5 RETRATANDO PRÁTICAS DE LEITURAS
5.1 Leitura: práticas e representações
5.1.2 Impressos: objetos, circulação e finalidades
As respostas dadas aos questionários anteriormente comentados apontam, com ênfase, a representação social da importância da leitura e a imagem cultural do leitor ideal. Será possível questionarmos essas representações quando associadas às práticas de leitura observadas em uma outra situação de pesquisa? Nas nossas visitas às casas das crianças, será possível conhecer outras referências ligadas à leitura? Como a leitura está presente no cotidiano de nossos depoentes?
Uma aproximação um tanto genérica entre tempos e sociedades tão distantes, nos permite algumas considerações apresentadas por Chartier (1999b) que, ao refletir sobre a leitura no Antigo Regime Francês, traz contribuições para pensarmos sobre a questão da circulação de textos entre nossas crianças.
[...] não mais nas sociedades do Antigo Regime do que na nossa, o acesso ao impresso não pode ser reduzido à exclusiva posse do livro: nem todo livro lido é necessariamente possuído, e nem todo impresso mantido no foro privado é necessariamente um livro. Além disso, o escrito está mesmo instalado no coração da cultura dos analfabetos, presente nos rituais, nos espaços públicos, nos espaços de trabalho. (CHARTIER, 1999b, p.24)
Ginzburg (2006), também nos chama atenção para a questão da circulação dos textos, ao reconstituir a trajetória de Menocchio, destacando de que modo os livros chegaram às mãos desse moleiro do norte da Itália que viveu no século XVI.
[...] O único que sabemos com certeza ter sido comprado é o Fioretto della Bibbia, “o qual”, disse Menocchio, “comprei em Veneza por dois soldos”. Dos outros três – História del Giudicio, Lumario e o suposto Alcorão – não se tem indicação alguma. O Supplementum, de Foresti, foi um presente de Tomaso Mero da Malmins para Menocchio. Os outros todos – e eram seis entre onze, mais da metade – foram emprestados. Numa aldeia tão pequena como Montereale, tais dados são significativos e apontam para uma rede de leitores que superam o obstáculo dos recursos financeiros exíguos, passando os livros de mão em mão. [...] (GINZBURG, 2006, p.68)
Se acreditamos que os objetos e práticas ligados à leitura não são exclusivos de grupos elitizados ou restritos a espaços circunscritos e criados apenas para eles, podemos investigar quais os objetos que circulam no espaço pesquisado.
As discussões apresentadas pelos autores nos permitem ampliar a idéia de que as crianças aqui pesquisadas, consideradas de menor poder aquisitivo, não estão excluídas do mundo da cultura letrada. Notamos que elas têm acesso a uma diversidade de objetos de leitura e a circulação deles ocorre de diferentes formas e com finalidades diversas.
Há uma diversidade de impressos presentes nas casas de nossas crianças e um dos que mais nos chamou a atenção foi o de caráter religioso. Entre os diversificados impressos encontrados na casa de Sonia, os textos religiosos se destacam pela quantidade e o valor atribuído tanto pela avó quanto por Sonia e sua irmã mais velha.
A casa da avó se torna uma “escola”: reúne crianças, tem professora, material de leitura, ensinamentos. Nessa prática, a leitura aparece como treinamento: “cada um lê três vezes” - um mesmo texto - do catecismo. Esse treino ocorre, segundo relato da criança, para que possam ler corretamente no momento da missa.
Aqui em casa tem aula de catecismo. Vem a professora e mais três crianças e tem aula. (avó de Sonia)
Na hora do nosso catecismo ela (professora) faz todo mundo pegar o livrinho, cada uma lê três vezes, em voz alta. [...] (Sonia)
Como vemos, a avó de Sonia revela práticas de leitura de sua neta em casa que se aproximam daquilo que ocorre na escola. Ao citar que uma vez por mês a missa é feita em alguma Igreja Católica de bairro periférico ou em algum santuário localizado na zona rural, afirma que Sonia é uma das crianças leitoras durante a missa:
Uma vez por mês a gente tem, faz a missa lá. Aí então elas vão pra lá. Vai ela, as duas, têm mais três meninas ali, mais o pessoal aí a gente reúne, as mães, os filhos e vai pra capela. Aí o padre vem, celebra missa pra gente. [...] Aí às vezes a Sonia lê lá na frente (avó de Sonia)
Acrescenta que costuma treinar a leitura de Sonia em casa, para que assim ela possa ler corretamente no momento da missa.
