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Jovem “A velhice pode propiciar sentimentos de integridade”

0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% 1 2 Discordo Neutro Concordo Descrição

1Quando eu for velho(a), espero sentir-me satisfeito(a) com o que realizei na vida

2Na velhice, é possível perceber que valeu a pena viver a vida Legenda: Fator 4

O fator 4 mede o sentimento de integridade, e os idosos e jovens (94,3% e 98,2% respectivamente) foram unânimes e afirmaram que quando forem velhos esperam se sentirem

satisfeitos com o que realizaram na vida e (94,3% e 85,7%) concordaram que “na velhice é possível perceber que valeu a pena viver a vida”.

4.4 Discussão

A análise das respostas expressas por meio da Escala Diferencial Semântica de Atitudes em Relação à Velhice (Escala Neri), do Inventário Sheppard e também das entrevistas, pode ser agora discutida com o ponto de vista dos autores mencionados nos capítulos anteriores quanto à multidimensionalidade das atitudes e significados a respeito do envelhecimento, da velhice e do velho.

Reconhecemos que o envelhecimento é um processo complexo multidimensional e heterogêneo, compreendendo uma relação bio-psico-social-cultural como ficou demonstrado pelas visões plurais e multidimensionais dos participantes da pesquisa. Todavia, os resultados encontrados contrariam algumas crenças sobre atitudes e significados a respeito do envelhecimento, da velhice e do velho, uma vez que a amostra revelou predisposição em geral mais positivas do que negativas frente a esses objetos.

Os resultados gerais da aplicação da Escala Neri, sobre as atitudes dos jovens e dos idosos em relação aos idosos, foram mais positivos (48,1%), moderadamente negativos (27,3%) e neutros (24,6%). Dados semelhantes foram encontrados por Neri (1991) em sua pesquisa. Outro achado semelhante ao do dela foi que a amostra não revelou correlação entre os itens avaliados e a idade dos sujeitos. Por meio do teste qui-quadrado, cujo número é 5,576 e o valor 0,062 é o p-valor do teste, concluimos que as frequências observadas não são diferentes das esperadas, portanto não há associação entre as atitudes (positivas, negativas e neutras) e a idade (jovens e idosos). Evidenciou que os indivíduos jovens e idosos reagem da mesma maneira sobre as questões da Escala Neri, ou seja, são semelhantes às opiniões manifestadas pelos idosos e pelos jovens a respeito da velhice.

Podemos atribuir ao preconceito implícito, percebido por meio das entrevistas realizadas, como sendo uma das causas das avaliações sobre as atitudes serem mais positivas do que negativas. Levy (2001) nos alerta para a existência desse tipo de preconceito, que desperta em nós pensamentos, sentimentos e comportamentos que passam a operar sem nosso conhecimento ou mesmo sob controle consciente. Para tanto, o autor juntamente com seus

colaboradores, tem tentado descobrir as múltiplas formas em que esse tipo de preconceito se infiltra em nossos pensamentos e comportamentos. Segundo o autor uma das formas para erradicar o preconceito é tomar consciência dos diferentes tipos existentes, seja ele explícito ou implícito. Acreditamos que por meio da educação das pessoas de diferentes gerações e também da aproximação entre elas o envelhecimento poderá ser mais compreendido e vivido e todos poderão conviver de forma mais harmônica e pacífica.

A categoria “Cognição” é relativa à capacidade de processamento da informação e de solução de problemas com reflexos sobre a adaptação social. Não obstante terem sido encontradas respostas mais positivas entre idosos e jovens nessa categoria, contraditoriamente, ao confrontá-las com as entrevistas, percebemos que os entrevistados responderam a questões similares de forma mais negativa. Os jovens acreditam que os idosos demonstram ter alguma dificuldade para lidar com as novas tecnologias, sendo mais lentos, em relação a eles, para processar novos conhecimentos e também para solucionar problemas. Vejam os depoimentos:

Pesquisadora: Computador, televisão, caixa eletrônico, celular, você acha que para o idoso é difícil mexer com tudo isso?

R: “Para alguns não, mas para alguns é um sacrifício mexer naquilo ali”. W, 14 anos

R: “É difícil... sei lá, tipo é um mundo novo pra eles, não sei, um mundo novo... Alguns se interessam, mas tem alguns que não se interessam, acho normal e não se interessam por isso”. L, 17anos.

