade, sendo esse descaso mais do que uma consequência direta da supressão de verbas do governo para este fim, mas um modo de ser de todos, já instituído nas relações humanas da sociedade contemporânea, como afirma: Se o grupo de idosos se tornou invisível aos olhos das políticas governamentais, isto nos remete ao modo como o governo e a própria sociedade conhecem a realidade social e seus problemas. Isto, aos valores, crenças místicas, proibições e tabus que compõem a nossa cultura. Não foi somente a política de ajuste econômico neoliberal, com seus cortes nos problemas sociais e o desmonte de projeto de Estado de Bem-Estar Social, que levou a uma situação de descaso com os problemas dos idosos. (SUNG, 2005. P. 101)

As duas imagens a seguir evocam igualmente possibilidades de múltiplas interpretações. Entretanto, há legislação que sustenta o estado a promover iniciativas e providências que de forma efetiva contribuam com atenção e erradicação de situação degradante envolvendo jovens e crianças no espaço urbano.

www.vides.org.br/portal.php/Noticia?codigo=171

(5) Criança em situação de rua (B) – Ilustração 6

moradorderua.zip.net/

O Estatuto da Criança e do Adolescente - LEI Nº 8.069, de 13 de julho de 1990 – propõe:

Título I - Das Disposições Preliminares

Art. 1º Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente.

Art. 2º Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade.

Parágrafo único. Nos casos expressos em lei, aplica-se excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade. Art. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade. Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos

direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. Parágrafo único. A garantia de prioridade compreende:

a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias; b) precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública; c) preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas;

d) destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude.

Art. 5º Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.

Art. 6º Na interpretação desta Lei levar-se-ão em conta os fins sociais a que ela se dirige, as exigências do bem comum, os direitos e deveres individuais e coletivos, e a condição peculiar da criança e do adolescente como pessoas em desenvolvimento.56

Destaca-se nesta lei o Artigo 5º que preceitua: Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.

O ingresso destas imagens no corpo do trabalho segue a cultura de publicações tanto dos órgãos do governo e entidades de filantropia, bem como, na literatura com enfoque na População em Situação de Rua, nas quais o texto é acompanhado de imagens ilustrativas com a intenção de conduzir o leitor não somente à reflexão pela leitura, mas também pela observação de imagens, nem sempre tão agradáveis, assim como as selecionadas para esta pesquisa.

A pesquisa indica que a população em situação de rua na cidade de São Paulo é uma realidade que não é mais possível de ser considerada como massa humana invisível. Justifica-se essa assertiva pelo fato de que é possível identificá-la em dados estatísticos, fotografá-la em imagens, reconhecer o seu trajeto migratório no tecido urbano e identificar o seu perfil socioeconômico. Eles são moradores de rua e na rua vão se tornando patrimônio social, econômico e cultural da cidade.

Os elementos considerados na pesquisa apontam que mesmo com as iniciativas de políticas públicas intensificando o atendimento à população de rua e promovendo sua alocação em albergues e casa de apoio, a população ainda fora do alcance do poder público praticamente duplicou em número no período entre 2000 e 2003.

Outro dado que aponta um tema do interesse desta pesquisa no seu todo é a baixa filiação das pessoas em situação de rua a grêmios associativos ou a qualquer outro programa em que se reforcem os valores de participação política na forma de reivindicar seus direitos e

atenção dos órgãos públicos.

Também é relevante o fato do contingente masculino que compõe a população de rua estar em crescimento, e sua faixa etária apontar uma geração de homens que está envelhecendo nessa condição.

De todos os elementos apontados e levantados na pesquisa, o mais grave diz respeito à nova população que já está a vingar na cidade. População formada por crianças e adolescentes, os quais já aprenderam a se deslocar na malha rodoviária urbana e com isto procuram novos espaços de convivência, abrigo e trabalho, abrindo mão ou sendo levados a abrir mão de vínculos familiares. Vínculos que, após serem rompidos, tornam cada vez mais difíceis as possibilidades de atendimento e possíveis reabilitações dessas crianças e adolescentes.

As ilustrações por gráficos e imagens que constam deste capítulo representam uma opção do pesquisador em ilustrar de forma concreta e em linguagem contemporânea, a realidade de uma população que, mesmo sabendo de sua existência na cidade, negamo-nos a enxergá-la.

No Capítulo II a seguir, se tratará do contexto social em que a Comunidade Metodista de Rua se instala no cenário urbano ao tempo da legislatura da Prefeita Luíza Erundina, em 1992.

No primeiro momento se apresentará a complexidade que configura o entorno e a aproximação deste segmento social urbano, e para este passo se utilizará dos dados levantados e publicados a partir do propósito do poder público de conhecer, quem é, quantos, são e como vive a população em situação de Rua na Cidade de São Paulo.

A seguir se apresentará o conjunto de fatores sociais e eclesiásticos que deram propulsão ao início da Comunidade Metodista do Povo e Rua, e a seguir como se tem estabelecido esta relação de parceria entre a Igreja Metodista através da AMAS – Associação Metodista de Assistência Social - e a Prefeitura Municipal de São Paulo, através da Secretaria de Assistência Social.

Com a finalidade de atender ao propósito do Capítulo II foram levantados os dados documentais em três fontes, a saber:

1. Publicações da Prefeitura Municipal de São Paulo;

2. Dados disponibilizados nos sites oficiais da Prefeitura de São Paulo;

3. Documentos cedidos pela Comunidade Metodista do Povo de Rua: relatórios, estatísticas, planilhas de custo e contratos de parceria.

4. Dados fornecidos por coordenadores da Comunidade Metodista do Povo de Rua.

Capitulo II

A Comunidade Metodista do Povo de Rua - Caminhos do Projeto de Ação