Capítulo 3 AS ELEIÇÕES E A COMUNICAÇÃO NO BRASIL
3.1 AS ELEIÇÕES DE 1986 NA BAHIA
3.1.2 J OSAPHAT M ARINHO O B RASIL I NTEIRO C ONHECE E T ODO M UNDO
BEM71
A direção nacional do PSB, legenda à qual havia sido filiado Josaphat Marinho, emitiu pronunciamento de condenação à sua participação na coligação liderada por Antônio Carlos Magalhães72 e o
Diretório Regional do partido na Bahia, liderado pelo ex-Deputado Estadual Newton Macedo Campos, decidiu não integrar qualquer das coligações.
70 Baiano nascido no município de Ubaíra, Josaphat Marinho foi professor de “Teoria Geral do Estado”, “Direito Constitucional” e “Introdução à Ciência do Direito” da Faculdade de Direito da Bahia. Elegeu-se deputado estadual em duas legislaturas (em 1947, pela UDN, e em 1955, pelo PL) e, no governo de Juracy Magalhães, ocupou as secretarias estaduais de Interior, Justiça e Fazenda. Em 1961, a convite do Presidente Jânio Quadros foi nomeado presidente do Conselho Nacional de Petróleo. Ficou no cargo apenas seis meses, saindo do governo logo após o pedido de renúncia do Presidente. Elegeu-se Senador, em 1962, e, durante esse mandato, foi presidente da Comissão de Minas e Energia e relator da comissão de senadores e deputados que estudou a reforma do Congresso Nacional. Em 1965, com a imposição do bipartidarismo, filiou-se ao MDB, sendo um dos fundadores do partido na Bahia. Em 1970, concorreu à reeleição, mas foi derrotado. Participou da Assembléia Nacional Constituinte, em 1987, integrando a Comissão de Estudos Constitucionais que elaborou o anteprojeto da Constituição, por nomeação do presidente José Sarney. Como parlamentar, retornou ao Senado, em 1991, quando venceu as eleições de 1990 pelo PFL. Em seu último mandato, teve participação de destaque nas discussões do projeto de modernização do Código Civil brasileiro. O seu último mandato terminou em 1999. Em 2001, Josaphat Marinho faleceu, aos 86 anos. 71 Slogan criado pela agência DM9 para a campanha de Josaphat Marinho.
72 Em 9 de maio daquele ano, o jornal “Correio da Bahia” anunciava a filiação de Josaphat Marinho ao PFL.
A Bahia contava, em 1986, com 367 municípios dos quais a grande maioria dos prefeitos era vinculada aos partidos da coligação “Aliança Democrática Progressista”. A filiação dos prefeitos, entretanto, não impedia que, aos poucos, as lideranças fossem se deslocando para dar apoio ao candidato do PMDB.
Em setembro daquele ano, o clima da campanha já era de extremo otimismo: ao tempo em que o IBOPE registrava 54% de intenções de votos para Waldir Pires e 25% para o candidato apoiado pelo Governo do Estado, o arco de alianças ampliava-se, a passos largos. As solenidades de adesão ao PMDB repetiam-se, a cada vez que um grupo de prefeitos, vereadores e lideranças assinava as suas fichas de filiação ao partido.73 Indiferente a este
movimento, a coligação “Aliança Democrática Progressista” publicou anúncio em página dupla (p. 8-9), do jornal “A Tarde”, de 6 de novembro de 1986, no qual proclamava: “Dos 367 prefeitos baianos, 297 estão com Josaphat e apenas 70 com Waldir”.