R: “Convivem com dificuldades. Porque no tempo deles não existia isso né? E quando eles ficaram mais velhos e que veio existir. E a pessoa velha já é mais difícil para aprender as coisas”. J: 14 anos

“Não tenho medo não. Sabe, eu vou, não diria nem com entusiasmo, com confiança em mim. Tenho confiança no que eu faço, eu falho, eu erro como todas as pessoas, mas eu procuro dar o melhor de mim”. C: 71 anos

Alguns idosos também assumiram ter certa dificuldade com as novas tecnologias e outros não. Sabemos, que na atualidade, a inclusão social está relacionada também com a inclusão digital, e nesse campo há muito o que realizar, como ficou demonstado na pesquisa do SESC/Perseu Abramo (2007), que mostrou que somente 10% dos idosos afirmam usar o computador e apenas 4% utilizam a internet.

Considerando que um dos objetivos deste trabalho foi de desvelar opiniões e estereótipos relativos à velhice com vista a aproximação entre as gerações, vislumbramos nesta situação adversa, possibilidades contrutivas que favoreceriam trocas intergeracionais, onde idosos e jovens poderiam colaborar uns com os outros. Como demostrou os estrevistados:

“Se a gente pensasse assim, voltando a segunda ou a terceira pergunta que fala que fala das tecnologias, poderíamos ensinar se tivéssemos mais paciência, poderíamos atualizar eles”. N: 24 anos

“Meu neto tinha, acho que cinco anos, vinha sentava no meu colo e me ensinava, eu não sabia nem entrar no computador”. P: 74 anos

“Esse neto que sentava no colo dela aprendeu a jogar sinuca na ponta do meu pé. Hoje já joga comigo “pau a pau”, já até ganhou uma disputa no Iate Clube onde ele me eliminou”. M: 75 anos

Na esteira desta reflexão sobre a possibilidade de trocas intergeracionais, Ferrigno (2007) apresenta o novo programa Internet Livre promovidos pelo SESC-SP. Os jovens

monitores orientam os idosos a manejarem o computador e a navegarem pela internet. Os idosos ficam felizes pelas novas descobertas e os jovens, satisfeitos por poderem colaborar.

Outras atitudes avaliadas negativamente por ambos os grupos, que demonstram relacionar à velhice apenas à perda, encontrados neste e em outros trabalhos, como os de Neri (1991), Andrade (2002), SESC/Perseu Abramo (2007), foram atividade, produtividade, saúde e independência. Os idosos, em geral, são considerados mais “passivos” do que “ativos” somente 36,5% deles e 30,4% dos jovens consideraram positivamente a atividade. Nesta direção, a OMS (2002, p.14) define atividade como “a participação contínua nas questões sociais, econômicas, culturais, espirituais e civis, e não somente a capacidade de estar fisicamente ativo ou de fazer parte da força de trabalho”. Esta foi uma das questões apresentadas aos entrevistados com objetivo de elucidar qual o significado de atividade para eles. A maioria dos jovens respondeu conforme o senso comum, entendendo como sendo atividade física. Contudo, os idosos demonstraram apreender o sentido mais próximo do definido pela OMS, e se declararam pessoas ativas, como nos relatos:

“Eu gosto de escrever, você viu umas trovas lá na casa da Pia que eu escrevi não?... Eu gosto muito de conversar, principalmente com pessoas jovens como você, eu gosto. Gosto de fazer as coisas de casa, inércia não é comigo não. Gosto de mexer com as plantas... Gosto de fazer minhas caminhadas de manhã, saio todo dias pela manhã 40 minutos”. D 86 anos

Os idosos se percebem mais “independente” (44%) do que são avaliados pelos jovens (35,8%). Apenas 34% idosos e 37% jovens, consideram o idoso “saudável”. As doenças e as debilidades físicas são para a maioria dos sujeitos da pesquisa o principal sinal de que a velhice já chegou. Não obstante, declaram que não se sentem velhos, 34% dos idosos responderam que a velhice é um estado de espírito. Resultados semelhantes também refletem os achados do SESC/Perseu Abramo (2007), onde os idosos brasileiros responderam que só a partir dos 70 anos sentem-se como tal.

Alguns jovens percebem que as pessoas estão envelhecendo a partir do momento que vão perdendo o vigor físico. Vejam o relato:

“Eu considero muito a capacidade física da pessoa. Por exemplo, uma Sra. idosa para mim que pega o ônibus e tem que ficar em pé às vezes ela não tem nem 65 anos, mas tem uns 45 então para mim ela já é considerada uma idosa. Conheço uma senhora de 65 anos, lúcida, entende tudo só que ela não poderia fazer, até porque a idade não permite. Eu a considero mais inteligente do que um jovem de 20 anos”. N: 24 anos

