2.2 O CÉREBRO E A ORIGEM DA MENTE
2.2.2 Imagens e a mente
No tópico anterior, discorremos sobre a ideia de que a experiência produzida pelo organismo a partir dos mapas neurais criados pelo cérebro produzem imagens as quais funcionam como uma interpretação ou reinterpretação que o organismo faz dos mapas ou dos padrões neurais, e que o substrato desses padrões ou mapas formam imagens dando origem aos processos mentais. Neste tópico, vamos discorrer sobre a ideia de que a mente, com a característica de apresentar processos mentais conscientes e não-conscientes, experiencia os padrões neurais de forma seletiva dando a eles um ‘caráter especial’. Sobre as origens dos processos mentais, Damásio (2000, 2004, 2011) entende especificamente que as imagens, enquanto um aspecto especial da vivência dos mapas cerebrais pelo organismo, dão origem aos sentimentos e, por sua vez, à mente.
Na construção de imagens do corpo, Damásio (2004, p. 206) afirma que o cérebro produz basicamente duas espécies de imagens, oriundas de duas fontes básicas: (i) as chamadas “imagens da carne”, ou seja, aquelas fundadas na representação interior do corpo que representam a estrutura do estado das vísceras9 e do meio interno, e (ii) as
imagens oriundas das chamadas “sondas sensitivas especiais” ou “órgãos sensitivos periféricos”, como a cóclea, o globo ocular e a pele, que atuam como receptores de estímulos neurais que se transformam em imagens as quais, de alguma forma, representam modificações do estado do corpo.
Os órgãos sensitivos periféricos, como é o caso da retina ou da cóclea, são perturbados pela a luz ou pelo som, respectivamente, modificando simultaneamente padrões neurais e, por conseguinte, reinterpretando-os através de imagens em um nível mais complexo dos processos cerebrais – na mente. Da mesma forma, o tato, o paladar e o olfato, canais sensoriais periféricos no organismo, estão constantemente preparados para reinterpretar os padrões neurais através de imagens, proporcionando ao organismo a oportunidade de classificar tais imagens em grupos padronizados de modificações.
O universo de ‘objetos’ que podem ser mapeados pelo cérebro é muito vasto. As alterações ocorridas no organismo, desde as minúsculas, no nível eletroquímico, até as macroscópicas, vistas a olho nu, demostram que o processo de construção de imagens constituídas e reconstruídas produz no organismo um estado dinâmico e constante de atualização das modificações percebidas e ocorridas no corpo. Isso, por conseguinte, nos proporciona a ideia de um organismo vivo e dinâmico, que se altera a cada instante que se relaciona consigo mesmo e com o mundo. Grosso modo, os processos mentais, na perspectiva damasiana, representam o conjunto de imagens vivenciadas a partir dos padrões neurais produzidos por modificações ou acontecimentos que se originam interna ou externamente ao organismo. Sobre isso, Damásio (2004, p. 208) diz que:
Na minha perspectiva, as imagens que constituem a base da “corrente mental” são imagens de acontecimentos corporais, seja de acontecimentos que têm lugar na profundidade do corpo ou numa sonda especializada, próxima à superfície do corpo. O fundamento dessas imagens é uma serie de mapas cerebrais, ou seja, uma coleção de padrões de atividade ou inatividade neural em certas regiões sensitivas.
9 Em geral, vísceras, na perspectiva da literatura neurocientífica, é uma expressão que faz referência a todo órgão interior ao corpo como o coração, estômago, intestino, etc.
Desta forma, as imagens são a base da “corrente mental” e representam acontecimentos corporais motivados por eventos internos ou externos ao organismo. O fundamento delas é “uma série de mapas cerebrais” ou uma “coleção de padrões de atividade neural” que constituem a base da “corrente mental”. Em outras palavras, não há imagens sem padrão neural, da mesma forma que não há processos mentais sem uma atividade cerebral. A suspensão do mapeamento do corpo pelo cérebro acarreta a suspensão dos processos mentais e, por sua vez, a suspensão da consciência, uma vez que “a mente consciente” ou os processos mentais conscientes são o aspecto mais característico da nossa vida mental (Ludwig, 2003, p. 2). Nas palavras do próprio Damásio (2004, p. 203):
A suspensão do mapeamento do corpo acarreta a suspensão da mente. De certo modo, retirar a presença do corpo é como retirar o chão em que a mente caminha. A interrupção radical do fluxo das representações do corpo que suportam os nossos sentimentos acarreta uma interrupção radical dos pensamentos que formamos sobre objetos e situações e, inevitavelmente também, a interrupção radical da continuidade daquilo que percebemos como nossa existência.
