CAPÍTULO 3 — MICROCRÉDITO E INFORMALIDADE
3.2. Informalidade e microcrédito: alguma conexão?
Quais seriam, então, as relações existentes entre microcrédito e informalidade, no Brasil? Na análise de Theodoro (2000), delimitam-se três momentos quanto ao entendimento da informalidade: 1. o da abordagem técnica; 2. o da abordagem política; e 3. o da abordagem subsidiária.
A partir da abordagem técnica, nos anos 1970, a informalidade era interpretada como um fenômeno passageiro, visto que o desenvolvimento da Nação eliminaria formas de trabalho a ela ligadas. “Existia assim uma inserção da política governamental direcionada para o informal dentro de uma perspectiva macro. Algo como uma política compensatória de enfrentamento de uma anomalia tida como passageira [...]” (THEODORO, 2000, p. 11). Entendendo- se que o trabalho informal era passageiro e fadado à extinção, havia pouca preocupação com a geração de políticas abrangentes de emprego e renda a ele direcionadas. O governo oferecia algumas políticas compensatórias ao setor informal, dada a expectativa de que este viria a se “formalizar” com o próprio desenvolvimento econômico do País. Theodoro (2000) destaca que, naquele momento, o Centro Nacional de Recursos Humanos do Instituto de Planejamento Econômico e Social — CNRH/IPEA — seguiu as orientações da OIT e do PREALC para o Brasil, trabalhando na proposição de políticas e programas de emprego e renda para o setor informal. Já a SUDENE atuou em programas regionais, destacando-se o Programa de Apoio ao Trabalhador Autônomo de Baixa Renda — PATRA. Apesar de insuficiências na interpretação do setor informal, foi uma tentativa importante de entendimento do fenômeno e de produção de políticas correspondentes.
Na década de 80 do século passado, a visão de um setor informal fadado à extinção saiu de cena, pois, naquele momento, o desemprego e a informalidade cresciam. “[...] O projeto político da primeira gestão civil depois de vinte anos [de ditadura] incorporava explicitamente a necessidade de respostas ao desemprego, ao subemprego e aos baixos níveis de renda.” (THEODORO, 2000, p. 12). O fenômeno da informalidade tendia a ser interpretado, então, de outra maneira: como uma estratégia de sobrevivência, como resposta à falta de empregos. De transitório, começou a ser visto como permanente espaço de absorção e reprodução da força de trabalho. Dessa forma, a representação negativa anterior dá lugar a uma mais positiva, em termos de política de enfrentamento da pobreza. O setor informal começava a ser entendido como solução. Deixava-se de lado o objetivo de formalizar o informal. “Dito de outra forma, os programas direcionados ao informal não serão mais vistos como políticas de emprego — ao menos no senso dado pela abordagem técnica —, mas como ações no âmbito do social, como política
social.” (THEODORO, 2000, p. 13, grifo nosso)
Dada tal mudança de concepção, modifica-se também a forma de intervenção. Isso porque, de acordo com Leite (2008), os profissionais que pensam e produzem políticas sociais trazem consigo (consciente ou inconscientemente) valores, os quais, em algum grau, influenciam as formas de ver, entender e agir sobre os problemas sociais. “[...] Tais valores — dos quais os profissionais podem ou não estar conscientes — orientam escolhas acerca de diversos assuntos [...]” (LEITE, 2008, p. 92, grifo do autor), escolhas que influenciarão o desenho e a implementação de políticas sociais: a definição das prioridades, a forma de intervenção, os critérios de atendimento etc. Assim se explica o surgimento de programas de microcrédito em apoio ao informal, idealizados enquanto política social de redução da pobreza. Visando à construção de uma política social, o apoio ao trabalhador informal, nesse momento, ainda era pouco significativo, estando mais próximo do assistencialismo e, às vezes, da caridade:
De fato, a ação governamental dirigida para o informal continuava a ser residual, espelhando uma lógica maior de reprodução do sistema, na qual o clientelismo vai cada vez mais impor-se como a principal característica da política social do governo. (THEODORO, 2000, p. 14)
