A Revolução Russa, em 1917, gerou grandes implicações no século XX.

Dentre elas, a maior foi o surgimento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1922, a qual foi inspirada no Socialismo científico1 de Marx e Engels. Essa teoria foi criada a partir do socialismo utópico2, com a visão de que poderia se construir uma sociedade mais igualitária pela vontade comum tanto da burguesia quanto dos operários. Contudo, o socialismo científico acreditava que só seria possível atingir esta sociedade utópica, o comunismo, por meio da luta do proletariado e que seria necessário passar pelo socialismo, uma sociedade que estaria entre o capitalismo e o comunismo.

A economia dessa sociedade recém-surgida baseava-se na eliminação da propriedade privada, nacionalização dos meios de produção e planejamento econômico centralizado. A continuidade da exploração do trabalho assalariado e da divisão social do trabalho geraram, no entanto, desigualdade social, à medida que a sociedade estava dividida em duas classes: a burocracia, que cuidava do planejamento, da administração e do controle, e a massa de trabalhadores (produtores), desprovidos do poder de decisão.

A partir do surgimento das sociedades socialistas no início do século XX, o mundo pós-Segunda Guerra Mundial sofreu uma bipolarização. De um lado,

1 O Socialismo científico foi a corrente do socialismo que, a partir de análises científicas, chegou ao

resultado de que uma sociedade mais igualitária poderia sim existir, mas a partir de uma revolução feita pelos operários com a finalidade de colocar os mesmos no poder.

2 O Socialismo utópico foi uma corrente do socialismo que possuía ideias extremamente positivistas quanto ao surgimento das sociedades comunistas. Essa teoria acreditava que as sociedades comunistas surgiriam da boa vontade da burguesia de tornar o mundo mais igualitário e menos injusto.

estavam os países capitalistas, que sofriam influência dos Estados Unidos da América (EUA) e, do outro, os socialistas influenciados pela URSS.

Na década de 1980, a URSS enfrentou uma crise em seu sistema político-econômico. Diante desta situação, Gorbachev propôs a Perestroika3 e a Glasnost4, que consistiam, respectivamente, em reformas econômicas e políticas. Ainda que a Glasnost e a Perestroika tenham sido implementadas, a União Soviética só durou mais alguns anos, já que a mesma teve sua desintegração em 1991, em razão das contradições no sistema político.

Essa desintegração gerou o fim do mundo bipolar e o início do mundo unipolar com hegemonia dos Estados Unidos da América para alguns teóricos como, por exemplo, Charles Krauthammer5 . Para outros, como Waltz e Layne6, esse foi o início do mundo multipolar, ou seja, cada país ou países possuem influências específicas em determinados países ou zonas globais. Alguns exemplos seriam os Estados Unidos, como potência militar e econômica, Japão, como potência tecnológica, países da Europa, como potências econômicas, etc.

Diante disso, o trabalho estuda os efeitos da globalização na economia da Estônia, Letônia, Lituânia e Rússia após a crise de 2008. Essa globalização, segundo Joseph E. Stiglitz em seu livro “Globalização- a grande desilusão”, de 2004, consiste na abertura dos mercados e na integração econômica, social e cultural de todos os países do mundo.

Como ponto de partida, utiliza-se a declaração de Rawi Abdelal, professor da Harvard Business School que, em seu livro “National Purpose in the World Economy:

Post-Soviet States in Comparative Perspective”, afirmou:

Até o fim da década de 90, dez anos após o término da URSS, os Estados pós-Soviéticos se organizaram em três grupos definidos pelo seu comportamento em relação à Rússia e ao que eles consideravam

3 Perestroika ou reestruturação consistia em acabar com a centralização econômica instaurada após

a Revolução Russa em 1917.

4 Glasnost ou transparência buscava aproximar a população das decisões políticas da União Soviética e combater a corrupção no Partido Comunista.

5Em seu livro “O momento Unipolar”, disse que os EUA emergiram da Guerra Fria como o país mais poderoso do planeta, com ampla vantagem sobre os demais. Por esta razão, segundo Krauthamer, o mundo pós-Guerra Fria era unipolar.

