onde{Aj}, j= 1,2, . . . , n´e uma parti¸c˜ao de [0, t] comAj ∈Bpara cadaj. Dessa forma, como{Aj}
´
e uma sequˆencia disjunta temos que f2=
n
X
j=1
α2j1Aj, g2 =
n
X
j=1
βj21Aj e f g=
n
X
j=1
αjβj1Aj.
Assim, pelo lema (4.10) e pela desigualdade de Cauchy-Schwarz
t
Z
0
f g d|µJωM,NK|=
n
X
j=1
αjβj|µJωM,NK|(Aj)
≤
n
X
j=1
α2jµJωMK(Aj)
1 2
n
X
j=1
βj2µJωNK(Aj)
1 2
=
t
Z
0
f2dµJωMK
1 2
t
Z
0
g2dµJωNK
1 2
,
como quer´ıamos.
Dos resultados anteriores, provamos o
Teorema 4.12. Sejam M, N martingais locais cont´ınuos, U e H processos mensur´aveis. Ent˜ao para t≥0 vale a desigualdade de Kunita-Watanabe
t
Z
0
|U H(s, ω)|V
JM,NK(ds, ω)≤
t
Z
0
U2(s, ω)JMK(ds, ω)
1 2
t
Z
0
H2(s, ω)JNK(ds, ω)
1 2
,
para quase todoω ∈Ω.
4.3 Integra¸c˜ao estoc´astica com respeito a semi-martingais
da convergˆencia mon´otona queR∞
0 1Γ(s,·) JMK(ds,·) ´e F-mensur´avel e E
lim
n→∞
n
Z
0
1Γ(s,·) JMK(ds,·)
=E
∞
Z
0
1Γ(s,·) JMK(ds,·)
.
Motivados por essa discuss˜ao temos a seguinte
Defini¸c˜ao 4.13. Definimos a medida de D´oleansgerada pela varia¸c˜ao quadr´atica do martingal local cont´ınuo M como a medida αM em σ BR+×F
dada por
αM(Γ) .
=E
∞
Z
0
1ΓdJMK
.
Defini¸c˜ao 4.14. SejaMum martingal local cont´ınuo. Denotaremos porL2(M)o espa¸co das classes de equivalˆencias de fun¸c˜oes de quadrado integr´avel e progressivamente mensur´aveis definidas no espa¸co de medida (R+×Ω,Pg, αM) isto ´e, L2(M) = L2(R+×Ω,Pg, αM). Denotaremos por k·kM a norma no espa¸co de Hilbert L2(M)
kXkM .
= v u u t
Z
R+×Ω
X2dαM= v u u u tE
∞
Z
0
X2dJMK
.
Proposi¸c˜ao 4.15. Sejaτ um tempo de parada. Ent˜aokHk2Mτ =w
wH1[[0,τ]]
w w
2
M, ou sejaH∈ L2(Mτ) se e somente se H1[[0,τ]] ∈ L2(M) para cada processo progresivamente mensur´avel H.
Demonstra¸c˜ao. De fato, pela proposi¸c˜ao 4.4 - item iii) temos para todo t ≥ 0, H2•JMτK
t= H21[[0,τ]]
•JMK
t. Assim, fazendot→ ∞
∞
Z
0
H2(s, ω) JMτK(ds, ω) =
∞
Z
0
H21[[0,τ]](s, ω)JMK(ds, ω) =
τ(ω)
Z
0
H2(s, ω) JMK(ds, ω).
Lema 4.16. Sejam M um martingal local cont´ınuo e H∈ L2(M). Ent˜ao para qualquer N∈ cH2,
temos que H∈ L1(JM,NK), isto ´e,
∞
Z
0
|H(s, ω)||µJωM,NK|(ds)<∞ (4.9)
e o processoH•JM,NKest´a bem definido, ´e cont´ınuo e de varia¸c˜ao limitada.
Demonstra¸c˜ao. Pela proposi¸c˜ao3.16podemos supor queJM,NK´e um processo cont´ınuo e de varia¸c˜ao limitada. Agora, pelo proposi¸c˜ao 3.21 segue que E(JNK(∞)) < ∞, em particular, JNK(∞) < ∞, P−q.s.e como H∈ L2(M), segue que R∞
0 H2(s, ω)dJMK(ds, ω) <∞, P−q.s. Pela desigualdade de Kunita-Watanabe∗ resulta que
∞
Z
0
|H(s, ω)||µJωM,NK|(ds)≤
∞
Z
0
H2(s, ω)µJωMK(ds)
1 2
∞
Z
0
12µJωNK(ds)
1 2
=
∞
Z
0
H2(s, ω)µJωMK(ds)
1 2
(JNK(∞))12
<∞,
para quase todo ω ∈ Ω e portanto (4.9) ´e v´alido. O fato do processo estar bem definido segue do teorema 4.1e a continuidade e varia¸c˜ao limitada seguem da proposi¸c˜ao 4.4.
