Inibidores, Riscos e Problemas em Aberto para um Mercado de

No documento Publicações do PESC BRECHÓ-VCM: Uma Abordagem Baseada em Valor para Mercados de Componentes (páginas 50-53)

Capítulo 2 – Repositórios e Mercados de Componentes e o Processo de Gerência de

2.4 Mercados de Componentes

2.4.3. Inibidores, Riscos e Problemas em Aberto para um Mercado de

Paralelamente ao exposto na Seção 2.4.1, na tentativa de compreender o cenário atual, a partir de dados de literatura, de previsões, de pesquisas de mercado e de entrevistas, BASS et al. (2000) e HANN & TUROWSKI (2003) sintetizam alguns dos principais inibidores para o amadurecimento do mercado de componentes:

• Fragilidade de disponibilidade de componentes; • Imaturidade dos canais de distribuição;

• Fragilidade de normas e de padrões estáveis para a tecnologia de componentes; • Fragilidade de certificação de componentes; e

• Fragilidade de métodos de engenharia (i.e., para a efetiva ESBC) para produzir, de forma consistente, sistemas com qualidade a partir de componentes.

Ainda, a robustez (i.e., resistência a falhas) foi considerada uma questão fundamental, seguida por manutenibilidade, desempenho, segurança e consistência transacional. Adicionalmente, há dificuldades para encontrar produtores e consumidores de componentes (em escala) e para encontrar (ou operacionalizar) modelos de comercialização mais adequados do que a venda de licença, além dos modelos de negócio disponíveis serem muito sofisticados (e.g., certificação (ÁLVARO et al., 2005)) para um mercado ainda incipiente (SOFTEX, 2007). A longo prazo, o mercado de componentes estará baseado em ganhos crescentes de escala (possível lógica da

comoditização, que leva à redução de custo e preço em mercados competitivos). Isso

conduz a duas trajetórias possíveis e, em princípio, não excludentes (SOFTEX, 2007): • Produção oligopolizada, global e coordenada, resultado da busca por produtividade

e de ganhos de escala (assumindo que a padronização dos componentes será crescente e haverá queda de preços nos primórdios deste modelo de negócios); • Produção atomizada, global e não coordenada, resultado da ação de engenheiros de

software individuais, empresas de pequeno e médio porte ou de comunidades de prática que colocam os componentes em repositórios públicos ou privados.

Ambas as trajetórias são possíveis e se desenvolvem atualmente. No entanto, como o foco está nas etapas de construção do produto software e das soluções, parece mais razoável supor que a segunda trajetória será predominante, como já o é (SOFTEX, 2007). Teoricamente, a produção de componentes se torna mais vantajosa se realizada de forma pré-competitiva, e não como um modelo de negócios per si (o que faz sentido para componentes genéricos, pelo fato do consumidor do componente querer tê-lo disponível em quantidade, preço e qualidade para, então, poder desenvolver as soluções). A alternativa para pequenas e médias empresas permanecerem neste mercado consiste na agregação de valor ao conferir especificidade e internalizar regras de negócio aos componentes que garantam minimamente vantagens competitivas e que estreitem as relações produtor-consumidor (nicho de mercado), o que ignora a

comoditização. Por fim, deve-se avaliar se a ESBC pode não ser a mais adequada, num

dado momento, para todos os domínios de aplicação (e.g., em domínios imaturos ou instáveis, pode não haver componentes para atender os setores relacionados, em quantidade adequada para a reutilização, o que limita a tecnologia de componentes aos componentes mais genéricos).

Diante dos inibidores e dos riscos discutidos, alguns problemas corroboram para atrofiar o desenvolvimento de um mercado de componentes de sucesso (BRERETON, 1999, SZYPERSKI, 2003). Mais detalhes podem ser obtidos em (SOFTEX, 2007): • Formato da descrição de componentes;

• Viabilização e disponibilização de componentes confiáveis;

• Seleção de componentes e gerência de requisitos em sistemas baseados na ESBC; • Previsibilidade da composição;

• Certificação de componentes;

• Estimativas (métricas e modelos de custo e esforço, e.g., ABTS et al. (2000)); • Manutenção e responsabilidade por falhas (parte versus todo);

• Políticas de atualizações (i.e., como gerir versões de um componente); • Riscos de mudança (i.e., substituição de componentes);

• Modelos de negócio (e.g., valor fixo, limitação de uso, cobrança por utilização etc.); • Suporte a longo prazo (e.g., como tratar a obsolescência tecnológica do software); • Padrões dominantes (analogamente ao que a UML representa para o desenho); • Suporte de ferramentas (e.g., de seleção, de avaliação, de testes etc.);

Além da demanda por padronização tecnológica, para diminuir incompatibilidades entre normas, interfaces, plataformas, arquiteturas e modelos de componentes, também se torna necessário analisar as demandas de negócio, ou seja, como os processos de desenvolvimento de software podem englobar, de forma eficiente, a Reutilização de Software com a ESBC. Não obstante os vários benefícios preconizados por um mercado ao redor da ESBC (especialmente em termos de esforço e custo), diversas questões influenciam a sua concretização, inibindo o crescimento e o amadurecimento de um mercado de componentes comerciais. Os custos de manutenção, em particular, não devem ser desprezados, assim como as etapas e atividades diferenciadas no processo de desenvolvimento com a ESBC, o que inclui tanto a seleção e a integração de componentes como o estabelecimento do acordo com os produtores (cujos elementos são igualmente importantes e controversos).

Dessa forma, conforme MESSERSCHMITT (2007), a componentização requer nitidamente uma mudança cultural na forma de se projetar soluções de sistemas na indústria de software, cuja responsabilidade está, em parte, na forma em que princípios de engenharia são tratados e assimilados durante a formação dos recursos humanos da área de Engenharia de Software. Além disso, os métodos, técnicas e ferramentas que apóiam a construção de sistemas grandes e complexos a partir de componentes têm que levar em conta a realidade da indústria, em termos de competitividade, cooperação e dinâmica das forças de mercado.

Por fim, diante de todos os inibidores, riscos e problemas discutidos, pode-se concluir que, por mais imperfeito que seja, um mercado que congrega atrativos técnicos e econômicos, incluindo uma demanda natural existente, tende a se desenvolver. Mas um ponto importante para que um mercado se estruture está no entendimento de como definir o valor de seu ativo subjacente, o qual transcende a compreender aspectos técnicos e quantitativos. Este ponto, inclusive, foi identificado como o maior entrave a um mercado de componentes no início dos anos 2000 (TRAAS & HILLEGERSBERG, 2000). Conseqüentemente, dado que todo mercado precisa analisar dados históricos para entender o seu funcionamento e evolução através da visualização de informação previamente extraída e estatisticamente manipulada, os pesquisadores envolvidos no projeto desta dissertação acreditam que a combinação do tratamento de questões técnicas e não-técnicas na ESBC pode contribuir para avaliar a efetividade (ou não) deste mercado potencial. Assim, a partir do entendimento de como o valor circula em um ambiente de mercado de componentes e do real start up deste mercado competitivo

e global, poder-se-á confirmar quais são os verdadeiros problemas e tratá-los de forma sistêmica por meio de uma visão holística (e.g., por mais que padronização e certificação sejam barreiras, padrões e métodos apenas serão estabelecidos quando um mercado global estiver ativo).

No documento Publicações do PESC BRECHÓ-VCM: Uma Abordagem Baseada em Valor para Mercados de Componentes (páginas 50-53)