2.6 Das propostas e alternativas
2.6.2 Iniciativas bem-sucedidas
Enquanto não ocorrem as alterações legais propostas que, ao menos em tese, aumentariam a sensação de segurança e proteção das mulheres vítimas de violência doméstica e familiar, destacam-se algumas iniciativas governamentais, bem-sucedidas, que objetivam a prevenção e também a repressão da violência contra a mulher
A Patrulha Maria da Penha é um “Serviço da Brigada Militar do Rio Grande do Sul que fiscaliza o cumprimento de medidas protetivas [...] envolve outros órgãos do Executivo e o Judiciário e trouxe resultados positivos para coibir a violência contra as mulheres em Porto Alegre e Canoas.“ (PATRULHA..., 2014)
As Patrulhas contam com policiais militares, homens e mulheres, que foram capacitados especialmente para atuar nesses casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, prestando um atendimento diferenciado e mais humanizado as vítimas. Também, possuem viaturas diferenciadas para prestar os atendimentos, [...] já que a ideia é que ela seja identificada nas visitas realizadas às residências das vítimas, mostrando para a sociedade, principalmente para vizinhos e agressores, o engajamento do Estado na proteção daquela mulher.” (PATRULHA..., 2014)
O objetivo da Patrulha Maria da Penha é a de promover a “Integração, especialização, aproximação entre o Estado e as vítimas e responsabilização do agressor.” (PATRULHA..., 2014)
Outra iniciativa de grande destaque é o que pretende a reeducação de agressores de mulheres. O projeto é baseado na própria determinação da Lei Maria da Penha que inova ao trazer a possibilidade de tratamento tanto para vítima quanto para agressor. O parágrafo único do artigo 45 da Lei Maria da Penha dispõe que “Nos casos de violência doméstica contra a mulher, o juiz poderá determinar o comparecimento obrigatório do agressor a programas de recuperação e reeducação. (NR)”
Em suma, a própria lei reconhece que não basta apenas punir o agressor, reprimí-lo de todas as formas possíveis. É necessário trata-lo, para que este aprenda a lidar com seus sentimentos e frustrações, encontrando formas mais saudáveis de se relacionar, evitando a continuidade dos atos violentos.
Nessa perspectiva é que têm surgido grupos de ajuda especializados no tratamento de agressores, sendo que, em casos onde a pena imposta é inferior a um ano, alguns juízes tem considerado a possibilidade de substituir a aplicação de prestação de serviços a comunidade ou o pagamento de cestas básicas pela participação nesses grupos.
Isso mostra que, com atenção e tratamento especializado, somado ao esforço das partes, governos e sociedade é possível transformar antigos agressores de mulheres, para que esses passem a construir relações mais saudáveis e sem violência e sejam reintegrados ao meio social.
Assim, a pena de prisão, por si só, não é sinônimo de punição exemplar, bem como, não garante que o agressor ou o assassino não venham a cometer um novo crime. Por isso, a pena a ser aplicada deve sempre considerar o caso concreto e as condições do agente da conduta delituosa, bem como, priorizar a reeducação deste e não sua reclusão.
CONCLUSÃO
Na sociedade, os papéis de homens e mulheres sempre estiveram bem definidos: “Ao homem sempre coube o espaço público e a mulher foi confinada nos limites da família e do lar, o que enseja a formação de dois mundos: um de dominação, externo, produtor; outro de submissão, interno e reprodutor.” (DIAS, 2006, p. 17).
Mas, ao longo da história, esses papéis vêm se transformando e até mesmo se invertendo. Deixaram as mulheres de “comandar a casa” para “comandar empresas”, assim como, homens largaram seus empregos para cuidar da casa e dos filhos, tornando-se verdadeiros “donos-de-casa”, função antes atribuída somente às mulheres. Passaram as mulheres a ter o poder de fazer suas próprias escolhas e de tomar suas próprias decisões, sem mais ter que pedir permissão para o que quer que seja. Hoje, elas escolhem seus representantes políticos, sua opção sexual, se querem ou não casar ou ter filhos. Não aceitam mais uma posição de inferioridade, de submissão ao homem.
Porém, tal independência feminina não atingiu todas as mulheres, já que muitas continuam dependentes econômica e emocionalmente de seus cônjuges ou companheiros, motivo pelo qual, em muitos casos, suportam caladas a violência sofrida dentro de casa e decidem não denunciar o agressor.
Com a Constituição de 1988 e com o advento da Lei Maria da Penha, as brasileiras passaram a ter meios legais para enfrentar e lutar contra a violência sofrida no âmbito das relações domésticas e familiares. Mas, infelizmente, o fato de uma lei ter sido criada e ter
entrado em vigor, não necessariamente significa dizer que ela é uma lei efetiva e que atende aos seus objetivos iniciais.
No caso da Lei Maria da Penha, é possível perceber as diferenças no tratamento dos casos de violência contra as mulheres, antes e depois da lei, especialmente com relação ao dado pela justiça à mulher vítima. Passou-se a dar maior celeridade no julgamento, bem como, atenção diferenciada ao caso.
Outro avanço foi a questão das medidas protetivas trazidas pela lei e que transmitem uma sensação de maior segurança para a mulher, obrigando o agressor a não se aproximar, a não manter o contato com a vítima. Também, prevê a possibilidade de decretar a prisão preventiva em caso de descumprimento dessas medidas.
Contudo, apesar de ter representado um avanço no sentido de combater as mais diversas formas de violência contra a mulher no âmbito doméstico e familiar, ainda não é capaz de oferecer plena proteção a essas mulheres vítimas, não sendo efetiva no controle e combate a forma mais grave da violência, que é o homicídio.
Constatou-se que, mesmo após a entrada em vigor da lei, essa não causou relevantes modificações no número de feminicídios, que permaneceu no mesmo patamar de antes da edição da Lei Maria da Penha.
Cabe ressaltar que, o fato dos números da violência não terem diminuído, não necessariamente significa dizer que essa lei é ruim, pelo contrário, a lei é boa e traz diversos instrumentos capazes de frear o avanço da violência doméstica e familiar contra a mulher, o que falta para ela ser plena é a aplicação de seus dispositivos na integralidade, o que ainda não é feito.
São necessárias melhorias, aumento e qualificação do efetivo, viaturas, espaço físico para delegacias e juizados de mulheres, rede de assistência e abrigamento das vítimas até instituições voltadas para o tratamento e reeducação de agressores.
Pois, a aplicação da lei, da maneira que tem sido feita, não garante a interrupção do ciclo da violência do qual muitas mulheres fazem parte e do qual sem a ajuda do ente público,
não conseguirão sair, senão mortas. Somente assim, a Lei Maria da Penha evitará que mais e mais mulheres passem a integrar as estatísticas e tornar-se-á um mecanismo de prevenção das mortes de mulheres em decorrência da violência doméstica e familiar.
REFERÊNCIAS
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