É importante destacarmos que os jovens valorizam a capacidade de adaptação dos idosos. Em certos casos, como os citados no trabalho de Andrade (2002), não se tratava de um ganho, mais sim, uma perda de capacidade, pois não era adaptação, mais sim, resignação ou mesmo total falta de escolha de alguns idosos asilados. Observem a opinião de uma jovem a respeito do assunto:

“Ha, hoje em dia eles estão correndo atrás do prejuízo, né? A pessoa quando chegam ali nos 30, já mantêm uma saúde, uma alimentação saudável, um exercício que seja, faz os exames direitinho, então eles estão cuidando da saúde. Chegam com mais saúde”. N: 24 anos

Devido à heterogeneidade e complexidade do processo de envelhecimento não existe consenso entre os pesquisadores, daí resultados diversos para um mesmo objeto de pesquisa, ou seja, o idoso. Complementando essas reflexões, apresentamos o trabalho de Erikson (1986), onde a adaptação estava realacionada a ganhos. Os idosos citados por Erikson consideravam-se, mais adaptados ao meio, em decorrência, mais tolerantes, pacientes, abertos e mais compreensivos do que quando mais jovens. Neste sentido, por meio de alguns estudos levantados por Freire e Sommerhalder (2007) mostram que, em geral, os idosos mantêm a visão positiva de si mesmos e a capacidade para controlar suas próprias vidas de forma eficaz, e ainda que alguns indivíduos são capazes de ajustar seus projetos de vida, de acordo com as condições atuais. Neste trabalho encontramos depoimentos semelhantes aos relatados por Erikson (1986) e por Freire e Sommerhalder (2007), como esse:

“Eu toda a vida fui muito otimista e muito entusiasta também... Eu senti muito, muito mesmo em deixar a minha casa, o meu cantinho, meus amigos, né, meus a ex- alunos, por que eu lecionei em três colégios... Quando eu começo a pensar na minha casa, na minha cidade, nesse desafio que eu estou enfrentando agora, eu procuro ter um pensamento positivo e pensar, mas aqui eu estou do lado da minha filha, dos meus netos, de quem me quer bem e não tem outro jeito para dar, eu tenho que superar isso”. D 86 anos

Na categoria “Cognição” o adjetivo positivo com maior percentual foi “sábio” 92,5% e 98,2% das respostas dos idosos e dos jovens, respectivamente. Nas pesquisas “Idosos no Brasil” SESC/Perseu Abramo (2007), na de Neri (1991), e também na de Cachioni (2002) a

sabedoria também foi citada como referência positiva em relação aos idosos. Não obstante, Neri, (1991, p.94) chama a atenção para o fato da sabedoria não estar atrelada à criatividade ou geratividade, mas sim no sentido de “memória, quantidade e qualidade de experiência vivida e da possibilidade de recorrência ao passado para a resolução de problemas atuais”.

Em um mundo onde as mudanças tecnológicas e sociais acontecem de forma rápida, onde tudo poderia ser armazenado em chip de computador, ela considera eufemismo considerar o idoso sábio, e indaga quando e efetivamente por quem ele é ouvido. Talvez por isso esperamos que ele seja atualizado e progressista, para não estorvar a produtividade dos mais jovens. Assim, ao perguntarmos a Sra. D. por qual motivo o idoso deveria ser valorizado, se por sua idade ou por sua experiência de vida/sabedoria ela respondeu:

“Pela experiência de vida. Eu acho que o idoso tem muito que contar muito que ensinar e os jovens não querem saber disso. Não querem ouvir”. D: 86 anos

Opinião semelhante foi manifestada por uma jovem:

“Às vezes um idoso é até melhor do que um jovem. Ele tem mais coisas para falar, tem mais coisas até para ensinar e o jovem não reconhece isso”. N: 24anos

A respeito deste assunto segue a transcrição do diálogo entre a pesquisadora e L. de 17 anos.

Pesquisadora: Você já experimentou bater papo com um idoso? Trocar umas idéias assim, ouvir alguns conselhos?

L: Não, porque os jovens têm muitas gírias e aí os velhinhos não tem... não entendem.

Pesquisadora: Uai, é só explicar que a gente entende. L: Ah! Ficar explicando...

Pesquisadora: Perde a graça a conversa? L: é.