6Segundo Waltz e Layne, o imediato momento após a URSS era um período de transição e que, em questão de anos, o mundo se transformaria em multipolar. Isso porque segundo os teóricos acreditavam que a unipolaridade é insustentável pois ela implica a ocorrência da sobre-extensão que por sua vez implica na potência estar presa em retorno que a longo prazo faz com que outras potências se fortaleçam.

ser “Oeste”. Alguns optaram por reintegrar suas economias com a da Rússia. Outros escolheram reorientar suas economias para que elas se integrassem com a economia da União Europeia (EU) e reduzissem a dependência russa. Ainda o terceiro grupo foi ambivalente;

rejeitaram uma reintegração com a Rússia, mas falharam em ter uma política de reorientação coerente.” (ABDELAL, Rawi, 2001, p. vii)7

A priori, a relevância dos países Bálticos deve-se à aproximação deles com o Ocidente, que se deu primeiramente através das reformas econômicas pós-independência, em que foram usados recursos do Fundo Monetário Internacional (FMI), entre os anos de 1995 e 2001. Esses fundos, que foram feitos por stand-by credit8, no caso da Letônia, por facilidade de transformação sistemática9, no caso da Estônia, e por duas linhas de crédito, no caso da Lituânia, possibilitaram a transformação econômica dos países Bálticos, com altas taxas de crescimento, apesar das muitas crises econômicas que os mesmos sofreram.

As medidas tomadas a partir da disponibilização de créditos do Fundo Monetário Internacional (FMI) possibilitaram que a Letônia, a Estônia e a Lituânia pudessem direcionar, cada vez mais, seu comércio para o mercado do bloco europeu e, consequentemente, se distanciar da Rússia, já que a mesma voltou seu comércio para a Ásia Central. O ano de 2004 foi considerado definitivo para a ocidentalização dos países Bálticos já que, em março daquele ano, passaram a integrar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), tendo sido incluídos no alcance do escudo aéreo da aliança Atlântica e, em maio de 2004, finalmente entraram na União Europeia.

Já a relevância da Rússia que, entre os anos de 1991 e 1998, não teve orientação ideológica e/ou estratégia geopolítica definida, tornando este período da história deste Estado conhecido como “vácuo geopolítico”10, deve-se, principalmente, a sua influência nos países ex-soviéticos da Ásia Central, e às relações estabelecidas com Estados ,como o Irã e a Índia, tendo ingressado para a Organização para a Cooperação de Xangai, uma organização política, econômica e

7 Tradução livre por Chiara Malavolta Magalhães.

8 Sistema de crédito que fornece assistência financeira para países de baixa renda visando o

equilíbrio de curto prazo no balanço de pagamentos.

9 A facilidade de transformação sistemática é um mecanismo de financiamento temporário para prestar assistência aos países-membros do Fundo Monetário Internacional (FMI) que enfrentam dificuldades na balança de pagamentos decorrentes de graves interrupções de seus acordos tradicionais de comércio e pagamentos, devido a uma mudança da dependência da negociação a preços não mercantis para um sistema multilateral de comércio com base no mercado.

10Vácuo Geopolítico é o termo utilizado para designar o período em que a Rússia não possuía orientação ideológica e/ou estratégia geopolítica definida.

militar da Eurásia, assim, reforçando cada vez mais a aliança política entre a China e a Rússia.

Apesar do vácuo geopolítico, o país compensou sua economia entre os anos de 2000 e 2008, quando “a economia Russa teve um imenso crescimento [...] o PIB cresceu 83% e a produtividade cresceu 70%” (KUDRIN, Alexey e GURVICH, Evsey 2015 p.30).

“Enquanto no período pré-crise de 2000 a 2008, a média anual do crescimento do PIB [Russo] era de 6.9%, depois da crise (2009-2013) esse crescimento caiu para 1.0%.” (KUDRIN, Alexey e GURVICH, Evsey 2015 p.30). Essa desaceleração intensa, e maior do que a de qualquer Estado, no crescimento, ainda segundo o artigo de Kudrin e Gurvich, foi inesperada tanto para o governo Russo quanto para os analistas.

