CAPÍTULO II REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.5 Insalubridade Térmica e Regime de Trabalho
No Brasil, e de acordo com a Norma Regulamentadora No 15 (NR-15), uma atividade ou operação é considerada insalubre se o seu desenvolvimento se processa, dentre outros fatores, “acima dos limites de tolerância previstos nos Anexos nos 1, 2, 3, 5, 11 e 12” (SEGURANÇA E MEDICINA DO TRABALHO, 2000, p. 133, grifo nosso).
É importante considerar também que uma das características mais freqüentes no desenvolvimento de atividades em ambientes e condições insalubres, se nenhuma medida de controle for adotada, reporta-se aos efeitos nocivos provocados no organismo humano que tanto podem se apresentar de forma quase imediata, quanto após a exposição aos agentes insalubres acima dos limites de tolerância, em virtude dos aspectos cumulativos que vários desses agentes possuem.
O próprio calor solar pode se constituir em sério problema ocupacional em atividades executadas a céu aberto, como os trabalhos rurais, a construção civil, etc., podendo tais situações ser agravadas em função da época do ano e da área geográfica onde são desenvolvidas as atividades (COX, 1973, p. 684).
Ainda de acordo com a Norma Regulamentadora No 15, citada anteriormente, entende-se por Limite de Tolerância “a concentração ou intensidade máxima ou mínima, relacionada com a natureza e o tempo de exposição ao agente, que não causará dano à saúde do trabalhador, durante a sua vida laboral” (SEGURANÇA E MEDICINA DO TRABALHO, 2000, p. 133).
O Anexo No 3 da Norma Regulamentadora No 15, NR-15, é o que trata dos limites de tolerância para exposição ao calor. Segundo esse Anexo, a exposição ao calor deve ser avaliada através do Índice de Bulbo Úmido – Termômetro de Globo (IBUTG), índice esse que “representa o efeito combinado da radiação térmica, da temperatura de bulbo seco, da umidade e da velocidade do ar” (COUTINHO, 1998, p. 176 – 177). A avaliação da exposição ao calor tem como objetivo investigar a possível existência de insalubridade térmica no desenvolvimento de uma atividade, permitindo assim que se atue na definição de um Regime de Trabalho - Período de Trabalho e de Descanso adequado, que minimize, controle ou elimine os riscos existentes.
As avaliações de calor efetuadas através do IBUTG estão sujeitas a variações climáticas que dependem das estações do ano. No entanto, para efeito da estipulação de medidas preventivas, devem ser consideradas sempre as piores condições ambientais (COX, 1973, p. 692).
De acordo com a NR-15, as equações que definem o IBUTG são as que seguem.
Para ambientes internos ou externos sem carga solar (sem radiação solar direta):
IBUTG = 0,7 tu + 0,3 tg (1)
Para ambientes externos com carga solar (com radiação solar direta):
IBUTG = 0,7 tu + 0,1 t + 0,2 tg (2)
Onde:
tu = temperatura de bulbo úmido natural tg = temperatura de globo
t = temperatura de bulbo seco
De acordo com o Anexo No 3 da Norma Regulamentadora No 15, NR – 15, os instrumentos que devem ser utilizados nesta avaliação são um termômetro de bulbo úmido natural, um termômetro de globo e um termômetro de mercúrio comum, formando o que convencionalmente se denomina de Árvore de Bender.
De posse do IBUTG, procede-se a classificação da atividade que está sendo avaliada em uma das três categorias previstas naquele Anexo No 3. Essa classificação pode ser realizada ou comparando-se a atividade em questão com aquelas lá descritas, ou então enquadrando-a de acordo com uma estimativa da taxa metabólica a ela relacionada.
Conforme se pode verificar consultando-se o Quadro No 3 do referido Anexo, mais adiante denominado de Quadro 1, uma atividade pode ser considerada como do tipo leve, moderada ou pesada, em função das taxas de metabolismo, em kcal/h, relacionadas ao esforço físico despendido pelo trabalhador na realização das tarefas.
