Foto 26 − Telhado de palha
3.1 INTERDISCIPLINARIDADE
Em nossa primeira visita de campo na aldeia de Barra Velha, identificamos desenhos (padrões geométricos) confeccionados pelos índios em seus corpos, nas suas residências, nos espaços de lazer e principalmente em escolas, tanto nas salas de aula, quanto na parte externa da escola. Esses desenhos têm características (padrões) geométrica (o)s, temas que envolvem animais e meio ambiente, são bastante coloridos e, segundo os habitantes dessas aldeias, são saberes passados pelos anciões. A partir dessa narrativa entendemos que seria viável trabalharmos na perspectiva interdisciplinar, envolvendo as disciplinas de História, Matemática, Língua Portuguesa e Artes, pois, havia uma relação muito mais próxima da Matemática com a Arte do que meramente os formatos retangular, octogonal ou dodecagonal das construções residenciais habitacionais.
Uma relação interdisciplinar que pode ser explorada em prol do desenvolvimento integral dos alunos, na sua produção de conhecimento e, consequentemente, à transformação social, possibilitando a inserção, dos mesmos, no mundo do trabalho, das relações sociais e da cultura.
Matemática, História e Arte são disciplinas que, juntas, podem cooperar de maneira a tornar o estudo da Geometria, do Espaço e da forma, mais contextualizado, engajado e comprometido com a realidade em nossas escolas, assim como propiciar através de ações, em que são utilizadas a arte e a cultura pataxó para o desenvolvimento dos alunos, possibilitando que estabeleçam diversas relações da Matemática com outras áreas do conhecimento e, em particular com a Arte, mostrando que é possível fazer com que diversas áreas do conhecimento caminhem juntas ao longo da história e o quanto têm sido essenciais à transformação dos povos.
A Geometria tem tido pouco destaque nas aulas de Matemática e, muitas vezes, confunde-se seu ensino com o das medidas. Em que pese seu abandono, ela desempenha um papel fundamental no currículo, na medida em que possibilita ao aluno desenvolver um tipo de pensamento particular para compreender, descrever e representar, de forma organizada, o mundo em que vive. Também é fato que as questões geométricas costumam despertar o interesse dos adolescentes e jovens de modo natural e espontâneo. Além disso, é um campo fértil de situações-problema que favorece o desenvolvimento da capacidade para argumentar e construir demonstrações. (BRASIL, 1998c, p.122).
Como ferramenta de leitura do mundo a Matemática pode se fazer presente nos mais diferentes ramos da atividade humana, possibilitando uma leitura crítica das relações homem-sociedade. Assim,
a Matemática contribui para o desenvolvimento de processos de pensamento e a aquisição de atitudes, cuja utilidade e alcance transcendem o âmbito da própria Matemática, podendo formar no aluno a capacidade de resolver problemas genuínos, gerando hábitos de investigação, proporcionando confiança e desprendimento para analisar e enfrentar situações novas, propiciando a formação de uma visão ampla e científica da realidade, a percepção da beleza e da harmonia, o desenvolvimento da criatividade e de outras capacidades pessoais. (BRASIL, 1998e, p.40).
