2. Análise de conteúdo dos acordos
2.2. Composição, objectivos e competências 1. Composição
2.2.2. Objectivos gerais
2.2.3.1. Informação e consulta
No capítulo da informação e consulta diversas questões podem ser levanta-das, nomeadamente questões relacionadas: com a definição por parte dos representantes dos trabalhadores de uma estratégia de informação de forma a apresentar uma posição comum (Stoop, 1995; Costa, 1996); com as fontes de informação30 ; com a criação de redes informais; com a difusão de informa-ção inter e intra CEEs; e a maior ou menor intensidade de contactos entre os membros dos CEEs e as estruturas de representação dos trabalhadores exis-tentes a nível nacional (marginson et al., 1998). Em termos gerais, as questões gravitam em torno de três vectores principais: a quantidade de informação, a qualidade de informação e a oportunidade da informação; todos eles deter-minantes da garantia da qualidade da consulta e fundamentais para avaliar das dinâmicas de que são portadores os CEEs.
Nos acordos analisados, as questões objecto de informação e consulta em sede dos CEEs, respeitando o espírito da Directiva, ressalvam que estas devem incidir exclusivamente sobre questões transnacionais susceptíveis de afectar os interesses dos trabalhadores (art. 6º, nº 3). De maneira geral, o que se verifica é que as questões objecto de informação e consulta tendem a con-centrar-se em torno da situação económica e financeira da multinacional, que aparece em todos os acordos. Questões relativamente passivas, na expressão de J. Waddington (2003: 312), uma vez que incidem sobre resultados e não sobre a definição de estratégias e acções pelas multinacionais. Aliás, como se verá mais adiante, na grande maioria dos casos, a reunião anual dos CEEs coincide com a apresentação anual dos resultados das multinacionais, o que provoca alguma insatisfação entre os representantes portugueses relativa-mente à quantidade e qualidade da informação.
As questões objecto de informação e consulta mais recorrentes nos acordos dizem respeito: à situação económica e financeira da multina cio nal; à estrutura e organização; à análise prospectiva; às principais alterações organi-zacionais e estruturais previstas; às principais tendências ao nível do emprego;
aos projectos, investimentos e estratégias da multina cio nal; aos novos méto- dos de trabalho, de produção e às novas tecnolo gias; às transferências, des-localizações, fusões, cisões, reduções de pessoal, despedimentos colectivos
30 A questão das fontes de informação implica, por um lado, que os representantes dos trabalhadores saibam a quem se devem dirigir para obter as informações que julgam necessárias e, por outro, que saibam exactamente o que esperar relativamente ao conteúdo e natureza destas informações (Béthoux, 2004a: 25).
e encerramentos; e à produção e vendas (produtividade e competitividade). (Figura 5).31
figura 5. Tipologia das questões objecto de informação e consulta
1
Produção e vendas
Acordos abrangentes
Condições de trabalho Formação profissional Segurança, higiene e saúde Ambiente
Igualdade de oportunidades Legislação europeia Representação sindical
Figura 5. Tipologia das questões objecto de informação e consulta
Acordos restritos
Situação económica e financeira Estrutura e organização Análise prospectiva
Alterações organizacionais e estruturais Principais tendências ao nível do emprego Projectos, investimentos e estratégias
Novos métodos de trabalho e produção/ novas tecnologias Transferências, deslocalizações, fusões, aquisições, etc.
31 Existem dois casos – Air France European Group-Level Works Council e Air Liquide – que, na definição destas questões, remetem directamente para a Directiva e outros catorze casos que não definem quaisquer questões a serem tratadas em sede dos CEEs.
A maioria dos acordos enquadra-se no primeiro grupo, com 88 acor- dos ou 57% (gráfico 12), 14 dos quais são acordos que não definem as ques-tões sobre as quais irá incidir a informação e consulta dos trabalhadores.
