• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO III: A CIDADE SOB O SIGNO DO PROGRESSO

3.5 Intermezzo: da cidade à ilha

Durante uma de suas viagens de negócios, em vez de deixar a esposa em casa, Mateus Correia aluga-lhe uma pequena casa “na ilha, esperando que o mar lhe desse cores”. (p. 151).

Referindo-se a esse trecho do terceiro romance de Lispector, Olga de Sá, em Clarice Lispector: a travessia do oposto (1993), afirma que a temporada que Lucrécia passa nessa ilha seria uma “espécie de intermezzo”66 (p. 50), durante o qual se realizaria um encontro da protagonista com a paisagem de uma São Geraldo anterior ao progresso.

De fato, tem-se, na ilha, a conformação de um vilarejo que, em alguns aspectos, nos remete à configuração do antigo subúrbio natal da heroína, sem falar na constante presença dos animais, o que acaba por reforçar essa impressão.

Entendendo a ilha, ainda, como uma metáfora do estágio anterior à urbanização, um aspecto nos chama a atenção: levando em conta que esse espaço é, no contexto narrativo do romance, o que mais se aproxima de um cenário rural, e que nele a protagonista reproduz o movimento de errância que perfizera na cidade grande – empolgar-se e, munida de sua expectativa fantasista, conhecer de perto, deparar-ser com a realidade do que idealizara, decepcionar-se e partir –, parece-nos claro que, assim como a cidade grande, com seu bulício, não agradou a Lucrécia, também o campo, com sua calmaria, não iria lhe aprazer os sentidos.

Depois de ter desembarcado na ilha, ela seguiu, a cavalo, em direção à casinha que o marido lhe alugara. Desfilando pela paisagem local,

Os cavalos a carregavam em tropeços e súbitos avanços através do atalho, mas em breve corriam empinando cabeças – em breve a mulher queria que voassem. Alquebrada por algum desejo arrancou mesmo o chapéu e deixou os cabelos desfeitos ao vento. O que desejava dizer com esse gesto só as árvores assistiam, e os cavalos avançavam entre elas. (p. 151-152).

Esse episódio é emblemático do comportamento de Lucrécia: às vezes exagerado, quase sempre teatral. Interessante observar que, justamente nesse espaço insular, que de longe é o que mais lembra uma prisão – o conjunto de terra cercado pela água do mar, por todos os lados –, é que a protagonista, pelo menos nesse início de contato, mais se sentiu livre.

É a primeira vez, ainda, em toda a narrativa, que ela, em vez de “enterrar” o chapéu na cabeça, ou de segurá-lo com ambas as mãos, a fim de que o vento não o leve, tirou-o, deixando, propositadamente, os cabelos soltos (ao vento). Acredito que esse ato indicie uma sede de contato da heroína com a imagem que ela tinha de si mesma em meio a um

cenário natural, bem como demonstra uma liberdade pela qual, estando ela já há algum tempo inconformada com o tédio do matrimônio, ansiava.

Numa tarde em que ela resolvera “passear no descampado” (p. 162), acabou por ver, ao longe, um milharal, e, mesmo sem ter exata noção sobre o que queria de si para si mesma, de algo teve plena certeza: gostaria de, com seu olhar construtor, erigir mais cidades. Tanto é assim que, naquele momento de contemplação da natureza, deu-se conta de que

... o milho no campo era sua vida mais interior. O campo se estendia silencioso; lá estava a outra vida.

Mas olhando aquelas terras onde o espírito ainda era livre, “o quê! terrenos inaproveitados nesta época!”, a mulher prática ainda pensou com teimosia: “Aqui. Aqui eu construiria uma grande cidade”. (p. 162).

Parecem coexistir, no interior da protagonista, duas mulheres conflitantes e complementares: a que tinha, na visão do “milho no campo”, “sua vida mais interior”, e que por isso era capaz de contemplar um milharal a ponto de com ele se identificar, e a figura feminina pragmática, que entrevia, ao olhar esse mesmo milharal, “terrenos” ainda desocupados, “inaproveitados”.

Essas duas figuras femininas, coexistindo no interior de Lucrécia, parecem alegorizar a relação entre ela e os espaços urbano e campestre pelos quais transita: a heroína se encontra, desse modo, tanto vinculada à urbe quanto ao campo, mas, ao mesmo tempo, não se realiza em nenhum desses dois lugares.

Lucrécia Neves, a orgulhosa construtora. Lucrécia Neves, a fugitiva da construção que seu olhar criou, como se deu com São Geraldo. Mas enquanto o sol se punha no

horizonte do milharal, “... sobre a cidade imaginária o vento começou a soprar mais forte e a rodopiar as espigas envolvendo-as em penumbra. Vai chover?” (p. 162).

Como já se observou, sempre, no contexto narrativo de A cidade sitiada, a chuva prenuncia o fim67. Seja o fim da ilusão da personagem, personificada na cidade que se

moderniza aceleradamente, seja o fim de seu devaneio nesse cenário campestre.

Não obstante, a temporada da protagonista na ilha só chegaria ao seu término quando ela, nesse local, atingisse seu intento: seduzir o Dr. Lucas. Numa de suas várias andanças pela ilha, ela havia reencontrado esse médico, homem que, antes de seu casamento com Mateus, despertara-lhe certa atenção. Iniciou-se, então, um ardiloso cerco, por parte de Lucrécia, em relação ao médico, que se mudara para a ilha movido pelo propósito de internar a esposa, esquizofrênica, num sanatório que lá havia.

Durante toda sua temporada na ilha, o comportamento sedutor da heroína sitiou Dr. Lucas, que, ao cabo de algum tempo, rendeu-se ao cerco, ocasião em que os dois “se tocaram enfim”. (p. 174).

O adultério cometido por Lucrécia, segundo creio, não ocorre porque ela seja amoral, assaz namoradeira ou mesmo imoral. Decorre, antes de mais nada, do fato de se tratar de uma personagem que busca algo sem saber exatamente o que seja. Busca que se encontra metaforizada no errante deambular da protagonista pelos espaços narrativos: o subúrbio, o Morro do pasto, a cidade grande, a ilha, e, por fim, o campo para o qual se muda. O problema maior é que, como o próprio narrador observa, em relação a esse

67 Ressalte-se, nesse sentido, que no capítulo 11, “Os primeiros desertores”, em que se narra a deserção de

Perseu da nova e grande cidade em que São Geraldo se tornara, a chuva também teima em cair sobre a urbe, pois “Chovia muito. A chuva nos trilhos ainda desertos tinha um sentido reservado de que ele parecia fazer parte”. (p. 175).

comportamento, ela “Aos poucos já não saberia o que procurava, prosseguia presa apenas pela vertigem de um rosto”. (p. 173-174).

Prosseguia e fugia, porque, apesar de ter flertado insistentemente com Dr. Lucas, após eles terem se tocado, ela, de imediato, fez as malas e retornou para São Geraldo, sem ao menos se despedir do amante circunstancial.

Constata-se, desse modo, que, se por um lado, embora na ilha Lucrécia tenha ficado livre de amarras que, no contexto urbano, acabavam por cercear sua liberdade, o que, em certo sentido, inclusive acabou por favorecer o processo de conquista do médico por ela levado a cabo, por outro lado esse excesso de liberdade era meramente externo, e não algo processado em seu interior: ela continuou presa a si mesma, o que não lhe trazia aprazimento, nem na cidade, nem num espaço cujos contornos eram mais identificados com o campo.