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Insegurança e covardia

No documento Esquerda Caviar (páginas 88-109)

Poucos são aqueles com a coragem de remar contra a maré, de ousar questionar o rebanho. A covardia

moral que leva ao fenômeno “Maria vai com as outras” pode explicar a atração de muitos artistas e

intelectuais pela esquerda caviar.

Ainda mais no Brasil, onde falar em praça pública que pratica orgias é bem menos ofensivo do que

defender, por exemplo, a privatização da Petrobras! Como disse Nelson Rodrigues, “Por medo das

esquerdas, grã- nas e milionários fazem poses socialistas”. Já era assim em seu tempo, e isso apenas

piorou.

Na era do politicamente correto, esse tipo de covardia é retroalimentada diariamente pela imprensa e

pelas redes sociais. Quase ninguém suporta os olhares inquisidores e a pressão popular, o que acaba

moldando um padrão único e totalitário de comportamento. Na época em que os idiotas se descobriram

em maior número e sentiram a embriaguez desse poder, muitos “líderes”, inseguros, aprenderam a se

adaptar. Como disse Nelson Rodrigues:

Em nossa época, ninguém faz nada, ninguém é nada, sem o apoio dos cretinos de ambos os sexos. Sem esse apoio, o sujeito

não existe, simplesmente não existe. E, para sobreviver, o intelectual, o santo ou o herói precisa ngir-se idiota. O próprio

líder deixou de ser uma seleção. Hoje, os cretinos exigem a liderança de outro cretino.

O Prêmio Nobel de Literatura, o escritor polonês Czeslaw Milosz, mostrou em Mente cativa esse poder

avassalador de doutrinação. Os pensadores nos países socialistas sucumbiram um a um diante da pressão

do pensamento único. Claro que o próprio risco físico de questionar o regime, nesses países, também os

enquadrou. Uma questão de segurança.

Como diz o autor: “Cabe lembrar que nas democracias populares a doutrinação é reforçada por todo

o poder do Estado.” Mas nem sempre é preciso o aparato de coerção: “Pertencer às massas é a grande

força motriz do intelectual ‘alienado’.” É sedutor demais, especialmente para os mais inseguros, encontrar

respaldo na aprovação do grande número. É o argumentum ad populum, que “vence” pelo peso

numérico, não por sua qualidade intrínseca. Pessoas com baixa autoestima necessitam da aprovação de

quase todo mundo, querem agradar a todos.

José Ortega y Gasset, em A rebelião das massas, de ne bem tal fenômeno. O “homem-massa” é

aquele homem médio, o “homem enquanto não diferenciado dos outros homens, mas que representa

um tipo genérico”. Ele é como uma boia à deriva, levado pela correnteza. Tem apetites, normalmente

forjados por terceiros, e pensa ter muitos direitos, mas nenhum dever. O filósofo completa:

Massa é todo aquele que não atribui a si mesmo um valor — bom ou mau — por razões especiais, mas que se sente “como

todo mundo” e, certamente, não se angustia com isso, sente-se bem por ser idêntico aos demais.

No afã dessa busca por aceitação, essas pessoas criam uma casca super cial e, como o Zelig de Woody

Allen, adaptam-se feito camaleões a cada ambiente e modismo. São os escravos do “marketing do

comportamento”, de que Luiz Felipe Pondé nos fala em seu livro Contra um mundo melhor.

Segundo o lósofo, “tudo é farsa na pretensa vida superbem resolvida dessa gente superlegal

envolvida em jantares inteligentes”. Tudo pelas aparências, eis a máxima de vida desse pessoal. Seus

é reciclado em suas

casas, eles não possuem preconceito algum, en m, representam com perfeição o ideal do politicamente

correto. Eis como Pondé resume os tipos:

No fundo leem pouco, assistem à novela (mas escondem isso indo a festivais de cinema que passam lmes chatos) e fazem

contas escondidos todo mês. Julgam-se herdeiros da fúria jovem dos anos de 1960, mas eles são, na realidade, a nova casta

hipócrita do mundo.

