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A incessante busca pelo dinheiro!

2 AGRICULTURA FAMILIAR E SUSTENTABILIDADE, AS NECESSIDADES SOCIO-

2.3 A incessante busca pelo dinheiro!

As bases econômicas da agricultura estiveram e ainda estão assentadas na necessidade de integração aos mercados, como estratégia para gerar excedentes econômicos passíveis de acumulação privada e de reprodução social. Essa necessidade foi traduzida substancialmente na figura da monetarização, sob a predominância do autointeresse, tema denunciado vigorosamente por Polanyi (2000), como uma das fontes deletérias de males das sociedades

modernas. Os economistas não são cientistas que pesquisam e estudam as leis naturais, eles estudam os mecanismos baseados em práticas e comportamentos sociais, estabelecidas a partir do poder político entre os diferentes agentes econômicos (DOWBOR, 2007). Essa perspectiva teórica foi igualmente abrigada no âmbito da sociologia econômica e da sociologia dos mercados, traduzindo ambas como uma construção social da sociedade.

Dessa forma, parece difícil que esse conjunto de influências não tenha o poder de transformar as bases da agricultura, inclusive do comportamento dos agricultores, pressionados pela necessidade de gerar excedentes econômicos. Outro aspecto a lembrar é a sistêmica bancarização da esfera econômica, por meio da contratação contínua de financiamento de crédito rural, sem o qual, a maioria dos agricultores ficaria impedida de promover a viabilização da próxima safra. A oferta pura e simples de crédito não raro, fragiliza ainda mais a situação econômica dos agricultores, expressa pelo endividamento crônico, remendado periodicamente por meio das renegociações das dívidas rurais. Assim, se torna compreensível “[...] que esta forma de agricultura tenha desenvolvido uma necessidade crônica de crédito na impossibilidade de refinanciamento interno das unidades de produção” (NIEDERLE, 2007, p. 99).

A dependência permanente de crédito denuncia a fragilidade estrutural dos agricultores em gerar capacidade de renda extraordinária somente com os mecanismos de mercado. Esses mecanismos não podem ser aplicados integralmente à agricultura, sem o aporte de proteção das políticas públicas. O relato colhido por Toledo (2009), em Salvador das Missões (RS), é sintomático ao anotar que os agricultores familiares buscam, continuamente, formas de ampliar o acesso a recursos financeiros, para atender as necessidades econômicas de capital de giro dos estabelecimentos rurais e cobrir as demandas emergenciais e despesas diversas.

Não estão bem porque vem muito aqui pedir se tem mais um financiamento, se tem mais alguma coisa, então você percebe que estão em dificuldade. Hoje tu vais ao banco e vê que pelo menos 50% dos agricultores lá estão correndo atrás de outro tipo de financiamento, de algum outro recurso pra pagar em parcela, prá pegar logo uns três ou quatro mil, tipo custeio pecuário5. A maioria está assim, eles não estão bem,

eles não precisariam disso se estivessem. A gente percebe porque eles vêm aqui pegar

5 A estratégia dos agricultores familiares em buscar o custeio pecuário é uma estratégia que visa ampliar o acesso

a outros recursos fora das linhas tradicionais de crédito do Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF). Na verdade, eles estão impedidos de contratar recursos nas linhas do PRONAF. Os agricultores que adotam esta tática se fragilizam ainda mais pelo aumento do índice de endividamento. Além disso, o financiamento do custeio pecuário não tem amparo de seguro do PROAGRO, na medida em que não trata de culturas agrícolas. É uma estratégia recorrentemente utilizada pelos agricultores para suprir a necessidade de dinheiro, inclusive, para honrar compromissos de dívidas particulares, doenças na família e despesas emergenciais em épocas de colheitas problemáticas não suprem as necessidades dos estabelecimentos e da família. (TOLEDO, 2009).

mais uma DAP (Declaração de Aptidão ao Pronaf) prá o custeio pecuário. (TOLEDO, 2009, p. 83).

