Documento VIII – 3.ª Mensagem do Presidente da Câmara
III A PROBLEMÁTICA DOS ARRUMADORES NA OPINIÃO DOS ENTREVISTADOS
11. A rede de parceiros
11.2. Importância do trabalho em rede
De facto, independentemente de alguns aspectos pontuais e menos positivos, as entrevistas aos diversos actores intervenientes apenas vêm confirmar a ideia de que a problemática da exclusão social dos arrumadores só pode ser resolvida com uma actuação em rede, envolvendo várias entidades e organismos, governamentais e não governamentais, públicos e privados, isto é, um agir em comum com vista à resolução de um problema comum mas a partir da própria autarquia. A necessidade de uma estrutura deste tipo é confirmada pelos vários entrevistados quando questionados sobre a possibilidade de uma qualquer instituição poder, por si só, assumir um projecto de combate à exclusão social dos arrumadores. São peremptórios ao afirmarem que uma instituição, por si só, não reúne as condições para desenvolver um projecto com a dimensão do PPF, essencialmente pela própria dimensão do problema que introduz dificuldades, complexidades novas, porque, como nos foi referido, não se trata de um problema retido numa pequena bolsa, mas de um problema com uma dimensão já “muito significativa” e, portanto, o problema da resposta e dos meios envolvidos nessa resposta já adquirem alguma complexidade (Entrevistado C – Parceiro). Outra dificuldade apontada prende-se com a organização de uma rede de parceiros, abrangendo várias áreas de actividade, bem como o contributo da autarquia que seria, certamente, muitíssimo mais reduzido, quando não nulo. Assim, o combate à exclusão social dos arrumadores, no Porto, apenas poderia ser assumido por uma estrutura como a que, actualmente, existe no PPF, afirmando mesmo um dos entrevistados que
«(…) nenhuma instituição só por si resolve um problema desta natureza e isto foi, a meu ver, a razão dos falhanços das tentativas anteriores que houve em relação a este problema. (…) Mas, o problema foi, o falhanço foi de não haver uma preocupação de implicar todas as estruturas viradas, todas pelo menos as que quisessem colaborar, viradas para essa problemática e implicá-las num plano coordenado, integrado e definido de princípio, isso, portanto, nenhuma instituição, em particular, pode fazer uma coisa deste género.”» (Entrevistado B – Responsável PPF)
Para além da questão referida relativamente às limitações que uma qualquer instituição teria em implementar um projecto do tipo do PPF, uma outra questão relevante foi apresentada, trata-se do envolvimento da autarquia que é, sem dúvida, uma mais-valia indispensável, nomeadamente nos apoios financeiros e nos apoios institucionais. Foi ainda salientada a maior facilidade em aceder a determinados serviços, em negociar com as instituições quando se tem uma Fundação que representa e que conta “por trás” com um
executivo camarário, neste caso, da segunda maior cidade do país, o peso é seguramente outro (Entrevistado A – Responsável PPF).
Relativamente às perspectivas futuras, no que concerne as parcerias, todos se mostraram optimistas excepto o Entrevistado E (Parceiro) que afirmou “nada esperar”, que “não tinha amor” ao projecto porque, para ele, estava “morto”, mostrando-se, no entanto, totalmente disponível se efectivamente o integrarem com o verdadeiro espírito de parceria.
Apesar das dificuldades apontadas, um projecto com a abrangência do Porto Feliz não poderia ser pensado de forma eficaz se não existisse esta rede de parceiros que permite uma maior e melhor gestão dos recursos disponíveis na cidade. No entanto, convém lembrar que a implementação das políticas sociais deve ter em consideração o local onde se executam e dependem, entre outros, tanto dos actores que as executam como da população a que se destinam. Desta forma, no combate à exclusão social dos arrumadores é fundamental que as autarquias, sem se substituírem ao Poder Central mas conjugadas e articuladas com este outro nível de Poder, se disponibilizem e disponibilizem energias, meios humanos, meios económicos e financeiros, todos os tipos de apoio, procurando, por um lado, “acordar” outras instituições, e, por outro lado, transformar este combate contra a exclusão social num combate de toda a população (Entrevistado C - Parceiro).
Envolver os parceiros no Projecto trouxe algumas mais-valias não só ao PPF mas também às próprias instituições envolvidas, nomeadamente na especialização e na oferta de formação contínua dos profissionais das instituições (Entrevistado B – Responsável PPF). Todos os entrevistados são unânimes ao reconhecerem que o PPF é, sem dúvida, importante e essencial para a resolução do problema social que os arrumadores representam na cidade do Porto, e que o PPF deve continuar, havendo total interesse dos parceiros em continuar a colaborar no Projecto. No entanto, alguns aspectos menos positivos, como a falta de comunicação com os parceiros, deveriam ser corrigidos, de forma a criar uma nova dinâmica, como nos deu a entender um dos entrevistados bastante desiludido que afirma que o PPF não lhe “diz nada” porque «Não tenho, não tenho amor ao projecto, não tenho, estaria disponível para colaborar mas era preciso relançá-lo, no que nos diz respeito; era preciso retomar o contacto, era preciso, senão está morto para nós e essa participação deixa de ser útil» (Entrevistado E – Parceiro).
Percebemos que a defesa dos interesses das populações não pode ser vista apenas como responsabilidade do poder, seja ele local ou central, mas também como uma
responsabilidade que deve ser assumida pela sociedade como um todo. A própria sociedade é responsabilizada pelo fenómeno pelo que se considera que, sem o contributo de toda a população, também de certa forma parceira, não se conseguirá, em absoluto, resolver a problemática dos arrumadores (Todos os entrevistados).
Assim, consideramos que a abordagem dos problemas sociais passa pela articulação e colaboração entre o Poder Local, as instituições locais, as populações e o Poder Central, com base numa rede de iniciativa local. Sem esta dinâmica activa, a resolução dos chamados problemas sociais pode tornar-se mais difícil e demorada ou mesmo passar, apenas, por encontrar soluções para problemas pontuais e não atender a situação no global. Como referimos, na primeira parte deste trabalho, há necessidade, cada vez mais, de se efectuar, na sociedade portuguesa, uma união de esforços para combater esta e outras questões sociais.
12. Importância atribuída ao Poder Local na definição de políticas de combate à