Eu leio em voz alta pra ela (referindo-se à avó) ouvir o texto pra quando ela fala ta bom. (Sonia)
Elas lê lá na frente, aí eu falo: Respeita a vírgula, o ponto né? Então não ficava aquela coisa tãtãtãtãta sabe, corrida né? Aí eu falo cê fica atropelando todo mundo. Não, cê tem que ler pra pessoa entender. Aí cê lê bem, tem a vírgula cê respeita, vamos supor, tem parentes, dá uma paradinha é hora de cê dar uma respiradinha porque senão. Aí mais uma vez vamo vê. Ah, tá bom! A última vez agora, cê já fez pode entrar em cena! Que se tá fazendo bem, vai ler também. Leia meu bem...leia lindinha (avó de Sonia)
Outros impressos religiosos circulam no ambiente:
Eu assino Canção Nova, porque eu sou sócia né? Então é uma felicidade quando o correio deixa a revista. Elas briga pra lê: ai eu vou ler primeiro, sou eu que vou ler. Essas duas aí é sempre aquela luta pra ver. (avó de Sonia)
A revista chega como acontecimento e vem pelo Correio, configurando-se, nesse contexto, uma prática de leitura constante, esperada, disputada. Ou melhor, a coleção da Revista Canção Nova é bastante apreciada por toda a família e se torna uma leitura freqüente e agradável para Sonia, sua irmã e sua avó. A revista
possui publicação mensal e está vinculada a um projeto maior também intitulado Canção Nova23
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“A missão da Canção Nova nos meios de comunicação começou com o grande desafio que nos foi lançado pelo Papa Paulo VI em seu pontífice documento Evangelii Nuntiandi de 1975. A Canção Nova é uma Comunidade Católica que tem como objetivo principal "a evangelização através dos meios de comunicação":
No interior de um Projeto de evangelização católica, Canção Nova põe em circulação cds, livros e revistas, além de programas de rádio e acesso à internet com intenção de restaurar a dignidade da família, formar espiritualmente homens novos para o mundo novo. A família, desse modo, tem na prática da leitura a palavra divina lida, ouvida, memorizada, cantada, assistida, acessada num circuito em que diferentes indivíduos são identificados pelas finalidades dessa prática da leitura: ler para conhecer a palavra de Deus, ler para se tornar mais próximo dos Seus ensinamentos.
TV, Rádio, Internet e também por meio dos produtos do departamento de
audiovisual - DAVI, nas produções e comércio de livros, CDs, vídeos, entre outros materiais, os quais são todos destinados à evangelização. O Sistema Canção Nova é mantido pela "Fundação
João Paulo II" – entidade sem fins lucrativos, a qual tem como fonte de recursos financeiros as
doações dos associados ao Clube do Ouvinte, sendo assim caracterizada como uma obra que subsiste pela "Divina Providência". A Canção Nova busca restaurar a dignidade da família - "célula- mãe" da sociedade, priorizando o trabalho de formação espiritual de "homens novos para um mundo novo". Inaugurada em 25 de maio de 1980, a Rádio Canção Nova através das faixas AM, FM, SW1, SW2 tem evangelizado através de uma programação sem propaganda comercial, a qual empenha-se em levar aos ouvintes informações, cultura, educação e formação espiritual através de uma programação dinâmica e variada. Somos uma rádio familiar que deseja levar a proposta de uma nova vida ao mundo. Em 8 de dezembro de 1989, a TV Canção Nova torna-se uma realidade no Brasil, a qual atualmente conta com 5 produtoras instaladas nas cidades de: Cachoeira Paulista-SP, Aracaju-SE, Rio de Janeiro-RJ e Brasília-DF. A TV Canção Nova atinge todo o território nacional com seus sinais através de antenas parabólicas, 127 operadoras de TV a cabo e 396 retransmissoras. O sinal da TVCN consegue ainda atingir o continente americano, a Europa Ocidental, a África do Norte e Oriente Médio através do sistema de satélites e TVs a cabo. Sem perder o propósito original de sua inauguração e existência, ou seja, a evangelização, a TV Canção Nova apresenta uma programação onde o profissionalismo e a criatividade são fundamentais. O progresso dessa obra também é viabilizado pela interatividade entre todos os seus sistemas de comunicação. Pois acompanhando os avanços tecnológicos, a Canção Nova reconhece a importância da Internet como um grande meio de comunicação, o qual possibilita essa interação. Percebendo a utilidade dessa poderosa ferramenta que Deus nos concede para a evangelização, a Canção Nova tem se aplicado no cumprimento desse objetivo com lealdade. O Portal Canção Nova - www.cancaonova.com, que conta atualmente em média 2.000.000 acessos mensais, tem levado através da Internet a "Palavra de Deus" a todas as pessoas do mundo.” Disponível em:
