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Independência externa e independência interna

No documento U NI VERS I DAD FED ERALDO PARANÁ (páginas 95-100)

1.12.4 Princípio da imparcialidade e o princípio da independência

1.12.4.1 Independência externa e independência interna

A independência do Poder Judiciário constitui um valor essencial aos modernos regimes liberal-democráticos, razão pela qual está positivada constitucionalmente tanto no ordenamento jurídico brasileiro como no ordenamento jurídico de direito comparado, e tem por finalidade garantir a plena liberdade dos órgãos jurisdicionais no exercício de sua atividade essencial. 2 1 1

Owen Fiss (The Democracy in Latin América: the Role of Judiciary), citado por Salete Maria Polita Maccalóz, estabelece três tipos diferentes de independência judicial:

210 MELO RIBEIRO, M. T., Op. Cit., p. 220, 221 e 222.

211 PICÓ I JUNOY, J., Op. Cit., p. 30.

a) neutralidade de partido, que configura a independência da magistratura em relação aos interesses dos partidos políticos;

b) independência individual, em relação à estrutura burocrática judicial, isto é, em relação aos outros juízes; e

c) isolamento político, que é a independência de outras instituições

2 1 2

governamentais. 2 1 2

Sofrendo o sistema judiciário certa influência do sistema político, o conceito de independência do Poder Judiciário será considerado à luz das estreitas relações que se entrelaçam entre o sistema judiciário e o sistema político propriamente dita. 2 1 3

Havendo essa interligação entre o sistema judiciário e o sistema político, é incorreto falar num sentido absoluto da independência da magistratura, pois, “ Il comportamento dei giudice é talmente influenzato dall’ambiente circostante, anche e soprattutto da quelo político, che si può parlare solo di indipendenza relativa della magistratura” . 2 1 4214

Toda concepção que preconiza a total e absoluta independência do Poder Judiciário não passa de mera tentativa frustrada de concretização de um tipo- ideal. Em que pese poucos sistemas judiciários possam assim ser definido, a rigor, nos denominados regimes democrático-liberais, o que se busca, de certa forma, é uma máxima aproximação desse tipo-ideal. 2 1 5

212 MACCALÓZ, Salete Maria Polita. O poder judiciário, os meios de com unicação e opinião pública.

Rio de Janeiro: Ed. Lúmen Júris, 2002. p. 64.

213 “ (...)Non solo perché le decisioni giudiziarie hanno un impatto più o meno rilevante sul sistema político, o perché il giudice, consciamente o meno, partecipa necessariamente, nel corso della sua attività, all’assegnazione imperativa di valori. Ma soprattutto perché esso soddisfa ad uno dei bisogni essenziali di un sistema político, la risoluzione ‘delle controversie sull’applicazione concreta delle norme riconosciute dalla società” (g u a R N IE R I, Carlo. L’indipendenza della magistratura. In Rivista Trimestrale di Diritto e Procedura Civile. Milano, Marzo 1979, Anno XXXIII - Num 1, (29­

56), p.30).

214 Idem. Ibidem., p. 31.

215 Idem. Ibidem., p. 32.

A independência judicial, de todo modo, apresenta-se como um requisito indispensável à configuração estrutural do “ Poder Judiciário” , sendo um dos seus aspectos mais importante.

E para que haja essa possibilidade de resolver as pretensões apresentadas em juízo, “segundo a consciência livre dos juízes” , deve-se sustentar dentro de um marco democrático a independência externa e também interna do Poder Judiciário216, na medida em que tais requisitos são pressupostos indispensáveis à imparcialidade.

A independência externa seria aquela que protege os órgãos jurisdicionais diante de eventuais intromissões provenientes do exterior do Poder Judiciário, advindas do Poder Legislativo, do Poder Executivo, assim como dos denominados “ poderes fáticos” ou “forças sociais” diluídas na sociedade (por exemplo, os meios de comunicação que são praticamente um “quarto poder” , os partidos políticos e a própria Igreja) . 2 1 7

A independência interna, por outro lado, seria aquela que ampara os membros da carreira judiciária contra as perturbações dos demais órgãos jurisdicionais ou de seus próprios órgãos de administração. 2 1 8

Criar um equilíbrio de poderes no interior da magistratura e do sistema judiciário favorece o surgimento de conflitos, o que, de certa forma, poderá ser prejudicial à própria estrutura do sistema. Mas, também um elevado grau de coordenação entre os vários setores do sistema judiciário acarretará danos à própria imagem de imparcialidade, à medida que, em determinadas circunstâncias, gerará suspeita de que o juiz poderá se deixar conduzir apenas pelos interesses específicos da organização judiciária que às vezes apresenta exigências

216 Há na doutrina outras classificações em relação à manifestação da independência judicial. Há autores que fazem distinção entre dependência judicial “orgânica” e “funcional” , destacando na primeira a independência do Poder Judiciário, como órgão que integra todos os juizes e magistrados, frente aos outros poderes do Estado, e a segunda ,a independência no exercício da função jurisdicional.

