Poucos são aqueles com a coragem de remar contra a maré, de ousar questionar o rebanho. A covardia
moral que leva ao fenômeno “Maria vai com as outras” pode explicar a atração de muitos artistas e
intelectuais pela esquerda caviar.
Ainda mais no Brasil, onde falar em praça pública que pratica orgias é bem menos ofensivo do que
defender, por exemplo, a privatização da Petrobras! Como disse Nelson Rodrigues, “Por medo das
esquerdas, grã- nas e milionários fazem poses socialistas”. Já era assim em seu tempo, e isso apenas
piorou.
Na era do politicamente correto, esse tipo de covardia é retroalimentada diariamente pela imprensa e
pelas redes sociais. Quase ninguém suporta os olhares inquisidores e a pressão popular, o que acaba
moldando um padrão único e totalitário de comportamento. Na época em que os idiotas se descobriram
em maior número e sentiram a embriaguez desse poder, muitos “líderes”, inseguros, aprenderam a se
adaptar. Como disse Nelson Rodrigues:
Em nossa época, ninguém faz nada, ninguém é nada, sem o apoio dos cretinos de ambos os sexos. Sem esse apoio, o sujeito
não existe, simplesmente não existe. E, para sobreviver, o intelectual, o santo ou o herói precisa ngir-se idiota. O próprio
líder deixou de ser uma seleção. Hoje, os cretinos exigem a liderança de outro cretino.
O Prêmio Nobel de Literatura, o escritor polonês Czeslaw Milosz, mostrou em Mente cativa esse poder
avassalador de doutrinação. Os pensadores nos países socialistas sucumbiram um a um diante da pressão
do pensamento único. Claro que o próprio risco físico de questionar o regime, nesses países, também os
enquadrou. Uma questão de segurança.
Como diz o autor: “Cabe lembrar que nas democracias populares a doutrinação é reforçada por todo
o poder do Estado.” Mas nem sempre é preciso o aparato de coerção: “Pertencer às massas é a grande
força motriz do intelectual ‘alienado’.” É sedutor demais, especialmente para os mais inseguros, encontrar
respaldo na aprovação do grande número. É o argumentum ad populum, que “vence” pelo peso
numérico, não por sua qualidade intrínseca. Pessoas com baixa autoestima necessitam da aprovação de
quase todo mundo, querem agradar a todos.
José Ortega y Gasset, em A rebelião das massas, de ne bem tal fenômeno. O “homem-massa” é
aquele homem médio, o “homem enquanto não diferenciado dos outros homens, mas que representa
um tipo genérico”. Ele é como uma boia à deriva, levado pela correnteza. Tem apetites, normalmente
forjados por terceiros, e pensa ter muitos direitos, mas nenhum dever. O filósofo completa:
Massa é todo aquele que não atribui a si mesmo um valor — bom ou mau — por razões especiais, mas que se sente “como
todo mundo” e, certamente, não se angustia com isso, sente-se bem por ser idêntico aos demais.
No afã dessa busca por aceitação, essas pessoas criam uma casca super cial e, como o Zelig de Woody
Allen, adaptam-se feito camaleões a cada ambiente e modismo. São os escravos do “marketing do
comportamento”, de que Luiz Felipe Pondé nos fala em seu livro Contra um mundo melhor.
Segundo o lósofo, “tudo é farsa na pretensa vida superbem resolvida dessa gente superlegal
envolvida em jantares inteligentes”. Tudo pelas aparências, eis a máxima de vida desse pessoal. Seus
é reciclado em suas
casas, eles não possuem preconceito algum, en m, representam com perfeição o ideal do politicamente
correto. Eis como Pondé resume os tipos:
No fundo leem pouco, assistem à novela (mas escondem isso indo a festivais de cinema que passam lmes chatos) e fazem
contas escondidos todo mês. Julgam-se herdeiros da fúria jovem dos anos de 1960, mas eles são, na realidade, a nova casta
hipócrita do mundo.