O pr´oximo resultado ´e fundamental. Ele garante a existˆencia da integral estoc´astica de um processo em L2(M) com respeito `a um martingal local cont´ınuoM.
Teorema 4.17. SejaMum martingal local cont´ınuo eH∈ L2(M). Ent˜ao existe um ´unico martingal local cont´ınuo I tal que
JI,NK=H•JM,NK (4.10)
para qualquer martingal local cont´ınuo N. Denotamos I .
=H•M. Al´em disso, I∈ cH20, ´e bilinear em H e M e a aplica¸c˜ao H ∈ L2(M) 7→ H•M ∈ cH20 ´e uma isometria linear. ´E a chamada de Isometria de Itˆo.
∗ Veja o teorema4.12na p´agina74.
Demonstra¸c˜ao. Vamos come¸car provando a unicidade. Suponha que existam dois martingais locais cont´ınuos Ie L ambos satisfazendo (4.10). Temos que
JI−L,NK=JI,NK−JL,NK= 0 (4.11) para qualquer martingal local cont´ınuoN. Assim, tome em particularN=I−Lem (4.11) e ficamos com JI−LK= 0. Resulta pelo teorema de Fisk∗ que I−L ´e constante e como I(0,·) = L(0,·) = 0 para todoω∈Ω, provamos a unicidade.
Agora a existˆencia. Vamos supor inicialmente que N ∈ cH02. Pelas desigualdades de Kunita-Watanabe e H¨older, temos que
E
∞
Z
0
H(s, ω) JM,NK(ds, ω)
≤
E
v u u u t
∞
Z
0
H2(s, ω)JMK(ds, ω) v u u u t
∞
Z
0
1JNK(ds, ω)
≤ w w w w w w
∞
Z
0
H2(s, ω) JMK(ds, ω) w w w w w w2
w w w w w w
∞
Z
0
1 JNK(ds, ω) w w w w w w2
=kHkMp
E(JNK(∞)).
Como N ∈cH20, pela proposi¸c˜ao 3.21 temos que E(JNK(∞))< ∞ e pelo corol´ario 3.22 segue que pE(JNK(∞)) =kNkH2 <∞. Desta forma, ficamos com
E
∞
Z
0
H(s, ω) JM,NK(ds, ω)
≤ kHkMkNkH2 <∞, (4.12)
ou seja,R∞
0 H(s, ω) JM,NK(ds, ω)<∞, P−q.s.Agora considere o funcional ΦH: cH20 →Rdefinido como
ΦH(N) =E
∞
Z
0
H(s, ω) JM,NK(ds, ω)
.
Por (4.12), temos que ΦH ´e limitado e portanto cont´ınuo. Al´em disso, pela bilinearidade da co-varia¸c˜ao quadr´atica e da integral† X•JM,NK, resulta que ΦH ´e um funcional linear cont´ınuo no espa¸co de Hilbert‡ cH20. Pelo teorema de representa¸c˜ao de Riesz, existe um ´unico elementoI∈cH20
∗ Veja o teorema3.6na p´agina35. † Veja a proposi¸c˜ao4.4. ‡ Veja a proposi¸c˜ao2.40na p´agina23.
tal que para qualquer N∈cH02,
E
∞
Z
0
H(s, ω) JM,NK(ds, ω)
= Φ. H(N) =hI,NicH2 =E(I(∞)N(∞)).
Vamos verificar agora que
JI,NK=H•JM,NK. (4.13)
ComoH´e progressivamente mensur´avel, segue pelo teorema 4.1que H•JM,NK´e adaptado e pela proposi¸c˜ao4.4segue queH•JM,NK´e cont´ınuo e de varia¸c˜ao limitada. Al´em disso (H•JM,NK) (0, ω) = 0 para todo ω∈Ω. Afirmamos que para provar (4.13) ´e suficiente provar que
X .