http://www.cancaonova.com/portal/canais/pejonas/textos.php?id=36/ Acesso em: 25 de nov. de
Figura 15- Impressos (Canção Nova) presentes na casa de Sonia Data: 05/10/06
Os textos religiosos são apreciados e valorizados por todas as crianças entrevistadas. Tais textos não só estão dentro das casas, como são os mais encontrados, os colocados em destaque visual pelos entrevistados. Observamos que esses textos são lidos e relidos, pois as marcas de manuseio são percebidas em seu estado de conservação; são lidos e relidos em instituição religiosa, em casa, com os pais, com irmãos, sozinho e de diferentes maneiras (oral, silencioso, comentado, como cobrança, por exemplo, da família).
Pedro também tem uma Bíblia exposta na sala de sua casa, no mesmo móvel onde se encontra a televisão. Ao relatar que o irmão mais novo (nove anos de idade) de Pedro freqüenta a escolinha dominical24
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Fabiana que também freqüenta a escolinha dominical, contou-nos um pouco mais sobre essa escola: “É uma escolinha que tem lá na igreja onde as crianças com menos de dez anos tem uma professora e ela vai ensinando cada passo da Bíblia. Aí ela escolhe uma pessoa pra ler uma parte, a outra lê outra parte. No dia do culto o pastor ele escolhe uma pessoa aí a pessoa lê, ou ele mesmo lê. Eu já fui escolhida. [...] Às vezes eu treino a leitura em casa.”
, a mãe nos diz:
Eles lê, esse livrinho, ele vai à Bíblia e pega a resposta. O Pedro não vai à Igreja, mas ele fica junto na hora que o irmão lê o livrinho aqui na casa. (mãe de Pedro)
Figura 16- Impresso (Bíblia) presente na casa de Pedro Data: 30/10/06
O irmão mais novo familiariza-se com a palavra divina por meio da leitura oral e também pelo fato de o livro estar sempre exposto, aberto diante dele. O lugar de destaque na estante da casa sugere a importância dada pela família ao livro. O livro aberto parece encarar a idéia de que a palavra de Deus sai de dentro das páginas do livro. A imagem acima e o valor atribuído aos livros religiosos pela família de Pedro e as demais famílias pesquisadas remetem-nos há séculos e a relação do homem com tais textos. Darnton (1992, p.219-20) destaca que desde o início da maior parte da história ocidental, sobretudo nos séculos XVI e XVII, a leitura foi encarada, acima de tudo, como um exercício espiritual. “[...] para a maioria das pessoas, a leitura permanecia uma atividade sagrada. Colocava as pessoas diante da Palavra, desvendava os mistérios sagrados. [...]”
Elisa também como Sonia faz parte de grupo de leitores religiosos. Ela tem uma Bíblia que ganhou de sua mãe e um livro de Salmo que ganhou da escola.
Figura 17- Impresso (Novo Testamento - Salmo Provérbios) presente na casa de Elisa Data: 11/10/06
Um livro religioso distribuído pela escola causou-nos estranhamento e quisemos saber como isto ocorreu. Na verdade, o impresso é denominado Novo Testamento - Salmo Provérbios - que foi dado aos alunos da escola há cerca de três anos. A Assistente Educacional Pedagógica da escola pesquisada relatou que dois senhores pediram para distribuir o material para as crianças e que ela acredita que eles estavam cumprindo alguma promessa. A Assistente não tem certeza do motivo pelo qual o livro foi distribuído e nem informações mais específicas sobre a autorização da distribuição desse impresso na escola. Uma das professoras da escola, quando questionada, também não soube relatar quando, como e por que tal distribuição ocorreu, embora se lembre do fato e de presenciar a entrega aos seus alunos.