A classificação da atividade também pode ser efetuada, no caso de se encontrar dificuldade para tal, com a utilização do Quadro 1 – Taxa metabólica por tipo de atividade, contido na NHO 06 (2002, p. 15) ou, ainda, dos Apêndices A, B e C que integram a norma citada (2002, p. 35 – 45) onde são apresentadas as tabelas de taxas metabólicas extraídas da Norma ISO 8996/90 e dos Limites de Exposição da ACGIH/1999.
TIPO DE ATIVIDADE Kcal/h
SENTADO EM REPOUSO 100
TRABALHO LEVE
Sentado, movimentos moderados com braços e tronco (ex.: datilografia). 125 Sentado, movimentos moderados com braços e pernas (ex.: dirigir). 150 De pé, trabalho leve, em máquina ou bancada, principalmente com os braços. 150 TRABALHO MODERADO
Sentado, movimentos vigorosos com braços e pernas. 180 De pé, trabalho leve, em máquina ou bancada, com alguma movimentação. 175 De pé, trabalho moderado em máquina ou bancada, com alguma movimentação. 220 Em movimento, trabalho moderado de levantar ou empurrar. 330 TRABALHO PESADO
Trabalho intermitente de levantar, empurrar ou arrastar pesos (ex.: remoção com
pá) 440
Trabalho fatigante 550
Quadro 1 - Taxas de metabolismo por tipo de atividade
Esclareça-se que a apuração do Índice de Bulbo Úmido-Termômetro de Globo, bem como a classificação da atividade, não necessariamente precisam ser efetuadas na ordem em que foram apresentadas nos parágrafos precedentes.
Além das recomendações citadas em parágrafos precedentes, a NHO 06 também admite a utilização de equipamento eletrônico para a determinação do IBUTG, ou outros dispositivos para a medição das temperaturas de globo, de bulbo úmido natural e de bulbo seco, em substituição ao conjunto convencional composto por termômetros de vidro, cuja portabilidade e resistência mecânica o tornam inadequado para avaliações realizadas a céu aberto, principalmente naquelas em que a velocidade do vento pode comprometer a sua estabilidade física (FUNDACENTRO, 2002, p. 22).
Finalmente, com o valor do IBUTG e com a classificação da atividade em leve, moderada ou pesada, entra-se com esses dois parâmetros no Quadro No 1, Anexo No 3 da NR-15, aqui denominado Quadro 2, que relaciona os Regimes de Trabalho Intermitentes com Descanso no Próprio Local de Trabalho (por hora), verificando-se se o Regime de Trabalho em vigor é compatível com os dados levantados, ou se há necessidade de uma modificação de forma a adequá-lo às características da atividade e dos índices apurados.
TIPO DE ATIVIDADE Regime de Trabalho Intermitente
com Descanso no Próprio Local
de Trabalho (por hora) LEVE MODERADA PESADA a) Trabalho contínuo até 30,0ºC até 26,7ºC até 25,0ºC
b) 45 minutos trabalho 15 minutos descanso 30,1 ºC a 30,6 ºC 26,8 ºC a 28,0 ºC 25,1 ºC a 25,9 ºC c) 30 minutos trabalho 30 minutos descanso 30,7 ºC a 31,4 ºC 28,1 ºC a 29,4 ºC 26,0 ºC a 27,9 ºC d) 15 minutos trabalho 45 minutos descanso 31,5 ºC a 32,2 ºC 29,5 ºC a 31,1 ºC 28,0 ºC a 30,0 ºC
e) Não é permitido o trabalho, sem
a adoção de medidas adequadas de controle. acima de 32,2 ºC acima de 31,1 ºC acima de 30,0 ºC
Quadro 2 - Regime de trabalho em função do IBUTG e do tipo de atividade