=IN−H•JM,NK
´
e um martingal local. De fato, I e N s˜ao martingais locais cont´ınuos, segue pela proposi¸c˜ao 3.16 que JI,NK ´e o ´unico processo cont´ınuo de varia¸c˜ao limitada tal que IN−JI,NK ´e um martingal local cont´ınuo. Dessa unicidade resulta (4.13). Ent˜ao nossa tarefa agora ´e mostrar que X ´e um martingal local cont´ınuo. Vamos mostrar em particular que X ´e um martingal. De acordo com a proposi¸c˜ao2.37na p´agina21, basta mostrar que para qualquer tempo de parada limitadoτ, vale que X(τ)∈L1 e E(X(τ)) =E(X(0)) = 0 ou, equivalentemente
E(I(τ)N(τ)) =E((H•JM,NK) (τ)). (4.14) De fato, temos que (H•JM,NK) (τ)∈L1 poisHsatisfaz (4.9), al´em disso comoI eN pertencem a H2, temos pela desigualdade de Doob∗
E
sup
t≥0
|I(t)|2
≤4 sup
t≥0
E I2(t) .
= 4kIk2H2 <∞ e an´alogamente
E
sup
t≥0
|N(t)|2
≤4 sup
t≥0
E N2(t) .
= 4kNk2H2 <∞
e portanto I(τ)N(τ) ∈L1. Com isso provamos queX(τ) ∈L1. Agora vamos provar a rela¸c˜ao 4.14.
∗ Veja o teorema2.27na p´agina18.
Para isso observe os seguintes fatos: (1) Pelo corol´ario 2.38, o processo paradoNτ pertence `a cH02 e assim, pelo teorema de convergˆencia de Doob∗ podemos considerar a vari´avel aleat´oriaNτ(∞) em L2 que obviamente satisfaz a rela¸c˜ao Nτ(∞) =N(τ). (2) ComoI∈cH20 ,I ´e um martingal uniforme-mente integr´avel† e assim pelo teorema2.36,I(τ) =E(I(∞)||Fτ). (3) ComoN´e progressivamente mensur´avel (pois ´e cont´ınuo), temos pelo teorema 2.23 que N(τ) ´e Fτ-mensur´avel. Agora, desses fatos, temos que
E(I(τ)N(τ)) =E(E(I(∞)||Fτ)N(τ)) =E(E(I(∞)N(τ)||Fτ)). Pelo teorema C.11na p´agina 161, vem
E(E(I(∞)N(τ)||Fτ)) =E(I(∞)N(τ)), e assim, ficamos com
E(I(τ)N(τ)) =E(I(∞)N(τ))
=E(I(∞)Nτ(∞))
= Φ. H(Nτ)
=E((H•JM,NτK) (∞))
=E((H•JM,NK
τ) (∞))
=E((H•JM,NK)τ(∞))
=E((H•JM,NK) (τ)),
onde usamos as proposi¸c˜oes 3.20e 4.4para justificar a quinta e sexta igualdade respectivamente.
O leitor deve estar lembrado que no in´ıcio da demonstra¸c˜ao supomos N ∈ cH02. Para provar o teorema precisamos relaxar esta hipot´ese. Assim, seja N um martingal local cont´ınuo tal que N(0) = 0 para todo ω ∈ Ω. Pela proposi¸c˜ao 2.52, existe uma sequˆencia localizadora {τn} tal que Nτn ´e uniformemente limitado, em particular, Nτn ∈ cH20 para todo n ∈ N. Novamente pelas proposi¸c˜oes3.20 e4.4, temos para qualquern∈N
JI,NK
τn =JI,NτnK=H•JM,NτnK= (H•JM,NK)τn.
∗ Veja o teorema2.35na p´agina20. † Veja o teoremaB.8.
Fazendo n → ∞ obtemos (4.13). Finalmente, pela proposi¸c˜ao 3.29 na p´agina 58 - item v), temos que trocando N por N−N(0) o resultado cont´ınua v´alido e assim provamos o resultado para N martingal local qualquer.
Agora vamos provar a Isometria de Itˆo. Considere a aplica¸c˜ao H∈ L2(M)7→I=H•M∈cH20. Vamos inicialmente mostrar a linearidade, isto ´e paraH1,H2 ∈ L2(M) eα, β ∈R
(αH1+βH2)•M=α(H1•M) +β(H2•M).
De fato, como αH1+βH2 ∈ L2(M), temos que (αH1+βH2)•M ´e o ´unico processo em cH20 tal que para qualquer martingal local cont´ınuo N,
J(αH1+βH2)•M,NK= (αH1+βH2)•JM,NK
=αH1•JM,NK+βH2•JM,NK, mas por outro lado,
Jα(H1•M) +β(H2•M),NK=Jα(H1•M),NK+Jβ(H2•M),NK
=αJH1•M,NK+βJH2•M,NK
=αH1•JM,NK+βH2•JM,NK.