A Arte ao valorizar o crescimento do universo cultural dos indivíduos abrindo também espaço à participação social. Entendemos que todo produto artístico emerge da história, faz parte de contextos sociais, políticos, filosóficos, religiosos, históricos e culturais. Por meio do estudo da arte de outros povos é possível então desenvolver respeito e valores que governam os diferentes tipos de relações entre os indivíduos de cada sociedade e em diferentes épocas. Ao conhecer e valorizar a própria cultura, um indivíduo constrói sua identidade pessoal e social. Deste modo, entramos em consonância com D’Ambrosio ao defender que:
as dimensões são mais reconhecidas e interpretadas nas teorias do conhecimento, a sensorial, a intuitiva, a emocional e a racional [...] o conhecimento religioso é favorecido pelas dimensões intuitiva e emocional, enquanto o conhecimento científico é favorecido pelo racional, e o emocional prevalece nas artes. Naturalmente essas dimensões não são dicotomizadas nem hierarquizadas, mas são complementares. Desse modo, não há interrupção [...] as dicotomias corpo/mente, matéria/espírito, manual/intelectual e outras tantas que se impregnaram no mundo moderno são meras artificialidades (D’AMBROSIO, 1996, p.21-22). Em processos de ensino e de aprendizagem em que Álgebra, Geometria, Aritmética, Artes, Religião, História, Política, Ecologia, dentre outras áreas do conhecimento, não deveriam ser estudadas de forma disjunta, desconectadas, é que abordamos as ideias de Japiassu (1976), que coloca a interdisciplinaridade como solução à fragmentação do saber e que vem ao encontro das aspirações de aprendizagens em Matemática comprometidas com uma realidade socioambiental e como ferramenta de leitura do mundo (CHAVES 2004), para que, segundo Patrick Geddes23,
23 (1854-1923), biólogo e filósofo escocês, considerado o pai da Educação Ambiental, conhecido por seu pensamento inovador nos campos do planejamento urbano e da educação.
um aluno em contato com a realidade do seu ambiente desenvolve atitudes criativas em relação ao mesmo, cabendo aos professores desempenhar o papel de interlocutores de uma educação que incorpore uma análise da realidade socioambiental opondo-se aquela em que o aluno é levado a ignorar as consequências dos seus atos. (CHAVES; VITÓRIA; NOVAIS, 2015, p.248-249).
Para Japiassu (1976) atitudes e propostas como esta facultam levar o aluno a processos de ensino e de aprendizagem de maneira que ele produza conhecimento a partir de uma relação entre duas ou mais áreas do conhecimento que podem trabalhar juntas de forma a promover a aprendizagem não apenas da Matemática ou de Artes ou de História, mas propiciar uma formação integral do indivíduo (Paideia) para viver em sociedade comprometendo-se com suas ações e com as consequências de seus atos.
Ainda em Japiassu (1976), podemos dizer que a interdisciplinaridade se apresenta sobre a forma de um tríplice protesto:
a) Contra um saber fragmentado, em migalhas, pulverizado numa multiplicidade crescente de especialidades, em que cada uma se fecha como que para fugir ao “verdadeiro” conhecimento;
b) Contra o divórcio crescente, ou esquizofrenia intelectual, entre uma universidade cada vez mais compartimentada, dividida subdividida, setorizada e subsetorizada, e a sociedade em sua realidade dinâmica e concreta, onde a “verdadeira vida” sempre é percebida como um todo complexo e indissociável. Ao mesmo tempo, porém, contra essa própria sociedade, na medida em que ela faz tudo o que pode para limitar e condicionar os indivíduos a funções estreitas e repetitivas, para aliená-los de si mesmos, impedindo-os de desenvolver e fazer desabrochar todas as suas potencialidades e aspirações mais vitais;
c) Contra o conformismo das situações adquiridas e das “ideias recebidas” ou impostas.
De um ponto de vista epistemológico, os trabalhos interdisciplinares podem surgir de duas preocupações fundamentais: a primeira, relativa às estruturas e aos mecanismos comuns às diferentes disciplinas que são chamadas a ingressar em um processo de interação ou de colaboração; a segunda relativa aos possíveis métodos comuns a serem instaurados para as disciplinas cooperantes.
