Kantaro Uno: fusão de senhor feudal e ditador

No documento A diáspora na obra de Karen Tei Yamashita: estado-nação, sujeito e espaços literários diaspóricos (páginas 115-120)

4. DO FIXO AO FLUIDO: SUBJETIVIDADES DIASPORIZADAS EM BRAZIL-

4.3 Rousseau e Stuart Hall: descentrando o sujeito em Brazil-Maru

4.3.4 Kantaro Uno: fusão de senhor feudal e ditador

Ao contrário das personagens analisadas até agora, Kantaro Uno não é vítima, mas sim o detentor do poder em Esperança. Um dos responsáveis por conceber o projeto para a comunidade, Kantaro é um líder que vê homens, mulheres e crianças como sujeitos a serem moldados para atuarem de forma única e imutável, bem ao sabor rousseauniano. Suas estratégias de dominação, porém, “evoluem” com o passar do tempo. Para convencer os colonos a participarem de seu projeto, o jovem Kantaro faz uso de seu carisma e sua retórica. Com o passar do tempo, a persuasão dá lugar à intimidação por meio de violência e humilhação pública, o que força o grupo a trabalhar para o alcance de metas aparentemente coletivas, mas que no fundo são de sua escolha pessoal. Somando-se a suas atitudes, Kantaro também implementa limites geográficos em Esperança, controlando o espaço interno para viabilizar a dominação. Se Esperança reúne, ao mesmo tempo, características de um feudo ou de um império, Kantaro é seu senhor feudal, acumulando atributos que facilmente caracterizariam ditadores.

Na condição de senhor feudal, Kantaro exerce um controle sobre os colonos de Esperança que se baseia no isolamento e na reclusão, o que os deixa totalmente dependentes. Tal situação se assemelha à dos servos medievais, subjugados por seus senhores. Em O

feudalismo: economia e sociedade, Hamilton M. Monteiro (1991) assegura que “do ponto de

vista jurídico, político e militar, assiste-se, na época carolíngea, acentuar-se a dependência dos camponeses, transformando-os em indivíduos de segunda categoria” (MONTEIRO, 1991, p.

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39). Em outras palavras, os senhores feudais nutrem um desprezo absoluto pelos direitos individuais do campesinato, situação que é similar ao ponto de vista de Kantaro em relação aos colonos de Esperança. Como um senhor feudal, ele determina a vida das famílias sob o seu comando. Kantaro força casamentos, como os de Ritsu e Befu e de Kanzo e Akiko244, ou os proíbe. Ele programa o futuro de crianças, como Ichiro e Genji, à revelia de suas vocações e aspirações pessoais. Kantaro também impõe trabalho pesado aos homens de Esperança e toma para si as jovens mais bonitas, como ele próprio admite: “Todas as garotas da comuna viviam juntas, dormindo juntas em um grande rancho dormitório. Esta situação me fez esquecer sua linhagem e me deu a sensação de que todas pertenciam a mim” (YAMASHITA, 1992, p. 134).245

O uso das mulheres como objetos é um dos “pecados” que Kantaro confessa na terceira seção de Brazil-Maru, como se estivesse arrependido. No entanto, antes de chegar ao ponto de cometer tais abusos, Kantaro é retratado com outro perfil:

Kantaro tinha um jeito de falar sobre a vida e o futuro que leva muitas pessoas a se sentirem ao mesmo tempo abertas, completas e cheias de esperança. Falava de projetos, grandes e pequenos, com fervor e otimismo, como se as tarefas que realizássemos em nosso dia a dia, não importando o quanto fossem triviais, fizessem parte de um esquema maior e mais importante. Ele falava de Esperança como se fosse a semente de um grande sonho, um experimento especial que mudaria o mundo. (YAMASHITA, 1992, p. 50)246

