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Instrumentos para a garantia da qualidade

A garantia da qualidade constitui um elemento essencial em qualquer indústria ou processo produtivo,

já que estabelece um vínculo entre as intenções (definição de níveis da qualidade baseados em

critérios de segurança, normas, regulamentos, etc.) e a sua materialização. Correntemente, a definição

de qualidade encontra-se associada à conformidade com os requisitos, à adequação ao uso, e à aptidão

para a finalidade ou à satisfação do cliente.

A qualidade de qualquer processo construtivo passa por uma boa definição das exigências conceptuais

do projecto e pela sua transposição para a fase de execução, na selecção de processos e técnicas, na

qualidade intrínseca dos materiais e dos componentes a incorporar na obra e na adequada qualificação

dos diversos intervenientes [2.4].

A indústria da construção dispõe de vários instrumentos de apoio à implementação de acções de

garantia da qualidade, nomeadamente: a legislação de base, que abrange os regulamentos e as

directivas comunitárias, a actividade de normalização, a actividade de homologação de sistemas e

produtos da construção, a actividade de certificação de produtos e de sistemas da qualidade de

empresas, e a actividade de revisão do projecto [2.4].

Assim, importa salientar a importância da Directiva dos Produtos para a Construção (DPC) [2.15], a

qual introduziu novos deveres para os clientes e projectistas. O conceito que enforma a Directiva

a produzir e disponibilizar informação detalhada, bem como a elevar os padrões de segurança e saúde

em cada projecto, estando subjacente a este conceito que sejam disponibilizados os recursos

apropriados para atingir os fins propostos.

As oportunidades criadas a partir da Directiva surgem assim de modo relevante, porquanto se baseiam

num projecto de gestão sólido e numa filosofia holística da gestão do risco.

Todavia, as regulamentações foram, em geral, interpretadas pela indústria de um modo simplista,

frequentemente não aplicadas ou aplicadas de modo isolado, esvaziando-se assim o objectivo para que foram

criadas. Acresce que nem sempre as regulamentações da Directiva foram transpostas para o direito nacional

do modo mais óbvio e prático, deixando margem para diferentes interpretações e considerandos [2.16].

2.4.1.Aprovações técnicas europeias

A Directiva sobre os Produtos da Construção estabelece um mecanismo através do qual é atribuída

uma marcação CE aos produtos considerados aptos a serem usados, assinalando a sua conformidade

com as especificações técnicas aplicáveis e a presunção da sua aptidão ao uso.

Sendo obrigatório que um produto posto à venda na UE respeite as Directivas que se lhe aplicam, um

fabricante dispõe de três tipos de especificações técnicas que lhe permitem demonstrar a conformidade

do produto com os requisitos essenciais estabelecidos [2.4]:

 Normas nacionais correspondentes à transposição de normas europeias harmonizadas;

 Aprovações técnicas europeias (apreciações técnicas favoráveis de aptidão ao uso dos

produtos não normalizados, estabelecidas com base na satisfação das exigências essenciais das

obras onde esses produtos sejam incorporados);

 Especificações técnicas nacionais reconhecidas a nível comunitário, desde que não existam

normas harmonizadas.

As Aprovações Técnicas Europeias (ATE) podem ser concedidas nos casos em não existam ainda normas

europeias harmonizadas sobre o produto em questão, se a Comissão Europeia considerar que não existem ainda

condições para o desenvolvimento destas normas, ou se o produto apresentar desvios importantes relativamente

às normas harmonizadas existentes. As ATE são concedidas por organismos designados para o efeito pelos

respectivos estados membros, os quais se agrupam na Organização Europeia de Aprovação Técnica (EOTA –

European Organisation for Technical Approvals), criada em 1990 em cumprimento da DPC.

Portugal encontra-se representado na EOTA através do Laboratório Nacional de Engenharia Civil

(LNEC). As Aprovações Técnicas Europeias são válidas para todos os países da União Europeia por

um período de cinco anos, que pode ser posteriormente renovado.

