SUMÁRIO
REDE SOCIAL SOCIEDADE EM REDE
2.2.2 Rede InovarH e Sistema Local de Inovação
2.2.2.2 Interfaces entre o SUS e o Complexo Industrial da Saúde
Para visualizar a articulação do SUS com base na concepção de um sistema de inovação em saúde é necessária uma contextualização das políticas nacionais nesta área.
Os sistemas de saúde modernos são o lugar onde se expressam as intervenções “médico-sanitárias”, em virtude de os mesmos organizarem a prestação de serviços e a utilização de produtos, processos, procedimentos, e normas técnicas. Esses sistemas se caracterizam como estruturas complexas com vistas a manter ou recuperar a saúde de populações humanas (BRASIL, 2007b, p. 14).
A pesquisa em saúde relacionada aos sistemas de inovação torna-se recomendável na resolução de problemas sócio-sanitários complexos. Entende-se que sistemas desta natureza são arranjos institucionais e organizativos complexos, atuando sinergicamente na descoberta de novos produtos e processos para suprir demandas sociais (BRASIL, 2007b). Sob esta ótica, os sistemas setoriais de inovação em saúde são relevantes para as demandas da sociedade. Esses sistemas, isomorfos a redes, integram o complexo industrial da saúde, conforme Figura 2.
Nos setores industriais de saúde, estão inseridas organizações que produzem medicamentos e fármacos, vacinas, dispositivos diagnósticos, hemoderivados e equipamentos médicos, as quais são detentoras de intensa agregação de conhecimentos científicos e tecnológicos. Nos setores prestadores de serviços, encontram-se os hospitais, ambulatórios e serviços de diagnósticos e tratamento, caracterizados como serviços de maior densidade tecnológica, além de uma gama de profissionais (BRASIL, 2007b, p. 22). Nesses serviços, existem profissionais de formações multidisciplinares e multirreferenciais,
18 O conceito da indústria de serviços em saúde configura a região onde o serviço é prestado, isto é, o
aglomerado das organizações. Já a economia da saúde configura o conjunto dessas organizações, as quais estabelecem a intercomunicação entre as regiões onde os serviços são prestados e as regiões onde os demais atores se encontram (serviços de saúde, fornecedores e organismos que estabelecem as políticas de saúde). Tais organizações conformam um aglomerado multiorganizacional, adequado à realidade do conceito dos serviços de saúde, que compreende a macroespacialização, por meio da conexão translocal (MENDES; CUNHA, 2007).
desde a concepção até a operacionalização, configurando a complexidade das elocidades neste tipo de organizações produtivas (CUNHA, 2005).
Figura 2 - Complexo Industrial da Saúde: caracterização geral
Fonte: elaborado fundamentado em Gadelha (2003, p. 524).
Se, por um lado, o segmento prestador de serviços de saúde não é enfatizado na dinâmica econômico-industrial de saúde. Por outro, este é incorporado nesse complexo, seguindo a lógica empresarial e industrial, conformando, assim, a demanda para os demais segmentos. Observa-se que, em particular, os prestadores de serviços se caracterizam como a “base estruturante que permite delimitar a existência de um complexo integrado de atividades na área social” (BRASIL, 2007b, p. 95).
No contexto das políticas públicas brasileiras voltadas às questões da saúde, a construção do SUS pode ser considerada uma inovação. A configuração desse sistema é o marco de um compromisso ético entre Estado e sociedade civil. O SUS constitui uma rede ou malha de interações dinâmicas e complexas, com os objetivos de: a) definir políticas de saúde que integrem ações curativas e preventivas; b) articular as esferas municipal, estadual e federal; c) definir estratégias que orientem o complexo industrial da saúde.
Setores Industriais
Indústrias de Base Mecânica, Eletrônica e de Materiais Equipamentos mecânicos Equipamentos eletroeletrônicos Próteses e órteses Materiais de consumo
Setores Prestadores de Serviços
Hospitais Ambulatórios Serviços de Diagnósticos e Tratamento
Indústrias de Base Química e Biotecnologia
Fármacos
Vacinas
Hemoderivados
Uma vez considerados os hospitais como integrantes do SUS, e considerando que as atividades destes mobilizam o complexo industrial da saúde, pode-se dizer que os hospitais fomentam a “economia” da saúde. Essa economia é de espectro amplo, pois a indústria da saúde se posiciona no contexto da economia mundial, relacionando-se direta e indiretamente com outros setores produtivos, na condição de indutor ou supridor de demandas, gerando agregados à renda e ao produto nacional.
