6 A GESTÃO DE REEE NO BRASIL: CENÁRIO ATUAL
6.2 Iniciativas de coleta e reciclagem de REEE
Como mostrado por Lavez, De Souza e Leite (2011), a prática comum na LR consiste em coletar os REEE, transportá-los até um centro de triagem e desmontagem dos componentes, para, em seguida, enviá-los a recicladores específicos de cada material. As placas eletrônicas constituem o componente de maior valor agregado, neste processo elas são trituradas e embaladas, sendo exportadas para países com tecnologia de extração dos metais raros contidos neste componente.
No entanto, como o Brasil é país membro da Convenção da Basiléia, deve seguir os procedimentos nela previstos. Logo quando empresas decidem por exportar partes destes componentes, devem certificar-se de que os REEE não mais apresentam elementos que possam
ser considerados como perigosos, além de ser necessário o consentimento do país importador deste material (IBAMA, 2015).
Sobre a questão da importação de REEE, ao contrário do relatado nos países em desenvolvimento, abordados neste estudo, o cenário encontrado no Brasil reflete um setor formal que busca estruturar um sistema de reciclagem para REEE. Além do país ser um dos signatários da convenção da Basiléia, regulamentou de vez a importação de resíduos perigosos e rejeitos no país, por meio da PNRS (Brasil 2010a).
A Resolução Conama nº 452/2012 complementou esta decisão ao apresentar os procedimentos de controle para a importação de resíduos, seguindo os preceitos adotados pela Convenção da Basiléia (Brasil, 2012). Desta forma, o Brasil tem buscado evitar a prática de importação da sucata eletrônica e, aparentemente, de forma eficiente, pois não foram encontradas, neste trabalho, evidências desta prática no país.
No entanto, como descrito por Gerbase e Oliveira (2012), ainda existem poucas empresas recicladoras, especializadas em tratar o resíduo eletrônico no Brasil. Logo, estas empresas acabam realizando apenas os trabalhos de triagem e segregação das partes para, em seguida, encaminhá-los para os efetivos recicladores que, em alguns casos, ficam em outros países.
Estudos têm sido realizados, visando compreender melhor o atual cenário Brasileiro em relação às questões de LR de REEE. Neste sentido o Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC) e o Instituto de Pesquisa Market Analysis buscaram analisar as percepções e hábitos dos consumidores brasileiros com relação à aquisição, uso e descarte de equipamentos eletrônicos por intermédio de uma pesquisa realizada em diversas cidades brasileiras (IDEC & Market Analysis, 2013).
De acordo com a pesquisa supracitada, os celulares apresentam uma vida útil, média, de três anos, enquanto que computadores e impressoras chegam, em média, a 4 anos. No entanto a troca destes equipamentos nem sempre é motivada por defeito, como observado, a busca por equipamentos mais modernos é a maior razão para a troca destes aparelhos. Logo estes aparelhos que ainda estão em funcionamento, mas foram substituídos, quase nunca são descartados de imediato. Na maioria dos casos, os consumidores passam estes aparelhos a terceiros, por meio de venda ou doação, ou ainda os deixam guardados em casa (IDEC & Market Analysis, 2013).
Diversas iniciativas voltadas para a LR e reciclagem de REEE existem hoje de forma independente, no país. Algumas são gerenciadas pelos próprios fabricantes, outras são promovidas por empresas Gestoras, especializadas neste tipo serviço, além de existir também campanhas esporádicas promovidas por ONGs ou prefeituras.
Como parte desta pesquisa, buscou-se fazer um levantamento do total de campanhas e ações de coleta de REEE existentes no país, como forma de mensurar o alcance destas práticas. O objetivo deste levantamento foi mapear quais regiões são mais ativas neste sentido, além de estimar o impacto que estas ações isoladas podem ter em um eventual sistema formal de LR, gerido pelos fabricantes, importadores e comerciantes, os quais terão uma meta obrigatória de percentual a ser coletado.
