3.2 Partes Vinculadas
3.2.3 Conceito de Partes Vinculadas
3.2.3.7 Importadores e Encomendantes
Recentemente, o âmbito subjetivo de aplicação do regime de preços de
transferência foi novamente ampliado, especificamente no que tange às importações por
encomenda, pelo art. 14 da Lei nº 11.218, de 20 de fevereiro de 2006, que preceitua o
seguinte: “Aplicam-se ao importador e ao encomendante as regras de preço de
transferência de que trata a Lei n
o9.430, de 27 de dezembro de 1996, nas
importações de que trata o art. 11 desta Lei”.
118
As importações por conta e ordem de terceiros, em que a importadora não age sob risco próprio, estão
atualmente reguladas pelos artigos 77 a 81 da Medida Provisória nº 2.185-35, de 24 de agosto de 2001; art. 27 da
Lei nº 10.637/02; e Instrução Normativa SRF nº 225, de 18 de outubro de 2002.
119
Cf. SCHOUERI, Luís Eduardo. Preços de Transferência..., op. cit., p. 66.
O art. 11, por sua vez, preceitua que a importação por encomenda é a
“importação promovida por pessoa jurídica importadora que adquire mercadorias
no exterior para revenda a encomendante predeterminado”.
Porque a importação “por encomenda predeterminada” constitui
modalidade de operação juridicamente diversa daquela efetuada “por conta e ordem de
terceiros” (item 3.2.3.6, supra), cabem algumas palavras, mesmo se breves, sobre estas
duas modalidades de importação.
Se de um lado a importação por encomenda é realizada com a
imprescindível participação do “encomendante predeterminado”, que celebra em
conjunto os atos jurídicos fundamentais da transação, inclusive arcando com o seu risco
e custo financeiro final, de outro, na modalidade por conta e ordem, o importador não
possui participação efetiva no negócio, atuando como um mandatário que realiza os atos
jurídicos necessários “em nome” do adquirente.
Distingue-se a importação por conta e ordem da importação por
encomenda predeterminada, também, por ensejar um único negócio jurídico (entre o
fornecedor, no exterior, e o adquirente, no Brasil), enquanto a segunda, como explica
LUÍS EDUARDO SCHOUERI, pressupõe duas operações: “uma entre o exportador,
no exterior, e o importador, no País e outra, ajustada previamente, entre o último
e o encomendante”121.
Com isto, quer-se dizer que, enquanto as importações por conta e ordem
de terceiros enquadram-se no conceito de “interposta pessoa”, aquelas realizadas
mediante encomenda predeterminada constituem hipótese autônoma de vinculação, que
abarca tanto o importador como o encomendante.
No que tange ao aspecto subjetivo dos preços de transferência, impõe-se
a indagação acerca do conteúdo e forma de aplicação desta norma, haja vista o art. 14
fazer referência a duas pessoas residentes no Brasil, que estariam submetidas ao regime
dos preços de transferência. Pondo a questão numa forma ligeiramente diferente, cumpre
investigar se estariam o importador e o encomendante predeterminado, simultaneamente,
obrigados a aplicar os testes de controle e realizar as retificações de preços de
transferência.
Da interpretação sistemática dos arts. 11 e 14 da Lei nº 11.281/06,
extrai-se a seguinte norma: “Aplicam-se ao importador e ao encomendante as regras de
preço de transferência de que trata a Lei no 9.430/96, nas importações promovidas por
pessoa jurídica importadora que adquire mercadorias no exterior para revenda a
encomendante predeterminado”.
Sublinhe-se que os enunciados prescritivos preconizam a concreção das
“regras” previstas nos arts. 18 a 24 da Lei nº 9.430/96, o que não autoriza concluir que se
deve, necessariamente, submeter o importador e o encomendante aos “métodos de
controle” de preços de transferência previstos na disciplina brasileira.
Como destacado no transcorrer do presente estudo, a configuração do
pressuposto subjetivo dos preços de transferência é condição sine qua non para a
concretização dos testes de controle e, por conseguinte, para a determinação de eventuais
ajustes. Destarte, faz-se imprescindível a caracterização de nexos de vinculação entre as
partes envolvidas na operação de importação por encomenda, para que se proceda ao
controle dos preços praticados entre as partes. É neste sentido o entendimento de LUÍS
EDUARDO SCHOUERI:
Outrossim, o referido artigo 18 não contempla qualquer
operação, mas apenas aquela efetuada com pessoa vinculada.
Combinando esta regra com a do artigo 14 da Lei nº 11.281/06,
tem-se que o controle de preços de transferência se aplica nos
casos em que o exportador seja pessoa vinculada ao importador ou
ao encomendante; não se aplica se inexistir qualquer vínculo.122
Considerando-se que o art. 11 da Lei nº 11.281/06 faz referência ao
importador e ao encomendante, cogita-se as seguintes hipóteses de vinculação:
i. Vínculo entre o encomendante e o fornecedor, domiciliado no exterior
– neste caso, cabe ao encomendante a aplicação dos métodos de controle previstos no
art. 18 da Lei nº 9.430/96, procedendo às retificações cabíveis, caso o preço praticado
não seja compatível com o padrão arm’s length.
ii. Vínculo entre o importador e o fornecedor, domiciliado no exterior –
cabe ao importador submeter-se aos testes de controle previstos na Lei nº 9.430/96.
iii. Vínculo entre o importador, o encomendante e o fornecedor, sendo
este domiciliado no exterior – os métodos de controle e os ajustes necessários podem ser
aplicados, em princípio, ao importador ou ao encomendante. Em nenhuma hipótese, vale
anotar, deverão ambos fazer as retificações, o que resultaria em dupla incidência sobre o
mesmo fato-signo presuntivo de riqueza. Não merece retoques, portanto, a conclusão de
LUÍS EDUARDO SCHOUERI, no sentido de que “Mais acertado, nesse caso, é, a luz
do artigo 18 da Lei nº 9.430/96, considerar, para efeito da apuração dos preços de
transferência, os valores lançados a custo pela importadora já que, afinal, é ela
quem contabiliza, sem seus custos, os valores constantes do documento de
importação”123.
iv. Vínculo entre o importador e o encomendante, ambos domiciliados
no Brasil – nesta hipótese, tendo em vista a ausência de elemento de estraneidade,
122
SCHOUERI, Luís Eduardo. Preços de Transferência..., op. cit., p. 68.
pressuposto fundamental do regime de preços de transferência, não há que se cogitar na
incidência das normas previstas nos arts. 18 a 24 da Lei nº 9.430/96.
No documento
O ASPECTO SUBJETIVO DOS PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA NO DIREITO BRASILEIRO E NAS CONVENÇÕES INTERNACIONAIS
(páginas 72-76)