Com base neste enfoque, as premissas de um SLI são pertinentes para a consolidação da proposta inovadora do SUS e vão ao encontro das especulações teóricas sobre inovação tecnológica. A existência de um SLI pressupõe o papel de atores locais (ou regionais) na articulação para a criação de conhecimento tecnológico, por meio de mecanismos formais ou informais, e a inserção desses conhecimentos em sistemas produtivos. Essas articulações necessitam da existência de “um mínimo indispensável de ativos científicos e tecnológicos”, constituídos por meio de instituições de ensino e/ou pesquisa que referendam organizações “inovadoras ou a inovar” (SENDIN; APPOLONI, 2006, p. 1). Tal condição por si só não é suficiente, pois a consequência dessa articulação pressupõe a ação desses ativos para gerar sinergia, proporcionando o desenvolvimento da competitividade sustentável de um dado território (SENDIN; APPOLONI, 2006, p. 1). Estes autores enfatizam, ainda, que nos SLI, ou innovation clusters, é imperiosa a presença de um conjunto de entidades geradoras, captadoras ou adaptadoras de conhecimento científico e tecnológico e, ainda, um ambiente favorável a transformar esse conhecimento em inovação.
A abordagem sobre a inovação tecnológica advém dos estudos de teóricos da economia e da administração. Nesses estudos, são consideradas as elocidades entre aglomerados produtivos, instituições governamentais e organizações científicas como imprescindíveis para fomentar o fluxo do conhecimento e promover o desenvolvimento sustentável de um dado território (ALBAGLI, 2006; BESSANT; TIDD, 2009; CASSIOLATO; LASTRES; SZAFIRO, 2000; LASTRES; CASSIOLATO, 2005; MYTELKA; FARINELLI, 2000; PEREIRA; FREITAS; SAMPAIO, 2007; SUZIGAN; GARCIA; FURTADO, 2002; TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008).
O Brasil compartilha dessa visão e busca promover a inovação por meio de ações públicas, como evidenciado na promulgação da chamada Lei de Inovação (Lei n.° 10.973/04) e no seu decreto de regulamentação de outubro de 2005, com vistas ao alcance da autonomia tecnológica e do pleno desenvolvimento sustentável do País. Essa Lei define
inovação como “introdução de novidade ou aperfeiçoamento no ambiente produtivo ou
social que resulte em novos produtos, processos ou serviços” (BRASIL, 2004, Artigo 2º). No entanto, Leone (1991) preconiza alguns obstáculos para efetivar políticas voltadas à inovação, quais sejam: organizacionais, decisionais e individuais.
[...] organizacionais: pobreza de recursos; gestão centralizada; situação extra- organizacional incontrolável; [...] ausência de atividade de planejamento formal; [...] estratégia intuitiva e pouco formalizada; sistemas de informações simples. [...] decisionais: tomada de decisões intuitivas; horizonte temporal de curto prazo; [...] alto grau de autonomia decisional; [...].
[...] individuais: onipotência do proprietário-dirigente; identidade entre pessoa física e pessoa jurídica; dependência ante certos empregados; influencia pessoal do proprietário-dirigente; [...] propensão a riscos calculados (LEONE, 1991, p. 94, grifo nosso).
Não obstante a tais obstáculos, os SLI não podem estar descolados das assertivas de um Sistema Nacional de Inovação (SNI). Um SNI viabiliza um conjunto de incentivos e recursos, leis e regras, modelando e suportando, genericamente, processos de inovação nas organizações produtivas. No Brasil, o SNI respalda-se em um arcabouço institucional por meio de leis e instrumentos legais, tais como a Lei de Inovação, Lei de Propriedade Industrial e Fundos Setoriais de Fomento à Pesquisa, ao Desenvolvimento e à Inovação. Essas leis, associadas ao conjunto de organizações financiadoras, executoras e reguladoras, tais como ANVISA, INPI, FINEP, CNPq e outras agências de fomento, representam alguns dos componentes do SNI. Nesse contexto, fica sob a responsabilidade dos atores locais (governos, organizações produtivas, academias, centros tecnológicos, fundações estaduais de amparo à pesquisa) atuarem de maneira competente na utilização dos componentes do SNI com a finalidade do desenvolvimento local (SILVA; SUASSUNA; MACIEL, 2009).
Assim, estas concepções de sistema de inovação, seja nacional, seja local, são aderentes às revoluções gerenciais ocorridas a partir de meados do século 20. Elas destacam o fato de que inovação quase sempre surge como fruto da criação e do compartilhamento de conhecimento. Conforme Gadelha (2005), a geração de conhecimentos em saúde nas instituições acadêmicas está intimamente associada às ações do complexo industrial da saúde que, por sua vez, produzem e difundem inovações, trazendo, como consequência, dinamismo econômico e impacto social. Tais assertivas ressaltam o papel dos hospitais como organizações de serviços intensivas em conhecimento.