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2.1 Vygotsky e a perspectiva sócio-histórica

2.1.1 Instrumentos e signos: elementos constituintes da mediação

Vygotsky (1991) não delimitou estágios/fases pré-determinadas para o desenvolvimento. O autor compreende que este [desenvolvimento] está relacionado à aprendizagem, que por sua vez, emerge das trocas com o meio e da interação com os pares através de relações mediadas.

A mediação é compreendida por Vygotsky (1991, p. 45) como um vértice (elo) entre o estímulo (S) e a resposta (R). Segundo o autor, esse elo intermediário é um “estímulo de segunda ordem (signo), colocado no interior da relação [...] ‘colocado’ indica que o indivíduo deve estar ativamente engajado no estabelecimento desse elo”. Para Oliveira (1997) essa mediação diz respeito a um processo de intervenção a um elemento em uma dada circunstância. Pino (1991) remete, semelhantemente, à autora citada quando afirma que a mediação é toda intervenção de um terceiro elemento que proporciona uma interação nos termos de uma relação.

A mediação é o fio condutor que distingue os comportamentos elementares das funções psicológicas superiores, pressupondo que toda forma elementar de comportamento presuma uma relação direta com a situação-problema, diferentemente da relação mediada do homem com o meio e deste com ele. Segundo Oliveira (1997, p. 27) “as funções psicológicas superiores apresentam uma estrutura tal que entre o homem e o mundo real existem mediadores, ferramentas auxiliares da atividade humana”. Esses elementos mediadores – determinados por Vygotsky como instrumentos e signos – são construídos culturalmente, e seus usos criam formas (novas e diferentes) de ação que distingue o homem de outros animais11.

11Com base nessa percepção, a concepção de desenvolvimento não pode ser concebida dentre as

propriedades naturais do sistema nervoso, já que Vygotsky “rejeitou [...] a ideia de funções mentais fixas e imutáveis, mas um sistema aberto, de grande plasticidade, cuja estrutura e modos de funcionamento são moldados ao longo da história da espécie e do desenvolvimento individual” (OLIVEIRA, 1992, p. 24).

38 Na abordagem sócio-histórica, os instrumentos são compreendidos como tudo aquilo que intervém entre o homem e o trabalho/ambiente para maximizar e transformar as possibilidades de ação. Os instrumentos são buscados e/ou construídos culturalmente, e provocam transformações nas ações do homem sobre a natureza, modificando, assim, seu comportamento.

Em uma de suas obras «Formação Social da Mente» Vygotsky (1991) elenca uma série de estudos que envolveram a investigação de animais e o uso de instrumentos. Alguns desses estudos apontaram que alguns chimpanzés fizeram uso de instrumentos em suas práticas, mas essas ações se distinguem do uso realizado pelos homens, pois são de naturezas distintas: os animais, apesar do uso dos instrumentos, não os constroem intencionalmente com objetivos precisos, não os armazena para fins futuros e não preservam suas funções a fim de transmiti-las aos outros de seu membro/grupo como o homem os faz (FONTANA, CRUZ, 1997; OLIVEIRA, 1997; VYGOTSKY, 1991).

O signo é equiparável ao instrumento cuja “essência do seu uso consiste em os homens afetarem o seu comportamento” (VYGOTSKY 1991, p. 62), mas em nível mental, denominado como “instrumento da atividade psicológica” (Ibdem, p. 60), ou seja, signo é tudo aquilo utilizado pelo homem para representar ou evocar o que encontra-se ausente, como a palavra, o desenho e os símbolos. O signo, diferentemente do instrumento, (re)organiza o “funcionamento psicológico” (FONTANA, CRUZ, 1997, p. 59), ampliando a possibilidade de “armazenamento de informações” (OLIVEIRA, 1997, p. 31). Nas palavras de Vygotsky (1991, p. 62) a diferença entre instrumento e signo consiste nas diferentes formas que o uso orienta o comportamento dos homens:

a função do instrumento é servir como um condutor da influência humana sobre o objeto da atividade; ele é orientado externamente; deve necessariamente levar a mudanças nos objetos. Constitui um meio pelo qual a atividade humana externa é dirigida para o controle e domínio da natureza. O signo, por outro lado, não modifica em nada objeto da operação psicológica. Constitui um meio da atividade interna dirigido para o controle do próprio indivíduo; o signo é orientado internamente. Essas atividades são tão diferentes uma da outra, que a natureza dos meios por elas utilizados não pode ser a mesma.

As operações com signos, ao longo do desenvolvimento humano, apresentam mudanças qualitativas que são de suma importância para a formação de conceitos. Essas mudanças ocorrem sob duas maneiras: quando as marcas externas transformam-se em processos de mediação internos – esse processo é denominado internalização –; e

39 quando os signos são organizados em estruturas articuladas e complexas denominadas sistemas simbólicos (OLIVEIRA, 1997).

A internalização não ocorre espontaneamente, mas sim, por meio da complexidade da interação de cada relação com o signo ao longo do desenvolvimento, ou seja, “o desenvolvimento, neste caso, como frequentemente ocorre, se dá não em círculo, mas em espiral, passando por um mesmo ponto a cada nova revolução, enquanto avança para um nível superior” (VYGOTSKY, 1991, p. 63). Com o fluxo do desenvolvimento, os indivíduos começam a fazer uso de signos internos, abandonando as marcas externas, através de representações mentais. Os signos internos são equiparados aos externos: são representações a nível interno que substituem o elemento real. As representações mentais promovem a realização de projeções em tempo e espaço distinto do espaço e tempo presente. Segundo Oliveira (1997, p. 35), essas representações são os principais mediadores na relação entre o homem e o mundo.

As representações mentais trazem em seus substratos significados socioculturalmente12 constituídos e articulados em sistemas simbólicos – os signos não se apresentam de forma isolada: eles são compartilhados pelos indivíduos em uma dada sociedade. Esse compartilhamento de significados permite aos indivíduos manter e amplificar a comunicação, a interação social, fazer abstrações e generalizações (FONTANA, CRUZ, 1997; OLIVEIRA, 1997).

Sobre os sistemas simbólicos, Oliveira (1997, p. 36) afirma que “é o grupo cultural onde o indivíduo se desenvolve que lhe fornece formas de perceber e organizar o real, as quais vão constituir os instrumentos psicológicos que fazem a mediação entre o indivíduo e o mundo” – a interação, portanto, desempenha uma importante função no desenvolvimento das funções psicológicas superiores.

É válido informar que os sistemas simbólicos, principalmente a linguagem, “exercem um papel fundamental na comunicação dos indivíduos e no estabelecimento de significados compartilhados que permitem interpretações de objetos, eventos e situações do mundo real” (OLIVEIRA, 1997, p. 40) e seu desenvolvimento representa um avanço qualitativo na esfera da evolução da espécie.

12Segundo Vygotsky (1991, p. 64) o processo de internalização é resultado de uma série de

transformações que parte do plano interpessoal (entre pessoas) e culmina em um plano intrapessoal (interior do indivíduo), ou seja, as funções psicológicas são resultado da apropriação das ações e pensamentos sócio culturalmente construídos (FONTANA, CRUZ, 1997, p. 61).

40 Diante do exposto é importante discutirmos sobre a perspectiva de aprendizagem para compreendemos o papel e a importância do trabalho centrado na concepção de zona de desenvolvimento proximal.

2.1.2 O aprendizado segundo Vygotsky: um instrumento que impulsiona o

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