Recentemente foram constatados ataques severos de ácaros a cultura da soja em diferentes regiões produtoras do Brasil, sendo que as principais espécies de ácaros observadas são Mononychellus planki e Tetranychus urticae (ROGGIA et al., 2008).

O aumento na freqüência destes surtos populacionais, principalmente no estado do Rio Grande do Sul, ocorreu concomitantemente ao avanço da área cultivada com soja transgênica, tolerante ao glifosato, introduzidas ilegalmente no Brasil. Ao mesmo tempo, vários aspectos do manejo fitossanitário e das condições ambientais ocorridas neste período também podem ter favorecido estes ataques, gerando incertezas sobre as reais causas dos surtos populacionais de ácaros em soja. Em experimento de campo, Roggia (2007) estudando duas cultivares de soja, transgênica e não-transgênica, observou que a cultivar transgênica não afetou significativamente a densidade acumulada de M. planki ao logo do ciclo da cultura. Apesar de este estudo ser um bom indicativo da ausência de efeito da cultivar transgênica sobre a densidade de ácaros na cultura, muitos fatores podem interferir nos resultados de campo, assim são necessários estudos em condições controladas para verificar estes aspectos. Além disso, pouco se conhece sobre o ciclo biológico de M. planki. Existem registros de estudos da biologia desta espécie na cultura da mandioca (GONZÁLEZ, 1979), no entanto, até o momento pouco se conhece sobre esta espécie em soja. Enquanto que para T. urticae a disponibilidade de informações sobre o ciclo biológico é maior, Rodriguez; Rodriguez (1987) citam estudos, publicados na década de 80, com objetivo de avaliar a resistência de cultivares de soja a este ácaro, posteriormente muitos estudos foram desenvolvidos com objetivo semelhante (ALI, 1999; DEHGHAN et al., 2009; ELDEN, 1997, 1999; RAZMJOU; TAVAKKOLI; FALLAHI, 2009; RITA; LAJOS, 2001; SEDARATIAN; FATHIPOUR; MOHARRAMIPOUR, 2009; WHEATLEY;

BOETHEL, 1992).

Na interação do ácaro com a planta hospedeira, várias resposta são possíveis. É conhecido que variações morfológicas e bioquímicas entre cultivares de soja (não ligadas à transgenia) podem interferir no ataque de ácaros a cultura. Em um primeiro momento a planta hospedeira pode afetar a aceitação do ácaro, devido a

características morfológicas da superfície da folha (ELDEN, 1997) e de compostos voláteis produzidos por esta que podem atrair ou repelir os fitófagos (ALI, 1999). Após o estabelecimento dos ácaros, a planta hospedeira pode afetar a adaptação e o desenvolvimento destes, por fatores relacionados à qualidade nutricional (SEDARATIAN; FATHIPOUR; MOHARRAMIPOUR, 2009), produção de compostos de defesa (BROWN et al., 1991) e favorecimento de inimigos naturais (WHEATLEY;

BOETHEL, 1992). Estudos recentes mostram que as cultivares de soja podem afetar diferentemente a biologia de T. urticae (DEHGHAN et al., 2009; RAZMJOU;

TAVAKKOLI; FALLAHI, 2009; SEDARATIAN; FATHIPOUR; MOHARRAMIPOUR, 2009), estes autores atribuem as diferenças observada ao efeito de antibiose. Assim é possível que as novas cultivares introduzidas recentemente no mercado brasileiro (transgênicas ou não) possam ser mais suscetível aos ácaros.

Por outro lado a hipótese de que modificação genética favorece o desenvolvimento de ácaros, baseia-se na possibilidade de que a introdução de genes, que codificam proteínas com diferentes finalidades, poderia aumentar o teor de proteínas e aminoácidos na seiva da planta e isso poderia favorecer o desenvolvimento de organismos fitófagos, como observado para pulgões em milho Bt (LUMBIERRES;

ALBAJES; PONS, 2004). No entanto, pouco se conhece dos possíveis efeitos diretos de cultivares de soja transgênica sobre ácaros fitófagos. Além disso, os ácaros se alimentam de conteúdo celular e não diretamente da seiva (TOMCZYK;

KROPCZYNSKA, 1985; RODRIGUEZ; RODRIGUEZ, 1987). Assim seria necessário que mudanças significativas a nível celular ocorressem nas cultivares transgênicas para que os ácaros fossem favorecidos ao se alimentarem destas plantas.

Neste contexto foi realizado um experimento com objetivo de estudar o ciclo biológico e a tabela de vida dos ácaros fitófagos M. planki e T. urticae em cultivares transgênicas e não-transgênicas de soja.

O ciclo biológico apresenta, de forma direta, a duração de cada fase de desenvolvimento dos ácaros, a fecundidade das fêmeas, bem como, outros aspectos relacionados como, sobrevivência e razão sexual. O estudo do ciclo biológico de ácaros oferece informações importantes para outras áreas da acarologia e dá bases para o desenvolvimento de estratégias de manejo em culturas agrícolas. Vários pesquisadores

usaram os parâmetros do ciclo biológico para avaliar a resistência de cultivares de soja ao ataque de ácaros, entre eles Dehghan et al., (2009); Razmjou; Tavakkoli e Fallahi (2009); Sedaratian; Fathipour e Moharramipour (2009).

Por outro lado, a tabela de vida de fertilidade, apresenta índices que resumem os principais aspectos demográficos dos ácaros, e estimam o potencial de aumento populacional destes. Os principais parâmetros da tabela de vida, comumente usados em entomologia e acarologia, são resumidamente descritos a seguir (SOUTHWOOD;

HENDERSON, 2000):

a) razão intrínseca de aumento (rm) – indica a capacidade de multiplicação de uma população em uma geração; representa a velocidade de crescimento populacional;

b) razão finita de aumento (λ) – representa o número de indivíduos que se adiciona a população por cada indivíduo pré-existente por unidade de tempo, é uma taxa populacional finita;

c) taxa líquida de reprodução (R0) – indica o número de descendentes fêmeas, que cada fêmea da população é capaz de produzir durante a sua vida e que chegam à geração seguinte; o cálculo de R0 sofre influência, principalmente, de parâmetros como fecundidade das fêmeas, razão sexual dos descendentes e viabilidade da fase do ovo e imatura;

d) duração média de uma geração (T) – representa o tempo médio de duas gerações sucessivas; ao contrário dos demais parâmetros, para T os menores valores indicam um aumento populacional mais rápido; o cálculo de T é afetado, além da duração da fase embrionária e imatura, pela da distribuição temporal dos ovos produzidos pelas fêmeas, sendo que menores valores de T ocorrem para populações em que a maior parte dos ovos são colocados no início do período de oviposição.

No documento Universidade de São Paulo Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (páginas 24-27)