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Informação e consulta

No documento As vozes do trabalho nas multinacionais (páginas 73-78)

2. Análise de conteúdo dos acordos

2.2. Composição, objectivos e competências 1. Composição

2.2.2. Objectivos gerais

2.2.3.1. Informação e consulta

No capítulo da informação e consulta diversas questões podem ser levanta-das,  nomeadamente  questões  relacionadas:  com  a  definição  por  parte  dos  representantes dos trabalhadores de uma estratégia de informação de forma  a apresentar uma posição comum (Stoop, 1995; Costa, 1996); com as fontes  de informação30 ; com a criação de redes informais; com a difusão de informa-ção inter e intra CEEs; e a maior ou menor intensidade de contactos entre os  membros dos CEEs e as estruturas de representação dos trabalhadores exis-tentes a nível nacional (marginson et al., 1998). Em termos gerais, as questões  gravitam em torno de três vectores principais: a quantidade de informação, a  qualidade de informação e a oportunidade da informação; todos eles deter-minantes da garantia da qualidade da consulta e fundamentais para avaliar  das dinâmicas de que são portadores os CEEs.

Nos acordos analisados, as questões objecto de informação e consulta  em sede dos CEEs, respeitando o espírito da Directiva, ressalvam que estas  devem incidir exclusivamente sobre questões transnacionais susceptíveis de  afectar os interesses dos trabalhadores (art. 6º, nº 3). De maneira geral, o que  se verifica é que as questões objecto de informação e consulta tendem a con-centrar-se em torno da situação económica e financeira da multinacional, que  aparece em todos os acordos. Questões relativamente passivas, na expressão  de J. Waddington (2003: 312), uma vez que incidem sobre resultados e não  sobre  a  definição  de  estratégias  e  acções  pelas  multinacionais.  Aliás,  como  se verá mais adiante, na grande maioria dos casos, a reunião anual dos CEEs  coincide com a apresentação anual dos resultados das multinacionais, o que  provoca  alguma  insatisfação  entre  os  representantes  portugueses  relativa-mente à quantidade e qualidade da informação.

As  questões  objecto  de  informação  e  consulta  mais  recorrentes  nos  acordos dizem respeito: à situação económica e financeira da multina cio nal; à  estrutura e organização; à análise prospectiva; às principais alterações organi-zacionais e estruturais previstas; às principais tendências ao nível do emprego; 

aos projectos, investimentos e estratégias da multina cio nal; aos novos méto- dos de trabalho, de produção e às novas tecnolo gias; às transferências, des-localizações,  fusões,  cisões,  reduções  de  pessoal,  despedimentos  colectivos 

30 A questão das fontes de informação implica, por um lado, que os representantes  dos trabalhadores saibam a quem se devem dirigir para obter as informações que julgam  necessárias e, por outro, que saibam exactamente o que esperar relativamente ao conteúdo  e natureza destas informações (Béthoux, 2004a: 25).

e encerramentos; e à produção e vendas (produtividade e competitividade).  (Figura 5).31

figura 5. Tipologia das questões objecto de informação e consulta

1

Produção e vendas

Acordos abrangentes

Condições de trabalho Formação profissional Segurança, higiene e saúde Ambiente

Igualdade de oportunidades Legislação europeia Representação sindical

Figura 5. Tipologia das questões objecto de informação e consulta

Acordos restritos

Situação económica e financeira Estrutura e organização Análise prospectiva

Alterações organizacionais e estruturais Principais tendências ao nível do emprego Projectos, investimentos e estratégias

Novos métodos de trabalho e produção/ novas tecnologias Transferências, deslocalizações, fusões, aquisições, etc.

31 Existem dois casos – Air France European Group-Level Works Council e Air Liquide –  que, na definição destas questões, remetem directamente para a Directiva e outros catorze  casos que não definem quaisquer questões a serem tratadas em sede dos CEEs.

A  maioria  dos  acordos  enquadra-se  no  primeiro  grupo,  com  88  acor- dos ou 57% (gráfico 12), 14 dos quais são acordos que não definem as ques-tões  sobre  as  quais  irá  incidir  a  informação  e  consulta  dos  trabalhadores.  