Narrada por Ichiro, essa passagem exemplifica como a manipulação dos colonos é processual e se dá por meio da retórica, característica que Kantaro apresenta desde jovem. Sua eloquência faz com que seja visto como um líder capaz de comandar importantes projetos, que há de transformá-los na “grande civilização” prometida pelos fundadores de Esperança. Com o passar do tempo, as pessoas comuns se entregam ao carismático Kantaro e suas ideias começam a ser implantadas na comunidade. Yamashita, que faz o alinhamento do tempo cronológico com o desenrolar da narrativa, proporciona ao leitor a possibilidade de descobrir Kantaro, passo a passo. Nas seções primeira e segunda, predomina a imagem de um Kantaro idealista e empreendedor, mas as narrativas subsequentes revelam que seu discurso do bem comum e do interesse coletivo é apenas a reunião de palavras vazias, produzidas com

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Conforme relata Monteiro (1991), muitos senhores feudais reservavam-se o direito à primeira noite com as noivas dos camponeses sob seu domínio. Somente assim esses homens obteriam a permissão para o casamento. Tal prática se assemelha ao que ocorre com Akiko e Kanzo. Ela sempre foi uma espécie de objeto para Kantaro. Quando se cansa de Akiko, Kantaro determina que ela se case com o fraco Kanzo, seu filho.

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“All the girls in the commune lived together, slept together in one large dormitory cottage. This situation made me forget their parentage and gave me the feeling that they all belonged to me.”

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“Kantaro had a way of talking about life and the future which made people feel at once expansive and fulfilled and full of hope. He spoke of projects, both great and small, with fervor and optimism, as if the tasks we took on in our daily lives, no matter how trivial, were part of a larger more important scheme. He spoke of Esperança as if it as if it were the seed of a great dream, a special experiment which would change the world.”

a finalidade de concretizar projetos pessoais. A implantação do beisebol na comunidade, ainda no começo, é um exemplo de seu egocentrismo: trata-se de um esporte em que ele próprio se destaca, e sua prática o eleva a ídolo dos jovens de Esperança. Mas o beisebol exige recursos para a compra de equipamentos esportivos. Para financiar o projeto, sustentando assim sua própria vaidade, Kantaro vende a produção de arroz de sua família, sem o consentimento do pai: “Kantaro disse que o arroz não era nosso. Disse que pertencia à Esperança” (YAMASHITA, 1992, p. 46),247 explica seu irmão Jiro, ao ver o caminhão que parte levando o sacrifício de todos os membros da família. Amparando-se no argumento do bem coletivo, dos “interesses de Esperança”, Kantaro segue justificando as arbitrariedades que comete.

As justificativas são, por sinal, a especialidade de Kantaro. A maioria delas pode ser encontrada na terceira seção de Brazil-Maru, em que ele traça o perfil de si mesmo, expondo seus pensamentos mais íntimos. É significativo o fato de que Yamashita tenha selecionado um trecho de Confissões, o livro autobiográfico de Rousseau, para abrir essa seção: “A verdadeira intenção de minhas Confissões é contribuir para um conhecimento preciso do meu íntimo em todas as diferentes situações de minha vida. O que eu prometi contar é a história da minha alma” (ROUSSEAU apud YAMASHITA, 1992, p. 116).248 Nos cinco capítulos seguintes, Kantaro dá sua versão de fatos importantes de sua biografia: sua amante Natsuko, a vida paralela que levava em São Paulo, sua relação com Haru, com os pais e com os colonos. Conta também sobre inúmeras pessoas que prejudicou e seus negócios mal- sucedidos, que culminaram na falência da cooperativa e a perda das terras, fato que deixou os membros da comunidade completamente sem recursos. O relato de Kantaro cobre a história de Esperança a partir de 1945, tendo início com a descrição que ele faz da comunidade e de si mesmo:

Ao término da guerra, eu era o líder de uma grande comuna de 300 agricultores em um rancho de 420 acres e pelo menos mais 1.000 em outras regiões. Nessa época tínhamos dez galinheiros e 5.000 galinhas poedeiras [...] Com um financiamento adequado e o apoio de uma rede de cooperativas, um grande sonho poderia ser realizado. Eu, Kantaro Uno, transformaria Esperança em uma grande civilização. (YAMASHITA, 1992, p. 118, grifo nosso)249

Kantaro, diferentemente dos narradores Ichiro e Haru, fornece ao leitor dados estatísticos e detalhes administrativos a que somente ele e outros líderes têm acesso, o que

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“Kantaro said it wasn’t our rice. He said it belonged to Esperança.”