Donde segue a linearidade (e a bilinearidade pelo mesmo argumento). Agora, para a propriedade isom´etrica, como I∈cH20, pelo corol´ario 3.22 na p´agina56
kIk2H2 =E I2(∞)
= ΦH(I) =E((H•JM,IK) (∞)). (4.15) Como vale que H•JM,NK=JI,NKpara qualquer Nmartingal local cont´ınuo, tome em particular
N=I=H•M. Assim e usando o teorema4.7, temos que H•JM,IK
=. H•JM,H•MK
=JH•M,H•MK
=H•JM,H•MK
=H•JH•M,MK
=H•(H•JM,MK)
=H2•JMK. Dessa maneira (4.15) fica
kIk2H2 =E((H•JM,IK) (∞))
=E H2•JMK (∞)
=E
∞
Z
0
H2(s, ω) JMK(ds, ω)
=. kHk2M, e est´a provado o resultado.
Defini¸c˜ao 4.18. Nas condi¸c˜oes do teorema anterior, o martingal H•M´e chamado de Integral de Itˆo de H com respeito aM e tamb´em ´e denotada por
·
Z
0
H(s)dM(s).
Observe que ainda n˜ao ´e claro o motivo da nota¸c˜ao com o s´ımbolo de uma integral. Tratare-mos disso adiante neste cap´ıtulo. O pr´oximo lema ser´a ut´ıl na demonstra¸c˜ao da propriedade da associatividade da integral estoc´astica.
Lema 4.19. Sejam Ne Mmartingais locais cont´ınuos e H∈ L2(M) eK∈ L2(N). Ent˜ao i) JH•M,K•NK(t, ω) =Rt
0(HK)(s, ω) JM,NK(ds, ω), ii) JH•MK(t, ω) =Rt
0 H2(s, ω)
JMK(ds, ω).
Demonstra¸c˜ao. Inicialmente note queii segue de i. Basta tomarK=He N=M. Vamos come¸car a provar imostrando que HK∈ L1(JM,NK). De fato, pela desigualdade de Kunita-Watanabe,
∞
Z
0
|HK(s, ω)|V
JM,NK(ds, ω)≤ v u u u t
∞
Z
0
H2(s, ω) JMK(ds, ω) v u u u t
∞
Z
0
K2(s, ω) JNK(ds, ω)<∞,
para quase todoω∈Ω.
Agora sejaµJωH•M,NK a medida gerada por JH•M,NK. Temos que µJωH•M,NK([0, t]) =JH•M,NK(t)−JH•M,NK(0)
=H•JM,NK(t)
=
t
Z
0
H(s, ω)JM,NK(ds, ω)
=.
t
Z
0
H(s, ω)µJωM,NK(ds).
Temos que H(s,·) = dµJωH•M,NK
dµJM,NKω
e portanto resulta
t
Z
0
(HK)(s, ω)µJωM,NK(ds) =
t
Z
0
K(s, ω)µJωH•M,NK
=K•JH•M,NK
=K•JN,H•MK
=JK•N,H•MK.
Teorema 4.20. Seja M um martingal local cont´ınuo, K ∈ L2(M) e H ∈ L2(K•M). Ent˜ao HK∈ L2(M) e vale a propriedade associativa: H•(K•M) = (HK)•M.
Demonstra¸c˜ao. Seja µJωK•MK a medida gerada pelas trajet´orias do processo JK•MK. Temos pelo
lema anterior que
µJωK•MK([0, t]) =JK•MK(t)
=
t
Z
0
K2(s, ω) JMK(ds, ω)
=.
t
Z
0
K2(s, ω)µJωMK(ds).
Assim,K2(s,·) = dµJωK•MK
dµJMKω
. Temos portanto que
kHKk2M=E
∞
Z
0
((HK)(s, ω))2
µJωMK(ds)
=E
∞
Z
0
(H(s, ω))2
µJωK•MK(ds)
=kHk2K•M <∞.
Segue queHK∈ L2(M) e pelo teorema4.17, existe um ´unico processoHK•M∈cH20, tal que para qualquer martingal local cont´ınuo N
JHK•M,NK=HK•JM,NK.
Agora, note que como K ∈ L2(M) e H∈ L2(K•M), segue pelo lema 4.16 que K∈ L1loc(JM,NK) e H∈ L1loc(JK•M,NK) ou sejaH∈ L1loc(K•JM,NK). Estamos sob as hip´oteses do teorema4.7 e, portanto
JHK,•NK=HK•JM,NK=H•(K•JM,NK) =H•JK•M,NK.
Mas, H•K•M ´e o ´unico processo tal que JH•(K•M),NK = H•JK•M,NK. Disso resulta HK•M=H•K•M, como quer´ıamos.