Normalmente, a procura por afeto é a grande meta, e não as ações efetivas para mitigar os males que
apontam. São como a personagem Grace de Nicole Kidman em Dogville, de Lars von Trier. Ela perdoa
tudo e todos, está disposta até ao sacrifício do estupro, pois, lha de pai ma oso, sente-se culpada e um
lixo humano. Parte em busca de salvação. Precisa se colocar como a melhor de todas, e estar acima de
tudo, acima até mesmo das agressões chulas do pai.
Claro que ele, em um discurso fantástico na cena nal, explica por que ela é a mais arrogante de todos
ao se colocar nessa posição. Naquele momento de choque com a realidade, Grace acorda e decide se
vingar, eliminar todos naquela vila imunda, deixando somente o cachorro vivo. O cão era o único
Esse tipo de esquerda caviar curte causas nobres no Facebook e pensa que assim se torna uma boa
pessoa. A capa da bondade, da generosidade, serve para ocultar sua própria fraqueza. Basta um clique no
“curtir” que a alma está lavada. Ainda mais fácil e barato do que dar esmola ao mendigo na rua, que ao
menos exige um contato físico.
A covardia moral também se mostra pela inação. O agir produz o risco de erro, de falha, de encontro
com suas próprias imperfeições e limites. Abraçar utopias e “salvar o planeta” do boteco chique é uma
maneira de se preservar, de evitar os riscos e se manter “puro”. Típico dos seres pusilânimes. O discurso
messiânico e politicamente correto pode ser uma forma de fugir da ação e conquistar aplausos fáceis,
como sabia Nelson Rodrigues:
Cuidar do Vietnã, de Cuba, da África, é a melhor maneira de não fazer nada, de não sair do Antonio’s, de não deixar a
praia. Há todo um Brasil por fazer. E o ópio ideológico justifica e absolve a nossa deslavada ociosidade. Vamos dar vivas a
Cuba e ninguém precisa mover uma palha, tirar uma cadeira do lugar. Os covardes clamam também por um “pai” autoritário que assuma a responsabilidade por seus atos. Em
Entre dívidas e culpas: sacrifícios, Marta Gerez-Ambertin usa Freud para avaliar a atração que líderes
tirânicos exercem sobre as massas, e aqui não há necessariamente distinção de classe por renda. O
fascismo, o nazismo e o comunismo atraíram pessoas de classe média ou mesmo alta. A autora diz:
Há um gradiente na relação entre insegurança subjetiva e autoritarismo. Quanto maior a insegurança subjetiva — seja
por razões internas como timidez, temor, inferioridade, culpa etc., ou por razões externas como crises socioeconômicas,
hiperin ação, ameaça bélica, catástrofes — maior é a tentação de se entregar nas mãos de alguém que se apresenta como
salvador ou dirigente, o que incrementa o vínculo com o autoritarismo. Ou seja, por essa ótica psicanalista, “O autoritarismo é uma posição que prevalece em alguns sujeitos que
se colocam em situações de dominação ou submissão em consequência de uma subjetividade frágil”. Essa
fraqueza, como alerta Francisco Razzo em seu artigo “Eu sou o tolerante e você o preconceituoso”,
publicado no site Ad Hominem, serve para criar bodes expiatórios e monopolizar as virtudes:
A estratégia dos fracos é dar um jeito de se valer da sua condição de fracos a m de justi car os seus piores fantasmas. Em
vista disso, o objetivo ideológico principal é mostrar que os fracos são os únicos efetivamente capazes de propor um
mundo melhor; mundo que só não se realiza efetivamente porque os outros não permitem.
aqueles que não
conseguem suportar a solidão e andar com as próprias pernas, ainda por cima contra a correnteza. Eles
não suportam seus próprios sentimentos e preconceitos. Não suportam a responsabilidade de viver e fazer
escolhas individuais. Tudo culpa dos outros!
Ao se identi carem com as “frágeis” minorias, essas pessoas partem em busca de autocomiseração,
querem ser vítimas também. Como resumiu Karl Kraus, com seu incrível poder de síntese: “A força mais
enérgica não chega perto da energia com que alguns defendem suas fraquezas.”
11. Medo
Além da covardia moral, há a covardia física, o medo do inimigo poderoso. Após duas guerras
mundiais, a segunda delas já atômica no nal, muitos foram levados à esquerda caviar pelo pânico de
confrontar abertamente a ameaça comunista. Temendo que a Guerra Fria se tornasse uma Terceira
Guerra Mundial entre potências atômicas, vários intelectuais e artistas preferiram suavizar e relativizar o
que a União Soviética realmente queria.