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“The real object of my Confessions is, to contribute to an accurate knowledge of my inner being in all the different situations of my life. What I have promised to relate, is the history of my soul.”

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“By the end of the war, I was the leader of a large commune of 300 people farming on a rancho f 420 acres and at least another 1,000 in outlaying areas. At this time, we had a group of 10 poultry barns and 5,000 laying hens[..] Now with proper financing and a network of cooperative support, a great dream could be realized. I, Kantaro Uno, would turn Esperança into a great civilization.”

evidencia seu poder e interesse pelos negócios. Nessa passagem destaca-se, também, seu lado sonhador, seu egocentrismo – Eu! – e a grandiosa proporção de suas metas. Alcançá-las, por sinal, significa rolar feito um compressor sobre os interesses pessoais de indivíduos na comunidade, a começar por sua esposa: “Haru não reclamava. Essa era a vida que ela tinha escolhido” (YAMASHITA, 1992, p. 130),250 diz Kantaro, como se, de fato, Haru tivesse tido algum direito de escolher outra vida que não envolvesse o trabalho árduo das tarefas domésticas, agrícolas, criação dos filhos e do cuidado com os idosos. Os pais de Kantaro também são vítimas de sua arrogância. Tentando impedir que o filho agredisse uma mulher, o velho Naotaro Uno se põe na frente de Kantaro que, furioso, o agride fisicamente: “Eu não tinha respeito por ele. Eu estava no comando. Como se atrevia a questionar minhas ações?” (YAMASHITA, 1992, p. 144).251 Após a humilhação, Naotaro e sua esposa jamais voltam a fazer suas refeições com o grupo, isolando-se dos demais por vergonha.

A amante Natsuko também é oprimida por Kantaro. A princípio, ela parece ser privilegiada com presentes, como o piano caríssimo, a casa, as roupas, os livros e a comida. Kantaro justifica tamanha “generosidade” com base em sua própria “grandeza”: “Meu altruísmo era ilimitado. Eu estava salvando um ser humano, criando uma nova mulher. Estava apaixonado pela ideia de que Natsuko pudesse se tornar um modelo para outras seguirem” (YAMASHITA, 1992, p. 126).252 O sentimento que ele define como amor ou paixão se revela doentio, quando ele confessa ao amigo Kasai que havia tentado matar Natsuko: “Foi um momento tão perfeito, tão sereno [...] Queria tê-la para sempre. Então levei minhas mãos até seu pescoço e apertei” (YAMASHITA, 1992, p. 158).253

No que se refere ao uso do dinheiro comunitário, a irresponsabilidade de Kantaro é enorme. Dívidas e empréstimos bancários nunca são quitados. A comercialização dos ovos e produtos agrícolas de Esperança não traz lucro, devido aos gastos excessivos de Kantaro. Ele confessa que o trabalho árduo e não remunerado dos habitantes de Esperança são a moeda que paga sua vida secreta em São Paulo, que envolve gastos com presentes para a amante, restaurantes caros, suítes em hotéis de luxo, motorista particular e viagens de avião para o Rio e para Buenos Aires. “Meus camaradas lá em casa não sabiam naquela época, mas eles pagavam por tudo isso” (YAMASHITA, 1992, p. 131), confessa Kantaro.254 Como

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“Haru did not complain. This was the life she had chosen.”

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“I had no respect for him. I was in charge. How dare he question my actions.”

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“My altruism was boundless; I was saving a human being creating a new woman. I was impassioned with an idea that Natsuko would become a model for others to follow”.

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“It was a moment so perfect, so peaceful [...] I wanted to have her forever. So I brought my hands around her neck and squeezed.”