217 PICÓ I JUNOY, J., Op. Cit., p. 30.

218 Idem. Ibidem., p. 31.

potencialmente contrapostas àquelas das partes envolvidas na relação jurídica processual. 2 1 9

A criação do Conselho Nacional de Justiça (art. 103-B da Constituição Federal), inserido pela proposta de Emenda à Constituição Federal n.

29, de 2000, e promulgada recentemente (Emenda Constitucional n. 45/2004), não deve representar uma ameaça à independência interna dos membros da magistratura. Sua incumbência, exercida nos limites da Constituição Federal, será de grande valia para a transparência e legitimidade dos órgãos jurisdicionais perante

2 2 0

a sociedade. 2 2 0

A Corte Constitucional Italiana, ao tratar da independência interna da magistratura, teve oportunidade de afirmar:

(...)non sarebbe, cioè, lesiva del principio d’indipendenza del giudice un’organizzazione della magistratura ispirata al critério di un “peso”

differente di varie categorie di magistrati negli organismi di autogoverno della magistratura stessa (L. 195\1958) - sull’istituzione ed il funzionamento del C.S.M. Corte cost., 2 2 dicembre 1963 (168\63)); né sarebbe incostituzionale l’attribuzione di piena discrezionalità ai dirigenti degli uffici, circa l’assegnazione dei singoli processi ai singoli magistrati od alle singole sezioni; cosi come non sarebbe incostituzionale l’attribuzione di piena discrezionalità ai presidenti del singoli collegi, circa il conferimento di specifiche competenze ‘funzionali’ all’interno del collegio.2 2 1

A Corte Constitucional italiana também acrescentou que o princípio da independência é pressuposto do da imparcialidade, no sentido de que a atividade do juiz deve ser imune a vínculos que possam comportar sua sujeição formal ou

O que se pode e se deve referendar, em última análise, é que o juiz possui independência jurídica, pois é a única que o ordenamento jurídico lhe pode garantir, aliás, a independência do juiz, nesse sentido:

(...) é a que importa, a garantia de que o magistrado não estará submetido às pressões de poderes externos à própria magistratura, mas também implica a segurança de que o juiz não sofrerá as pressões dos órgãos colegiados da própria judicatura. 2 2 3

O juiz, numa democracia moderna, não pode ser concebido como simples servidor do executivo ou do legislativo, muito menos pode ser subordinado aos Tribunais Superiores ou ao Supremo Tribunal Federal.

O Poder Judiciário não pode ser concebido como um apêndice da administração, razão pela qual sua estrutura deve ser divorciada de qualquer forma hierarquizada, como ocorre no regime militar. “ Um judiciário verticalmente militarizado é tão aberrante e perigoso quanto um exército horizontalizado 004

É importante consignar a advertência feita por Eugênio R. Zaffaroni de que a lesão à independência costuma ser mais prejudicial quando advém do interior da própria instituição, isto é:

(...)por meio de corpos colegiados que exercem uma ditadura interna e que se divertem aterrorizando seus colegas, abusando de seu poder no cotidiano. Através deste poder vertical satisfazem seus rancores pessoais, cobram dos jovens suas frustrações, reafirmam sua titubeante identidade, desenvolvem sua vocação para as intrigas, desprendem sua egolatria etc., mortificando os que, pelo simples fato de serem juízes de diversa competência, são considerados seus

“inferiores”. Deste modo desenvolve-se uma incrível rede de pequenez e mesquinharias vergonhosas, das que participam os funcionários e auxiliares de jurisdição. A maledicência é convertida em moeda corrente, faz-se presa de todos e substitui as motivações racionais dos atos jurisdicionais: as sentenças não são confirmadas, revogadas, ou anuladas por razões jurídicas, mas por simpatia, antipatia, rancor, ciúmes do colega. Se os operadores de um poder judiciário verticalizado decidissem um dia deixar de praticar a maledicência relativamente a seus colegas, reinaria nos edifícios de seus tribunais maior silêncio do que nos templos. 2 2 5

223 ZAFFARONI, E. R., Op. Cit., p. 88.

224 Idem. Ibidem., Loc. Cit.

225 Idem. Ibidem., p. 89.

A pressão sofrida pelos juízes em decorrência de eventual mácula à sua independência externa, quando diante de uma sociedade democrática, é relativamente neutralizável pela via da liberdade de informação, de expressão e de crítica. A lesão à independência interna, em contra partida, é “ muito mais contínua, sutil, humanamente deteriorante e eticamente degradante” . 2 2 6

No documento U NI VERS I DAD FED ERALDO PARANÁ (páginas 95-100)

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