2 CONTEÚDO VALORATIVO E CONCRETIZAÇÃO DOS DIREITOS
4.3 A BASE DE LEGITIMIDADE DO JUIZ SINGULAR
4.3.2 O juiz e os fatos
Ovídio A. Baptista da Silva está correto quando assevera que o processo judicial é um pedaço da história humana: “Com efeitot que é a lidet senão uma pequena unidade da história vivida por seres reais?” 155 Em verdadet abstraída a idéia da história tradicional retratada pelos historicistast onde são registrados os eventost os nomes e as datas importantest o processo judicial é palco de angustiast ansiedades e dramas envolvendo na maioria dos casos pessoas comuns. São cidadãos de todas as classes sociais que acorrem ao Judiciário diariamente expondo seus sentimentos e infortúniost visando a alcançar uma vida mais feliz. Os processos judiciais retratam o mundo dos fatos: o cotidiano das cidadest os conflitos familiarest a difícil relação entre Estado e indivíduot entre consumidor e fornecedort capital e trabalhot privilegiados e excluídost enfim as desigualdades e contradições existentes na sociedade contemporânea.
154 Disponível em: <http://www.cnj.jus.br>. Acesso em: 05 de julho 2009. 155 SILVAt Ovídio A. Baptista da. Processo e ideologiat p. 264.
Em razão da marcante presença dos fatos no universo jurídicot os romanos costumavam dizer que o direito nasce do fato: ex facto oritur jus. Compreenda-set porémt que não é todo fato cotidiano que dá origem ao direitot mas somente aqueles a que o homem atribua significação jurídicat ou sejat somente interessa ao direito os fatos produzidos pela cultura humanat os chamados fatos jurídicos. Segundo CARVALHOt “os fatos jurídicos não são simplesmente os fatos do mundo socialt constituídos pela linguagem de que nos servimos no dia a dia. Antest são enunciados proferidos pela linguagem competente do direito positivot articulados em consonância com a teoria das provas”. 156 Vale dizert o que transforma um evento qualquer em fato jurídico é o seu relato vazado em linguagem por autoridade competentet embasado em provas admitidas pelo ordenamento. Assimt por exemplot se alguém dirige um automóvel sob efeito de álcoolt mas chega ao seu destino sem nenhum incidentet tal evento não interessa ao direito. Todaviat se esta mesma pessoa é flagrada pela autoridade policialt ou se se envolve em um acidente de trânsitot sua conduta importa ao direito na condição de fato jurídico.
Sendo indissociável a relação entre o direito e o fatot a busca pelo convencimento do juiz acerca dos fatos constitui finalidade primordial do processot disso dependendo o sucesso da parte. É justamente visando ao convencimento do juiz a respeito dos fatos que as provas são produzidas no processot eis que a partir delas o juiz buscará reconstruir a configuração dos acontecimentos.
O procedimento probatório pode ser dividido em até quatro etapas: “propositura pela partet admissão pelo juizt realização (ou produção) com a participação de todos os sujeitos processuais e valoraçãot tarefa do julgador”. 157 A propositura e a admissão
156 CARVALHOt Paulo de Barros. Direito Tributário – fundamentos jurídicos da incidência. São Paulo:
Saraivat 1998t p. 89.
157 GARCIAt André Almeida. Prova civil. São Paulo: Saraivat 2009t p. 36. Moacir Amaral Santos fala em três
momentos da prova: a propositurat a admissão e a produção (in: Primeiras linhas de direito processual civilt v. 2t 23. ed. São Paulo: Saraivat 2004t p. 361). Humberto Theodoro Júnior também considera três os estágios do procedimento probatório: a proposiçãot o deferimento e a produção (in: Curso de Direito Processual Civilt v. 1t 37. 3e. Rio de Janeiro: Forenset 2001t p. 376).
são as fases iniciais do procedimento probatório. Na fase de propositura as partes protestam pela produção da provat com a finalidade de demonstrar a ocorrência de determinado fato por elas alegado: o autor na petição inicial e após a contestação (Código de Processo Civilt arts. 282t VI e 324t respectivamente) e o réu na contestação (Código de Processo Civilt art. 300). Na fase de admissão o juiz analisa o cabimento da provat a fim de identificar se existem normas que limitam ou excluem o emprego de determinados meios de provat o que ocorre por ocasião do saneamento do processo (Código de Processo Civilt art. 331). 158
A produção (ou realização) e a valoração da prova apresentam uma ligação muito estrita entre sit apesar de constituírem fases distintas do procedimento probatório. Como as provas se destinam ao convencimento do juiz a respeito da ocorrência dos fatost e como é elet o juizt que conduz a colheita das provast a produção e a valoração destas não ocorrem de modo isoladot mas se interligamt posto que o juiz verificará o grau de credibilidade da prova já no momento de sua produçãot tendo que decidirt por exemplot se o depoimento da testemunha é confiável ou se o documento é autêntico e representa fielmente os fatos tal e como se produziram.159 Portantot já no momento em que produz a prova o juiz igualmente valora o seu conteúdot buscando contextualizar os fatos da maneira mais fiel possível. A condição de valorar a prova no exato momento de sua produção é um diferencial que distingue o julgamento dos juízes do julgamento dos tribunaist uma vez que estes se limitam ao ato de valorar a provat porém sem tê-la produzido.