Este levantamento foi feito com base nas notícias publicadas em sites de comunicação na internet, as quais foram filtradas utilizando a ferramenta do Google alerta, através do uso de palavras chave como: logística reversa de eletroeletrônicos, coleta de lixo eletrônico, resíduos eletroeletrônicos, lixo eletrônico, e-lixo, descarte de eletrônicos e REEE. Estas informações foram coletadas ao longo dos anos de 2015 e 2016, totalizando 427 notícias sobre iniciativas para coletas de REEE no país.
Parte limitante desta pesquisa foi que apenas 14% das notícias apresentavam dados sobre o total de REEE que foi coletado nestas iniciativas e, raramente, os informes apresentavam um detalhamento quanto ao tipo de REEE que foi coletado. Além disso, outra limitação diz respeito a fonte da coleta de dados, sendo identificado apenas as campanhas que receberam alguma cobertura da mídia e que foram filtradas pela ferramenta Google alerta, por meio das palavras- chave utilizadas. De toda forma, foi possível ter uma boa imagem deste cenário, concluindo que a LR de REEE, de fato é um assunto que está ganhando cada vez mais destaque no Brasil. Pode-se notar um aumento destas iniciativas para coleta de REEE no país, sendo contabilizadas 151 ações em 2015 e 276 em 2016. A maior parte destas coletas (66%) foram realizadas em cidades da região sul do país, seguida pelas cidades da região sudeste (23%), que juntas contabilizaram 89% das campanhas. Já as demais iniciativas foram mapeadas no nordeste (7%), centro-oeste (3%) e norte (1%). Considerando apenas as notícias que relataram o total de REEE coletado (14%), foram recebidas 1294 toneladas de REEE nestes dois anos. Ao total, estas iniciativas ocorreram em 273 municípios diferentes, sendo que 82 destas cidades (30%) possuem população acima de 80 mil habitantes, as quais estariam na lista dos municípios a serem atendidos pela LR, conforme o Edital 01/2013.
Todos estes dados, certamente poderão auxiliar as empresas fabricantes, importadoras e comerciantes de EEE, no momento da estruturação de seus sistemas de LR, uma vez que, tendo metas obrigatórias a atender, tanto de expansão geográfica quanto de volume a ser coletado, deverão levar em consideração as demais iniciativas independentes que já existem no país e poderão concorrer com o sistema oficial a ser lançado, com base no que for definido pelo Acordo Setorial.
Uma inciativa mais estruturada foi identificada no município de São Paulo/SP. Assim como observado na experiência da Malásia, descrita neste estudo, o governo brasileiro também está contando com o apoio da Agência Japonesa de Cooperação Internacional - JICA, para compreender o comportamento do consumidor e propor ações de melhoria na implementação da LR de REEE no país. Este acordo de cooperação foi firmado entre a JICA e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Ministério do Meio Ambiente (MMA), Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e a Prefeitura Municipal de São Paulo (JICA, 2014).
Este projeto terá duração de três anos, sendo estruturado em três etapas: na primeira, foi conduzida uma pesquisa para levantamento de dados e elaboração do diagnóstico da situação atual do município. Na segunda etapa será elaborado um projeto piloto, o qual será implementado na cidade de São Paulo. Este projeto tem como objetivo, fornecer informações sobre o cenário atual da LR de REEE no município e propor ações de melhoria deste sistema, podendo também, auxiliar na definição do sistema nacional para LR de REEE. E a etapa final consistirá na análise dos resultados obtidos e entrega de relatório conclusivo (JICA, 2014).
Este projeto da JICA encontra-se na fase final de sua segunda etapa, a qual lançou um projeto piloto para a LR de REEE na região da Lapa, em São Paulo, denominado Descarte On. A Agência Japonesa lançou um site para divulgar os locais de coleta e apresentar informações ao consumidor, além de destacar os objetivos propostos pelo projeto e os resultados alcançados. Dentre estes destaco a Figura 25 (JICA, 2016).
Figura 25: Resultados do Projeto Descarte On da JICA
Fonte: Agência de Cooperação Internacional do Japão - JICA. (2016). Projeto Descarte On. Recuperado em 17, dezembro, 2016 de http://www.descarteon.jica.eco.br/nossas-acoes.html#top