Investigações anatomopatológicas do início do século XIX: retardo mental e lesões

No documento Alunos com transtornos globais do desenvolvimento: da categoria psiquiátrica à particularidade do caso a caso nos processos de inclusão escolar (páginas 51-53)

2 OS PARADIGMAS DA EDUCAÇÃO ESPECIAL E OS TRANSTORNOS GLOBAIS DO

3.1 Investigações anatomopatológicas do início do século XIX: retardo mental e lesões

No século XIX, que pode ser considerado o primeiro momento de organização da Psiquiatria, não existe o transtorno global do desenvolvimento. Em termos de descrição de psicopatologias infantis e, portanto, da loucura infantil, o que encontramos são as descrições relacionadas à idiotia como principal forma de apresentação do que será entendido como retardo mental. O retardamento mental, por sua vez, constituirá um dos eixos fenomênicos a ser observado na definição da categoria psicopatológica em questão no presente trabalho, sendo tomado como índice de um déficit cognitivo definidor da etiologia da categoria dos transtornos globais do desenvolvimento.

Nosso interesse neste período reside na busca de algumas noções conceituais que hoje sustentam a descrição de tal categoria psiquiátrica, uma vez que as investigações iniciadas neste período remontam à própria origem deste campo de saber, às interrogações filosóficas a respeito da loucura nos adultos e nas crianças, bem como a um primeiro deslocamento realizado rumo à inserção destas indagações no campo da Medicina Geral (BERCHERIE, 1980; BARRETO, 2010; FOUCAULT, 2001). Seguindo estes autores, a partir do momento em que tais indagações passaram a ser sediadas por este campo, considerou-se imprescindível que tal investigação se organizasse em torno dos mesmos parâmetros científicos vigentes para a Medicina Geral, sobretudo, para a área específica da neurologia. Tais parâmetros dizem respeito ao modelo dos processos classificatórios aplicados às ciências naturais, das quais a Medicina se apropriou, ao final do século XVIII, na busca por sua inserção como campo científico, e que determinarão as primeiras classificações em Psiquiatria a partir do final do século XIX (BERCHERIE, 1980; BARRETO, 2010).

Recorrendo a Foucault (2001), verifica-se que o modelo classificatório então empregado na Medicina Geral se estabeleceu por uma ordem comparativa, a partir da verificação dos critérios de semelhança entre os elementos de dois ou mais conjuntos aparentemente distintos que, isolados, compõem um todo diferenciado. O autor também ressalta que o que determina o classicismo da tradição da clínica médica geral é um critério de cientificidade alcançado a partir do momento em que nela se instauram as pesquisas

anatomopatológicas, fundadas sobre a objetividade positivista da Medicina moderna. Identifica-se neste autor que o critério estabelecido em Medicina para se definir o saudável, o estado normal de funcionamento do corpo, estaria colocado ao lado da ausência de lesão no órgão. A patologia, por sua vez, estaria colocada ao lado do órgão supostamente afetado por uma lesão. O mesmo ponto de vista é encontrado em Georges Canguilhem (2011) em obra dedicada a discutir o conceito de normalidade e de patologia em Medicina. Nesta perspectiva, ambos ressaltam que o normal se estabeleceria através da definição do estado patológico, em que a doença seria relacionada à lesão orgânica. Para estes autores, estes são os parâmetros etiológicos definidos para se estabelecer o critério do adoecimento em Medicina Geral.

Na pré-história da Psiquiatria e no decorrer das investigações da loucura definidas como clássicas, foi este modelo médico, traduzido nas pesquisas anatomopatológicas das estruturas cerebrais, que influenciou o direcionamento do olhar dos primeiros alienistas para uma investigação que se valia dos mesmos critérios epistemológicos utilizados nas pesquisas em ciências naturais e, portanto, para a medicina neurológica. Ou seja, houve influências da Medicina na compreensão descritiva e qualitativa sobre o fenômeno mental, inicialmente referido ao cérebro como órgão, equiparando-se assim a patologia mental a uma lesão orgânica cerebral (BERCHERIE, 1989; FERNANDES, 2009; BARRETO, 2010). Nesta perspectiva, as estruturas cerebrais são o objeto de investigação em relação ao qual torna-se importante ver, analisar e descrever o mais minuciosamente possível o fenômeno patológico, agrupando-os e classificando-os. Isto porque, nos dizeres do autor, é por meio de um sistema comparativo entre suas semelhanças e diferenças que o fenômeno mental “[...] constituiria classes, gêneros e espécies [...]” (BERCHERIE, 1989, p. 31), definindo assim uma equivalência entre a abordagem realizada na clínica médica e a abordagem da ainda incipiente, mas emergente, clínica psiquiátrica.

Inicialmente, as descrições realizadas dos fenômenos mentais e suas patologias ainda não apresentarão uma sistematização, podendo ser definidas como um tempo de descrições aleatórias dos tipos de loucura (BERCHERIE, 1989). É sob estas premissas que, nesse período, as primeiras investigações psicopatológicas em torno do sofrimento mental infantil irão se referir ao conceito nosológico de debilidade, ou de retardamento mental, e à entidade clínica da idiotia como forma princeps de apresentação da loucura na criança, tal pode ser verificado em Bercherie (2001)26, no manual de psiquiatria infantil de Julian de Ajuriaguerra

26

Trata-se de um texto sobre o histórico e as bases epistemológicas com que se constituiu e se organizou o campo da Psiquiatria Infantil, segundo o autor, a partir da década de 30 do século XX, quando a psicanálise

(1980) e ainda, entre outros aspectos, na obra da professora Dra. Ana Lydia Santiago (2005) sobre a inibição intelectual. De acordo com estes autores, a idiotia é referida pelos teóricos da época, sobretudo por Philippe Pinel (1745 – 1826), como uma forma deficitária e incompleta de apresentação da loucura do adulto, tendo como etiologia uma lesão orgânica cerebral. A partir dessa associação, o conceito de cérebro como lócus de toda racionalidade, instituído por Descartes (1596-1650) para a ciência moderna, passa a ser definido como dogma herdado pelas etapas subsequentes das investigações psicopatológicas e conservado por elas (FERNANDES, 2009).

Sendo assim, este percurso nos coloca diante de algumas questões inevitáveis no que se refere à investigação sobre a inclusão de alunos com transtornos globais do desenvolvimento. A primeira delas refere-se à interrogação sobre qual seria a relação deste tipo de pesquisa psicopatológica com a instituição da categoria dos transtornos globais do desenvolvimento, cerca de um século depois das primeiras descrições do retardamento mental como forma deficitária da manifestação da loucura nas crianças. Assim como será possível verificar neste capítulo, aparentemente, a perspectiva etiológica que imprime às manifestações psicopatológicas infantis um índice deficitário será retomada nas investigações atuais em torno de algumas das entidades clínicas presentes nos transtornos globais do desenvolvimento. Entretanto, entendemos que nem sempre esta forma de investigação esteve presente no campo da Psiquiatria, sobretudo no período em que são realizadas as pesquisas psicopatológicas a respeito do Autismo Infantil Precoce e das Síndromes de Heller e Asperger.

3.2 Surgimento das entidades clínicas dos transtornos globais do desenvolvimento: as

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