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James Joyce e Samuel Beckett, ou a autonomia

No documento Casanova - República Mundial das Letras (páginas 192-195)

A ruptura que James Joyce provocará é a última etapa da consti- tuição do espaço literário irlandês. Baseando-se em todos os projetos literários, debates, procedimentos estabelecidos, em suma, no capi- tal literário acumulado por todos os que o Joyce inventa e proclama uma autonomia literária quase absoluta. Nesse espaço forte- mente politizado e contra o movimento do Renascimento irlandês que, como diz em Ulisses, ameaçava tomar-se "irlandês demais", consegue

impor um pólo autônomo, puramente literário, contribuindo assim para que reconhecessem, liberando-o em parte da influência política, o con- junto da literatura irlandesa. Muito cedo zombou das tentativas cloristas de Lady Gregory: "Em toda parte nesse livro em que se trata do 'povo' aparece com todo o horror de sua senilidade essa mesma familia de espírito apresentada pelo senhor Yeats com um ceticismo tão extraordinário em seu livro mais bem-sucedido, Celtic

Já em 1901, criticou violentamente o empreendimento teatral de Yeats,

Martyn e em nome da perda da autonomia literária e da sub- missão dos escritores ao que considerava as imposições do público. "O é um ser irresoluto, e seu instinto do compromisso trai o senhor Yeats, fazendo-o associar-se a um empreendimento do qual seu amor-próprio deveria mantê-lo afastado. O senhor Martyn e o senhor

não são escritores muito originais...""

A questão da autonomia literária na Irlanda ocorre por meio de um uso subversivo da língua e dos códigos nacionais e sociais a ela ligados. Joyce condensa e resolve o debate, inseparavelmente literário,

tico e político, que opõe os gaelicizantes aos anglicizantes, a seu modo. Todo seu trabalho literário tenderá a uma sutilíssima reapropriação irlandesa da língua inglesa: desarticular essa língua da colonização, não apenas a ela integrando elementos de todas as línguas européias, mas também subvertendo as normas das convenções britânicas e utili- zando, conforme sua tradição nacional, os registros da obscenidade ou do escatológico para zombar desdenhosamente da tradição inglesa, a ponto de transformar essa língua da dominação subvertida em uma língua quase estrangeira em Finnegans Wake. Tenta desse modo

provocar uma reviravolta na hierarquia entre Londres e Dublim e res- tituir à Irlanda uma língua que lhe seja própria. "É de minha revolta contra as convenções inglesas", dirá um dia, "literárias ou de qualquer outra natureza, que resulta o essencial de meu talento. Não escrevo em inglês."

Embora pertencendo geração seguinte, Joyce em um sentido per- seguiu o mesmo intuito dos "revivalistas" e procurou, a princípio em

Os dublinenses, cujos textos foram em sua maioria escritos entre 1904

e 1905, ou seja, exatamente no momento da fundação do The Abbey Theatre, e depois em Ulisses, proporcionar um status literário a capital irlandesa, transformando-a em local literário por excelência, enobre- cendo-a pela descrição literária. Mas já nessa coletânea de contos, os meios e o posicionamento estético estão em total ruptura com os pressupostos literários que fundamentam ao mesmo tempo o simbolismo de Yeats e o realismo rural que a ele se opõe. A atenção exclusiva de Joyce à cidade e à urbanidade marca de imediato sua re- cusa de seguir a via da tradição ligada ao folclore camponês e sua

vontade de fazer a literatura irlandesa entrar na "modernidade" euro- péia. Os já proclama a recusa de Joyce de participar do debate dos "revivalistas"; tenta, por esse realismo urbano, tornar pro- saica a descrição da Irlanda, tirar a literatura das grandiloquências do heroísmo lendário para voltar às trivialidades inéditas da modernidade dublinense. "Escrevi-o em grande parte em um estilo escrupulosamente banal"", precisa a respeito de sua coletânea de novelas. Remete o pro- jeto dos fundadores do Renascimento a um arcaísmo estético simétri- co do já sublinhado por Shaw, tanto político quanto intelectual ou artístico da Irlanda. Evidentemente, é essa ruptura total com a esté- tica literária dominante na Irlanda que explica as imensas dificuldades de Joyce para publicar essa primeira coletânea de contos.