A suspensão do mapeamento do corpo acarreta a suspensão da mente, tanto consciente como não-consciente. Em outras palavras, não há mente sem corpo e não há consciência sem mente. Toda consciência está intrinsecamente relacionada a um corpo através da mente. Logo, na ausência ou suspensão do corpo, não há também consciência.
A suspensão do mapeamento do corpo acarretando a suspensão da mente foi observada clinicamente, segundo Damásio, em casos de pessoas que sofriam de epilepsia e que, durante um ataque epilético, ficavam como que em um estado desacordado, supostamente evidenciando a suspensão do mapeamento cerebral juntamente com os processos mentais. Uma conclusão imediata a partir desta citação de Damásio (2011) demonstra que há uma estreita relação entre o cérebro e a mente, o cérebro e a consciência. Uma vez que o cérebro entra em colapso, a mente e a consciência colapsam juntamente com ele, perdendo, assim, suas bases de suporte imediato — o corpo.
Destarte, pelas imagens representarem um “caráter especial” das vivências do organismo em relação aos padrões neurais, tais imagens se diferenciam dos padrões neurais por apresentarem um aspecto sensitivo ou vivencial do organismo. No entanto, Damásio (2011) afirma que é necessário ter cautela ao r propor que todo padrão neural dinâmico seja uma condição necessária e suficiente para a “emergência” de imagens mentais no cérebro. Damásio (2004, 2011) reconhece que as imagens mentais são indiretamente processos físicos e biológicos que se formam e se manifestam através de padrões ou mapas; entretanto, como os mapas ou padrões neurais se transformam em imagens mentais, há ainda, segundo ele, muito o que ser descoberto. Sobre isso, Damásio (2004, p. 209) afirma especificamente que a maior parte dos estudos recentes sobre a consciência tem como finalidade esclarecer como o cérebro sincroniza e edita os padrões neurais de forma a produzir “o-filme-no-cérebro” (Damásio, 2004). No entanto, sobre o modo com que cada um de nós entra nesse filme e nos tornamos atores e coatores de nossa própria vida ainda há muito o que ser descoberto.
Quando Damásio (2004) se refere ao “filme-no-cérebro”, ele não está se referindo a duas realidades distintas e independentes, uma no cérebro e outra fora dele. No entanto, o cérebro apresenta uma forma particular de reproduzir a realidade a partir de suas próprias condições físicas ou de acordo com a realidade de cada organismo. É isso que Eagleman (2012, p. 92) afirma sobre o cérebro reproduzir a realidade: “cada cérebro determina singularmente o que percebe, ou é capaz de perceber”, sugerindo, por conseguinte, que a realidade é muito mais subjetiva do que normalmente se supõe. Eagleman (2012) termina o parágrafo dizendo que, por isso, “em vez de a realidade ser passivamente registrada pelo cérebro, ela é ativamente construída por ele”. Sobre a relação entre o cérebro e a realidade, Damásio (2004, p. 210) afirma que:
Os padrões neurais e as imagens mentais dos objetos e acontecimentos exteriores ao cérebro são criações do cérebro estreitamente relacionadas com a realidade que leva a essa criação. Essas imagens não são, no meu entender, as imagens de um simples espelho onde se reflete a realidade. [...] A imagem que vemos tem como base alterações que ocorreram no nosso organismo, no corpo e no cérebro, consequentes à interação da estrutura física desse objeto particular com a estrutura física do nosso corpo. O conjunto de detectores sensitivos distribuídos por todo o nosso corpo ajuda a construir os padrões neurais que mapeiam a interação multidimensional do organismo com o objeto. Essa interação multidimensional inclui padrões visuais, auditivos, motores e emocionais.
Os padrões neurais são os primeiros fundamentos da construção da realidade no organismo. Eles correspondem à criação da realidade cérebro, que não se dá de forma aleatória, mas de acordo com as “regras do cérebro”, ou seja, cada cérebro cria a realidade a partir de suas diversas regiões sensoriais e motoras (Damásio, 2004, p. 210). Os padrões são construídos por uma “seleção momentânea de neurônios” ou circuitos promovida a partir da interação com o objeto. Em outras palavras, as peças necessárias à construção da realidade existem no próprio cérebro, prontas para serem selecionadas. Se por acaso alguma dessas estruturas não puder ser acessada, o aspecto que ela representa no cérebro não será considerado e, por conseguinte, a realidade terá uma limitação em seus padrões, ou seja, nem tudo o que a realidade oferece será percebido. Em síntese, a reprodução da realidade depende da capacidade cerebral de cada organismo.