A ausência de outras questões nas agendas dos CEEs revela, de acordo com  J. Waddington (2003: 313), uma incapacidade por parte dos representantes  dos trabalhadores para, no processo de negociação dos acordos, irem além  dos requisitos da Directiva e poderá ter impactos distintos na forma como se  irá desenvolver a prática ou dinâmica dos CEEs. voltaremos mais adiante a  esta questão. Convém, porém, desde já, ter em conta que quanto mais restrito  for o leque de questões objecto de informação e consulta em sede dos CEEs  maior  será  o  desencanto  relativamente  à  participação  nessas  instituições.

gráfico 12. Acordos restritos e acordos abrangentes

Acordos restritos Acordos abrangentes

67 (43%)

88 (57%)

Fonte: European Works Councils Database, 2006

Olhando mais atentamente para os acordos abrangentes, o que se veri-fica é que esta abrangência se limita, para uma parte significativa dos acordos,  a duas questões (29 acordos ou 43%) e a apenas uma questão (17 acordos ou 

25%) da lista de questões incluídas na tipologia acima (gráfico 13). As ques-gráfico 13. Acordos abrangentes, por número de questões incluídas

17

29

11 9

1

1 questão 2 questões 3 questões 4 questões 5 questões

Número de acordos

Fonte: European Works Councils Database, 2006

tões mais recorrentes dizem respeito à segurança, higiene e saúde no traba-lho; ao ambiente; e à formação profissional. Questões com as condições de  trabalho (salários, principalmente) e a igualdade de oportunidades são ainda  uma raridade no leque das questões a serem debatidas em sede dos CEEs. 

Na análise da experiência dos representantes dos trabalhadores portugueses,  veremos que as questões ligadas à segurança, higiene e saúde no trabalho são  aquelas  que,  de  forma  mais  significativa,  expressam  alguma  capacidade  de  acção por parte dos CEEs.

A repartição de acordos restritos e abrangentes pelos países da sede das  multinacionais  é  relativamente  homogénea  (Quadro  18).  O  mesmo 

acon-quadro 18. Acordos restritos e abrangentes, por país da sede das multinacionais Países Acordos restritos Acordos abrangentes

EEE

Alemanha 15 8

Áustria 1 0

Bélgica 1 3

Dinamarca 2 2

Espanha 2 1

Finlândia 2 0

França 18 13

Holanda 3 4

Itália 4 1

Portugal 1 0

Reino Unido 11 8

Suécia 3 1

Fora do EEE

Suíça 7 6

Austrália 0 1

Coreia do Sul 1 0

Estados Unidos 15 17

Japão 1 2

Singapura 1 0

Fonte: European Works Councils Database, 2006

tece relativamente aos sectores de actividade, destacando-se aqui a diferença  significativa entre acordos restritos (35 acordos) e abrangentes (18 acordos)  no  sector  metalúrgico  (Quadro  19).  A  formação  profissional,  a  segurança,  higiene e saúde no trabalho, e o ambiente são questões transversais a todos  os sectores. As condições de trabalho aparecem uni camente no sector meta-lúrgico e nas Actividades comerciais. A igualdade de oportunidades, por sua  vez, aparece unicamente no sector financeiro e dos Serviços indiscriminados.

quadro 19.  Acordos  restritos  e  acordos  abrangentes,  por  sectores  de  actividade Sectores de actividade Acordos restritos Acordos abrangentes

Indústria da madeira & Construção  6 3

Químico  18 18

Indústria alimentar; Hotelaria & Agricultura  9 11

metalúrgico  35 18

Actividades comerciais  1 2

Actividades financeiras  6 7

Actividades gráficas  2 0

Outros serviços  3 4

Têxtil  3 3

Transportes  4 1

Em branco 1 0

Fonte: European Works Councils Database, 2006

No que diz respeito ao tipo de acordo, destaca-se o número significa tivo  de acordos restritos celebrados com base no artigo 6º e o número reduzido 

de acordos abrangentes resultantes de reformulações ou de revisões (Qua-dro 20). Tal indicia que, em termos de negociação de acordos, existe ainda  uma grande fidelidade ao espírito da Directiva. A maior ou menor distância  ou fidelidade na prática dos CEEs relativamente aos acordos constitui, por  sinal, um bom indicador da necessidade de revisão da Di rectiva no sentido de  acolher ou de provocar as mudanças (Transfer, 1999).

quadro 20. Acordos restritos e acordos abrangentes, por tipo de acordo

Tipo de acordo Acordos 

restritos Acordos  abrangentes

Artigo 13º (acordos voluntários) 25 25

Artigo 13º (revisão de acordos existentes) 5 2 Artigo 13º (acordos reformulados ou pós-fusão)  18 16

Artigo 6º (acordos celebrados) 34 20

Artigo 6º (acordos reformulados ou pós-fusão) 5 4

Fonte: European Works Councils Database, 2006

No documento As vozes do trabalho nas multinacionais (páginas 73-78)