Essa posição é portanto o produto de uma recusa dupla: recusa violenta das normas literárias inglesas, mas também rejeição das im- posições estéticas da literatura nacionalista em formação. Joyce ultra- passa a alternativa simples demais ligada à situação de dependência colonial: a emancipação nacional ou a submissão ao poder londrino. Assim, denuncia em um mesmo movimento "a mentalidade nacionalis- ta", a literatura "invadida pelos fanáticos e pelos por um lado e, por outro, os que "entregam-se às fadas e às lendas", dei- xando o teatro irlandês tornar-se "a propriedade da plebe da raça mais atrasada da Europa""; em outras palavras, opõe-se aos escritores cató- licos que transformam a literatura em de propaganda na- cionalista, por um lado, e, por outro, aos intelectuais protestantes que a reduzem à transcriçâo de mitos populares.

Sua dupla oposição inscreve-se espacial e literariamente: recusando ao mesmo tempo a lei de Londres e a de Dublim, Joyce produzirá uma literatura irlandesa em uma extraterritorialidade reivindicada. Em Pa- ris, lugar politicamente neutro e capital literária internacional, vai ten- tar impor essa posição aparentemente contraditória, excêntrica no sentido pleno da palavra. Joyce fará o desvio por Paris, não para daí extrair modelos, mas para subverter a própria língua da opressão em

18. J. Joyce, carta a Richards, 5 de maio de 1906, critiques, p. 102. Joyce, des saints et des cir.,

20. Joyce, "Un poète ibid., p.

J. Joyce, "Le jour de ibid., 81-82.

um projeto especificamente literário ou de "política Cyril Connolly2', célebre escritor e crítico londrino, dá a visão britânica do

desvio de Joyce. Assimilando

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sem como mostramos

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a atitude de Yeats à de Joyce, escreve: "O período de 1900 a 1914 foi o da escola de Dublim: Yeats, Joyce, Synge e Stephens. O sentimento desses escritores era antiinglês Para eles, a Inglater- ra representava um país de e como não podiam escrever em gaélico, seu objetivo era descobrir que mistura de anglo-irlandês e de francês Ihes forneceria um explosivo capaz de rebentar em suas pol- tronas bem estofadas os pontífices de Londres. Todos haviam vivido em Paris e todos haviam abordado a cultura Connolly as- sinala precisamente o lugar de Paris e de Dublim na "guerra" literária iniciada contra Londres: "Paris mantinha no ataque contra os novos mandarins a posição de Dublim contra seus predecessores trinta anos antes. Era que os conspiradores se encontravam, na pequena livraria de Sylvia Beach, onde os exemplares de se empilhavam como de dinamite antes de se espalhar ao longo da rua de

quando de missões minuciosamente

A história da literatura irlandesa não terminou com James Joyce. Este só proporcionou ao espaço literário irlandês, por sua reivindicação de uma extratemtorialidade literária, sua forma contemporânea; permi- tiu-lhe a abertura para Paris, oferecendo assim uma saída a todos os que recusavam a alternativa colonial: o encerramento em Dublim ou a "trai-

ção" londrina. Com ele, a literatura irlandesa estabeleceu-se segundo esse triângulo mais geográfico do que estético formado pelas três capi- tais: Londres, Dublim, Paris, e que foi ao mesmo tempo inventado, constituído e fechado em trinta ou auarenta anos. Yeats fundou em Dublim a primeira posição literária nacional; Shaw ocupou em Londres a posição canônica, a do irlandês convertido às exigências inglesas; Joyce recusou a alternativa e conseguiu conciliar os transformando Paris em

22. as motivos que explicam seu exílio prolongado (e o de muitos artistas irlande- ses), se negligenciar o papel da censura católica instaurada no pais após 1921, censura que aos normas estéticas e proibições morais muito estritas.

23. Ele também de origem irlandesa, mas de família protestante.

24. Connolly. [O que é preciso fazer para

não ser mais um escritor], Paris, 1992, p. 51. Ibid.. p. 87.

Jovem asnirante a escritor na Dublim do final dos anos 20. Beckett nova praça forte para os irlandeses, excluindo ao mesmo tempo as exi-