Josaphat Marinho havia sido eleito senador no mesmo pleito em que Waldir Pires, seu adversário em 1986, foi derrotado por Lomanto Júnior na disputa pelo governo do estado. O seu percurso na vida política, na academia e no exercício da advocacia aproximou o candidato das causas democráticas e daqueles políticos que, em 1986, eram seus adversários. Como estudante de Direito, entre os anos de 1934 e 1938, já participava de atividades políticas na luta contra o nazifascismo. Líder da esquerda democrática e membro do Conselho da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-BA), participou ativamente das manifestações pela redemocratização do Brasil e pela revogação da Constituinte de 1937, de inspiração fascista. Durante o período dos governos militares, filiou-se ao MDB, tendo sido um dos fundadores do partido na Bahia. Após a derrota na disputa pela vaga no Senado, em 1970, passou a dedicar-se à vida acadêmica, como professor de
73 A “Tribuna da Bahia”, em 17 de setembro de 1986, na página 3, noticiava “a adesão de mais de 90 lideranças políticas de 10 cidades do interior, que se filiaram ao partido em clima de verdadeira euforia”. Também na edição de 4 de novembro, lia-se: “O Partido Democrata Cristão – PDC, resolve apoiar o candidato do PMDB a partir da decisão dos 138 diretórios do partido que decidiram romper a aliança com a coligação Aliança Democrática Progressista”. O jornal “A Tarde”, na edição de 15 de outubro, informava a adesão de 53 políticos do PDS: prefeitos, vereadores e lideranças, além de uma delegação do Partido Humanista (PH).
“Direito Constitucional” da UnB, e à advocacia, destacando-se na defesa de presos políticos nos Tribunais Superiores. Assim, a indicação de Josaphat Marinho para concorrer ao governo do estado surpreendeu, em certa medida, os meios políticos, que estranhavam a aproximação do jurista com o grupo político liderado por Antônio Carlos Magalhães.
De acordo com os depoimentos do jornalista Luiz Guilherme Pontes Tavares74 e do advogado Antônio Guerra Lima o governador João Durval foi o
responsável pela escolha do nome que concorreria à sua sucessão. Guerra Lima reporta-se à conversa com Josaphat a respeito da sua candidatura:
Eu não tenho dúvida, Josaphat disse a mim. Quem convidou Josaphat para ser candidato foi João Durval e Antônio Carlos, a,í apoiou. Nesse dia, eu disse a ele: ‘– Professor o que é que eu digo a Waldir?’ Ele disse: ‘– Diga a Waldir que eu tenho 323 prefeitos comigo’. (GUERRA LIMA, 2007).
A agência de propaganda DM 9, de Duda Mendonça, foi contratada para cuidar da produção dos programas de rádio e televisão para veiculação no horário gratuito. Os valores que envolveram a contratação da Agência e a produção dos eventos e programas pareciam destoantes da estrutura destinada à equipe de imprensa que acompanhava o candidato. Pelo que indica o depoimento do jornalista e professor Luiz Guilherme Pontes Tavares, que trabalhou na campanha de Josaphat Marinho, em 1986, não havia, na campanha do PFL, a preocupação em destinar recursos e condições para que o trabalho dos jornalistas tivesse um melhor resultado:
Eu atuei como repórter de uma equipe que era chefiada pelo jornalista Agostinho Muniz e que tinha como auxiliares, em nível de editores, os jornalistas Wilson Barbosa e Eliezer Varjão; atuávamos como repórter, eu e Jair Mendonça, e como fotógrafo, Wilson Besnosik. Não havia uma orientação específica... Nós tínhamos, portanto, a tarefa de acompanhar o candidato na capital e no interior. Jornadas que começavam às sete e podiam terminar no outro dia de madrugada e com os recursos muito precários.[...] Eu fazia boletins [...] pegava o telefone e ditava [...] e do outro lado a pessoa copiava. Fiz isso em casa de pessoas, fiz isso em telefone público, em posto telefônico [...]. Nós não
tivemos nenhum pagamento vultoso. Era uma ajudazinha... (TAVARES, 2007).
Também, o depoimento do jornalista informa a inexistência de vinculação do trabalho desenvolvido em duas esferas da comunicação que atuavam na campanha, ao registrar que faria sentido a articulação entre as duas equipes:
[...] inclusive para dar uma unidade no tratamento da informação. Mas, jamais tivemos essa possibilidade, com o pessoal de propaganda. Jornalismo era jornalismo, propaganda era propaganda. Em 86, a propaganda e o comitê de Josaphat eram corpos distintos. Me recordo que se alguma proximidade houve foi com o pessoal de eventos que era comandado por Eliana Dumet e tinha Renato Sena como executivo que viajava e armava palanque e coordenava essa parte..[...] se você me perguntar quem era o publicitário, eu decididamente não sei quem era. Não tive esse convívio. (TAVARES, 2007).