Normalmente, a procura por afeto é a grande meta, e não as ações efetivas para mitigar os males que

apontam. São como a personagem Grace de Nicole Kidman em Dogville, de Lars von Trier. Ela perdoa

tudo e todos, está disposta até ao sacrifício do estupro, pois, lha de pai ma oso, sente-se culpada e um

lixo humano. Parte em busca de salvação. Precisa se colocar como a melhor de todas, e estar acima de

tudo, acima até mesmo das agressões chulas do pai.

Claro que ele, em um discurso fantástico na cena nal, explica por que ela é a mais arrogante de todos

ao se colocar nessa posição. Naquele momento de choque com a realidade, Grace acorda e decide se

vingar, eliminar todos naquela vila imunda, deixando somente o cachorro vivo. O cão era o único

Esse tipo de esquerda caviar curte causas nobres no Facebook e pensa que assim se torna uma boa

pessoa. A capa da bondade, da generosidade, serve para ocultar sua própria fraqueza. Basta um clique no

“curtir” que a alma está lavada. Ainda mais fácil e barato do que dar esmola ao mendigo na rua, que ao

menos exige um contato físico.

A covardia moral também se mostra pela inação. O agir produz o risco de erro, de falha, de encontro

com suas próprias imperfeições e limites. Abraçar utopias e “salvar o planeta” do boteco chique é uma

maneira de se preservar, de evitar os riscos e se manter “puro”. Típico dos seres pusilânimes. O discurso

messiânico e politicamente correto pode ser uma forma de fugir da ação e conquistar aplausos fáceis,

como sabia Nelson Rodrigues:

Cuidar do Vietnã, de Cuba, da África, é a melhor maneira de não fazer nada, de não sair do Antonio’s, de não deixar a

praia. Há todo um Brasil por fazer. E o ópio ideológico justifica e absolve a nossa deslavada ociosidade. Vamos dar vivas a

Cuba e ninguém precisa mover uma palha, tirar uma cadeira do lugar. Os covardes clamam também por um “pai” autoritário que assuma a responsabilidade por seus atos. Em

Entre dívidas e culpas: sacrifícios, Marta Gerez-Ambertin usa Freud para avaliar a atração que líderes

tirânicos exercem sobre as massas, e aqui não há necessariamente distinção de classe por renda. O

fascismo, o nazismo e o comunismo atraíram pessoas de classe média ou mesmo alta. A autora diz:

Há um gradiente na relação entre insegurança subjetiva e autoritarismo. Quanto maior a insegurança subjetiva — seja

por razões internas como timidez, temor, inferioridade, culpa etc., ou por razões externas como crises socioeconômicas,

hiperin ação, ameaça bélica, catástrofes — maior é a tentação de se entregar nas mãos de alguém que se apresenta como

salvador ou dirigente, o que incrementa o vínculo com o autoritarismo. Ou seja, por essa ótica psicanalista, “O autoritarismo é uma posição que prevalece em alguns sujeitos que

se colocam em situações de dominação ou submissão em consequência de uma subjetividade frágil”. Essa

fraqueza, como alerta Francisco Razzo em seu artigo “Eu sou o tolerante e você o preconceituoso”,

publicado no site Ad Hominem, serve para criar bodes expiatórios e monopolizar as virtudes:

A estratégia dos fracos é dar um jeito de se valer da sua condição de fracos a m de justi car os seus piores fantasmas. Em

vista disso, o objetivo ideológico principal é mostrar que os fracos são os únicos efetivamente capazes de propor um

mundo melhor; mundo que só não se realiza efetivamente porque os outros não permitem.

aqueles que não

conseguem suportar a solidão e andar com as próprias pernas, ainda por cima contra a correnteza. Eles

não suportam seus próprios sentimentos e preconceitos. Não suportam a responsabilidade de viver e fazer

escolhas individuais. Tudo culpa dos outros!

Ao se identi carem com as “frágeis” minorias, essas pessoas partem em busca de autocomiseração,

querem ser vítimas também. Como resumiu Karl Kraus, com seu incrível poder de síntese: “A força mais

enérgica não chega perto da energia com que alguns defendem suas fraquezas.”