Além disso, o crescimento, tanto econômico quanto político da Rússia, se mostra intensamente ligado e relacionado com aspectos das relações internacionais do país, tendo em vista que o seu crescimento econômico acontece, principalmente, havia suspendido todo o fornecimento de gás para a Ucrânia. Ao utilizar seu poder de barganha, a Rússia se mostra um país mais importante na geopolítica mundial, aproximando-se da figura da antiga URSS, assim, com isso, Estados como a Ucrânia passam a temer mais o Estado Russo e ceder em determinados assuntos.

Por fim, a Rússia, como parte dos BRICS11, é cotada para assumir o papel de líder mundial junto com a China, Brasil, Índia e África do Sul no século XXI em diversas frentes e, consequentemente, mudar a vigente ordem da governança global12. Portanto, tanto a Rússia quanto os outros países dos BRICS estão tendo cada vez mais importância na economia mundial.

11 BRICS é um acrônimo criado por Jim O’Neill, economista-chefe da Goldman Sachs, em 2001 para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (em inglês South Africa). Esses países são cotados para assumir o papel de líderes mundiais no século XXI em diversas frentes e, consequentemente mudar a ordem da governança global.

12 O termo governança glo al foi utili ado pelo Banco Mundial durante a década de 1 0 para avaliar não apenas os resultados das políticas de governo, mas tam ém como o governo exerce sua liderança no m ito internacional (GON ALVE , 200 ).

Para realizar esta pesquisa foram utilizados relatórios econômicos disponibilizados tanto pelo Banco Mundial quanto pela Organização para cooperação e desenvolvimento econômico (OECD), que permitem um panorama da economia dos países pós-Soviéticos. Além disso, recorreu-se também à construção e utilização de gráficos que facilitem a compreensão de dados, da comparação entre as políticas adotadas por Estado com o objetivo de identificar as mais eficazes e de outras referências bibliográficas que tratem dessas políticas.

Para isso, o projeto visa analisar como as economias Russa e Báltica foram afetadas pela crise de 2008. A partir disso, concluir qual dos Estados saiu-se melhor na recuperação econômica; como o relacionamento com a UE interferiu na reação à crise, bem como analisar quais foram as medidas utilizadas para a reversão da situação e qual foi o papel do relacionamento com a UE nessas medidas.

Como consequência dessa análise, supõe-se que a crise de 2008 tenha afetado mais o desenvolvimento da Rússia do que o dos países Bálticos. Imagina-se que isso aconteceu, pois Lituânia, Estônia e Letônia fazem parte da União Europeia, que propõe uma estabilidade econômica para os Estados maior do que eles seriam capazes de oferecer a si próprios. Além disso, supõe-se que os países entraram em uma recessão econômica após a crise que durou um período entre 3 e 5 anos, aproximadamente.

Ademais, pensa-se que a recuperação econômica dos Estados Bálticos deve ter sido mais rápida e mais eficiente do que a recuperação Russa. Isso possivelmente se deve ao fato de que ser parte de um bloco econômico tão grande como a União Europeia faz com que haja um apoio maior de outros Estados, tanto durante momentos de ascensão, quanto durante momentos de recessão econômica.

Por fim, em relação às medidas tomadas, presume-se que elas tenham sido uma política fiscal de expansão, ou seja, aumento de gastos públicos, incluindo subsídios governamentais ao setor produtivo. Entretanto, medidas como essas podem ampliar o déficit público, levando a crises subsequentes. Além disso, os Estados podem ter utilizado também ferramentas de política monetária de expansão que podem ser, basicamente, diminuir as taxas de juros ou emitir moeda. Acredita-se que a estabilidade econômica e política tenha influenciado também na recuperação do PIB de cada país.

5. DESENVOLVIMENTO

No documento COLÉGIO SÃO LUÍS ENSINO MÉDIO CURSO DE METODOLOGIA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA CHIARA MALAVOLTA MAGALHÃES (páginas 6-11)