A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL COMO ELEMENTO ESSENCIAL PARA ESTÍMULO DE BOAS PRÁTICAS

No documento VISÕES INTERDISCIPLINARES SOBRE POLÍTICAS PÚBLICAS VOL. 1 (páginas 161-169)

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E O COMPLIANCE TRIBUTÁRIO

3. A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL COMO ELEMENTO ESSENCIAL PARA ESTÍMULO DE BOAS PRÁTICAS

FISCAIS E MEIO PARA ALCANCE DA TRIBUTAÇÃO ÓTIMA

O aprendizado das máquinas conseguiu criar, ao longo do tempo, suas próprias regras, não mais se restringindo à programação e execução de uma tarefa imposta por um humano. O processo de aprendizagem da inteligência artificial passou a prever que uma máquina se comportasse de forma que seria denominada de inteligente se um ser vivo se comportasse igualmente (J. MACCARTHY, 1995, p. 5). Logo, a sua essência não se trata de apenas armazenar dados, devendo adequá-los e criar interpreta-ções em diversos contextos; realizando generalizainterpreta-ções sequenciais basea-das em experiências prévias.

O termo “inteligência artificial” foi difundido em 1956 por John Mc-Carthy durante uma conferência de tecnologia na universidade estadu-nidense Dartmouth College, apesar de ter sido discutido precipuamente em 1950 por Alan Turing – desenvolvedor do Teste de Turing, no qual a pesquisa consistia em saber em que momento uma máquina exibiria um comportamento inteligente semelhante ao humano, inclusive se passando por um e enganando os interlocutores.

Os sistemas inteligentes são capazes de exibir comportamentos mais flexíveis do que os próprios humanos. Desse modo, em razão da evidente transformação que os entes artificiais causam no tecido social, é imprescindível a atuação jurídica para informar políticas de regula-ção das manifestações e intervenções da inteligência social nas relações sociais. Embora ainteligência artificial tenhapotencial de, em certas tarefas, realizar atividades mais eficientes e, até mesmo de superar o raciocínio humano, por outro lado, ela é limitada e apresenta déficits em relaçãoà capacidade humana, sendo ideal para objetivos específicos,

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como atividades repetitivas, que necessitem de atenção e memória, não logrando tanto êxito em atividades que exijam habilidades multitarefa (TEIXEIRA; CHELIGA, 2020).

O Prêmio Nobel Ronald Coase tratou sobre o custo das relações so-ciais e como as externalidades negativas influenciam as relações obriga-cionais, de modo a alterar o custo de interações equivalentes realizadas por contratantes diferentes, pois as tratativas negociais envolvidas nessas relações dependem do lastro subjetivo de cada parte que está a se rela-cionar com a outra. Basicamente, o Teorema de Coase (COASE, 1960, p. 33) ensina que negociar com alguém previamente reconhecido como desonesto é mais oneroso e custoso do que contratar com alguém honesto, pois o risco dessa relação negocial tem um custo que precisa ser considera-do no valor das relações sociais e, consequente, nas relações empresariais.

O ser humano há muitos anos busca encontrar novos meios de repli-car a capacidade de raciocínio tentando compreender como a capacidade cerebral humana funciona e qual a melhor forma de transformá-la em um instrumento mecanizado. Não é exagero apontar que até mesmo Klaus Schwab (2016, p. 47) afirma que grande parte da população acredita que essa imersão digital é um resquício da terceira revolução industrial, mas já desenvolvendo uma percepção positiva da quarta, vistas a velocidade em que evolução se apresenta de forma exponencial e na amplitude das mais diferentes áreas (sejam econômicas, sociais, individuais e até mesmo, negociais).

Também, a linha de pensamento que ao utilizar máquinas como fa-cilitador de atividades repetitivas pode ocasionar a substituição humana e gerar a perda de empregos, mas, de fato, “se não houvesse os programas de IA esses trabalhos não existiriam porque o trabalho humano adicionaria um custo inaceitável às transações” (RUSSEL; NORVIG, 2013, p. 1188).