O grande ícone dessa postura foi Jimmy Carter, possivelmente o presidente mais medíocre que os
Fria foi ingênua na
melhor das hipóteses, e quase criminosa na pior delas. Sua covardia e seu desejo de criar um ambiente de
“conversa pací ca” entre Estados Unidos e União Soviética, como se o lado de lá defendesse os mesmos
ideais e nutrisse os mesmos valores, permitiu que o campo casse livre para o avanço do império
soviético.
Carter queria ser “amigo” dos soviéticos e “trabalhar em conjunto” pela construção da paz. Restava
apenas combinar com o outro lado. Como veremos mais à frente, essa postura “paci sta” é infantil e
perigosa. Mas Carter tinha o apoio irrestrito da esquerda caviar, alguns sem dúvida movidos pelo medo
de uma escalada da violência.
Quando Ronald Reagan foi eleito, derrotando Carter com ampla margem, a imprensa esquerdista,
logo nos primeiros dias de mandato, partiu para o ataque. Reagan representava o oposto da esquerda
caviar. Não era um intelectual, não tinha um discurso relativista. Ao contrário: usava uma linguagem
bastante direta, colocando os pingos nos “is” sem medo de “ofender” os seus inimigos. Quando chamou
a URSS de “império do mal”, a esquerda caviar surtou!
ainda assim aprendeu
valores básicos, como a crença nos direitos individuais, a descon ança da autoridade estabelecida, a
capacidade de manter uma postura positiva mesmo diante de más notícias e uma autoconfiança derivada
da noção de que o conhecimento mais importante está em distinguir o certo do errado. Ele não usou sua
infância difícil como justi cativa para posar de vítima, e sim para aprender lições e superar os obstáculos
na vida.
Um traço importante de sua personalidade, que veio a ser muito útil depois, era não se importar
muito com quem ca com os créditos de uma boa ação, e sim com a ação em si. Reagan fazia analogias
simples, mas que passavam bem sua mensagem. Certa vez comparou o governo a um bebê, com um
canal de alimentação com apetite enorme de um lado, e nenhum senso de responsabilidade do outro.
Mas, se por um lado Reagan parecia simplista, por outro conhecia o comunismo desde os tempos de
ator em Hollywood, e sabia do que os comunistas eram capazes. Ele estava sendo el aos fatos.
Simplesmente reproduzia as alegadas intenções dos próprios soviéticos, o que chocou os jornalistas.
O intuito da União Soviética não era a paz, e sim um governo mundial sob o domínio do marxismo, a
qualquer custo. Até o terror poderia ser usado para esta nalidade. Tal era a meta declarada dos líderes
soviéticos. Mas a esquerda caviar não queria saber disso, não queria escutar a verdade. Em parte, por
medo. A última coisa que desejava era um novo confronto em escala mundial com um inimigo tão
poderoso.
Coragem não é ausência de medo. Quem não tem medo pode ser apenas irresponsável ou maluco. É
bom ter medo das coisas perigosas. Desde que não o paralise. O medo deve ser dominado. Isso é
coragem. E, movidos pelo medo, esses esquerdistas resolveram poupar seus inimigos das merecidas
críticas. Resolveram fechar seus olhos para a realidade.
Desta forma, conseguiram apenas fortalecê-los, incentivar um avanço ainda maior dos comunistas. A
esquerda caviar, covarde, acabou servindo aos interesses dos inimigos da liberdade. Assim como hoje
muitos usam os discursos relativistas sobre a ameaça islâmica pelo mesmo motivo: medo.