Na categoria “Relacionamento Social” encontramos algumas semelhanças de atitudes (respostas) positivas entre idosos e jovens, respectivamente. “Bem-humorado” (82,7% e 63,2%); “cordial” (60,4% e 55,8%) e confiantes (73,6% e 64,9%) sendo que os idosos se percebem mais bem-humorados, cordiais e confiantes do que são reconhecidos pelos jovens. Fato confirmado nas entrevistas, onde os jovens definiram alguns idosos como sendo pessoas “chatas”, “rabugentas”, “implicantes”. Ao serem questionados se a situação mudou quando houve possibilidade de conhecer melhor aquela pessoa, alguns demonstram ter mudado de opinião. Conforme relato:

“Eu não tinha muita convivência com pessoa idosa, eu achava, por exemplo, que a minha vizinha era xarope, chata, quando a gente ia jogar bola na frente da casa dela, ficava implicando. Mas, depois que eu viajei aí eu conheci meu pai e conheci minha avó também. Depois que eu conheci ela melhor eu descobri que os idosos

podem ser chatos, mas às vezes são muito legais. Tipo assim, depois que a gente conhece o idoso, tem mais paciência com eles”. W- 14anos

A partir da hipótese levantada neste trabalho, acreditamos que a aproximação entre as gerações poderá favorecer relacionamentos mais positivos para todos, colaborando ainda para a minimização ou quem sabe até a superação de preconceitos relacionados à velhice e ao velho. Nos estudos de Souza (1999), Andrade (2002) e Novaes (2005) dados semelhantes foram encontrados. Acreditamos que por meio do diálogo interativo, da abertura para o outro, da compreensão e da aceitação mútuas, do senso de humor, e ainda da renovação de espaços de convivência, a vida possa ser prazerosa e rica, envolvendo todas as idades.

A categoria “Persona” acena para a imagem social, refletindo os rótulos sociais comumente usados para designar e discriminar os gerontes. Nesta categoria o adjetivo com avaliação mais positiva, tanto para idosos como para jovens, respectivamente, foi “aceito” (64,7% e 62,5%) e agradável” (62,3% e 70,9%). Ambos percebem que o idoso é mais “introvertido” (53,2% e 48,2%), eles também veem o idoso mais “valorizado” (45,3% e 50%) Os jovens acharam os idoso mais “atualizado” (40%) do que os idosos se sentem (25,5%), não obstante afirmarem nas entrevistas que eles são desatualizados.

Percebemos que há um preconceito implícito, uma vez que a amostra revelou predisposição em geral mais positiva do que negativa frente ao geronte, idosos e jovens assumirem que os velhos são aceitos. Mas aceitos por quem? Poucos admitem que rejeitam o velho, e talvez o faça de forma inconsciente e/ou implícita. Uma das explicações para as pessoas incorporaram este tipo de preconceito de forma inconsciente e em razão do processo de envelhecimento sempre ter sido socialmente definido em termos de atributos negativos, portanto, pode ser mais fácil para as pessoas atribuírem a rejeição a outras causas não relacionadas à idade (Levy, 2001). Veja o comentário de um jovem a respeito de sua professora que aposentou e voltou a trabalhar.

“Tem momentos que eu acho que tem que pendurar as chuteiras... Porque ela não é muito moderna como a gente, a gente quer fazer uma coisa mais moderna, ela fala não, não quer. Aposenta, bota um mais jovem”. L: 17anos

Os idosos (45%) se declararam menos valorizados do que são percebidos pelos jovens (50%). Os idosos mais valorizados pelos jovens entrevistados são os que aparentam mais juventude, vigor físico e disposição. Nesta direção, segue trecho da fala de dois entrevistados:

“Tem muita gente que com 60 anos ou menos ainda já desiste de trabalhar, não quer, fala que ta cansada da vida, mas eu dou mais apoio, acho bem interessantes aqueles que lutam pela vida até onde podem. T: 17anos

A impressão que eu tenho de que meus filhos não dão valor a minha experiência de tantos anos NE? Por que eu sai de casa com 22 anos, formada em piano, lá no Rio de Janeiro, formada em curso superior. Fiquei um ano fazendo enxoval, aquelas coisas. Quando eu me casei eu fui morar no Sul de Santa Catarina, um lugar que não tinha nem luz, então passei experiências incríveis NE? W: 84 anos

Motta (2004, 2006) aponta que a classificação de pessoas em termo de juventude e velhice, não está relacionada apenas ao tempo vivido, ou ao estado de conservação do corpo e da mente, mas, sobretudo ao tipo de relação estabelecida entre as gerações e entre as classes sociais. Inferimos que os jovens entrevistados também foram influenciados pela idéia de envelhecimento ideal, bem-sucedido, de uma longa velhice, sem perda do vigor físico e da agilidade mental, fato este que atrai o interesse das pessoas desde a Antiguidade, como informou Freire e Sommerhalder (2007).