Nosso objetivo ´e estender a integral de Itˆo para integradores que sejam semi-martingais. O primeiro passo ser´a estender a classe dos processos integrantes. Para isso, precisaremos da seguinte
propriedade:
Proposi¸c˜ao 4.21. Sejam M um martingal local cont´ınuo, H ∈ L2(M) e τ um tempo de parada arbitr´ario, ent˜ao∗
Hτ •Mτ =H•(Mτ) = 1[0,τ]H
•M= (H•M)τ. Demonstra¸c˜ao. SejaNum martingal local cont´ınuo arbitr´ario.
i) H•Mτ = (H•M)τ.
Pela proposi¸c˜ao 3.20, temos que
J(H•M)τ,NK=JH•M,NτK=H•JM,NτK=H•JMτ,NK. Por outro lado, comoH•Mτ ´e o ´unico processo tal que
JH•Mτ,NK=H•JMτ,NK, segue queH•Mτ = (H•M)τ.
ii) Hτ•Mτ = (H•M)τ.
Basta observar que, novamente, pela proposi¸c˜ao 3.20, vem
JHτ •Mτ,NK=Hτ •JMτ,NK=Hτ•JM,NK
τ,
e comoτ ´e arbitr´ario, da unicidade da integral estoc´astica de Itˆo resultaHτ•Mτ = (H•M)τ.
iii) 1[0,τ]H
•M= (H•M)τ.
Observe que 1[0,τ]H ∈ L2(M) e que JM,NK ´e um processo de varia¸c˜ao limitada. Podemos ent˜ao usar a proposi¸c˜ao 4.4-iiie concluir que
JH•Mτ,NK=H•JMτ,NK
=H•JM,NK
τ
=1[0,τ]H•JM,NK
=q
1[0,τ]H•M,Ny .
∗ Lembre a defini¸c˜ao de intervalo estoc´astico [0, τ]. Defini¸c˜ao4.3na p´agina65.
Agora, da bilineridade da co-varia¸c˜ao quadr´atica, resulta que para qualquer martingal local cont´ınuoN
qH•Mτ−1[0,τ]H•M,Ny
= 0, em particular
qH•Mτ−1[0,τ]H•My
= 0.
Assim, pelo teorema de Fisk∗ e do fato dos processos se anularem emt= 0, resulta a igualdade desejada.
A integral de Itˆo para martingais locais cont´ınuos estendida
SejaM um martingal local cont´ınuo. Vamos definir um espa¸co maior para nossos integrandos.
Defini¸c˜ao 4.22. Definimos o espa¸co L2loc(M) como o conjunto de todos processos progressivamente mensur´aveis H tais que existe uma sequˆencia localizadora{τn}n≥1 de tempos de parada tal que
E
τn
Z
0
H2(s, ω) JMK(ds, ω)
<∞.
Note que pelo Teorema 4.21, temos
E
τn
Z
0
H2(s, ω) JMK(ds, ω)
=E
∞
Z
0
1[0,τn]H2(s, ω) JMK(ds, ω)
=E 1[0,τn]X2•M
=E X2•Mτn
=E
∞
Z
0
X2(s, ω) JMK
τn
=E
∞
Z
0
X2(s, ω) JMτnK
,
∗ Veja o teorema3.6na p´agina35.
onde na ´ultima igualdade usamos a proposi¸c˜ao 3.13 na p´agina 47. Essas igualdades explicitam algumas condi¸c˜oes equivalentes para um processo pertencer `a classe L2loc(M). Observamos tamb´em a inclus˜aoL2(M)⊆ L2loc(M). Vamos dar mais uma caracteriza¸c˜ao de processos emL2loc(M).
Proposi¸c˜ao 4.23. SejaHum processo progressivamente mensur´avel eMum martingal local cont´ınuo.
Se Rt
0 H2(s, ω)JMK(ds, ω)<∞, P-q.s.para cada t≥0 ent˜aoH∈ L2loc(M).
Demonstra¸c˜ao. Pela proposi¸c˜ao4.4, temos que o processo H2•JMK´e cont´ınuo e se anula emt= 0.
Defina os tempos de parada
τn .
= inf
t≥0
t
Z
0
H2(s, ω) JMK(ds, ω) ou |Mt|> n
.
