4 METODOLOGIA DE INVESTIGAÇÃO

4.3 Instrumentos de geração de dados

A adoção de uma perspectiva etnográfica agregada de sua variante virtual em uma pesquisa qualitativa como esta ajudou a visualizar e a melhor compreender o objeto de estudo. A partir dessa perspectiva, foram utilizados os seguintes instrumentos para a geração de dados: a observação-participante on-line e off-line com anotações das impressões do cotidiano escolar no diário de campo e com acompanhamento das postagens e dos registros de participação dos interagentes disponibilizados na plataforma Moodle, o questionário misto pré e pós-utilização do ambiente on-line e a entrevista semiestruturada aplicados aos informantes. A opção por mais de um instrumento de coleta de dados teve o objetivo de qualificar mais profundamente os resultados da pesquisa.

O questionário inicial foi direcionado para todos os alunos regularmente matriculados nas quatro turmas investigadas para delineamento do perfil com base nas informações pessoais como idade e sexo, uso que faziam do computador e da internet,

tipo de acesso à rede; influência da escrita típica de um contexto a outro; dificuldades na aprendizagem da escrita de LM; estratégias de aprendizagem já utilizadas e expectativa em relação ao uso de um AVA como apoio ao ensino presencial para a aprendizagem da escrita. Já o questionário final foi aplicado somente aos alunos participantes da amostragem da pesquisa para obtenção de informações autoavaliativas positivas e negativas da experiência de participação em um AVA para auxiliar o processo de ensino-aprendizagem da LM, assim como para identificação de estratégias de aprendizagem.

Ambos os questionários foram mistos, com perguntas abertas e fechadas, sendo que no primeiro predominaram as questões fechadas, e no último, as questões abertas. A diferença entre as questões abertas e fechadas reside no fato de estas serem perguntas em que as alternativas de respostas são trazidas pelo pesquisador, e de aquelas serem questões elaboradas para que os sujeitos em estudo respondam livremente sobre o que pensam a respeito do assunto, conforme sua interpretação sobre o que foi perguntado (HANDEM et al., 2007). Essa diferença explica que a minha opção no questionário final por um maior número de perguntas abertas não se deu apenas por conta da menor quantidade de sujeitos, mas principalmente porque em uma pesquisa qualitativa na perspectiva etnográfica tais questões serem tão importante quando da aplicação de questionário97, já que se tem interesse no entendimento e na visão dos pesquisados.

A observação-participante perdurou em toda a pesquisa, a qual conta com percepções e interpretações do pesquisador que qualitativamente, como dizem Denzin e Lincoln (2006) e André (2009), estuda as coisas em seus contextos naturais.

As observações da pesquisadora foram registradas paralelamente em diário de campo organizado conforme data, turma, descrições das atividades,   dos recursos

utilizados para apresentação, do cenário físico e virtual, do comportamento nele adotado pelos participantes e das ações de aprendizagem utilizadas (cf. apêndice D). Tais observações foram realizadas tanto em sala de aula convencional quanto no LABINF da

                                                                                                                         

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 É importante informar que embora esta investigação utilize a classificação das estratégias de

aprendizagem proposta por Oxford (1990) para categorização e análise de seu corpus que também lida com a aprendizagem de língua, ainda que materna e não estrangeira ou segunda língua, julguei não apropriado aplicar o questionário por ela elaborado, o SILL (Strategy Inventory for Language Learning), por conta de ele não ter sido criado, especificamente, para pesquisas de estratégias utilizadas em ambientes virtuais de aprendizagem. Isso não quer dizer, no entanto, que o SILL não tenha como recolher informações de como aprender a LM por meio de estratégias nesse ambiente, mas apenas que necessitaria de uma adaptação com algumas subtrações e/ou acréscimos, que, a meu ver, só podem ser feitas com mais propriedade e segurança após uma investigação de quais estratégias de aprendizagem nele são utilizadas, principalmente quando se trata de um ambiente híbrido como é o caso desta pesquisa.

escola e no ambiente on-line em horário extraescolar e foram registradas em diário de campo mantido em arquivo no computador para que pudesse recuperá-las com mais objetividade sempre que necessárias.

Com base em Angrosino (2009), a observação em ambiente híbrido foi importante para me fazer perceber as ações desenvolvidas nas atividades e os inter- relacionamentos das pessoas no cenário de campo através dos cinco sentidos. Isso facilitou o reconhecimento de padrões, ou seja, condutas ou ações que parecessem ser repetidas para chamá-las de típicas das pessoas participantes quando envolvidas em contexto como o desta pesquisa. Dessa forma, pude ter uma visão mais geral do uso do AVA, já que a minha observação proporcionou acompanhar tanto o que ocorria no ambiente on-line quanto o que acontecia “em frente à tela”.

A entrevista, considerada por Angrosino (2009) uma extensão lógica da observação de perspectiva etnográfica, é um dos métodos predominantes na pesquisa qualitativa. As entrevistas, feitas com os dois professores e com os alunos da amostragem, foram individuais, presenciais na escola lócus da pesquisa antes do início das aulas, gravadas apenas em áudio e transcritas para análise. Foram semiestruturadas, uma vez que se desejava uma organização e também uma flexibilidade das questões, e feitas no último mês da pesquisa, dezembro, para que a pesquisadora tivesse uma visão completa do contexto de investigação de acordo com o objetivo visado e também pudesse aprofundar e esclarecer pontos tanto das observações quanto das respostas dadas ao questionário final. No entanto, no decorrer do processo investigatório e a título de esclarecimento imediato de algumas ações, fez-se necessário fazer perguntas a alguns participantes da pesquisa, as quais foram registradas no diário de campo.

