6 PERCURSO METODOLÓGICO
6.3. INSTRUMENTOS E PROCEDIMENTOS
Dividimos a metodologia em fases, que aconteceram simultaneamente ao
longo da coleta e análise dos dados.
FASE I: etapa quantitativa, onde se pretende caracterizar a Rede de Atenção
Psicossocial de Aracaju, utilizando dados coletados através de questionários de
entrevista semiestruturada (Anexos A e B)
A aplicação do roteiro I (Anexo A), com gestores e trabalhadores, foi realizada
em local tranquilo, após aceite de convite para a pesquisa, leitura e assinatura de
TCLE. Em geral, no próprio local de trabalho (sala de reunião, sala da gerência, sala
dos técnicos, sala de atendimento individual), durante o expediente normal.
Haguette (2013, p.84) destaca alguns aspectos que podem interferir na
qualidade dos dados por parte dos informantes: 1) quando ele pensa que suas
respostas influenciarão positivamente em sua posição/situação futura; 2) quebra de
espontaneidade pela presença de terceiros durante a coleta de dados; 3) “desejo de
agradar”; 4) fatores ocorridos no intervalo entre um encontro e outro que podem
modificar a atitude do informante em relação ao contexto estudado; 5) o conhecimento
sobre o assunto e a habilidade em relatar um fenômeno ou fato ocorrido, capacidade
de usar a memória e a fluência da expressão ao relatar os fatos.
Na FASE II ou etapa qualitativa (etnográfica) utilizaram-se como técnicas de
diário de campo e acesso a documentos de prescrição da política nacional de saúde
mental nas três esferas de governo.
Quanto à observação direta como técnica de investigação, Jacoud e Mayer
(2014, p. 255) afirmam que
Trata-se de uma técnica direta, já que há um contato com informantes.
Trata-se, também, de uma observação não dirigida, na medida em que
a observação da realidade continua sendo o objetivo final e,
habitualmente, o pesquisador não intervém na situação observada.
Outros autores falam ainda em compartilhamento de sentimentos e afetos do
grupo estudado, significando que a observação não se concretiza apenas na
participação do pesquisador, mas sobretudo no seu maior envolvimento, tanto nas
atividades externas ao grupo, quanto nos seus aspectos mais subjetivos. Sendo este
último um “requisito fundamental na compressão da ação humana” (HAGUETTE,
2013, p. 68)
Segundo Haguette (2013), a definição mais completa de Schwartz e Schwartz
formula, como pré-requisitos da observação participante, a interação face a face e a
presença constante do observador, no contexto estudado. Estes autores afirmam,
ainda, que a observação pode acontecer num espaço de tempo longo ou curto, e
ressaltam o papel ativo do observador num interacionismo construtivista, modificando
o contexto estudado (observador ativo).
Entendemos que não há neutralidade nem ato social desinteressado
(BOURDIEU, 1996). Deste modo, a implicação e seus atravessamentos fizeram parte
da caminhada. Sabe-se que a trajetória pessoal como trabalhadora da RAPS
estudada, bem como a implicação na implantação desta, dificulta mas não impede
aproximação com o real. Foi importante a garantia de isenção necessária, a fim de
que fosse criado um clima de confiança e verdade para que os sujeitos da observação
pudessem veicular suas análises e opiniões durante a realização do estudo.
Recebemos carta de anuência da Coordenação de Saúde Mental de Aracaju e
a carta de anuência do Núcleo de Educação Permanente (NEP) do hospital
filantrópico conveniado com a prefeitura de Aracaju. O projeto de pesquisa foi
submetido e aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Católica do
Salvador, através da Resolução nº 1.978.220, em 22 de março de 2017.
Os dados quantitativos foram organizados de acordo com os itens do
questionário, conforme Quadro 7.
Quadro 7- Itens avaliados e analisados Fase I (2018).
Roteiro 1 - fase I (ANEXO A) Roteiro 2 - fase I (ANEXO B)
I. Estrutura;
II. Processos de organização e
funcionamento do CAPS;
II.1. Humanização do Cuidado;
II.2. Gestão participativa e garantia de
direitos;
II.3. Rede de Atenção Psicossocial
III. Resultados do funcionamento dos
CAPS/Característica da população
assistida.
I. Identificação;
II. Processo de organização do serviço
III. Frequências
IV. Natureza do atendimento ao usuário;
V. Medicamentos
VI. Matriciamento em saúde mental
VII. Capacitação em saúde mental
VIII. Articulação em rede
IX. Inclusão da família
X. Satisfação do cuidado
Fonte: Elaborado pela autora, baseado em PITTA et al., (2012), 2018
Durante a FASE II, foi preenchido um diário de campo com itens observados
nos pontos de atenção e na interseção com os usuários e trabalhadores durante o
trabalho de campo, bem como impressões da pesquisadora. A observação direta
durou cerca de 4 horas em cada local estudado, em alguns deles ocorreram dois ou
mais momentos de observação, inclusive com participação em oficinas, reuniões de
equipe e assembleias de CAPS.
Os dados da FASE I foram digitados, tabulados e categorizados. A análise
qualitativa separou as diferentes modalidades de instrumentos - diário de campo,
documentos institucionais e históricos – para realizar a base compreensiva da reflexão
proposta inicialmente pelos objetivos do estudo (MINAYO, 2007).
Os procedimentos se deram conforme o seguinte protocolo:
a) Após aprovação e concordância com os Setores administrativos da
Secretaria Municipal de Saúde e Coordenação de Saúde Mental, foi realizado
agendamento prévio para realização da coleta de dados em cada um dos pontos de
atenção da RAPS;
b) A abordagem dos serviços foi comunicada na véspera da visita, na
maioria das vezes. Fomos recebidos pelos profissionais dos serviços ou pelos
gestores, para apresentação dos objetivos da pesquisa, garantias de
confidencialidade, seguido de assinatura do TCLE. Foram 30 termos assinados;
c) Em alguns momentos, primeiro observamos o local, acompanhadas de
preenchimento do roteiro de observação. Foram em média 3 horas de observação
direta em cada local visitado;
d) Anotações detalhadas nos diários de campo do pesquisador a fim de
auxiliar na análise;
e) Realização de encontros com os trabalhadores e gestores, a partir do
Roteiro de Observação de CAPS, tendo como foco central a estrutura do serviço,
processo de organização e funcionamento do CAPS, resultados do funcionamento do
CAPS/característica da população assistida, considerações finais;
f) Realização de encontros com os trabalhadores e gestores, a partir do
Roteiro de Observação de pontos de atenção (exceto CAPS), tendo como foco central
identificação, processo de organização do serviço, frequências, natureza do
atendimento aos usuários, medicamentos e psicofármacos, ações de matriciamento,
educação permanente, articulação de rede, articulação com famílias e satisfação geral
do cuidado prestado por parte dos entrevistados.
No documento
UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação
(páginas 59-62)