Observamos assim que a circulação dos objetos impressos pode se fazer de diversas maneiras nem sempre conhecidas e até mesmo imaginadas por nós. Como no exemplo em que o impresso religioso chegou à casa dessas crianças não pela compra, empréstimo, assinatura, campanhas públicas, mas por doação ou por um desejo não explicitado dos indivíduos, o que acaba por viabilizar o acesso dessas crianças a tal material. O relato de uma das crianças também deixa transparecer como essa situação ocorreu de maneira pouco organizada e compromissada, uma vez que esta criança não recebeu o Novo Testamento - Salmo Provérbios - por ter faltado no dia da entrega:
Eu não ganhei livro da escola. Eles deram, só que no dia que eles deram eu faltei, aí a professora não deu. (Eduardo)
Mirian e sua mãe também nos revelam práticas de leitura da Bíblia associadas a situações escolares. A garota costuma ler junto com suas amigas quando brinca de escolinha. Nesse caso percebemos que a Bíblia se torna o material que contribui para aprendizagem da leitura e da escrita e que colabora com a instauração/valorização da leitura, tanto pelos adultos, como pelas crianças. A prática de leitura na escola e na instituição religiosa parece aproximar-se pelo material religioso: um texto-base que serve para interpretação, leitura oral e em voz alta, ensinamentos entre leitores, uma leitura compartilhada.
Cada um lê assim: Mirian, lê o número 03, versículo 02. Na hora da missa eu não leio na frente porque eu sou ruim de leitura. Fico errando toda hora. (Mirian)
Uma prática de leitura que se estende ao catecismo e à escolinha dominical, revelando o praticar a leitura em voz alta para ouvintes da palavra de Deus.
A importância que esse tipo de obra ganha na vida dessa familiar se revela também quando a mãe diz que comprou um livro que ensina a rezar. Trata-se do caderno de músicas religiosas:
Um caderninho cheio de música de Jesus para rezar. (Mirian)
O texto religioso, centro de atenção, é para ser lido, ouvido a sua leitura, cantado, o que nos faz lembrar a idéia de que a leitura é uma prática encarnada de gestos, hábitos e espaços (CHARTIER, 1999b).
Cavallo e Chartier (1998, p.34), ao discorrerem sobre as leituras religiosas dos séculos XVI e XVII no Ocidente, afirmam que [...] todas as igrejas se esforçam para transformar os cristãos em leitores [...]. A leitura torna-se, assim, em sua definição espiritual e piedosa, inteiramente comandada pela relação com Deus. Percebemos que tais práticas podem ser identificadas entre as crianças e suas famílias aqui pesquisadas.
Henrique fez questão de nos mostrar a Bíblia que ganhou da Igreja e nos mostrou também algumas tiras de folha de papel com trechos da Bíblia que ele guarda em sua casa e são dadas pelas pessoas da igreja evangélica durante o culto.
O que leva uma criança a guardar fragmentos da bíblia em pedaços de papel? Cada trecho foi lido em voz alta para ele em cultos diferentes? Qual o valor que atribui a esses textos? Sua mãe e o próprio garoto fizeram questão de nos mostrarem esse material e demonstraram sentir um grande orgulho por tê-lo em casa. Numa explicação sem muitos detalhes, já que apenas nos respondeu brevemente quando o questionamos sobre o motivo que o leva a guardar tais tiras, disse-nos:
Eu guardo porque aí depois dá pra eu ter todas. (Henrique).
Talvez essa prática apresentada por Henrique demonstre a importância e o significado que esse material impresso adquiriu na vida dele em função de uma prática social da família - a de freqüentar os cultos da igreja.
Quando nos mostrou as tiras de papel pedimos para que Henrique as lesse da maneira como costuma fazer. A leitura foi realizada com muita dificuldade, timidez e esforço, mas com persistência até concluir a leitura de um trecho presente em uma das tiras. A própria mãe reconhece que a criança tem dificuldade na leitura.
