2. BASE TEÓRICA
2.3. INTEGRANDO REDES DE RELACIONAMENTOS E PRÁTICAS
No intuito de promover a integração dos conceitos e noções delineados nesta revisão bibliográfica, bem como evidenciar a forma como se fundem e orientam no presente estudo, propôs-se um modelo integrativo (Figura 2), no qual se apresentam as principais categorias analíticas do estudo e suas relações. Posteriormente discutem-se as prováveis implicações dessa revisão teórica no esclarecimento do problema central desta pesquisa, ou seja, a influência da estrutura de relacionamento da rede de organizações a ser estudada nas práticas de desenvolvimento urbano.
FIGURA 2 – ESTRUTURA E AÇÃO
FONTE: elaborado a partir de discussões com o orientador e análise dos textos que compõem a base teórico-empírica.
A primeira categoria analítica do estudo é resultado do pressuposto da existência de uma rede de relações entre os órgãos responsáveis pelo urbanismo dos municípios que constituem a Região Metropolitana de Curitiba. Esse posicionamento fundamenta-se nos estudos de vários cientistas, entre os quais se destacam Castells (1999) e Alvarez (1994), que concluem por um novo modelo organizacional que ultrapassa os limites de uma única organização: cumpre formar redes organizacionais, para vencer a instabilidade ambiental com a formação de relações entre organizações. Esta fundamentação fica mais adequada e sedimentada na afirmação de Gulati (1998): mesmo que duas organizações formem uma aliança na busca de objetivos comuns, elas necessariamente irão relacionar-se com outras organizações que vivem em um mesmo ambiente institucional.
Da mesma forma, ao estudar campos organizacioanais, Machado-da-Silva, Guarido Filho e Rossoni (2006) identificam a perspectiva teórica, entre outras, de que campo define uma reconhecida área de atividade social ou econômica: os atores estabelecem relacionamentos entre si, não envolvidos somente em relações de trocas, mas em uma estrutura de relacionamentos, ou rede, que configura suas ações e delimita suas possibilidades (DIMAGGIO, 1992; SCOTT, 1991).
No intuito de melhor compreenderem essas redes, cientistas, como Oliver (1990) e Aldrich e Whetten (1981), apontam algumas condições e razões para a existência desses agregados organizacionais. Já outros têm direcionado esforços para a natureza e para os fatores que estão presentes nos relacionamentos, como Faerman, McCaffrey e Slyke (2001): estes se atêm mais aos processos de cooperação interorganizacional, enquanto, por outro lado, Meyer e Rowan (1991),
Práticas de desenvolvimento
urbano Estrutura de
Relacionamento
da rede Interpretação
Bourdieu e Wacquant (1992) e Pfeffer (1982) investigam o conflito para predizer as dinâmicas das relações interorganizacionais.
Diante dessas considerações e dos diversos estudos apresentados na base teórica, recorre-se a Giddens (1989) e admite-se que a rede a ser estudada pode ser constituída de relações de naturezas diversas, contendo entre outros: conflito, competição, cooperação e relação de poder, que constituem interações que interferem nas definições e redefinições das estruturas institucionais e dos isomorfismos (Giddens, 1989; Machado-da-Silva e Coser, 2006).
Nesse contexto surgem os estudos de análise de redes sociais, permitindo medir estruturas e sistemas, quase impossíveis de serem descritos sem conceitos relacionais. Ela pode prover tanto uma análise descritiva quanto testes de hipóteses sobre propriedades estruturais (HANNEMAN, 2001; HANNEMAN e RIDDLE, 2005;
WASSERMAN e FAUST, 1994), com fundamentos que proporcionam fortes possibilidades de análise dos relacionamentos.
A rede a ser pesquisada pode ser analisada com auxílio de softwares, que utilizam matrizes sociométricas e diversos algoritmos apropriados, além de permitir a visualização final das redes sociais constituídas. Entre esses programas computacionais destaca-se o UCINET que, na opinião de Scott, J. (2000), é um dos melhores entre os disponíveis.
Quanto à segunda categoria analítica considerada neste estudo, pressupõe-se que a estrutura de relacionamento da rede incide na estruturação de práticas, inicialmente por meio da interpretação das relações interorganizacionais que constituem a rede. Esta assertiva é fundamentada na afirmação de Scott (2001), em que todos os atores, individuais ou coletivos, possuem algum grau de agência, sendo esta, por si só, socialmente estruturada. Entre o contexto e a resposta está o ator que interpreta. Assim, a agência reside no “processo interpretativo por meio do qual escolhas são imaginadas, avaliadas e contigencialmente reconstruídas por atores, em progressivo diálogo com situações desveladas” ( SCOTT, R., 2001, p.