A necessidade contínua de dinheiro vem por meio de uma atividade que ofereça essa possibilidade, está decompondo os modos tradicionais de vida dos agricultores, acossados por novas necessidades. Diga-se de passagem, que parte delas, nem são de ordem produtiva direta do estabelecimento (o acesso aos bens de consumo, por exemplo, a fim de melhorar a qualidade de vida), mas que para a maioria não podem ser suportadas por muitas atividades agropecuárias desenvolvidas. Esse processo se sedimenta, na medida em que os agricultores familiares não são formadores de preço, são tomadores, características inerentes do mercado imperfeito.

Foi Simmel (1999), o sociólogo pioneiro a chamar a atenção sobre a necessidade contínua da geração e acumulação de dinheiro. Essa urgência não está fora das exigências e da realidade dos agricultores, São condições interpretadas e assimiladas como a “unidade básica”, símbolo totalizante e de pertencimento implícito das sociedades modernas. Não admira que a principal preocupação dos agricultores seja alocar recursos em atividades com esse potencial. Na mesma linha, Dodd (1997, p. 7), foi convincente ao afirmar que “[...] os usos do dinheiro, as instituições associadas a seu controle e aquisição e as ideias que as pessoas têm sobre sua natureza e funções são características marcantes da vida contemporânea”. O autor revela ainda, que a luta cotidiana pelo dinheiro possui e encarna o caráter ontológico (do ser) e hermenêutico (de interpretação), e ultrapassam as funções restritas de mero instrumento econômico e facilitador de trocas mercantis, produz, elabora e sedimenta processos culturais.

Moscovici (1990), menciona que o dinheiro é a grande metáfora produzida pelas sociedades modernas. Isso ocorre, na medida em que vincula, intercede e possibilita aos indivíduos, o instrumento basilar capaz de construir a possibilidade, uma nova realidade de relações sociais e de acesso a bens materiais que revelam status social e aceitação:

[...] através de imagens e signos que, a projeção das simples relações nos objetos particulares é uma realização do espírito; quando o espírito se encarna nos objetos, eles se tornam um veículo para o espírito e lhe atribuem uma atividade mais viva e mais ampla. A capacidade de construir tais objetos simplesmente alcança seu maior triunfo no dinheiro. O dinheiro representa a interação mais pura e sua forma mais pura; é uma coisa individual cujo significado essencial é ir além das individualidades. O dinheiro é então a expressão adequada da relação do homem com o mundo, que só podemos apreender em exemplos concretos e particulares, mas que só podemos realmente conceber quando o singular se torna encarnação do processo mútuo vivo que entrelaça todas as singularidades e, sob esta forma cria a realidade. (MOSCOVICI, 1990, p. 287).

necessidades desse veículo de trocas. É um fato, os agricultores familiares estão sendo continuamente submetidos e governados pela competição intercapitalista, visando a melhor posição para a realização das trocas (via mercado) das suas mercadorias, e que lhes permitam gerar possibilidade de obter lucros e, por consequência, se possível, acumular. Além disso, a pequena a “margem de manobra” dos agricultores dá pouco espaço para “aventuras” produtivas exóticas, para além do tradicional e convencional em termos gerais, quando o que está em jogo é o futuro do estabelecimento e da própria manutenção e reprodução da família. E isso é obtido por meio da labuta nas atividades agropecuárias, cuja tendência, nas atuais condições, para os mais fragilizados é a seleção, a exclusão e o abandono em curto e médio prazo.

Navarro e Pedroso (2014, p. 16) ponderam que no caso brasileiro, o processo de desenraizamento e o esvaziamento rural é marcado pelo “[...] gradual abandono das famílias rurais moradoras dos pequenos estabelecimentos. Permanecerão apenas bolsões de pequenos produtores, em alguns ramos produtivos específicos”. Esse fator fica bem evidente quando se reflete sobre a expressão dos clusters 6 de produção da soja nas regiões rurais do país. Toledo

(2009), ao estudar os agricultores familiares no município de Salvador das Missões (RS), ao encontrar a predominância do cultivo da soja, anotou que as circunstâncias de escolha do cultivo da leguminosa coincidem com o encontrado na região do Alto Uruguai.