Japiassu (1976) diz que a interdisciplinaridade caracteriza-se pela intensidade das trocas entre os especialistas e pelo grau de integração real das disciplinas no interior de um mesmo projeto. A interdisciplinaridade visa à recuperação da unidade humana pela passagem de uma subjetividade para uma intersubjetividade e, assim sendo, recupera a ideia primeira de cultura (formação do homem total), o papel da escola (formação do homem inserido em sua realidade) e o papel do homem (agente das mudanças do mundo). Portanto, mais do que identificar um conceito para interdisciplinaridade, o que os autores buscam é encontrar seu sentido epistemológico, seu papel e suas implicações sobre o processo do conhecer. Partindo do pressuposto apresentado no texto em questão, de que a interdisciplinaridade se caracteriza pela intensidade das trocas entre os especialistas e pelo grau de integração real das disciplinas no interior de um mesmo projeto de pesquisa, exige-se que as disciplinas, em seu processo constante e desejável de interpenetração, se fecundem cada vez mais reciprocamente. Para tanto, é imprescindível a complementaridade dos métodos, dos conceitos, das estruturas e dos axiomas sobre os quais se fundam as diversas práticas pedagógicas das disciplinas científicas.
do ponto de vista integrador, a interdisciplinaridade requer equilíbrio entre amplitude, profundidade e síntese. A amplitude assegura uma larga base de conhecimento e informação. A profundidade assegura o requisito disciplinar e/ou conhecimento e informação interdisciplinar para a tarefa a ser executada. A síntese assegura o processo integrador. (JAPIASSU, 1976, p.65-66).
Para efeito de esclarecimento é importante que deixemos bem claro a definição do que vem a ser interdisciplinaridade para que a confusão que se faz entre este termo e os demais sejam esclarecidos até mesmo para que possamos, à medida que tomamos conhecimento dos outros, possamos afastar qualquer definição errônea a respeito do que vem a ser uma abordagem interdisciplinar.
Poderíamos a título de primeira aproximação, propor uma distinção entre multi e pluridisciplinar, de um lado, e interdisciplinar, do outro. Todavia, guardaremos como mais próprio para exprimir o papel atual da epistemologia das ciências humanas o termo “interdisciplinar”, só aceitando os demais na medida em que nos ajudarem a compreender o que é o primeiro. Por isso, devemos afastar como inadequado o termo “multidisciplinar”, pois só evoca uma simples justaposição, num trabalho determinado, dos recursos de várias disciplinas, sem implicar necessariamente um trabalho de equipe e coordenado. Quando nos situamos no nível do simples multidisciplinar, a solução de um problema só exige informações tomadas de empréstimo a duas ou mais
especialidades 26 ou setores de conhecimento, sem que as disciplinas levadas a contribuírem por aquela que as utiliza sejam modificadas ou enriquecidas. Em outros termos, a démarche multidisciplinar consiste em estudar um objeto sobre diferentes ângulos, mas sem que tenha necessariamente havido um acordo prévio sobre os métodos a seguir ou sobre os conceitos a serem utilizados. (JAPIASSU, 1976, p.72-73). A exigência interdisciplinar, conforme George Gusdorf24, que impõe a cada especialista que transcenda sua própria especialidade, tomando consciência de seus próprios limites para acolher as contribuições das outras áreas do conhecimento.
Para o entendimento do processo interdisciplinar, que adotaremos em nossa pesquisa é importante também conhecer alguns termos, seus significados e sentidos como:
Disciplinaridade significa a exploração científica especializada de determinado
domínio homogêneo de estudo; isto é, o conjunto sistemático e organizado de conhecimentos que apresentam características próprias nos planos do ensino, da formação, dos métodos e das matérias; esta exploração consiste em fazer surgir novos conhecimentos que se substituem aos antigos (JAPIASSU, 1976, p.72). Já, multidisciplinaridade é entendida como uma gama de disciplinas, mas sem relação entre elas. Basta um diálogo paralelo entre dois ou mais especialistas e que justaponham os resultados para que ela aconteça. É como se elas ficassem nesta posição, cada retângulo representa uma disciplina:
Figura 2 – Configuração da Multidisciplinaridade Segundo Jupiassu (1976).
Fonte: Jupiassu (1976, p.73)
Por pluridisciplinaridade entendemos a justaposição de diversas disciplinas, mas com relação, interligação entre elas. Exemplo:
24 George Gusdorf elaborou o primeiro programa interdisciplinar, o “projeto de pesquisa interdisciplinar nas ciências humanas”, reconhece como normal que uma pedagogia da especialização forme especialistas cada vez mais especializados. Daí a necessidade de criação de uma nova categoria de pesquisadores com objetivo de criar inteligência e imaginação interdisciplinares.