Foi esse mesmo sentimento que fez com que os franceses, sob a ocupação nazista, adaptassem suas
vidas rapidamente, com raras e honrosas exceções (como a do general Charles De Gaulle, odiado pela
esquerda caviar). Como diz Alan Riding em Paris: a festa continuou, “a vida cultural da França havia
voltado praticamente ao normal com uma velocidade quase indecorosa”. Não é trivial julgar os franceses dessa época difícil, incluindo inúmeros intelectuais esquerdistas. É
preciso muita coragem para desa ar um regime opressor. Ainda assim, a adaptação talvez tenha sido
acelerada demais. Como diz o autor: “Os visitantes que chegavam da zona não ocupada geralmente se
sentiam chocados com a aparente normalidade que reinava em Paris.” “Durante a ocupação”, comentou Sartre, trinta anos depois, “tínhamos duas escolhas: colaborar ou
resistir”. Ao que parece, a resistência efetiva é sempre para poucos. O próprio Sartre, que depois acabou
visto como um dos heróis da resistência, quase nada fez de concreto para merecer tanto reconhecimento.
Ao contrário, ele mesmo lembrou com carinho as festas que fazia nessa época:
Por causa do toque de recolher, que durava até seis ou sete da manhã, em geral a festa ia até esse horário, para evitar
agrarem alguém entrando em casa às escondidas, no meio da noite. Começamos a fazer essas estas, como as chamavam,
só de farra, sem ligação com reuniões editoriais ilegais ou algo assim. Sob o domínio do medo, muitas pessoas encontram na distração uma fuga. Os cabarés logo voltaram ao
serviço, assim como os cinemas e teatros. Desistir dessa rota de fuga e partir para o confronto exige um
grau de heroísmo bastante raro. A esquerda caviar prefere jogar o jogo do poder, contemporizar com o
inimigo, flexibilizar os princípios. Afinal, o show precisa continuar...
12. Niilismo
O grande escritor russo Fiodor Dostoievski retratou em Os demônios a essência do niilismo como força
motora de alguns revolucionários. Escrito em 1872, o livro foi inspirado em um episódio verídico: o
assassinato de um estudante por um grupo niilista liderado por Nietcháiev, em 1869. Muitos
esquerdistas acabam atraídos por ideologias que, no fundo, representam apenas um profundo desejo de
destruição ou autodestruição.
Nietcháiev era o resultado prático das teorias de Bakunin, um dos mais famosos anarquistas.
Excêntrico, rebelde ao extremo, esse aristocrata desa ava todas as convenções burguesas. Como tantos
outros anarquistas e socialistas, Bakunin era, por nascimento, um senhor rural, que teve educação
re nada. Estudou em Paris e obteve seu grau de doutor em Pádua. Sua mulher também era de
importante família.
Em suma, Bakunin veio da elite, e resolveu combater tudo o que ela representava, o que lhe permitiu
objetivando destruir os laços
de transferência de valores de geração para geração. Em tom de fanatismo religioso, exalta o futuro
promissor:
Haverá uma transformação qualitativa, uma nova maneira de viver, uma revelação que será como dádiva de vida, um
novo paraíso e uma nova Terra, um mundo jovem e poderoso no qual todas as nossas atuais dissonâncias serão
resolvidas, transformando-se num todo harmonioso.
Que glorioso futuro! Um mundo sem con itos, sem dissonâncias, onde cada um forma um todo
perfeito. Mas, para criar tal “paraíso”, naturalmente seria necessário destruir o mundo que temos hoje,
implodir os pilares dessa sociedade carcomida, em estado de putrefação. E foi assim que Bakunin, como
alguns antes e muitos depois, apresentou a receita do sucesso:
Con emos no eterno espírito que destrói e aniquila apenas porque é a inexplorada e eternamente criativa origem de toda
a vida. A ânsia de destruir é também uma ânsia criativa.
Não sei quanto ao leitor, mas, quando leio essas passagens, não posso evitar o pensamento de que seria
muito melhor para o mundo se gente com tamanho descontentamento com a vida e tanta sede por
destruição simplesmente procurasse um bom psicanalista, ou quem sabe pegasse um pedaço de pau e
destruísse o seu quartinho confortável arrumado pela empregada. Mas que deixasse os outros em paz!
eodore Dalrymple, falando sobre Bakunin, reconhece que o ato de destruir é, em si, divertido para
muitos. Quando encontram uma suposta causa que justi ca a destruição, aí é uma festa! Essa
combinação atrai muita gente para a esquerda caviar raivosa, que alimenta um constante desejo de
destruição. Fernando Pessoa foi outro que percebeu o teor destrutivo do comunismo. Ele escreveu:
O comunismo não é um sistema: é um dogmatismo sem sistema — o dogmatismo informe da brutalidade e da dissolução.
