Informação na administração pública federal — um depoimento

No documento Acesso à informação governamental: estudo exploratório do papel do Siafi na publicidade da execução do Orçamento Geral da União (páginas 170-173)

PARTE II — ACESSO À INFORMAÇÃO DE GOVERNO NO BRASIL 1 A informação no Estado Brasileiro

Nível 9 — permite consultar todos os documentos e informações de qualquer UG ou órgão do sistema.

3. A exploração de um campo de luz e sombra 1 Metodologia

3.2. Coleta de informações e análises

3.2.3. Informação na administração pública federal — um depoimento

Das entrevistas agendadas, uma teve de ser tratada à parte, como foi explicado no início deste capítulo. Por indicação das pré-entrevistas para selecionar os entrevistados, foi feita a indicação para incluir um assessor da consultoria legislativa, Gilberto Guerzoni. A inclusão dessa entrevista se deve ao fato de se tratar de um profissional que trabalha com informação do governo federal dentro do Legislativo e reuniu condições, pela experiência profissional, de apresentar um breve panorama sobre a questão do acesso a informação governamental. O perfil desse profissional distancia-se dos demais entrevistados por não trabalhar especificamente com dados orçamentários, mas sim com dados referentes, principalmente, à administração pública. No entanto ele pôde apresentar, em linhas gerais, suas impressões que, em muitos pontos se aproximam das avaliações feitas pelos entrevistados, ao tratarem do aspecto político que orienta a discussão sobre transparência da execução orçamentária e, num plano mais amplo, sobre transparência administrativa. Dessa forma, acrescenta observações importantes, principalmente no que diz respeito à cultura do serviço público brasileiro no campo de distribuição de informação e processo de fiscalização.

Como consultor legislativo do Senado, as fontes de informação mais freqüentes a que recorre Guerzoni são: Diário Oficial, Internet, publicações do governo, contato direto, redes de informação como o Siafi (essa última, com menos freqüência). A função de um consultor legislativo é a elaboração de pronunciamentos e pareceres sobre projetos de lei —

110 Entrevista citada. 111 Entrevista citada.

de autoria do Legislativo ou do Executivo — referentes a quaisquer áreas do setor público, com exceção dos assuntos que dizem respeito à área orçamentária, tratada por assessoria específica; cada Casa mantém uma consultoria de Orçamento e Finanças. Dentro da Consultoria Legislativa, seus técnicos se especializam por área. O entrevistado trata especialmente de assuntos referentes ao funcionalismo público e utiliza informações da Secretaria do Tesouro (relatórios da execução orçamentária disponíveis no Diário Oficial e no sítio do órgão). Também utiliza boletins estatísticos de pessoal da Secretaria de Recursos Humanos, do Ministério do Planejamento, além de boletins do Ministério da Previdência. Quando não obtém as informações necessárias nas publicações oficiais, busca o contato direto nos ministérios. A disponibilização dessas informações depende da política adotada em cada órgão, ainda que, via de regra, as informações sejam tornadas públicas efetivamente, ou seja, há um bom nível de publicidade e de qualidade de informações. O problema observado é o modo como essas informações são oferecidas, dificultando a capacidade de compreensão e interpretação por uma parcela mais ampla de pessoas. As informações exigem não só um nível de especialização, mas também conhecimento sobre o funcionamento e estrutura do serviço público, além de um acompanhamento sistemático para perceber as implicações das mudanças de metodologia empregada na consolidação das informações.

A avaliação feita por Guerzoni foi útil para análise das declarações referentes aos aspectos políticos das zonas de opacidade referenciadas pelos demais entrevistados. Ao apresentar as linhas gerais da sua percepção sobre o tipo de política de informação do governo federal, descreveu problemas semelhantes aos de ordem política identificados nas entrevistas.

“Como regra, somos atendidos pelos órgãos, eles fornecem informação. Na maioria das vezes, eu uso acesso ordinário. Esses dados são públicos efetivamente, eles têm um nível de informação muito grande. O problema é que a grande maioria das pessoas não sabe utilizar esses dados. Não sabe processar, não sabe trabalhar.” (Gilberto Guerzoni)112.

