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3. PARADIGMA DO PROCESSO DE INTEGRAÇÃO EUROPEIA

3.2. As novas correntes teóricas

3.2.2. Institucionalismo e neo-institucionalismo

Além das teorias da integração que enunciámos – duas grandes teorias e uma terceira que pela sua capacidade descritiva bem merecerá de facto o epíteto de intermédia entre uma e outra daquelas duas – outras abordagens do processo de integração europeia foram surgindo, todas elas contudo de natureza marcadamente parcial e apenas acrescentando ao debate teórico elementos de maior precisão ou detalhe. Aqui se situa o institucionalismo que contou entre os seus mais densos construtores com o nome de Simon Hix, o qual, quer na sua obra de

97 DAHL, Robert A.; TUFTE, Edward R.: Size and Democracy, p. 20; HAAS, Ernst B. - The Uniting of Europe: Political, Social, and Economic Forces 1950-1957, p. 16.

maior fôlego no âmbito desta corrente, quer em trabalhos posteriores98, sublinhou a afirmação de que as instituições são em si mesmas e enquanto realidades autonomamente consideradas, elementos fundamentais do processo de integração europeia, que se encontram integradas nessa rede enorme e complexa (multicêntrica), que foi sendo gerada e que é inerente ao processo de integração europeia, e que nele se situam não apenas como entidades formais com papéis pré-delimitados e estáticos, mas antes como actores dinâmicos do processo e que desempenham a função primordial de o guiarem em múltiplos aspectos, sobrelevando, na sua dinâmica os planos inicialmente desenhados para o processo de integração (quer quando encarado no seu conjunto, quer em aspectos particulares e delimitados) pelos próprios Estados integrados99.

A esta visão das instituições europeias como variáveis independentes no processo de integração, foram colocadas objecções inevitáveis, por parte de autores como Moravcsik para o qual a forma como as instituições e o seu papel devem ser perspectivados no âmbito do processo de integração, não diverge essencialmente, e de acordo com as premissas epistemológicas e teleológicas em que se posiciona quanto ao processo de integração em si mesmo considerado não se desvinculando, na apreciação da componente institucional desse mesmo processo, daqueles que constituem os seus pontos fulcrais de análise. Deste modo, e coerentemente com a sua visão do processo de integração100, as instituições comunitárias representam elementos dotados da estabilidade associada ao próprio conceito de instituições e, tendo sido geradas pelos Estados em ordem à resolução dos seus problemas no contexto comunitário, constituem nele assento e

98 HIX, Simon - The political system of the European Union, em especial, pp. 9 a 16; HIX, Simon: Euroscepticism as Anti-Centralization: A Rational Choice Institu-

tionalist Perspective.

99 BULMER, Simon J. - The Governance of the European Union: A New Institution-

alist Approach, pp. 368-370.

100 MORACVSICK, Andrew - The Choice for Europe: Social Purpose and State

garante, para o estabelecimento de compromissos credíveis entre esses mesmos actores. Quer isto dizer, que não reconhece nas instituições um papel ou função autonomizável da vontade dos Estados, mas apenas um papel subsidiário em relação a essa mesma vontade estadual, no que se nos afigura uma avaliação absolutamente rigorosa, acrescente-se.

Já se encararmos o tema segundo o olhar de Paul Pierson101, que estudou o denominado institucionalismo histórico no quadro do processo de integração, somos confrontados com o argumento de que o institucionalismo é, na sua essência, uma manifestação do neo-funcionalismo, na medida em que, como intentou demonstrar, os interesses que são acautelados no âmbito das instituições europeias, estão influenciados, de forma crescente, por factores que escapam ao controle estadual e em que as respostas a um problema são muitas vezes uma necessidade gerada pela resposta dada a um problema anterior, assim se produzindo, também no plano autónomo das instituições, a mesma dinâmica de spill-over que os funcionalistas e neo-funcionalistas colocam no centro das dinâmicas políticas (em sentido estrito e não necessariamente na sua componente ou expressão institucional) da integração, como vimos já.

Dito de outro modo e encarado na sua essência, parece-nos que a tese de Pierson não faz mais do que confirmar o alinhamento já proposto por Moracvsick, ainda que numa proposição situada nas antípodas. Ou seja, se para Moracvsick (que vê nos Estados os actores nucleares do processo de integração) as instituições não têm mais peso na condução do processo de integração do que aquele que lhes é conferido pelos Estados, já para Pierson (um funcionalista) são as dinâmicas do processo e nomeadamente o efeito de spillover que determinam qual a relevância que as instituições assumem em cada momento, enquanto agentes (por assim dizer) de promoção e dinamização do referido processo.

101 PIERSON, Paul - The Path to European Union: An Historical-Institutionalist

Estas posições não invalidam, a nosso ver, e indo para além desta visão mais esquemática, que é inquestionável o interesse que subsiste no estudo das instituições europeias enquanto elemento a

se, com eventual papel estabilizador e de garante da máxima

previsibilidade no âmbito da decisão política, e, nessa medida e nesse sentido, com um papel próprio, embora não o de actores principais do mesmo processo de integração. Resumidamente, o ponto de partida inicial é o de que as instituições europeias assumem um papel específico e pontualmente de relativa independência, e, consequentemente, são verdadeiros elementos dinamizadores dos processos de tomada de decisão (sobretudo encapsulando a decisão política numa esfera aparentemente tecnocrática) e assim sobrelevando tendencialmente as querelas emergentes das diferenciadas perspectivas sobre um mesmo problema por parte dos vários agentes políticos, nos casos em que surjam posicionamentos antagónicos mas que possam ser comprimidos precisamente nesta esfera reducionista da regulamentação técnica, evitando o seu transbordo para uma dimensão pronunciadamente política.

3.3. O debate teórico sobre a integração europeia: metáfora