A justaposição é definida, de modo geral, como a ligação de sentenças sem a presença de um conector. Fazendo uma revisão da literatura a respeito desse conceito, encontraram-se as definições: “São justapostas as [orações] que se apõem a outra oração sem auxílio de conectivo [...] podemos observar que tanto orações independentes, como as dependentes, podem ser conectivas ou justapostas” (BECHARA, 1992, p. 106). Segundo Cunha e Cintra (2001, p. 596), as orações justapostas são “colocadas uma ao lado da outra sem qualquer conectivo que as enlace” (CUNHA; CINTRA, 2001, p. 596). Para Dias e Rodrigues (2010, p. 16): “coordenação e subordinação dizem respeito ao valor sintático de dependência e independência em que se acham as orações dentro do contexto; correlação e justaposição referem-se ao modo de se ligarem entre si essas mesmas orações”.

Salienta-se, como também mencionam Dias e Rodrigues (2010, p. 15), “embora não haja muitos estudos que discutam o estatuto de mecanismo sintático da justaposição, todos são unânimes em citar Oiticica (1942, 1952), como o precursor e defensor dessa

signals Solutionhood; and non-finite clauses Circumstance (Taboada & Mann, 2006b). Lexical or cohesive chains may be indicators of an Elaboration relation. Punctuation and layout are also indicators of relations. Finally, genre-related structures probably play a role, in terms of the types of relations that are typically found in a particular text type, such as Preparation and Background in newspaper articles, and also in what relations are most frequent in each part of a text or conversation (Taboada, 2004)” (TABOADA, 2009, p. 133).

premissa”. Assim, Oiticica (1940, p. 248) já menciona o que seria justaposição por meio de exemplos:

Juxtaposição: Exemplo: Justino, me disse o guarda, recolhe aquele carro. Nesse exemplo, há duas frases independentes, uma das quais se intercala entre dois termos da outra, suspendendo-lhe a sequência. Por isso, a frase “me disse o guarda” chama-se intercalada. As duas frases estão relacionadas apenas por mera juxtaposição.

Percebe-se que, apesar das diversas definições apresentadas para justaposição, todas apontam para uma característica comum: ausência de conectores. Partindo desse aspecto, pode-se dizer que a justaposição não estaria presente apenas em sintagmas oracionais, mas também em sintagmas nominais. Observando que a justaposição, com a qual se trabalha, encontrava-se no que a Gramática Tradicional define como frase nominal, foram resgatadas algumas definições de frase, oração e frases nominais, a fim de delimitar esses conceitos e demonstrar qual posicionamento é adotado neste trabalho.

Para Bechara (1992, p. 13), a oração é definida como

a unidade do discurso, marcada entre duas pausas. A oração constitui a menor unidade de sentido do discurso e encerra um propósito definido. Para tanto, faz uso dos elementos de que a língua dispõe de acordo com determinados modelos convencionais de estruturação oracional. Estes modelos convencionais nem sempre coincidem de idioma para idioma e vêm a formar o sistema sintático característico desse mesmo idioma ou de um grupo de idiomas.

Já Bechara (2001), ao estabelecer a diferença entre frase e oração, pauta-se na ausência e na presença de verbo, respectivamente. Desse modo, a frase não teria um núcleo verbal, já a oração teria. Além disso, ele divide a frase em duas categorias: unimembre e bimembre. Na primeira, estariam as interjeições, tal como: “Socorro!”, “Oh, meu Deus!” etc. Na segunda, ele inclui frases como: “Casa de ferreiro, espeto de pau”, “Tal pai, tal filho”. Ao conceituar a frase, ele afirma que, geralmente,

seus elementos constituintes são de natureza nominal (substantivos, adjetivos ou advérbios), e a ausência do núcleo verbal, donde dimanam as relações sintático-semânticas, impede que se identifiquem entre seus constituintes as funções que se manifestam na oração. Por outro lado, a frase aponta para asserção de uma verdade geral, já que exclui a forma

verbal responsável por uma particularização da expressão (BECHARA, 2001, p. 540).