A respeito da relação entre as gerações, onde algumas pessoas consideram os idosos desmemoriados, confusos ou “caducos”, expressão que apareceu em algumas entrevistas, é relevante apresentarmos o depoimento da Sra. W, 84 anos:

“Eu tenho a impressão de que as pessoas não acreditam muito no idoso NE? Por exemplo, se eu dou uma informação,... uma bobagem, exemplo, outro dia estavam falando do tal de Popó Bueno e Cacá Bueno, filhos do Galvão Bueno que correm, eu disse são dois, tem o Popó e o Cacá. Que nada mamãe você ta confusa, o Popó é o lutador de Box. Eu disse, não, tenho certeza de que são dois, eu nem me interesso por isso não, mas eu vejo televisão, leio jornal,... Mas uns dias depois apareceu uma lista no Correio Brasiliense... Popó Bueno. Eu falei viu?

Ao analisar o Fator 1 do Inventário Sheppard (“é na juventude que se tem o máximo de satisfação na vida”), descobriu-se que a maioria dos jovens 61,4% e apenas 43% dos idosos concordam com está afirmativa.

“Eu acho que na velhice é até melhor, porque vocês estão mais tranqüilo, mais sossegado e tudo.Tenho um amigo que ele fala assim, olha Pia depois dos 70 tudo é lucro, eu falei assim, então agora eu já fiz 70 vou aproveitar vou lucrar tudo né? Vamos viajar, vamos para tudo, vamos fazer tudo que a gente quer fazer. P: 74 anos “Tranqüilo saber que podemos ir, nada que prenda obrigação nenhuma. Toda oportunidade de férias, feriado nós sempre viajamos. M: 76 anos

As entrevistas com os respondentes jovens corroboram com dados encontrados por meio desse Inventário, uma vez que eles foram unânimes em afirmarem “que é na juventude que se pode ter o máximo de satisfação”. Neste sentido, Neri (1991) enfatiza a contemporaneidade das respostas em relação ao período de vida que o respondeste está

vivendo. Ou seja, as pessoas tenderiam a se projetarem no futuro da forma como se veem no presente.

A literatura gerontológica, supõe que, considerando os estereótipos e preconceitos relacionados à velhice, as pessoas, de diferentes idades, tenderiam a evitar projetar-se no futuro como percebem os velhos no presente. Sendo assim, demonstrariam ter expectativas mais positivas quanto a si próprias na velhice do que a avaliação que fazem dos velhos atuais. Verificamos que a literatura ratifica os resultados encontrados nesta dissertação, pois idosos e jovens (94,3% e 98,2% respectivamente) foram unânimes e afirmaram que, quando forem velhos, esperam se sentirem satisfeitos com o que realizou na vida (94,3% e 85,7%), concordando que “na velhice é possível perceber que valeu a pena viver a vida”. É o que relatou os entrevistados:

“Tive uma vida muito feliz, uma infância muito alegre e uma juventude também muito bacana. Fui uma moça que gostava muito de passear, de conversar, de dançar sabe? De ter amizades, de viajar, viajava nas férias, então eu não posso reclamar. Fui muito feliz, casei, fui muito feliz também. Como na minha profissão, fui uma professora muito querida e sou até hoje. E agora no fim da vida morando com minha filha e com meus netos eu me sinto realizada, muito feliz também, por que eles são ótimos para mim, e eu tenho tudo”. D, 86 anos

“Eu espero estar saudável, forte continuar trabalhando até onde eu puder e levar a vida”. T: 17 anos

Ao responderem aos itens relacionados ao Fator 2 do Inventário Sheppard (“A velhice prenuncia dependência morte e solidão”) as opiniões dos grupos tenderam à polaridade (concordo - discordo). Ao serem questionados a respeito do medo das debilidades físicas, 43,4% dos idosos e 43,9% dos jovens afirmaram sentir medo, sendo que 47,2% dos idosos e 42,1% dos jovens afirmaram o contrário. Encontramos dados semelhantes na pesquisa SESC/Perseu Abramo (2007), e aqui a pesquisa mostrou que 57% dos idosos e 49% dos não idosos afirmaram que a debilidade física e as doenças são as piores coisas que viriam com a idade.

Os jovens (48,2%) demonstram achar mais difícil enfrentar a idéia da própria morte do que os idosos (36,5%). Quanto ao medo da solidão, os idosos (40%) demonstram sentir mais medo do que os jovens (35%), talvez pelo fato de já se encontrarem nesta fase da vida e se sentirem sozinhos. Fato ratificado por meio da entrevista, a Sra. W. afirmou ter ótimos filhos, todavia, como ela tem boa saúde, mora sozinha e ainda é muito independente, eles quase não a procuram:

“Prezo minha independência, mas acho que isso faz com que eles se lembrem menos

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