Ele lê, lê não direito, mas lê. Quando ele traz se ele se empolga ele lê alguma coisinha. (mãe de Henrique)
Esse garoto não tem uma leitura fluente e na escola a professora o classifica como disperso, desinteressado e com grandes dificuldades de aprendizagem. A exigência na avaliação vem orientada, talvez, por uma concepção de leitor ideal, aquele que lê fluentemente, com ritmo, desembaraço e não por uma concepção que pressupõe uma aprendizagem. Henrique vivencia situações de leitura, entre práticas e representações sociais, as quais despertam no garoto o interesse e a valorização pelo ato de ler; interessa-se por ler e por guardar aquilo que lê.
Figura 18 - Impressos (tiras com trechos da Bíblia) presentes na casa de Henrique Data: 26/10/06
Também como nas casas anteriores, na de Elisa há o livro do salmo (denominado pela mãe como Bíblia).
Eu tenho a Bíblia e também a Bíblia que ela (referindo-se à Elisa) ganhou da escola. Nois lemos, cada um lê sozinho. [...] Eu já fui desde criança criada assim, minha mãe era crente e nóis convivemos com isso. [...] Meu marido leva ela (referindo-se à Elisa) pra Igreja. (mãe de Elisa)
Danilo tem uma Bíblia infantil que ganhou de sua mãe:
A gente costuma ler. Ele também pega e fica no quarto lendo à noite historinha. Um monte de história. Ele lê desde os dois anos. (mãe de Danilo)
Figura 19 - Impresso (Bíblia Infantil) presente na casa de Danilo Data: 03/11/06
A mãe de Danilo relata que presenteou o filho com a Bíblia porque considera importante que desde cedo a criança tenha contato com ensinamentos religiosos. Quando a questionamos sobre o fato de afirmar que Danilo lê desde os dois anos, disse-nos que mesmo ainda não sabendo ler e escrever já gostava de apreciar as imagens presentes na Bíblia. A educação da leitura religiosa em algumas famílias começa, portanto, muito cedo, antes mesmo de o leitor dominar o código escrito, trata-se da educação religiosa que se faz pelas imagens, tal qual a educação que se dá de forma visual nas igrejas, desde a Idade Média.
São impressos com encadernação mais luxuosa ou mais descartável em forma de revistas, fascículos com textos diversos da palavra de Deus que circulam com destaque pelas casas dos entrevistados.
Helton mora com seus pais e uma irmã mais nova na zona urbana em um bairro próximo ao da escola. Seu pai é caminhoneiro e sua mãe é dona de casa, ambos concluíram o ensino fundamental. Ao questionarmos sobre a leitura de textos religiosos, relatou a sua experiência e de sua mãe com a leitura da Bíblia:
Eu vou à igreja, mas a Bíblia eu não leio em casa. Minha mãe às vezes lê para mim. [...] Eu sou evangélico. (Helton)
Quando questionamos sobre o fato de não ler em casa, o menino desconversou e não nos respondeu. Será que não lê em casa por não gostar de tal leitura? Será que prefere outras leituras? Ou porque considera a igreja o local ideal para tal prática?
Eduardo nos disse que às vezes lê a Bíblia sozinho e em seu quarto. Mostrou-nos algumas Bíblias que tem em casa e disse:
De vez em quando ele pega a Bíblia pra lê. Ele lê sozinho. Senta no quarto, senta na cama lá pega e lê. (mãe de Eduardo)
Meu pai ganhou esses dias quando o outro vizinho que morava aí deu pra ele e foi embora. [...] Essa outra eu não li porque as letrinha dela é bem pequetitica. (Eduardo)
O livro religioso que chega comprado pela mãe, dado pela escola ou pelo correio, também vem pelas mãos do vizinho. Os caminhos percorridos pelos livros até aos leitores são diversos. Mas será que Eduardo não lê uma das Bíblias que tem em casa em razão das letras serem pequenas? Ou será que ele não lê porque não tem vontade, visto que anteriormente havia afirmado que tem preguiça de ler? De qualquer modo, Eduardo chama atenção para a materialidade do texto quando se é um leitor iniciante ou com pouca vontade de se esforçar na leitura. Certamente se mostra desmotivado pela leitura em razão da letra “pequetitica” que se torna um obstáculo ao gesto de ler.
Na casa de João encontramos vários textos religiosos e sua avó disse que ela e o marido são bastante religiosos. Percebemos práticas de leitura oral, silenciosa, parafraseada/explicada para o ouvinte, práticas que a criança entrevistada vivencia cotidianamente e com freqüência. Uma prática de leitura