A equipe do jornalismo era vinculada ao “Comitê Político” que funcionava no bairro do Chame-Chame, juntamente com a assessoria jurídica e o grupo responsável pelos eventos. Neste local, também estava instalado o escritório de Josaphat Marinho, onde o candidato atendia aos políticos e aos jornalistas.
A coordenação da campanha reunia pessoas próximas ao candidato e ao Governador João Durval, sendo destacados, na entrevista de Tavares, os nomes de Paulo Marinho, filho do candidato, que exercia as funções de Coordenador-Geral ao lado de Alberval Figueiredo, Secretário de Comunicação Social do governo do estado, Érico Mendonça, cunhado de Josaphat Marinho, e Sérgio Carneiro, filho do Governador e, à época, Chefe da Casa Civil, que tinha espaço e importância de relevo no Comitê e em diversos comícios, onde discursava representando o Governador.
A expectativa de vitória que animava Josaphat Marinho na ocasião do lançamento de sua candidatura não o abandonou até os primeiros dias da apuração dos votos. Em Ilhéus e Itabuna, cinco dias antes da eleição, Josaphat afirmava que estava mais certo que nunca de que iria derrotar os seus adversários “que querem mudar a Bahia para lugar incerto” (A TARDE,
11 nov. 1986, p. 7). O tom de otimismo continuou marcando a fala do candidato do PFL que, ao convocar para o último comício da campanha, a se realizar em 12 de novembro, na cidade de Feira de Santana, reduto do Governador João Durval, prometia reunir no palanque cem prefeitos e estimava a presença de cinqüenta mil pessoas. No dia seguinte, a “Tribuna da Bahia” informava que vinte mil pessoas tinham estado presentes ao comício em que Josaphat assegurou a certeza na sua vitória. (13 nov. 1986, p. 3).
A mesma certeza expressava-se em sua avaliação, na véspera da votação: “posso perder em municípios de diferentes regiões, porém, ganhando em todas”; dizia, ainda, que não tinha tempo para se preocupar com as pesquisas e “suas invencionices”. Na mesma reportagem, o candidato, contradizendo sua afirmação anterior, comemorou o percentual de 34% de intenções de votos que lhe seria conferido pelo eleitorado de Salvador, de acordo com uma pesquisa encomendada e não divulgada pela oposição. (A TARDE, 14 nov. 1986, p. 8).
A leitura do noticiário dos últimos dias de campanha denota, ainda, a queixa do candidato pelo fato do Governador João Durval e do Ministro Antônio Carlos Magalhães haverem polarizado as discussões, durante a campanha, deixando-o como coadjuvante.75 O seu adversário
comentou, no depoimento concedido, a estratégia que adotou em relação ao seu opositor:
Eu nunca tomei conhecimento da candidatura de Josaphat, que ficava até muito irritado, pois eu nunca falei nada a respeito dele. A minha posição tática em relação ao candidato do Antônio Carlos foi de não tomar conhecimento da existência dele; eu me reportava ao centro do poder. Até porque a figura de Josaphat era absolutamente estranha àquela convivência, era uma parceria que não casava, um equívoco gigantesco. (PIRES, 2006).
De fato, para os candidatos da coligação “A Bahia Vai Mudar”, tanto nos palanques, nos mais de trezentos comícios e concentrações no interior do Estado, como nas caminhadas pelos bairros de Salvador ou nos textos dos programas de rádio e televisão, o candidato Josaphat Marinho esteve em plano secundário. A campanha reportava-se ao Ministro Antônio Carlos Magalhães ou ao Governador João Durval, centrando as críticas nos métodos de governar e fazer política que caracterizavam o Ministro e nas mazelas do governo que se encerrava e que fornecia fartas motivações para as acusações da oposição. Além das denúncias de favorecimento de amigos, familiares e correligionários e de desvio de verbas em órgãos estaduais como a Interurb, a Secretaria de Comunicação Social e o Consórcio Rodoviário, os chamados “Trens da Alegria”76 eram alvo da campanha oposicionista.