Da década de 1990 em diante, predomina a abordagem subsidiária. O ideário neoliberal influencia, então, em larga medida, a interpretação do setor informal, o que acaba por redefinir as propostas de apoio a esse setor. A pobreza, a fome e a miséria ganhavam destaque no debate nacional, e novas formas de ação no âmbito da sociedade civil passaram a fazer-se presentes, tendo em vista uma maior participação de atores e grupos sociais como as ONGs, instituições ligadas a igrejas etc. Assim, “[...] podemos dizer que os principais produtos da abordagem subsidiária são, de um lado, uma participação mais ativa da sociedade civil organizada e, de outro, uma visão mais liberal do que deveria ser o apoio ao informal.” (THEODORO, 2000, p. 16)
Kraychete (2006), como já vimos no primeiro capítulo deste trabalho, mostra que, para os pobres que tivessem superado a linha da indigência, passou-se a recomendar o uso de políticas de crédito e a distribuição de ativos via mercado, a fim de capitalizá-los, para que, assim, tivessem condições de sair da pobreza. A autora mostra que, na década de 1980, os estudos da Escola de Ohio influenciaram diretamente a ideia de incluir os pobres nos serviços financeiros e ofereceram um pensamento “[...] voltado para a constituição de um mercado de microfinanças [...]” (KRAYCHETE, 2006, p. 7), baseado na propalada eficiência do mercado. Segundo essa postura, entendia-se, desde aquela década, em âmbito internacional, que a pobreza poderia ser enfrentada
graças à inserção dos pobres no mercado, mediante incentivos creditícios voltados para a produção e o aumento de renda, consequentemente emancipando o pobre da condição em que se encontra. Para Kraychete (2006),
O crédito, no contexto das políticas de minoração da pobreza, compõe discurso que, partindo da noção de direito, direito que deve garantir aos pobres o acesso a serviços financeiros, se estende à sua importância no estabelecimento de relações mercantis que aceleram o desenvolvimento. (KRAYCHETE, 2006, p. 9)
Neri e outros (2008) realçam a relação entre crédito e “direito social”, entendendo o microcrédito como “[...] fornecimento de crédito a clientes não atendidos pelo setor bancário tradicional [...]”, ou seja, àqueles “[...] excluídos do setor bancário formal [...]” (NERI et al., 2008, p. 29). Para Neri (2008), o microcrédito pode oferecer a “saída” da condição de pobreza, pois permite a
geração de potencial produtivo entre os pobres. Parte-se da noção de que as pessoas pobres precisam de oportunidades, ou seja, ativos geradores de
renda (NERI, 2008).
A partir da década de 1990, no Brasil, temos, então, um aumento no número de instituições e programas vinculados ao microcrédito. A ideia segundo a qual cada indivíduo é um empreendedor em potencial propiciou o surgimento de programas que, mediante a transferência de ativos (por exemplo, via microcrédito) no âmbito do mercado, poderiam — como se afirma — erradicar a pobreza.96
Corroborando a análise de Theodoro (2000), Barone e outros (2002) são taxativos ao analisar o objetivo do microcrédito, entendendo que este
[...] é um crédito especializado para determinado segmento da economia: o pequeno empreendimento informal e a microempresa. Portanto, está voltado para apoiar negócios de
pequeno porte, gerenciados por pessoas de baixa renda, e não se destina a financiar o consumo (BARONE et al., 2002, p. 20, grifo nosso).
Alves e Soares (2004) consideram-no um crédito para pequenos empreendimentos, que tem como principal diferença, frente às operações de crédito tradicionais, a metodologia empregada para a realização do empréstimo, acrescentando: “É comumente entendida como principal
atividade do setor de microfinanças pela importância que tem junto às políticas públicas de superação da miséria pela geração de trabalho e renda.” (ALVES; SOARES, 2004, p. 12, grifo nosso). Além disso, os autores
ainda explicitam que dos
[...] 14 milhões de pequenas unidades produtivas, potenciais demandantes de microcrédito, a grande maioria delas [é] formada
por trabalhadores por conta própria, dos quais deduz-se haver
algo como seis milhões de potenciais clientes exercendo demanda efetiva [...] (ALVES; SOARES, 2004, p.12, grifo nosso)
Neri e outros (2008, p. 30) mostram que por microempreendimentos entendem- se aquelas “[...] atividades econômicas independentes que envolvam um
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Mostramos, no capítulo 1, item 1.1.5, a expansão expressiva de programas de microcrédito no Brasil de 2005 até 2010.
volume reduzido de recursos [...]”, além de ter “[...] natureza tipicamente informal”.