“Acho que tem problemas nos dois lados. De um lado, a forma como os dados são organizados pelo governo é uma forma meio tradicional e acho que não muito gerencial, isso é claro. Isso gera problemas, porque às vezes os dados que a pessoa quer não estão claros na forma como foram organizados. De outro lado, também a

grande maioria das pessoas não está preparada para lidar com esses dados. É uma linguagem técnica, difícil. Às vezes pede cruzamento de informações que não é tão simples.” (Gilberto Guerzoni)113.

O problema do modo de disponibilização dos dados interfere na possibilidade de trabalhar as informações colhidas nos relatórios e publicações dos órgãos oficiais. A disponibilização de dados pontuais requer que o usuário tenha um conhecimento que permita fazer o cruzamento das informações. Entretanto, pode ser a forma que ofereça mais condições de chegar a informações mais completas, uma vez que as versões simplificadas, já agrupadas, dificultam a apuração e conferência dos resultados. Dependendo de como os dados forem agrupados, os resultados podem ser muito diferentes.

“Quando é planilha, você tem a facilidade de mexer em linhas dos dados. Agora, muitas vezes o dado já está ali somado, de forma agrupada. Aí, não tem solução que não seja tentar buscar outra informação. O ideal é que mesmo que publiquem esse relatório em formato padrão que fiquem mais fácil de visualizar, houvesse também a possibilidade de baixar os dados brutos com o máximo de desdobramento possível.” (Gilberto Guerzoni)114.

“O agrupamento de dados pode alterar resultados. Aí você tem um problema de mudança de metodologia. Às vezes agrupam num ano e não agrupam no outro.” (Gilberto Guerzoni)115.

“Um problema que tive recente: o relatório de execução orçamentária do tesouro até 96 ou 97 juntava as despesas de civil e militar num só. Depois começaram a separar. Às vezes não tenho uma série histórica de alguns dados porque houve uma mudança de metodologia”. (Gilberto Guerzoni)116.

Se, de um lado, é possível identificar a falta de rigor na disponibilização de informações, por outro, há indícios de uma situação de pouca movimentação no sentido de cobrar uma mudança nessa postura. Identifica-se uma cultura da fiscalização bastante insipiente, com um nível baixo de contestação de informações. É um fator que pode conduzir a uma situação de transparência restrita a um grupo de pessoas que detêm especialização técnica e conhecimento do funcionamento e estrutura dos órgãos administrativos. A publicização das

113 Entrevista citada. 114 Entrevista citada. 115 Entrevista citada. 116 Entrevista citada.

informações acontece com pouca possibilidade de conferir a realidade divulgada pelos números.

“Acho que se imagina muito que esses dados são fornecidos porque simplesmente a lei exige. [...].O governo está acostumado a fornecer os dados, não haver contestação de consistência desses dados e nem de trabalhar o que tem por trás desse dados.” (Gilberto Guerzoni)117.

“A transparência está localizada e é muito restrita a pessoas que têm condições de ler esses dados. Mesmo assim não é total. [...]. Não há essa preocupação do controle, nem, do parlamento. O parlamento não faz esse tipo de controle. Nem a oposição. Às vezes ela compra a informação.” (Gilberto Guerzoni)118.

“Não há hábitos de existirem informação na administração. Teve um caso muito engraçado quando entrei no Ministério da Administração e quis saber quantas aposentadorias ocorreram nos últimos anos. Ninguém tinha esses dados. Até que descobriram um funcionário encostado num canto, com um monte de folhas. Logo que aplicaram o regime jurídico único, alguém teve a curiosidade de saber quantas aposentadorias estavam acontecendo. Então alguém mandou que ele pegasse o Diário Oficial, todo dia, contasse e escrevesse num papel. Ele tinha, desde 1990, tudo isso anotado. Ele continuava a fazer isso e ninguém nunca pediu isso para ele. Então eu tive acesso a esse dado fundamental que era quantos funcionários estavam aposentando. O dia em que ele aposentasse, esses dados iriam sumir, se ninguém tivesse pedido a informação a ele. O sistema hoje já deve fazer isso. Mas já poderia ter sido feito. Na administração, a prática de sistematizar e publicar as informações é muito recente.” (Gilberto Guerzoni)119.

No documento Acesso à informação governamental: estudo exploratório do papel do Siafi na publicidade da execução do Orçamento Geral da União (páginas 170-173)