Temos que τn ↑ ∞ e Rτn
0 H2(s, ω) JMK(ds, ω), P-q.s. Para n > |M0|, Mτn ´e um martingal local cont´ınuo com|Mτn| ≤n. Pelo corol´ario2.56na p´agina31temos queMτn´e um martingal, alem disso, da limita¸c˜ao uniforme tamb´em resulta queMτn ∈cH2. Assim,kHk2Mτn =E Rτn
0 H2(s, ω) JMK(s, ω)
≤ ne consequentemente temos para todon≥1 queH∈ L2(Mτn). Disso resulta queH∈ L2loc(M).
O objetivo agora ser´a definir a integral estoc´astica para processosH∈ L2loc(M). Antes precisamos de um lema.
Lema 4.24. Seja{Xn} uma sequˆencia de martingais cont´ınuos e {τn} uma sequˆencia de tempos de parada tais que τn↑ ∞ P-q.s.e Xτn+1n =Xn, n≥1. Ent˜ao existe um ´unico processo adaptadoX tal que para todon≥1, Xτn =Xn. Al´em disso, X ´e um martingal local cont´ınuo.
Demonstra¸c˜ao. Vamos provar primeiro a existˆencia. Seja Λ um conjunto de medida nula tal que paraω ∈Λc, temos que τn(ω)↑ ∞ eXn+1τn (t, ω) =Xn(t, ω), para todot≥0, n≥1. Considere
[0, τn]∩([0,∞)×Λc) .
={(t, ω)∈[0,∞)×Ω : 0≤t≤τn(ω)} ∩ {(t, ω)∈[0,∞)×Λc}.
Temos que [0, τn]∩([0,∞)×Λc)↑([0,∞)×Λc) quandoncresce. Assim, definaX: ([0,∞)×Ω)→R por
X .
=
Xn em [0, τn]∩([0,∞)×Λc), 0 em ([0,∞)×Ω)\([0,∞)×Λc).
Dessa forma, temos que X(t) =Xn(t) paraω ∈[t≥τn]∩([0,∞)×Λc), e assim X(t, ω) = lim
n→∞Xn(t, ω),
paraω∈Λc, ou seja, P-q.s.Como cadaXn(t) ´eFt-mensur´avel eFtcont´em os conjuntos de medida nula, resulta queX(t) tamb´em ´eFt-mensur´avel. Ou seja, provamos queXassim definido ´e adaptado.
Pela sua pr´opria constru¸c˜ao, para ω∈Λcas traj´etorias deX s˜ao as traj´etorias deXn nos intervalos [0, τn] e portanto cont´ınuas, al´em disso, como X ´e constante casoω /∈Λc, resulta que o processo X
´
e cont´ınuo. Agora note que a condi¸c˜aoXτn+1n =Xn implica que Xτnn =Xn, disso e da constru¸c˜ao de X resulta que para cada t ≥ 0 e ω ∈ Λc, Xτn(t) = Xnτn(t) = Xn(t). Resulta como quer´ıamos que Xτn =Xn. Como por hip´otese{Xn}´e um martingal temos queX´e de fato um martingal local.
Para provar a unicidade, suponha queXeYsejam dois processos satisfazendoXτn =Xn=Yτn, n ≥1. Pelo resultado de existˆencia, isso implica que para qualquer t≥ 0, Xτn(t) =Xnτn = Yτn(t) em Λc, isto ´e, P-q.s.Fazendo n↑ ∞, resulta queX(t) =Y(t), P-q.s.. Isso implica que os processos s˜ao indistingu´ıveis∗.
Teorema 4.25. Sejam M um martingal local cont´ınuo e H ∈ L2loc(M). Ent˜ao H ∈ L1loc(JM,NK) para cada martingal local cont´ınuoNe existe um ´unico martingal local cont´ınuo denotado porH•M tal que (H•M)(0) = 0 para todo ω ∈Ω e JH•M,NK=H•JM,NKpara qualquer martingal local cont´ınuo N.
Demonstra¸c˜ao. Em primeiro lugar, temos pela desigualdade de Kunita-Watanabe e pelas observa¸c˜oes feitas ap´os a defini¸c˜ao do espa¸coL2loc(M), que para qualquer t≥0 e quase todo ω∈Ω,
t
Z
0
|H(s, ω)|V
JM,NK(ds, ω)≤(JNK(t))12
t
Z
0
H2(s, ω) JMK(ds, ω)
1 2
<∞
e portanto H ∈ L1loc(JM,NK). A unicidade do processo H•M ´e provada da mesma forma que no teorema 4.17.
Para a existˆencia, note que como H ∈ L2loc(M), existe uma sequˆencia localizadora de tempos de parada {τn} tal que H ∈ L2(Mτn), para todo n ≥ 1. Assim pelo teorema 4.17 a sequˆencia de processos {In}, onde In .