11. Medo

Além da covardia moral, há a covardia física, o medo do inimigo poderoso. Após duas guerras

mundiais, a segunda delas já atômica no nal, muitos foram levados à esquerda caviar pelo pânico de

confrontar abertamente a ameaça comunista. Temendo que a Guerra Fria se tornasse uma Terceira

Guerra Mundial entre potências atômicas, vários intelectuais e artistas preferiram suavizar e relativizar o

que a União Soviética realmente queria.

O grande ícone dessa postura foi Jimmy Carter, possivelmente o presidente mais medíocre que os

Fria foi ingênua na

melhor das hipóteses, e quase criminosa na pior delas. Sua covardia e seu desejo de criar um ambiente de

“conversa pací ca” entre Estados Unidos e União Soviética, como se o lado de lá defendesse os mesmos

ideais e nutrisse os mesmos valores, permitiu que o campo casse livre para o avanço do império

soviético.

Carter queria ser “amigo” dos soviéticos e “trabalhar em conjunto” pela construção da paz. Restava

apenas combinar com o outro lado. Como veremos mais à frente, essa postura “paci sta” é infantil e

perigosa. Mas Carter tinha o apoio irrestrito da esquerda caviar, alguns sem dúvida movidos pelo medo

de uma escalada da violência.

Quando Ronald Reagan foi eleito, derrotando Carter com ampla margem, a imprensa esquerdista,

logo nos primeiros dias de mandato, partiu para o ataque. Reagan representava o oposto da esquerda

caviar. Não era um intelectual, não tinha um discurso relativista. Ao contrário: usava uma linguagem

bastante direta, colocando os pingos nos “is” sem medo de “ofender” os seus inimigos. Quando chamou

a URSS de “império do mal”, a esquerda caviar surtou!

ainda assim aprendeu

valores básicos, como a crença nos direitos individuais, a descon ança da autoridade estabelecida, a

capacidade de manter uma postura positiva mesmo diante de más notícias e uma autoconfiança derivada

da noção de que o conhecimento mais importante está em distinguir o certo do errado. Ele não usou sua

infância difícil como justi cativa para posar de vítima, e sim para aprender lições e superar os obstáculos

na vida.

Um traço importante de sua personalidade, que veio a ser muito útil depois, era não se importar

muito com quem ca com os créditos de uma boa ação, e sim com a ação em si. Reagan fazia analogias

simples, mas que passavam bem sua mensagem. Certa vez comparou o governo a um bebê, com um

canal de alimentação com apetite enorme de um lado, e nenhum senso de responsabilidade do outro.

Mas, se por um lado Reagan parecia simplista, por outro conhecia o comunismo desde os tempos de

ator em Hollywood, e sabia do que os comunistas eram capazes. Ele estava sendo el aos fatos.

Simplesmente reproduzia as alegadas intenções dos próprios soviéticos, o que chocou os jornalistas.

O intuito da União Soviética não era a paz, e sim um governo mundial sob o domínio do marxismo, a

qualquer custo. Até o terror poderia ser usado para esta nalidade. Tal era a meta declarada dos líderes

soviéticos. Mas a esquerda caviar não queria saber disso, não queria escutar a verdade. Em parte, por

medo. A última coisa que desejava era um novo confronto em escala mundial com um inimigo tão

poderoso.

Coragem não é ausência de medo. Quem não tem medo pode ser apenas irresponsável ou maluco. É

bom ter medo das coisas perigosas. Desde que não o paralise. O medo deve ser dominado. Isso é

coragem. E, movidos pelo medo, esses esquerdistas resolveram poupar seus inimigos das merecidas

críticas. Resolveram fechar seus olhos para a realidade.

Desta forma, conseguiram apenas fortalecê-los, incentivar um avanço ainda maior dos comunistas. A

esquerda caviar, covarde, acabou servindo aos interesses dos inimigos da liberdade. Assim como hoje

muitos usam os discursos relativistas sobre a ameaça islâmica pelo mesmo motivo: medo.