A ausência de outras questões nas agendas dos CEEs revela, de acordo com J. Waddington (2003: 313), uma incapacidade por parte dos representantes dos trabalhadores para, no processo de negociação dos acordos, irem além dos requisitos da Directiva e poderá ter impactos distintos na forma como se irá desenvolver a prática ou dinâmica dos CEEs. voltaremos mais adiante a esta questão. Convém, porém, desde já, ter em conta que quanto mais restrito for o leque de questões objecto de informação e consulta em sede dos CEEs maior será o desencanto relativamente à participação nessas instituições.
gráfico 12. Acordos restritos e acordos abrangentes
Acordos restritos Acordos abrangentes
67 (43%)
88 (57%)
Fonte: European Works Councils Database, 2006
Olhando mais atentamente para os acordos abrangentes, o que se veri-fica é que esta abrangência se limita, para uma parte significativa dos acordos, a duas questões (29 acordos ou 43%) e a apenas uma questão (17 acordos ou
25%) da lista de questões incluídas na tipologia acima (gráfico 13). As ques-gráfico 13. Acordos abrangentes, por número de questões incluídas
17
29
11 9
1
1 questão 2 questões 3 questões 4 questões 5 questões
Número de acordos
Fonte: European Works Councils Database, 2006
tões mais recorrentes dizem respeito à segurança, higiene e saúde no traba-lho; ao ambiente; e à formação profissional. Questões com as condições de trabalho (salários, principalmente) e a igualdade de oportunidades são ainda uma raridade no leque das questões a serem debatidas em sede dos CEEs.
Na análise da experiência dos representantes dos trabalhadores portugueses, veremos que as questões ligadas à segurança, higiene e saúde no trabalho são aquelas que, de forma mais significativa, expressam alguma capacidade de acção por parte dos CEEs.
A repartição de acordos restritos e abrangentes pelos países da sede das multinacionais é relativamente homogénea (Quadro 18). O mesmo
acon-quadro 18. Acordos restritos e abrangentes, por país da sede das multinacionais Países Acordos restritos Acordos abrangentes
EEE
Alemanha 15 8
Áustria 1 0
Bélgica 1 3
Dinamarca 2 2
Espanha 2 1
Finlândia 2 0
França 18 13
Holanda 3 4
Itália 4 1
Portugal 1 0
Reino Unido 11 8
Suécia 3 1
Fora do EEE
Suíça 7 6
Austrália 0 1
Coreia do Sul 1 0
Estados Unidos 15 17
Japão 1 2
Singapura 1 0
Fonte: European Works Councils Database, 2006
tece relativamente aos sectores de actividade, destacando-se aqui a diferença significativa entre acordos restritos (35 acordos) e abrangentes (18 acordos) no sector metalúrgico (Quadro 19). A formação profissional, a segurança, higiene e saúde no trabalho, e o ambiente são questões transversais a todos os sectores. As condições de trabalho aparecem uni camente no sector meta-lúrgico e nas Actividades comerciais. A igualdade de oportunidades, por sua vez, aparece unicamente no sector financeiro e dos Serviços indiscriminados.
quadro 19. Acordos restritos e acordos abrangentes, por sectores de actividade Sectores de actividade Acordos restritos Acordos abrangentes
Indústria da madeira & Construção 6 3
Químico 18 18
Indústria alimentar; Hotelaria & Agricultura 9 11
metalúrgico 35 18
Actividades comerciais 1 2
Actividades financeiras 6 7
Actividades gráficas 2 0
Outros serviços 3 4
Têxtil 3 3
Transportes 4 1
Em branco 1 0
Fonte: European Works Councils Database, 2006
No que diz respeito ao tipo de acordo, destaca-se o número significa tivo de acordos restritos celebrados com base no artigo 6º e o número reduzido
de acordos abrangentes resultantes de reformulações ou de revisões (Qua-dro 20). Tal indicia que, em termos de negociação de acordos, existe ainda uma grande fidelidade ao espírito da Directiva. A maior ou menor distância ou fidelidade na prática dos CEEs relativamente aos acordos constitui, por sinal, um bom indicador da necessidade de revisão da Di rectiva no sentido de acolher ou de provocar as mudanças (Transfer, 1999).
quadro 20. Acordos restritos e acordos abrangentes, por tipo de acordo
Tipo de acordo Acordos
restritos Acordos abrangentes
Artigo 13º (acordos voluntários) 25 25
Artigo 13º (revisão de acordos existentes) 5 2 Artigo 13º (acordos reformulados ou pós-fusão) 18 16
Artigo 6º (acordos celebrados) 34 20
Artigo 6º (acordos reformulados ou pós-fusão) 5 4
Fonte: European Works Councils Database, 2006