2.4.2.Homologação de produtos e sistemas de construção

As origens da homologação de produtos, sistemas ou processos de construção fundamentam-se no

Regulamento Geral das Edificações Urbanas (RGEU), de 1951, que no seu artigo 17º condiciona a um

parecer do LNEC a aplicação de novos materiais de construção, para os quais não existam

especificações oficiais nem suficiente prática de utilização.

O documento de homologação (DH) de um produto ou sistema inclui, para além da decisão de homologação,

uma descrição geral, a enumeração das suas características, a apreciação, o campo de aplicação, regras para o

seu armazenamento, transporte e aplicação em obra, e as características e respectivas tolerâncias a avaliar no

âmbito da realização de ensaios de recepção [2.4]. Os DH são, em geral, válidos por três anos.

O LNEC concede também homologações com certificação. Neste caso, a produção dos materiais,

produtos ou sistemas é submetida a controlo interno permanente, da responsabilidade do fabricante. O

LNEC, por sua vez, realiza um controlo externo, que inclui a realização de visitas anuais, sem aviso

prévio, às instalações de fabrico, para auditar as condições de produção e os resultados do controlo da

qualidade do fabricante, e para proceder à eventual recolha de amostras para posterior ensaio no

LNEC. Neste caso, o Documento de Homologação não tem limite de validade previamente definido,

considerando-se válido enquanto se mantiverem as condições de produção e forem satisfatórios os

resultados dos ensaios e verificações promovidos pelo LNEC no âmbito da certificação [2.4].

2.4.3.A qualidade no processo de construção de estruturas provisórias

Os requisitos da qualidade que se colocam na execução de projectos de estruturas provisórias são, no

mínimo, os aplicáveis ao projecto de qualquer estrutura de engenharia civil. A definição de níveis da

qualidade é de grande importância, pois permite fazer uma quantificação e avaliação técnica precisas da

qualidade pretendida e dos objectivos definidos para cada situação [2.4]. Em particular, referem-se os

requisitos de resistência mecânica e estabilidade, estipulados na Directiva sobre os Produtos da

Construção [2.15], segundo os quais qualquer obra deve ser concebida e construída de modo que as

forças susceptíveis de agir, durante a sua construção e a sua utilização, não produzam nenhum dos

acontecimentos seguintes: (i) desabamento total ou parcial da obra, (ii) deformações de grau

inadmissível, (iii) danos noutras partes da obra, das instalações ou do equipamento instalado, como

resultado de deformações importantes dos elementos resistentes, e (iv) danos desproporcionados

relativamente à sua causa primeira, resultantes de acontecimentos acidentais. A obra deve ser concebida

e construída de modo a não apresentar riscos inaceitáveis de acidentes durante a sua utilização ou

funcionamento, nomeadamente riscos de escorregamento e de queda de materiais ou pessoas.

Correntemente, é no caderno de encargos que se encontram expressos pelo projectista, de uma forma

técnica e quantificável, os níveis da qualidade exigidos pelo cliente. É neste documento que se encontra

condensada toda a informação relativa à selecção de materiais, às exigências que têm de satisfazer e à

forma da sua verificação, através de planos de inspecção e ensaio, com definição de regras para a sua

aceitação e rejeição. É ainda neste documento que se definem as formas de executar os trabalhos,

visando o cumprimento dos objectivos consignados nas peças desenhadas dos projectos. Porém, apesar

da reconhecida importância dos cadernos de encargos, verifica-se que a sua elaboração é muitas vezes

pouco ajustada à obra em questão, por falta de tempo ou por ignorância [2.4].

Ao nível do empreiteiro e, em particular, da direcção da obra, a qualidade da construção depende muito da

sua capacidade técnica e da organização do trabalho, utilizando de forma inteligente todo o potencial de

recursos humanos envolvidos e responsabilizando o pessoal pelos resultados da sua actividade.

A escassa formação do pessoal operário constitui uma das causas da falta de qualidade das estruturas provisórias.