Foi esse mesmo sentimento que fez com que os franceses, sob a ocupação nazista, adaptassem suas

vidas rapidamente, com raras e honrosas exceções (como a do general Charles De Gaulle, odiado pela

esquerda caviar). Como diz Alan Riding em Paris: a festa continuou, “a vida cultural da França havia

voltado praticamente ao normal com uma velocidade quase indecorosa”. Não é trivial julgar os franceses dessa época difícil, incluindo inúmeros intelectuais esquerdistas. É

preciso muita coragem para desa ar um regime opressor. Ainda assim, a adaptação talvez tenha sido

acelerada demais. Como diz o autor: “Os visitantes que chegavam da zona não ocupada geralmente se

sentiam chocados com a aparente normalidade que reinava em Paris.” “Durante a ocupação”, comentou Sartre, trinta anos depois, “tínhamos duas escolhas: colaborar ou

resistir”. Ao que parece, a resistência efetiva é sempre para poucos. O próprio Sartre, que depois acabou

visto como um dos heróis da resistência, quase nada fez de concreto para merecer tanto reconhecimento.

Ao contrário, ele mesmo lembrou com carinho as festas que fazia nessa época:

Por causa do toque de recolher, que durava até seis ou sete da manhã, em geral a festa ia até esse horário, para evitar

agrarem alguém entrando em casa às escondidas, no meio da noite. Começamos a fazer essas estas, como as chamavam,

só de farra, sem ligação com reuniões editoriais ilegais ou algo assim. Sob o domínio do medo, muitas pessoas encontram na distração uma fuga. Os cabarés logo voltaram ao

serviço, assim como os cinemas e teatros. Desistir dessa rota de fuga e partir para o confronto exige um

grau de heroísmo bastante raro. A esquerda caviar prefere jogar o jogo do poder, contemporizar com o

inimigo, flexibilizar os princípios. Afinal, o show precisa continuar...

12. Niilismo

O grande escritor russo Fiodor Dostoievski retratou em Os demônios a essência do niilismo como força

motora de alguns revolucionários. Escrito em 1872, o livro foi inspirado em um episódio verídico: o

assassinato de um estudante por um grupo niilista liderado por Nietcháiev, em 1869. Muitos

esquerdistas acabam atraídos por ideologias que, no fundo, representam apenas um profundo desejo de

destruição ou autodestruição.

Nietcháiev era o resultado prático das teorias de Bakunin, um dos mais famosos anarquistas.

Excêntrico, rebelde ao extremo, esse aristocrata desa ava todas as convenções burguesas. Como tantos

outros anarquistas e socialistas, Bakunin era, por nascimento, um senhor rural, que teve educação

re nada. Estudou em Paris e obteve seu grau de doutor em Pádua. Sua mulher também era de

importante família.

Em suma, Bakunin veio da elite, e resolveu combater tudo o que ela representava, o que lhe permitiu

objetivando destruir os laços

de transferência de valores de geração para geração. Em tom de fanatismo religioso, exalta o futuro

promissor:

Haverá uma transformação qualitativa, uma nova maneira de viver, uma revelação que será como dádiva de vida, um

novo paraíso e uma nova Terra, um mundo jovem e poderoso no qual todas as nossas atuais dissonâncias serão

resolvidas, transformando-se num todo harmonioso.

Que glorioso futuro! Um mundo sem con itos, sem dissonâncias, onde cada um forma um todo

perfeito. Mas, para criar tal “paraíso”, naturalmente seria necessário destruir o mundo que temos hoje,

implodir os pilares dessa sociedade carcomida, em estado de putrefação. E foi assim que Bakunin, como

alguns antes e muitos depois, apresentou a receita do sucesso:

Con emos no eterno espírito que destrói e aniquila apenas porque é a inexplorada e eternamente criativa origem de toda

a vida. A ânsia de destruir é também uma ânsia criativa.

Não sei quanto ao leitor, mas, quando leio essas passagens, não posso evitar o pensamento de que seria

muito melhor para o mundo se gente com tamanho descontentamento com a vida e tanta sede por

destruição simplesmente procurasse um bom psicanalista, ou quem sabe pegasse um pedaço de pau e

destruísse o seu quartinho confortável arrumado pela empregada. Mas que deixasse os outros em paz!

eodore Dalrymple, falando sobre Bakunin, reconhece que o ato de destruir é, em si, divertido para

muitos. Quando encontram uma suposta causa que justi ca a destruição, aí é uma festa! Essa

combinação atrai muita gente para a esquerda caviar raivosa, que alimenta um constante desejo de

destruição. Fernando Pessoa foi outro que percebeu o teor destrutivo do comunismo. Ele escreveu:

O comunismo não é um sistema: é um dogmatismo sem sistema — o dogmatismo informe da brutalidade e da dissolução.