= H•Mτn ´e tal que In ∈ cH20, para cada n ≥ 1. Al´em disso, pela
∗ Veja a proposi¸c˜ao2.3.
proposi¸c˜ao 4.21temos para todon≥1,
Iτn+1n = (H•Mτn+1)τn
=H•(Mτn+1)τn
=H•Mτn
=. In.
Assim, pelo lema anterior, existe um martingal local cont´ınuo Ital que Iτn =In=H•Mτn. Logo, para qualquer martingal local cont´ınuoN, temos pelas proposi¸c˜oes 3.20e 4.21 que
JI,NK
τn =JIτn,NK=JH•Mτn,NK
=H•JMτn,NK=H•JM,NK
τn
= (H•JM,NK)τn.
Como esta igualdade vale para qualquern≥1, fazendo n↑ ∞, resulta que JI,NK=JH•M,NK=H•JM,NK.
Observe que se M∈cH2 ent˜aoL2(M)⊆ L2loc(M) e para cada H∈ L2(M) as integrais definidas nos teoremas4.17 e 4.25coincidem. Por este motivo, obtemos
Teorema 4.26. Sejam M,Nmartingais locais cont´ınuos,H∈ L2loc eτ um tempo de parada. Ent˜ao H•M´e bilinear em He Me
Hτ •Mτ =H•(Mτ) = 1[0,τ]H
•M= (H•M)τ.
Agora vamos provar que tamb´em vale a propriedade associativa. Procedemos como na subse¸c˜ao anterior. A demonstra¸c˜ao do pr´oximo lema ´e igual a demonstrac˜ao do lema 4.19 e por isso ser´a omitida.
Lema 4.27. Sejam Ne Mmartingais locais cont´ınuos e H∈ L2loc(M) eK∈ L2loc(N). Ent˜ao i) JH•M,K•NK(t, ω) =Rt
0(HK)(s, ω) JM,NK(ds, ω),
ii) JH•MK(t, ω) =Rt
0 H2(s, ω)
JMK(ds, ω).
Teorema 4.28. Seja M um martingal local cont´ınuo, K ∈ L2loc(M) e H ∈ L2loc(K•M). Ent˜ao HK∈ L2loc(M) e vale a propriedade associativa: H•(K•M) = (HK)•M.
Demonstra¸c˜ao. Da mesma maneira como na demonstra¸c˜ao do teorema4.20, seja K2(s,·) = dµJK•MKω
dµJωMK
. Assim,
t
Z
0
(HK)2(s, ω)µJωMK(ds) =
t
Z
0
H2(s, ω)µJωK•MK(ds),
como H ∈ L2loc(K•M) segue que a ´ultima integral ´e finita q.s. para qualquer t ≥ 0, e portanto HK∈ L2loc(M). Assim, pelo teorema4.25, o processo (HK)•Mest´a bem definido e ´e um martingal local cont´ınuo. Ainda por este mesmo teorema, segue queK∈ L1loc(JM,NK) eH∈ L1loc(JK•M,NK).
Agora, o resultado segue como no teorema 4.20.
Vamos introduzir um outro espa¸co, importante para aplica¸c˜oes no cap´ıtulo 5.
Defini¸c˜ao 4.29. Seja Mum martingal local cont´ınuo. Definimos o espa¸co Λ2(M)como o espa¸co de todos os processos progressivamente mensur´aveis H tais que
E
t
Z
0
H2(s, ω)
JMK(ds, ω)
<∞, ∀t≥0 ou, equivalentemente
E
n
Z
0
H2(s, ω)
JMK(ds, ω)
=w
w1[0,n]Hw w
2
M <∞, ∀n≥1.
Note que Λ2(M) ´e o espa¸co de todos os processos progressivamente mensur´aveis tais que1[0,n]H∈ L2(M). Se H∈ Λ2(M) ent˜ao∗ 1[0,n]H∈ L2(M) e portanto (H•M)n = 1[0,n]H
•M∈ H02, para todo n≥1. Disso segue que H•M´e um martingal de quadrado integr´avel.
∗ Veja a proposi¸c˜ao4.21.
A integral de Itˆo para semi-martingais cont´ınuos
SejaXum semi-martingal cont´ınuo. Lembramos que isto significa queXadmite a decomposi¸c˜ao X=M+A
onde M ´e um martingal local cont´ınuo, A ´e um processo adaptado cont´ınuo `a direita de varia¸c˜ao finita que se anula em t= 0 e esta decomposi¸c˜ao ´e ´unica∗.