Os agricultores familiares têm adotado o cultivo da soja, mesmo nas propriedades pequenas como única garantia de comercialização disponível, ficando à mercê da oscilação de preços, comum no mercado de commodities, ao mesmo tempo em que não se sentem seguros em promover mudança da matriz produtiva, dificultada pela tradição do saber-fazer de muitos anos de cultivo, pela estrutura produtiva adequada à cultura e pela indisponibilidade de recursos dos agentes financeiros locais em financiar outras culturas. (TOLEDO, 2009, p. 69).

Ao analisar as perspectivas da agricultura familiar, Gualda (2007) enumerou três arranjos distintos que podem ser adotados para interpretá-la. A primeira de cunho marxista, dominante nos estudos rurais brasileiros, anota que parte expressiva da agricultura familiar irá, no longo prazo, desaparecer diante das dificuldades em se adaptar às exigências produtivas e tecnológicas do desenvolvimento agrícola. A segunda, denominada de neo-populismo- ecológico, aposta nos atributos que destacam a autonomia relativa do agricultor familiar, ao enfatizar o uso dos recursos locais, a diversificação produtiva, além das possibilidades de uso

6 Para Marshall, o fenômeno do Industrial District, a aglomeração territorial de empresas de um mesmo ramo,

similar ou ele a relacionado, se caracteriza pelo uso de mão-de-obra especializada, insumos e a prestação de serviços facilmente disponíveis e, as inovações geradas por uma tornam-se logo conhecidas e aplicadas pelas demais. Esse processo cria uma “atmosfera” propícia ao desenvolvimento do ramo de negócio e de regiões características (MARSHALL, 1975).

sustentável dos recursos por meio dos sistemas de produção tradicionais. A terceira, a agroeconologia, procura fazer uma composição com as duas posições.

A estratégia é olhar a agricultura familiar para muito além da visão reducionista, focada apenas na produção de subsistência, ao defender que a integração ao mercado de produtos e insumos deve ser realizada, atentando e controlando a dependência dos agricultores no processo. É possível, na visão de Gualda (2007), viabilizar uma agricultura familiar fortemente inserida em mercados cada vez mais dinâmicos e competitivos, por meio do uso intensivo de tecnologias modernas. Apesar da visão otimista do autor, necessita interrogar: Para quantos?

Dessa forma, não é de admirar que os agricultores familiares tendam a reagir e agir de forma conservadora, pois há muita coisa em jogo. Contudo, há exceções, Abramovay et. al., (2007), discorrem sobre os agricultores participativos, empreendedores curiosos e esclarecidos que buscam oportunidades e novidades mercadológicas, técnicas que possam acenar com possibilidades de melhorar os processos produtivos e ampliar a renda. Veiga (2012), citando Cochrane (1958) denominou esses agricultores de early bird farmer (madrugadores, que são poucos), em alusão aos que acordam cedo e estão à frente dos demais. A probabilidade de prosperar converge para consequência do conjunto de habilidades aleatórias desenvolvidas, dos conhecimentos e das práticas acumuladas, conjugadas com os recursos alocados e permitem um “cálculo”, ainda que intuitivo, de um mínimo de possibilidade de acerto e sucesso.

Dito de outra forma, é a expressão ontológica imanente do agente/ator dos agricultores, decidindo e trabalhando na busca de melhores resultados. Contudo, mesmo considerando essas perspectivas, sempre haverá margem para resultados e consequências impremeditados das ações (GIDDENS, 2003), que podem ser negativas, na medida em que os agentes/atores não possuem o domínio e o controle completo de todas as informações.