Se o que há de lixo moral e mental em todos os cérebros pudesse ser varrido e reunido, e com ele se formar uma gura

gigantesca, tal seria a figura do comunismo, inimigo supremo da liberdade e da humanidade, como o é tudo quanto dorme

nos baixos instintos que se escondem em cada um de nós. O comunismo não é uma doutrina porque é uma antidoutrina,

ou uma contradoutrina. Tudo quanto o homem tem conquistado, até hoje, de espiritualidade moral e mental — isto é de

civilização e de cultura —, tudo isso ele inverte para formar a doutrina que não tem.

Em United in Hate, Jamie Glazov tenta explicar a paixão dos intelectuais de esquerda por tiranos. O

assunto é bastante pessoal para ele, que foi ainda criança levado, pelos pais, da União Soviética para os

Estados Unidos, fugindo de uma tirania. Qual não foi a surpresa da família ao descobrir que muitos

intelectuais americanos defendiam justamente aquele regime totalitário, e ainda tentavam silenciar as

verdades que eles, tendo sofrido na própria pele, revelavam!

Para Glazov, esse crente esquerdista começa sua jornada totalitária com um agudo senso de alienação

em sua própria sociedade — alienação que ele é totalmente cego para enxergar. Em negação com suas

próprias falhas, que o impedem de criar um elo com seu povo, o crente se convence de que há algo

profundamente errado com sua sociedade. Sem conseguir se encaixar direito nela, deseja ardentemente

colocar um fim nessa angústia — e na sua própria sociedade.

Em uma linha parecida foi Eric Hoffer, em seu clássico  e True Believer, escrito em 1951. Para

Hoffer, um dos principais motivos de adesão a tais seitas revolucionárias é a angústia que a autonomia

traz para o indivíduo. Temos uma tendência de culpar forças exógenas pelos nossos fracassos, e as

pessoas frustradas com suas vidas acabam desenvolvendo um fervor por mudanças radicais.

Os movimentos de massa oferecem a sensação de um poder irresistível do grupo monolítico. As angústias

individuais poderão ser diluídas nos atos conjuntos, isentos de responsabilidade. A psicologia das

massas, como sabia Gustave Le Bon, atua para dar vazão ao ódio e ao desejo de destruição de cada

membro do grupo. Ele escreve em seu famoso livro The Crowd: A Study of the Popular Mind:

Uma massa é como um selvagem; não está preparada para admitir que algo possa car entre seu desejo e a realização

deste desejo. Ela forma um único ser e ca sujeita à lei de unidade mental das massas. Como tudo pertence ao campo dos

sentimentos, o mais eminente dos homens di cilmente supera o padrão dos indivíduos mais ordinários. Eles não podem

nunca realizar atos que demandem elevado grau de inteligência. Em massas, é a estupidez, não a inteligência que é

acumulada. O sentimento de responsabilidade que sempre controla os indivíduos desaparece completamente. Todo

sentimento e ato são contagiosos. O homem desce diversos degraus na escada da civilização. Isoladamente, ele pode ser

um indivíduo; na massa, ele é um bárbaro, isto é, uma criatura agindo por instinto.

Os indivíduos, fazendo parte de um grupo com certas características coletivistas, adquirem um

sentimento de invencibilidade que os permite seguir instintos os quais seriam barrados caso estivessem

sozinhos. Um caso típico é o linchamento público, ou a agressividade das torcidas organizadas. Ann

Coulter, em seu livro Demonic: How the Liberal Mob Is Endangering America, usa Le Bon para mostrar

como a esquerda atual é um movimento de massas. Ela descreve o fenômeno: A multidão é um organismo infantil, irracional, muitas vezes violento, que deriva sua energia do grupo. Intoxicado por

objetivos messiânicos, a promessa de grati cação instantânea, e exortações que injetam adrenalina, as multidões criam

desordem, caos e destruição, deixando uma pilha de destroços fumegantes para seus líderes subirem ao poder.

No documento Esquerda Caviar (páginas 88-109)

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