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consequência do não pagamento das dívidas, o banco confisca as terras e toda a comunidade fica sem ter para onde ir, subitamente. Alegando ter sido enganado, Kantaro contorna a situação e ainda permanece líder de uma parte do grupo, mais uma vez usando de um discurso convincente e mentiroso: “Ficar na terra do Bahiano seria desistir de nossa liberdade, nos tornar escravos. [...] Quem me seguiria? Quem? Quem? De pé! (YAMASHITA, 1992, p. 182).255 O grupo se divide e, entre os que decidem não segui-lo, está Ichiro Terada. Pela primeira vez, Ichiro se desprende da liderança opressiva de Kantaro, que passa a considerá-lo um traidor: “Não posso esquecer que Ichiro me traiu, embora eu saiba que ele acreditou até o ponto em que não podia mais, e por isso ele nunca me perdoará” (YAMASHITA, 1992, p. 183).256 A partir desse momento, Kantaro acumula rancores e fracassos, que se somam ao mal de Parkinson que desenvolve na velhice. Tal condição nos remete à primeira parte da epígrafe de Rousseau, na abertura da terceira seção de Brazil-Maru:

Vocês testemunharam minha juventude tranquila se esvaecer de modo agradável, uniforme e tolerável, sem grandes decepções ou prosperidade extraordinárias... As doces lembranças de meus melhores anos, passados em igual inocência e tranquilidade, me deixaram mil impressões agradáveis. Logo se verá o quão diferentes são as lembranças do fim da minha vida. Relembrá-las renova sua amargura... (ROUSSEAU apud YAMASHITA, 1992, p. 116)257

A “juventude tranquila” e suas “doces lembranças” no discurso rousseauniano não correspondem aos fatos da vida do jovem Kantaro. Outros narradores, como Ichiro e Haru, revelam que Kantaro não era sossegado, estável ou tolerante, conforme a descrição no texto do filósofo. Neste aspecto, podemos identificar que Yamashita se utiliza do mesmo tom irônico que marca as epígrafes das seções narradas por Ichiro, Haru e Genji. A referência a um fim de vida nada agradável, no entanto, é ratificada pelo que se lê nas páginas finais do romance, em que o próprio Kantaro e Genji destacam a falta de êxito de seus projetos, sua amargura e sua doença.

Ao contrapor os diferentes perfis traçados para Kantaro, Yamashita dá à personagem uma complexidade que vai além das impressões criadas a partir da epígrafe de Rousseau. Kantaro não é pura e simplesmente um vilão, uma personagem plana, mas alguém

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“... to stay on the Bahiano’s land was to give up our freedom, to become slaves. […] Who would follow me? Who? Who? Stand!

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I cannot forget that Ichiro betrayed me, even though I know that he believed me until he could believe no more, and for that he will never forgive me”.

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“You have seen my peaceful youth pass away in a tolerably uniform and agreeable manner, without great disappointment or remarkable prosperity…

The sweet remembrances of my best years, passed in equal innocence and tranquility, have left me a thousand charming impressions… It will soon be seen how different are the recollection of the remainder of my life. To recall them renews their bitterness…”

que crê em suas próprias metas, mesmo que sejam, por uma perspectiva externa, absurdas. O leitor, forçado por um jogo narrativo a contrastar o Kantaro jovem ao adulto, o Kantaro do interior ao Kantaro da cidade, passa a observar que ele é uma personagem constituída de identidades justapostas que não “são nem puras e nem fixas, mas formadas nas interseções da idade, da classe, do gênero, da raça e da nação” (BARKER; WILLIS, 2003, p. 260).258 Além disso, ao percorrer toda a sua vida, a narrativa faz da história de Kantaro uma espécie de modelo que exemplifica a relação entre tempo e identidade, o que vem ao encontro da afirmativa de Hall (2005): “a identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência, no momento do nascimento [...] Ela permanece sempre incompleta, está sempre em processo, sempre ‘sendo formada’” (HALL, 2005, p. 38).

No documento A diáspora na obra de Karen Tei Yamashita: estado-nação, sujeito e espaços literários diaspóricos (páginas 115-120)