A apenas dois dias da eleição, a “Tribuna da Bahia” denunciava a troca de empregos por votos, na Secretária de Saúde do Estado. De acordo com a reportagem, a Secretaria contratara 1420 novos funcionários que, após serem submetidos ao sistema de triagem, receberam a “carta de recomendação”, a indicação do local em que iriam prestar serviços e a cédula simulada com os nomes dos candidatos Josaphat Marinho, Lomanto Júnior, Félix Mendonça, Rafael de Oliveira e Geraldo Matta Pires. (TRIBUNA DA BAHIA, 13 nov. 1986, p. 6).
Os fatos apresentados na reportagem demonstram o empenho do Governador e de seus secretários de favorecer seus candidatos, mesmo ao custo de descumprir as leis que proibiam as contratações na administração pública, nos noventa dias anteriores ao pleito, e o aliciamento do eleitor.
Mais tarde, os resultados daquela eleição viriam indicar que a distribuição dos empregos pelas secretarias estaduais não deveria ser considerada fator de garantia do voto. Durante os comícios de Josaphat Marinho, no interior do Estado, tornaram-se freqüentes as cantorias daqueles que se fartavam nos churrascos promovidos pela campanha pefelista e saíam cantando os versos: “Já comi, já bebi, agora só falta votar em Waldir”.
76 Denominação que identificava à época as medidas de governo com o objetivo eleitoreiro de dar empregos no serviço público aos seus correligionários.
No dia 15 de novembro, ao dirigir-se à sua Seção Eleitoral, juntamente com os deputados Paulo Maracajá, Arquimedes Pedreira Franco e Ney Ferreira, Josaphat Marinho previa que o resultado das urnas lhe daria uma diferença favorável de cem a duzentos mil votos. Enquanto isso, o Ministro Antônio Carlos Magalhães, acompanhado de uma comitiva de diversos políticos do PDS e PFL, protagonizava o que o jornal “A Tarde” qualificou como “o mais grave incidente das eleições em Salvador”, ao agredir, com xingamentos e socos, o repórter Antônio Fraga, da TV Itapoan, que perguntou ao Ministro o que tinha a declarar sobre as vaias que recebera ao chegar ao local de votação. (A TARDE, 1986, p. 2).
A exibição das cenas da agressão e as entrevistas com o Prefeito Mário Kertész, o presidente do Sindicato dos Jornalistas, Raimundo Lima, e o diretor do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), José Carlos Arruti, repercutindo o episódio, rendeu à emissora suspensão imposta pelo Departamento Nacional de Telecomunicações (Dentel), que retirou do ar o sinal da televisão, a partir da provocação do TRE que solicitou a punição por considerar que a informação do incidente envolvendo o Ministro das Comunicações, e o repórter estaria sendo usada com objetivos políticos. As agressões ao jornalista e a punição à emissora foram temas de diversas manifestações de entidades profissionais, políticos e parlamentares que protestavam contra o que era considerado pela Associação Baiana de Imprensa (ABI/BA) “ato de cerceamento da liberdade de informar do ministro Antônio Carlos Magalhães”(A TARDE, 1986, p. 2).
Após a votação, o candidato Josaphat Marinho continuava fiel à conduta que adotara durante a campanha e mantinha-se alheio aos acontecimentos que envolviam o Ministro Antônio Carlos e o Governador João Durval, seus apoiadores. Em entrevista concedida, na sede da agência de propaganda DM9, avaliou a campanha, anunciando que venceria a eleição, garantindo ainda, não ter havido acordo entre seus aliados para a distribuição dos cargos da administração estadual. Sobre as trocas de acusações, responsabilizou os adversários por condutas “grosseiras”, afirmando que, durante a campanha, os seus correligionários foram “serenos e civilizados”.
Em 1990, filiado ao PFL, Josaphat Marinho venceu as eleições para o Senado ao lado de Antônio Carlos Magalhães que, naquele mesmo pleito, elegeu-se governador do Estado da Bahia.