gências da poesia nacional e a submissão às normas inglesas. O esboço da estrutura literária definida por essas três cidades, Dublim, Londres e Paris, resume toda a história específica da literatura irlandesa tal como foi "inventada" entre 1890 e 1930, e propõe a qual- quer aspirante literário irlandês um leque de possibilidades, de com- promissos, de posições e opções estéticas. Aconfiguração policêntrica entrou tanto nos costumes e na visão do mundo dos escritores irlandeses que ainda hoje Seamus Heaney, provavelmente o maior poeta irlandês nascido em 1939 na Irlanda do Norte no condado de professor durante muitos anos em Belfast, onde estudou, e que decidiu instalar-se na Irlanda do Sul, provocando assim um escândalo em seu país, explica, em entrevista à imprensa francesa, as escolhas que se ofereciam a ele exatamente nos mesmos termos: "Se, como Joyce e Beckett, eu fosse viver em Paris, só teria me adequado a um clichê. Se fosse a Londres, isso seria considerado uma atitude ambiciosa, mas normal. Mas ir a Wicklow, era um ato carregado de sentido Assim que atravessei a fronteira, minha vida particular caiu no domínio público e os jornais escreveram editoriais sobre meu gesto. Que para- d o ~ ~ ! " ~ ' A esse triângulo histórico e fundador, hoje deve-se acrescentar Nova Iorque, que representa ao mesmo tempo, por meio da comunidade irlandesa americana, um recurso e um poderoso de consagração. Após Joyce, Beckett representa uma espécie de remate do espaço literário irlandês e de seu processo de emancipação. Toda a história desse universo literário nacional está ao mesmo tempo presente e re- negada em seu itinerário: de fato só é possível descobri-la em sua obra caso se reconstitua o trabalho que realiza para fugir desse arraigamento nacional, linguístico, político e estético. Em outras palavras, para com- preender a própria "pureza" do trabalho formal de Beckett, seu desli- gamento progressivo de qualquer determinação exterior, sua autonomia quase absoluta, é preciso refazer o percurso que o faz alcançar a liberda- de formal e estilística e que é inseparável do itinerário, aparentemente o mais contingente e o mais externo, que o leva de Dublim a Paris.

26. Seamus Heany recebeu o prêmio de em 1995.

27. 24-11-88.

herda portanto essa configuração do espaço irlandês. Só se pode, com efeito, ficar impressionado com a importância conferida a essas três cidades "capitais". Os deslocamentos de entre Dublim, Londres e Paris são todos eles trajetos literários e tentativas estéticas para encon- trar seu lugar nesse espaço ao mesmo tempo nacional e internacional. Sobretudo, com vinte anos de intervalo, porque ele se encontra nas mes- mas disposições que Joyce, Beckett segue exatamente o mesmo cami- nho, apoiando-se sobre ele para guiar e justificar seus gostos e desgostos, reencontrando suas admirações e suas rejeições, sua exaltação de Dante e sua desconfiança ou seus sarcasmos com relação aos profetas celtas.

Paralisado por uma admiração exaltada por Joyce, que representa então para ele o mais elevado grau de liberdade com relação as normas impostas pelo nacionalismo; petrificado principalmente pela força da posição criada por Joyce em Paris, Beckett ficará até os anos de guerra na impossibilidade de encontrar uma saída criativa para si. A invenção romanesca de Joyce é o único caminho que consegue considerar. Po- rém, condenado ao mimetismo ou a simples imitação de um iniciador, até o desespero por não conseguir se em um projeto singular, nem mesmo escolher a cidade em que poderia residir (hesita por muito tempo entre o retiro em Dublim e o - também

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em Paris), Beckett busca por muito tempo uma saída para a estética e existencial à qual está preso.

Como trabalha a partir das aquisições da autonomia joyciana, pro- cura o meio de seguir os rastros de seu irmão mais velho por outras vias. Ao mesmo tempo, apóia-se em todos os recursos literários irlan- deses do qual é herdeiro e na inovação introduzida por Joyce para criar uma nova posição, ainda mais independente. Portanto, em primeiro lugar, deveria sair da alternativa literária imposta pelas lutas internas do campo irlandês: realismo ou simbolismo; em seguida, teria de ex- cluir o que chamou em uma carta em alemão a Axel Kaun em 1937, falando do empreendimento de Joyce, a "apoteose da ou seja, a escolha da crença no poder das palavras; finalmente, deveria ocupar seu lugar, além de Joyce, em uma outra genealogia artística para

28. S. Beckett, "German Letter of op. p. 52-53, traduzido do alemão por

pôr em funcionamento uma nova modernidade formal. A invenção por Beckett da autonomia literária mais absoluta é ainda o produto para- doxal da história literária irlandesa, o grau mais elevado da subversão e da emancipação literárias que só se pode perceber e compreender a partir da totalidade da história do espaço literário irlandês. Para com- preender a própria "pureza" do trabalho de Beckett, seu desligamento progressivo de qualquer determinação exterior, seu caráter estranho e formalista, deve-se refazer o caminho, histórico, de seu acesso à liber- dade formal e estilística.

No documento Casanova - República Mundial das Letras (páginas 192-195)

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