76). Nesse sentido Giddens (2003) deixa claro que o ator monitora reflexivamente a própria experiência e de seus contextos de ação, bem como a própria capacidade de interagir com outros e produzir efeitos no mundo social (GIDDENS 2003). Para agir e reconstruir a estrutura, inevitavelmente os fatores contextuais vão passar pela interpretação do agente.
Concordando com a teoria de Giddens (1978), é importante que se assuma a definição de que práticas organizacionais são ações regularizadas e recorrentes de atores sociais que continuamente constroem e reconstroem um sistema social espaciotemporalmente delimitado. Nelas, ressaltam-se características de durabilidade dinâmica, recursividade e refexividade.
Para Giddens (1978), investigar os processos de estruturação das práticas sociais é procurar explicar como as estruturas são constituídas pela ação, e reciprocamente como a ação é constituída estruturalmente (Figura 2). A estruturação de práticas refere-se abstratamente ao processo dinâmico pelo qual as estruturas passam a existir (GIDDENS, 1978). Esse processo envolve uma interação de significados, normas e poder (GIDDENS, 1978). Cabe, portanto, ao pesquisador desvendar o nível de participação dessas dimensões (Figura 3): a significação, a legitimação e dominação, no processo de estruturação da rede examinada neste estudo e das práticas de desenvolvimento urbano, como prática social. Portanto a recursividade entre estrutura e ação fundamenta o próprio processo por meio do qual ambos emergem, permeados por configurações contínuas de interpretação.
FIGURA 3 – DUALIDADE DA ESTRUTURA EM INTERAÇÃO
Fonte: Giddens (2003, p. 34)
Segundo Giddens (2003), a dualidade da estrutura em interação é composta pela associação do domínio da estrutura ao domínio da ação humana por meio das três modalidades indicadas como categorias intermediárias na figura 3: esquema interpretativo, facilidade (recurso) e norma. São categorias responsáveis pela interação de estrutura e ação (propriedades de interação), relacionando as capacidades cognitivas dos agentes com as características estruturais. As modalidades compreendem o meio concreto pelo qual os agentes fazem uso das regras e recursos em um contexto específico. Como pode ser visto na Figura 3, os
três elementos acima (significação, dominação e legitimação) são caracterizações da estrutura e os três elementos abaixo (comunicação, poder e sanção) são os elementos de interação ou da ação humana, nos quais há uma modalidade e uma forma de interação para cada elemento estrutural. Apesar da distinção feita em categorias no que se refere tanto à estrutura quanto à interação; Giddens (1978, 2003) afirma que estas distinções são puramente analíticas. Portanto estruturas de significação devem ser apreendidas em conexão com dominação e legitimação, tanto como comunicação, poder e sanção.
De acordo com Giddens (1978), as três modalidades operam da seguinte maneira: a comunicação do significado na interação envolve o uso de esquemas interpretativos por meio dos quais os agentes interpretam o que os outros dizem ou fazem. A aplicação desses esquemas depende de uma ordem cognitiva compartilhada pela comunidade que possibilite a incorporação de significado por parte dos atores. Enquanto o ator utiliza essa ordem cognitiva, a aplicação dos esquemas interpretativos reconstitui essa ordem. O uso do poder na interação envolve a aplicação de facilidades ou recursos pelos quais os agentes são capazes de gerar resultados, afetando a conduta dos outros. Para Giddens (2003), esses recursos são entendidos de duas formas: (1) recursos alocativos, que são os recursos materiais envolvidos na geração de poder, mais intimamente relacionados ao ambiente natural e à dominação da natureza; (2) recursos autoritários: recursos não-materiais derivados da capacidade de tirar proveito das atividades de outros, ou seja, o domínio de alguns atores sobre outros. As facilidades tanto se inserem em uma ordem de dominação, como, na medida em que são aplicadas, reproduzem tal ordem. Por fim, a constituição moral da interação envolve a aplicação de normas, que são derivadas de uma ordem legítima, sendo reconstituída por sua aplicação, por meio do uso da sanção (GIDDENS, 1978, 2003).
Em suma, para Giddens (1978, p. 131), “as estruturas de significado podem ser analisadas como sistemas de regras semânticas; as de dominação como sistemas de recursos; as de legitimação como sistemas de regras morais [sanções]”
que, em qualquer situação concreta de interação, os membros de dada coletividade usam como modalidade de produção, porém de forma integrada.
Uma vez expostas as principais considerações teóricas relativas ao tema de estudo, em que ficaram evidenciadas as necessárias abordagens da análise de
redes, da teoria institucional e da teoria da estruturação na explicação das relações encontradas entre as categorias analíticas, a próxima parte desta dissertação é dedicada aos aspectos metodológicos que orientaram a investigação empírica do problema de pesquisa proposto.