Os documentos registrados na plataforma Moodle foram formados pelos materiais disponibilizados pelos professores para estudo e consulta dos alunos, pelas atividades e interações ocorridas e pelos relatórios de participação. Como partes de ambiente on-line, todos eles podem ser classificados como documentos virtuais/digitais98 (TOMASI, 2013), cujas características principais são a

                                                                                                                         

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“Os documentos digitais têm duas origens distintas: os que já nascem digitais e os que são gerados a partir de digitalização. Ambos são codificados em dígitos binários, acessíveis e interpretáveis por meio de um sistema computacional. O documento digitalizado é a representação digital de um documento produzido em outro formato e que, por meio da digitalização, foi convertido para o formato digital. Geralmente, essa representação digital visa a facilitar a disseminação e o acesso, além de evitar o manuseio do original, contribuindo para a sua preservação. Todo documento digitalizado é um documento digital, mas nem todo documento digital é um documento digitalizado” (CONSELHO NACIONAL DE ARQUIVOS – CONARQ; CÂMARA TÉCNICA DE DOCUMENTOS ELETRÔNICOS, s/d). Disponível em:

instantaneidade, a volatilidade e a necessidade de dispositivo tecnológico digital para acesso. Por conta das duas últimas, precisei durante toda a observação de dispositivos tecnológicos como notebook e internet para acessar os documentos e acompanhar sua geração e, no último mês, de pen-drive e HD para arquivá-los em locais que não apenas o on-line, já que poderiam e podem por algum problema técnico desaparecer do local de origem.

Os registros no AVA mostraram as muitas ações e reflexões feitas pelos participantes do curso (professores, tutora-pesquisadora e alunos) nos diversos espaços proporcionados pelas ferramentas do Moodle, principalmente fórum, diário, wiki e tarefa. O uso dessas e de outras ferramentas indicam que afora os documentos impressos digitalizados e transformados em pdf e os links de acesso a outros materiais da web, todos os outros documentos registrados no Moodle foram gerados pelo próprio uso do AVA. Neste trabalho, considerei o ambiente por completo como gerador de dados durante a pesquisa.

Todos os instrumentos de coleta de dados utilizados foram de suma importância nesta pesquisa para identificação tanto das ferramentas e das ações de aprendizagem utilizadas para aprendizagem da LM quanto das potencialidades e das limitações da experiência de participação em um AVA inserido no contexto presencial, indicando favorecimento ao desenvolvimento da autonomia. A observação em ambiente híbrido, por exemplo, proporcionou-me uma visão mais geral do uso do AVA, pois pude acompanhar tanto o que ocorria no ambiente on-line quanto o que acontecia “em frente à tela”. Já o questionário final com questões abertas e fechadas, as entrevistas e os registros escritos em ferramentas do Moodle possibilitaram-me identificar, entre tantas outras coisas já citadas, estratégias de cunho mental, cuja identificação necessita de meios que não o observacional direto (cf. OXFORD, 1990; COHEN, 1996; CHAMOT, 2004; VYGOTSKY, 2007b), como já comentado na subseção 2.5.2.

Diante do já exposto em todo este capítulo, apresento uma síntese da base de dados desta pesquisa no quadro 10:

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     

<http://www.documentoseletronicos.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=10>. Acesso em: 03 jan. 2013.

QUADRO 10

Síntese da base de dados

Instrumentos de coleta de dados e suas abreviaturas Período de coleta de dados Dados Questionário misto inicial aluno (QIA)

Dias 03 e 04 de maio de 2012

Informações pessoais como idade e sexo; uso que faziam do computador e da internet, tipo de acesso à rede; influência da escrita típica de um contexto em outro; dificuldades na aprendizagem da escrita de LM; estratégias de aprendizagem já utilizadas

Observação de

participação em sala de aula com registros em Diário de campo (DC)

Durante as aulas em sala de aula convencional entremeadas às aulas no

LABINF: maio a

dezembro de 2012

Notas da pesquisadora no Diário de campo sobre as ações de aprendizagem utilizadas durante as aulas de LM Observação de participação on-line no LABINF e extraescolar com registros em Diário de campo (DC)

Durante todo o período de uso do AVA: 23 de maio a 31 de dezembro

Notas da pesquisadora no Diário de campo sobre as ferramentas e as ações de aprendizagem utilizadas para o ensino-aprendizagem da LM e sobre as potencialidades e as limitações da experiência de participação em um AVA inserido no contexto presencial

Questionário misto final com aluno (QFA) e com professor (QP)

No último mês de uso do AVA: 03 a 14 de dezembro de 2012

Informações de autoavaliação da experiência de participação em um AVA para auxiliar o processo de ensino-aprendizagem da LM e de estratégias de aprendizagem

Entrevistas face a face com aluno (EA) e com professor (EP) - Entrevistas informais: ao longo do semestre observado - Entrevistas semiestruturadas: mês de dezembro de 2012

- Anotações da pesquisadora no Diário campo - Entrevistas gravadas em áudio e transcritas na íntegra para aprofundamento e esclarecimento tanto das observações quanto das respostas dadas ao questionário final Documentos virtuais registrados na plataforma Moodle (RM) Mês de dezembro de 2012

Cópia dos materiais de consulta dos alunos, das atividades e interações ocorridas e dos relatórios de participação

Fonte: Dados da pesquisa

No documento Ambiente virtual de aprendizagem no contexto presencial do ensino médio: indícios de autonomia na escrita via estratégias de aprendizagem (páginas 134-138)