Fonte: Aline Motta
E, com a mesma naturalidade que se mata e destrincha uma galinha, Lurdinha, com olhos luminosos, contou-nos sobre sua infância, a riqueza da oralidade na família e também que vivia em volta do pai, um tocador de cavaquinho, que entoava canções e histórias para fechar o dia do árduo trabalho no campo como empregado de uma fazenda.
Talvez toda essa vitalidade e alegria de viver, mesmo com limitações e restrições, Lurdinha tenha aprendido com o pai, à beira do fogão à lenha. Ela conta que ele ria e cantava sempre. Nos momentos quentes, em volta do fogo, transformava o sofrimento em prosas e cantigas.
Ao falar do pai, chama-o carinhosamente de paizinho, de tão doce e dedicado fora ele com os filhos. No ritual do anoitecer, ele os colocava enfileirados, no banco comprido da cozinha e, com água quente na gamela, ia lavando os pezinhos de cada um com um sabugo de milho, numa época em que os banhos não eram diários. Ele mesmo dava o jantar e, depois, angu com leite, no prato fundo, enquanto a mãe estava trabalhando fora, lavando roupa.
Após a janta, chegava a hora da cantoria e dos “causos”.
Seu pai era mestre em narrar histórias. Tem a do Joãozinho e Maria que faço questão de reescrever, pois é uma versão bem camponesa e que se mistura com elementos locais.
Seu Joaquim Francelino, pai da Lurdinha, contava que Joãozinho e Maria foram soltos, no mato, por seus pais, porque tiveram muitos filhos e não tinham condições de criá-los todos. Os dois ficaram andando muito tempo, sozinhos, até que avistaram fumaça numa chaminé. Era a casa de uma velha que estava fazendo quitanda. Quando a velha se distraía, os irmãos colocavam a mão no buraco do forno e catavam biscoitos para comer. Nessa parte, Lurdinha faz uma ressalva, gritando: “Mentira! Essa história é mentira. Como pode colocar a mão no buraco do forno e não queimar?!”
Depois de um tempo, a mulher descobriu os dois meninos, foi lá e fechou os dois num quarto. Lurdinha diz que esse caso ela “alembra”. A velha foi dando comida para os dois engordarem, pois queria comê-los. Todo dia, ela jogava
Até que, um dia, eles perderam o rabinho e tiveram de mostrar os dedinhos que estavam gordinhos. A velha preparou um tacho com água fervendo e mandou que eles dançassem numa tábua cheia de sabão apoiada na panela. A intenção era que eles escorregassem da tábua, direto para o tacho de água fervendo. E ela pedia para eles dançarem.
Aí as crianças espertas disseram: “Ah vovozinha, a gente não sabe dançar.
Dança a senhora primeiro que é para a gente aprender. ”
Na hora em que ela foi dançar, eles jogaram a vovozinha no tacho de água fervendo. Ela morreu e da cabeça dela saíram sete cachorros. Esses sete cachorros, cada um mais bravo que outro. Mas aí foram morrendo, um foi pego pela onça, outro caiu no rio e assim por diante... Lurdinha não se lembra mais. Disse que esse assunto era muito grande. Que o pai sabia todinha essa história. Mas ela se esqueceu! O que pode demonstrar os limites da memória oral que nem sempre e em todas as ocasiões consegue servir de arquivo.
Lurdinha trabalhou a vida toda como cozinheira, quitandeira e forneira. Ela agradece a Deus por não ter ficado corcunda de tanto abaixar e levantar nos
afazeres de forneira. Conta que saía, muitas vezes, com o corpo quente do fogo e ia direto para o frio e nada lhe aconteceu. Diz que Deus é o responsável por tanta saúde em tempos tão difíceis, de tamanhos esforços. Também aprendeu a costurar e a bordar apenas olhando.
Segundo ela, o café, o arroz e o trigo perderam muito a qualidade.
Antigamente o pó de café vinha mais fininho, o que conferia ao café mais sabor. Hoje em dia, o pó grosso não fica bem coado, o sabor não passa. O arroz era plantado apenas com esterco de vaca e hoje, com tantos produtos que usam para crescer, acaba tirando a qualidade e o sabor dos grãos.
A farinha de trigo antes deixava a massa dos bolos com textura rendada e a dos biscoitos também. As quitandas ficavam bem mais macias.
Ela afirma que, tendo saúde e Deus na vida, continua plantando o que pode no seu quintal. Só não consegue mais, por conta das limitações da idade e também por não ter espaço para grandes roças, como no tempo de seu pai que tinha feijão, milho, arroz, mandioca, inhame e muitas outras plantações com que se alimentavam.
Estar com Lurdinha, além de aprender sobre a qualidade dos ingredientes e das receitas, e de ouvir muitos “causos”, é poder compartilhar de uma aura de alegria e otimismo independentes de quaisquer circunstâncias. Dona de uma sabedoria genuína que traz força para os enfrentamentos da vida, ela vai seguindo, certa de que Deus está sempre ao seu lado e que, graças a Ele, tem fortes intuições que lhe indicam os caminhos a seguir. Ela se diz guiada por Deus desde a hora em que se levanta.
Ela nos presenteou com a receita do frango com leite que já foi matéria da revista Sabores de Minas.
Na “História da Alimentação no Brasil”, Câmara Cascudo registra uma receita de galinha com leite, na versão sobremesa. Manifesta a surpresa dos que não a conhecem. Estranhamente para uns, a galinha depois de cozida e desfiada é banhada no leite, açúcar em abundância e esse caldo é engrossado com farinha de arroz. (CASCUDO, 2011, p.313)
Na versão que Lurdinha aprendera com uma antiga patroa, a galinha depois de cozida e salgada é banhada em leite e farinha de pão para engrossar o caldo. (Ver receita no Anexo).