Embora diferencie frase de oração pela ausência e presença de verbo, respectivamente, Bechara (2001) chama a atenção para o fato de que as frases são passíveis de serem parafraseadas. Desse modo,

‘entende-se’ que um enunciado como Bom dia! equivale a Desejo bom dia ou Espero que tenha bom dia!, ou Casa de ferreiro, espeto de pau valeria aproximadamente a Casa de ferreiro usa espeto de pau ou Quando a casa é de ferreiro, o espeto é de pau ou, ainda, Em casa de ferreiro não se usa espeto de ferro, mas de pau (BECHARA, 2001, p. 540).

Apesar de Bechara (2001) demonstrar que a paráfrase é possível, argumenta que não se devem realizar paráfrases com o intuito de obter orações, afirmando que “a expressividade decorre da leveza e espontaneidade com que se caracterizam [...]. A vivacidade e leveza que tais frases emprestam ao discurso explicam o largo emprego nas máximas e provérbios” (BECHARA, 2001, p. 542). Desse modo, as paráfrases não refletem exatamente a estrutura nominal, retirando, muitas vezes, o seu contorno melódico e sua expressividade.

Para Cunha e Cintra (2001, p. 119), “a frase é um enunciado de sentido completo, a unidade mínima de comunicação. A frase é constituída só de uma palavra ou de várias palavras com verbo ou sem verbo”. Assim, para eles, todo enunciado de sentido completo seria uma frase, independentemente de presença verbal. Já a oração sempre teria um núcleo verbal. Ademais, eles afirmam também que a frase se reveste de uma estrutura melódica, uma entonação.

O pensamento de Garcia (2002) assemelha-se ao de Cunha e Cintra (2001), no que concerne à distinção entre frase e oração. Nesse sentido, “a frase é todo enunciado suficiente por si mesmo para estabelecer comunicação” (GARCIA, 2002, p. 32). Já a oração se caracterizaria pela presença de uma parte predicativa. Além dessa diferenciação, Garcia (2002, p. 38) conceitua também as frases nominais: “há outro tipo de frase que também prescinde de verbo, constituída que é apenas por nomes (substantivo, adjetivo, pronome): Cada louco com sua mania, Cada macaco no seu galho, Dia de muito, véspera de nada”.

É interessante destacar que mesmo os provérbios que não apresentam núcleo verbal podem ser parafraseados (inserindo-se um verbo) com facilidade. Assim, retomando o provérbio Cada macaco no seu galho, é possível depreender ‘Cada macaco deve ficar no seu galho’. Conforme Garcia (2002, p. 40), nos provérbios,

o verbo é facilmente mentável. Num exame rápido de cerca de trezentos deles, dos mais comuns, verificou-se que vinte e seis eram constituídos por frases nominais do tipo ‘cada macaco no seu galho’ (uma unidade) ou ‘dia de muito, véspera de nada’ (duas unidades em paralelismo). Desses vinte e seis, dezesseis – mais de 60% – poderiam admitir o verbo ser ou correlatos; oito – cerca de 30% –, haver ou correlatos, e somente dois admitiriam verbos de outras áreas (um ir, o outro, ter).

Ressalta-se que estruturas sem verbos existem há muito tempo. Nesse contexto,

a tradição de frases sem verbo data do próprio latim (“Ars longa vita brevis”), particularmente na linguagem familiar, como nas comédias de Plauto. Entretanto, mesmo os clássicos puristas como César e Cícero, para não citar outros, delas se serviam habitualmente (GARCIA, 2002, p. 40).

Garcia (2002) menciona também que as frases nominais são encontradas frequentemente em provérbios.

Resgatou-se o conceito de frase e oração a fim de se estabelecerem as diferenças existentes e apresentar a definição de frases nominais. A referência às frases nominais se justifica pelo fato de os estudos tradicionais, geralmente, classificarem enunciados como Rei morto, rei posto como exemplos de frases nominais. Apesar de apresentar os conceitos de frase, oração e frase nominal, o propósito deste estudo não é diferenciar frase de oração; mas partir desses conceitos para demonstrar como provérbios sem conectores e núcleo verbal podem estabelecer relações de sentido.

Desse modo, considera-se importante o estudo de porções de texto sem conectores, porque entende-se que eles, por si sós, não determinam o significado das partes que se articulam em um dado texto.

No documento Casa de ferreiro, espeto de pau: uma análise das relações retóricas a partir do uso dos provérbios como estratégia argumentativa em textos da internet (páginas 35-39)