Isso porque a automação digital estimulou a criação de emprego com re-munerações mais elevadas. Uma das maiores empresas de tecnologia do mundo, a IBM, criou um supercomputador com inteligência artificial, denominada de Watson – em referência ao auxiliar do detetive criado por Arthur Conan Doyle, Sherlock Holmes. Com seu uso, ocorrerá um au-mento da produtividade, processando milhões de dados enquanto o pro-fissional se decida a tarefas de alto valor:

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A inteligência artificial tende a revolucionar a economia nos próxi-mos anos, incrementando a produção de bens e serviços. Bem ver-dade que os algoritmos de IA têm encontrado alguma dificulver-dade para replicar parte das habilidades intelectuais humanas, distantes dos processos cognitivos avançados, como o raciocínio analógico, base da prática legal. Os trabalhos de alta complexidade jurídica, portanto, ainda são pouco afetados, mas aqueles relacionados aos modelos binários já estão sendo decifrados pelas máquinas. (ZIL-VETI, 2019, p. 485).

Diversas formas de utilização desses sistemas binários de alta tecno-logia transforma a Administração Pública, conferindo maior agilidade e eficácia à arrecadação e, com isso, transferindo menor incidência tributá-ria aos contribuintes; conferindo maior equidade na distribuição de bens fiscais. A transparência é um pressuposto essencial para estimular a con-fiabilidade da Administração Pública em relação aos contribuintes, de-vendo as informações armazenadas nos sistemas de dados, o seu tempo de utilização e suas finalidades estar facilmente fundamentadas e auditadas por julgadores humanos, bem como sendo passíveis de revisão quando apurados prejuízos das partes.

As tecnologias devem servir ao ser humano, compartilhando bene-fícios e cumprindo com sua função social ao distribuir a prosperidade econômica em que irá afetar a coletividade e, quando entendemos que a informalidade produz efeitos perversos – prejudicando o contribuinte ho-nesto, que arcará com a elevação das alíquotas dos tributos, tendo em vista a inadimplência do sonegador – o desempenho adequado dos serviços pú-blicos e o uso das ferramentas tecnologias por parte do Estado depende de uma correta arrecadação tributária que supra, de forma satisfatória, as ne-cessidades de receita (MOTA, 2013, p. 168). A Administração Tributária nunca teve acesso a tantas informações do contribuinte como na atualida-de. Os dados dos contribuintes são todos enviados ao Fisco, conhecidos como produto do lançamento por homologação, somados aos pagamentos eletrônicos, faturas digitais, recebíveis digitais e máquinas de pagamento, além de outras soluções financeiras; sem muitas vezes, reconhecer que o preenchimento de tantas informações pode levar a recolhimentos indevi-dos e maiores transtornos aos contribuintes.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os avanços globais da economia digital, em que empresas se tor-naram voláteis e operam sem apego a fronteiras ou nacionalidades, apresentam um novo e fértil campo para intelectuais e estudiosos dos mais distintos campos, incluindo o Direito e, mais especificamente, em suas ramificações fiscais e tributárias. Aparenta ser inquestionável a urgência de reinventar conceitos tradicionais e políticas fiscais até então atreladas a elementos tangíveis e de simples identificação, como o novo caminho para tributar esse presente e crescente realidade da in-dústria, mercado e sociedade. Uma realidade que desafia a criatividade de pesquisadores e acadêmicos, e tira o sono do Fisco, que encontra cada vez mais empecilhos em identificar tributos incidentes, as formas de fiscalizá-los e cobrá-los.

É importante a análise dos critérios utilizados pelo Fisco para im-plementação dos sistemas de Inteligência Artificial, vez que não se sabe ao certo quais características e informações são levadas em consideração para fiscalizar um indivíduo ou tomar uma decisão. Assim, a ausência de transparência algorítmica causa notória insegurança jurídica, haja vista a possibilidade de enviesamento dos algoritmos, resultando em decisões discriminatórias e com isso, a forma com que o Fisco trata os contribuin-tes é muito distante de um Sistema Tributário saudável que mantem sua carga tributária de forma equânime.

É utópico o ideal de existência de uma sociedade justa, igualitária e fraterna sem que o Estado forneça políticas públicas de qualidade, inclusi-ve as de distribuição de renda. Para isso, é fundamental uma eficiente ação fiscalizadora que se complementa e se torna efetiva com ações ágeis da fiscalização, punindo e repreendendo aqueles que não cumprem com suas obrigações tributárias. Entretanto igualmente importante é recompensar aqueles que, com sacrifício e comprometimento social, honram os seus compromissos, lembrando que a sonegação em grande parte das vezes é produto de um descompromisso com uma sociedade mais justa e, com isso o compliance aliado à inteligência artificial tem o papel de agir como importante fator que busque alterar essa relação de modo a torná-la mais conforme e eficaz.

ROSÂNGELA TREMEL (ORGS.)

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