O termo sentença nos idiomas de origem latina provém do verbo sentiret com o significado de sentirt experimentar uma sensação ou sentimentot decidirt julgart conforme a percepção dos sentidos. 160 A sentença ét poist o resultado daquilo que o juiz “sentiu” do processo.
158 Ibidemt p. 36.
159 GARCIAt op. citt p. 65.
160 NORONHAt Carlos Silveira. Sentença civil: perfil histórico-dogmático. São Paulo: Revista dos Tribunaist
Nesse contextot resta explicado o porquê da sentença ser um ato privativo do juiz singular. 161 Como é o juiz singular que exerce a atividade de instrução do processot mantendo contato direto com as partes e presidindo a produção das provast somente ele é dotado de melhores condições para sentir a lidet daí a privatividade do ato de sentenciar. Decidir sobre fatos exige proximidade e conhecimento da realidade circundante. Quanto mais próximo das partes e dos acontecimentost e quanto maior o conhecimento do contexto social da lidet melhor será a compreensão ou sentimento do julgador a respeito do caso sub examine.
Reforçando a importância da vinculação entre o juiz e os fatost o Código de Processo Civilt em seu art. 132t apregoa que: “O juizt titular ou substitutot que concluir a audiência julgará a lidet salvo se estiver convocadot licenciadot afastado por qualquer motivot promovido ou aposentadot casos em que passará os autos ao seu sucessor”. Este dispositivo bem revela a preocupação do legislador com as impressões pessoais colhidas pelo juiz que manteve contato com as partes e com as provas em audiênciat sendo elet portantot conhecedor dos fatost desse modo reunindo melhores condições para sentenciar.
Outro aspecto relevante na relação entre o juiz e os fatos se situa no âmbito da iniciativa probatóriat à luz da previsão contida no art. 130 do Código de Processo Civil: “Caberá ao juizt de ofício ou a requerimento da partet determinar as provas necessárias à instrução do processot indeferindo as diligências inúteis ou meramente protelatórias”.
A concepção publicista do processo produziu significativa mudança no tocante ao poder instrutório do juizt merecendo destaque a revisão levada a efeito no sentido de restringir a abrangência do princípio dispositivot segundo o qual o indivíduo possui a faculdade exclusiva de invocar a tutela jurisdicional do Estado para a satisfação do seu direito
material. LOPES ressalta nesse campo o papel de relevo desempenhado por Cappelletti na moderna configuração do princípio dispositivot que significat apenast que a iniciativa das alegações e dos pedidos incumbe às partest não ao juiz. Estet porémt na condição de diretor formal do processot exerce poder de intervençãot de solicitação e de estimulo às partes para que esclareçam suas alegações e petiçõest podendo para tanto determinar as diligências necessárias à integral apuração dos fatos. 162
Urge ressaltar que a atuação mais ativa do juiz na apuração dos fatos não afeta sua imparcialidadet como destaca GOMES:
Imparcialidade não significa neutralidade diante dos valores a serem salvaguardados por meio do processo. Não há nenhuma incompatibilidade entre tal princípio e o empenho do juiz para que seja dada razão àquela parte que efetivamente agiu segundo o ordenamento jurídico. Ao contráriot este é o verdadeiro intento do processo. Importa ao juiz conduzi-lo de tal modo que seja efetivo instrumento de justiçat que vença quem realmente tem razão. Nisto consiste a imparcialidade. 163
A propósitot o Superior Tribunal de Justiça de há muito pacificou a jurisprudência no sentido de outorgar ao juiz os mais amplos poderes probatóriost reconhecendo que o mesmo deixou de ser um espectador inerte da batalha judicialt passando a assumir uma posição ativat que lhe permitet dentre outras prerrogativast determinar a produção de provast desde que o faça com imparcialidade. Para o Superior Tribunal de Justiçat a iniciativa probatória do julgador se justifica em qualquer circunstânciat presentes razões de ordem públicat quando o juiz está diante de causa que tenha por objeto direito indisponível – ações de estado – ou quandot em face das provas produzidast o juiz se encontre
162 LOPESt João Batista. A prova no direito processual civil. São Paulo: Revista dos Tribunaist 1999t p. 66. 163 GOMESt Sérgio Alves. Os poderes do juiz na direção e instrução do processo civil brasileiro. São Paulo:
em estado de perplexidadet out aindat quando haja significativa desproporção econômica ou sócio-cultural entre as partes. 164
Como em nosso mundo nada é igualt somente as circunstâncias fáticas da lidet sentidas pelo julgadort são capazes de conformar a decisão com a melhor alternativa de solução do conflito. Para tantot o julgador deve ter a capacidade de aplicar o direito apreendendo o fato em sua individualidade. Desse modot confirma-se o que se tem buscado demonstrar: estando o juiz singular em contato direito com os fatos colhidos em audiênciat a sua posição se afigura privilegiada para sentir os elementos da lidet o que representa um forte componente de legitimidade de sua decisão.