Defini¸c˜ao 4.30. Definimos o espa¸co L(X) como o conjunto de todos os processos progressivamente mensur´aveis H tais que
t
Z
0
H2(s, ω) JMK(ds, ω) +
t
Z
0
|H(s, ω)|VA(ds, ω)<∞
para quase todoω ∈Ωe todot≥0. Em outras palavras,L(X) .
=L2loc(M)∩L1loc(A). ParaH∈ L(X), definimos a integral estoc´astica de Itˆo H•X por
H•X=H•M+H•A.
Assim, para o caso de um integrador X semi-martingal, o tratamento da integral estoc´astica ´e reduzido aos casos previamente estudados. Note que comoH•M´e martingal local eH•A´e processo adaptado cont´ınuo `a direita de varia¸c˜ao limitada segue que H•X ´e um semi-martingal cont´ınuo.
Vamos reunir as principais propriedades da integral estoc´astica para semi-martingais cont´ınuos.
Teorema 4.31. SejamX, Y semi-martingais cont´ınuos,H∈ L(X)eτ um tempo de parada. Ent˜ao H•M´e um semi-martingal cont´ınuo, nulo em t= 0, bilinear emH eM, e valem
Hτ •Mτ =H•(Mτ) = 1[0,τ]H
•M= (H•M)τ,
JH•X,K•YK(t, ω) =
t
Z
0
(HK)(s, ω)JX,YK(ds, ω),
∗ Veja a proposi¸c˜ao3.24na p´agina56.
JH•XK(t, ω) =
t
Z
0
H2(s, ω)
JXK(ds, ω) e tamb´em ´e v´alida a propriedadeJH•X,YK=H•JX,YK.
Demonstra¸c˜ao. Essas propriedades seguem, basicamente, combinando o teorema4.26, proposi¸c˜ao4.4 e o lema4.27. Vamos explicitar a demonstra¸c˜ao da ´ultima propriedade citada. De fato, considere as decomposi¸c˜oes X=M+Ae Y=N+B. Temos queH∈ L2loc(M)∩ L1loc(A). Disso vem que
JH•X,YK=JH•M+H•A,N+BK.
Agora, pela proposi¸c˜ao 3.29na p´agina 58 - itemv), podemos tirar os termos de varia¸c˜ao limitada e assim
JH•X,YK=JH•M,NK.
Mas, pelo teorema4.25temos queJH•M,NK=H•JM,NKe pela defini¸c˜ao de covaria¸c˜ao quadr´atica para semi-martingais∗ JM,NK=JX,YK, assim, resulta que
JH•X,YK=H•JM,NK=H•JX,YK, como quer´ıamos.
Proposi¸c˜ao 4.32. Sejam X um semi-martingal cont´ınuo e H,H0 ∈ L(X). Se He H0 forem indis-tingu´ıveis ent˜aoH•X eH0•X tamb´em o s˜ao.
Demonstra¸c˜ao. Defina Y .
=H−H0. Temos que as trajet´oriast7→ Y(t, ω) s˜ao identicamente nulas para todo ω no complementar de um conjunto de medida P-nula. Devemos mostrar que Y •X ´e indistingu´ıvel do processo nulo. Pelo teorema 4.31, temos que Y •X ´e cont´ınuo e portanto pela proposi¸c˜ao 2.3 na p´agina 6, basta mostrar que Y•X ´e uma modifica¸c˜ao do processo nulo, isto ´e, basta mostrar que para cada t≥0, (Y•X)t= 0, P-q.s.
Se X for um processo de varia¸c˜ao finita, o resultado segue pela defini¸c˜ao ω-a-ω da integral estoc´astica para processos de varia¸c˜ao finita. Agora, se X for um martingal local cont´ınuo, ent˜ao,
∗ Veja a defini¸c˜ao3.27na p´agina57.
pelo lema4.27 temos
JY•XKt=
t
Z
0
Y2(s, ω)JXK(ds, ω)
= 0
poisY2(·, ω) = 0, P-q.s.Segue queJY•XK= 0 e portanto, pela proposi¸c˜ao3.13na p´agina47, item iii), segue queY•X´e constante e como (Y•X)0 = 0, segue que (Y•X)t= 0, P-q.s.O caso geral, isto ´e,X um semi-martingal cont´ınuo, resulta da decomposi¸c˜ao semi-martingal de X.
A propriedade associativa para este caso geral ´e um simples corol´ario dos teoremas4.28 e4.7.
Teorema 4.33. Seja X um semi-martingal cont´ınuo. Se K∈ L(X) e H∈ L(K•X) ent˜ao HK∈ L(X) e vale a propriedade associativa H•(K•X) = (HK)•X.