Figura 3 – Configuração da Pluridisciplinaridade Segundo Jupiassu (1976).
Fonte: Jupiassu (1976, p.74)
A interdisciplinaridade, por sua vez, compõe-se por um grupo de disciplinas conexas e com objetivos comuns. Está em nível superior a disciplina, ou área que coordena e define finalidades. Ocorre intensa troca entre especialistas. O horizonte epistemológico deve ser o campo unitário do conhecimento, a negação e a superação das fronteiras disciplinares, a interação propriamente dita. Ficando assim representado:
Figura 4– Configuração da Interdisciplinaridade Segundo Jupiassu (1976).
Fonte: Jupiassu (1976, p.74)
No entanto, a transdisciplinaridade significa a coordenação de todas as disciplinas com uma finalidade comum dos sistemas. Exemplificando seria:
Figura 5 – Configuração da Transdisciplinaridade Segundo Jupiassu (1976).
Fonte: Jupiassu (1976, p.74)
Dessa forma, entendemos que a interdisciplinaridade caracteriza-se pela intensidade das trocas entre as disciplinas envolvidas e pelo grau de integração real entre elas, levando em consideração a relação entre Matemática, Arte e História. Assim, enxergamos possibilidades de trabalhar determinados conteúdos
matemáticos a partir de uma crescente reciprocidade entre essas áreas do conhecimento à medida que passamos por estágios de cooperação e trocas contínuas, começamos a perceber reciprocidade no intercâmbio, de tal forma, que no final do processo, cada disciplina saia enriquecida. Reconhecemos uma abordagem interdisciplinar todas as vezes que conseguimos fazer com que áreas tidas como diferentes, ou até mesmo antagônicas, se apropriam uma da outra, no que se referem às suas especificidades e características próprias em prol de um projeto que consiste em mostrar como a tarefa de ensinar, do professor de Matemática, pode ser bem-sucedida quando ele aborda determinados conteúdos utilizando, por exemplo, Arte e História como fio condutor para essa aprendizagem. Em Japiassu (1976) constatamos que o papel específico da interdisciplinaridade é de construir pontes em que possamos atravessar as fronteiras entre uma área e outra, cuja história mostra que tais áreas, no passado, eram mais próximas, dialogando entre si possibilitando uma substancial transformação nos processos de ensino e a incorporação de ações que façam conexão com o mundo real de forma a tornar nula a fragmentação do conhecimento à medida que o aluno consiga ver relação entre o saber teórico e sua aplicação seja ela no passado ou no presente ou até mesmo no futuro.
Nossa viagem de estudo à Barra Velha serviu de ponto de partida da proposta desenvolvida na aplicação de uma proposta de atividade interdisciplinar. Porém, como a obra supracitada ressalta, não podemos alimentar ilusões, pois ainda está por ser construída uma teoria do interdisciplinar. Para tanto, talvez fosse preciso confrontar as experiências já realizadas e suscitar novas experiências, a fim de precisar em que condições se fazem as novas descobertas.
Diante isso, partimos para a aplicação dessa proposta, onde o professor de História trabalhou com a história do povo pataxó, a luta desses índios pela terra até os dias atuais e, principalmente, como eram construídas as cabanas pataxó e como atualmente também são construídas através de relatos do professor de cultura da aldeia visitada. O professor de Português trabalhou com os alunos com vistas à produção de texto acerca do que foi relatado sobre essas construções de cabanas no início e meados do século XX e atualmente.
Ainda no trabalho interdisciplinar, os professores de Matemáticas I (Geometria) e II (Álgebra) trabalharam com razões, proporções, semelhança de triângulos, Geometria plana e Geometria de sólidos, referentes à confecção das maquetes com auxílio do professor de Arte, que trabalhou com a construção de maquetes, desenhos e formas pataxó etc.