Se o que há de lixo moral e mental em todos os cérebros pudesse ser varrido e reunido, e com ele se formar uma gura
gigantesca, tal seria a figura do comunismo, inimigo supremo da liberdade e da humanidade, como o é tudo quanto dorme
nos baixos instintos que se escondem em cada um de nós. O comunismo não é uma doutrina porque é uma antidoutrina,
ou uma contradoutrina. Tudo quanto o homem tem conquistado, até hoje, de espiritualidade moral e mental — isto é de
civilização e de cultura —, tudo isso ele inverte para formar a doutrina que não tem.
Em United in Hate, Jamie Glazov tenta explicar a paixão dos intelectuais de esquerda por tiranos. O
assunto é bastante pessoal para ele, que foi ainda criança levado, pelos pais, da União Soviética para os
Estados Unidos, fugindo de uma tirania. Qual não foi a surpresa da família ao descobrir que muitos
intelectuais americanos defendiam justamente aquele regime totalitário, e ainda tentavam silenciar as
verdades que eles, tendo sofrido na própria pele, revelavam!
Para Glazov, esse crente esquerdista começa sua jornada totalitária com um agudo senso de alienação
em sua própria sociedade — alienação que ele é totalmente cego para enxergar. Em negação com suas
próprias falhas, que o impedem de criar um elo com seu povo, o crente se convence de que há algo
profundamente errado com sua sociedade. Sem conseguir se encaixar direito nela, deseja ardentemente
colocar um fim nessa angústia — e na sua própria sociedade.
Em uma linha parecida foi Eric Hoffer, em seu clássico e True Believer, escrito em 1951. Para
Hoffer, um dos principais motivos de adesão a tais seitas revolucionárias é a angústia que a autonomia
traz para o indivíduo. Temos uma tendência de culpar forças exógenas pelos nossos fracassos, e as
pessoas frustradas com suas vidas acabam desenvolvendo um fervor por mudanças radicais.
Os movimentos de massa oferecem a sensação de um poder irresistível do grupo monolítico. As angústias
individuais poderão ser diluídas nos atos conjuntos, isentos de responsabilidade. A psicologia das
massas, como sabia Gustave Le Bon, atua para dar vazão ao ódio e ao desejo de destruição de cada
membro do grupo. Ele escreve em seu famoso livro The Crowd: A Study of the Popular Mind:
Uma massa é como um selvagem; não está preparada para admitir que algo possa car entre seu desejo e a realização
deste desejo. Ela forma um único ser e ca sujeita à lei de unidade mental das massas. Como tudo pertence ao campo dos
sentimentos, o mais eminente dos homens di cilmente supera o padrão dos indivíduos mais ordinários. Eles não podem
nunca realizar atos que demandem elevado grau de inteligência. Em massas, é a estupidez, não a inteligência que é
acumulada. O sentimento de responsabilidade que sempre controla os indivíduos desaparece completamente. Todo
sentimento e ato são contagiosos. O homem desce diversos degraus na escada da civilização. Isoladamente, ele pode ser
um indivíduo; na massa, ele é um bárbaro, isto é, uma criatura agindo por instinto.
Os indivíduos, fazendo parte de um grupo com certas características coletivistas, adquirem um
sentimento de invencibilidade que os permite seguir instintos os quais seriam barrados caso estivessem
sozinhos. Um caso típico é o linchamento público, ou a agressividade das torcidas organizadas. Ann
Coulter, em seu livro Demonic: How the Liberal Mob Is Endangering America, usa Le Bon para mostrar
como a esquerda atual é um movimento de massas. Ela descreve o fenômeno: A multidão é um organismo infantil, irracional, muitas vezes violento, que deriva sua energia do grupo. Intoxicado por
objetivos messiânicos, a promessa de grati cação instantânea, e exortações que injetam adrenalina, as multidões criam
desordem, caos e destruição, deixando uma pilha de destroços fumegantes para seus líderes subirem ao poder.