CAPÍTULO II: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E
2.2 Discurso de identidade
2.2.2 Língua(gem) e identidade
Neste ponto do trabalho faremos uma breve reflexão sobre a identidade cultural sob uma perspectiva mais geral, pois vimos que, até aqui, ainda não elucidamos precisamente a noção de identidade em relação ao nosso objeto de estudo. A identidade cultural vem sendo discutida, de forma muito ampla e sob diversas abordagens, nos últimos anos. Como o propósito deste trabalho é explorar questões mais específicas, foram feitos alguns recortes para explicitar com maior clareza o objetivo principal. No decorrer da leitura é preciso que se tenha em mente determinados pressupostos e considerações que envolvem a delimitação do objeto de análise, de modo a que a fundamentação faça sentido ao leitor.
Sobre identidades culturais, Hall as identifica como “aqueles aspectos de nossas identidades que surgem de nosso “pertencimento” a culturas étnicas, raciais, linguísticas, religiosas e, acima de tudo nacionais” (HALL, 2005, p. 08). O autor ainda enfatiza a complexidade do tema com o qual estamos lidando:
O próprio conceito com o qual estamos lidando, “identidade”, é demasiadamente complexo, muito pouco desenvolvido e muito pouco compreendido na ciência social contemporânea para ser definitivamente posto à prova. Como ocorre com muitos fenômenos sociais, é impossível oferecer
afirmações conclusivas ou fazer julgamentos seguros sobre as alegações e proposições teóricas que estão sendo apresentadas. (HALL, 2005, p. 09).
Ao recortarmos o termo “identidade”, carregamos, ainda assim, o “cultural”. Podemos, aqui, fazer um paralelo com a sociolinguística laboviana: assim como na perspectiva sociolinguística, o termo identidade traz consigo a ideia de social, na perspectiva sociológica acima descrita, o termo identidade traz a ideia de cultural. Dessa forma, em ambas as perspectivas os termos ‘social’ e ‘cultural’ carregam o mesmo teor de transposição da identidade do sujeito. E é nessa identidade sociocultural do sujeito e de que forma ela se constrói no objeto de estudo analisado, que pretende se focar o presente estudo. Aqui se trata especificamente de um estudo linguístico, onde língua(gem) e identidade são estudadas numa abordagem sociolinguística.
A identidade, nessa concepção sociológica, preenche o espaço entre o “interior” e o “exterior” – entre o mundo pessoal e o mundo público. O fato de que projetamos a “nós próprios” nessas identidades culturais, ao mesmo tempo que internalizamos seus significados e valores, tornando-os “parte de nós”, contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com o lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural. (HALL,2005, p.12).
Por meio da língua nos comunicamos, compartilhamos informações e interagimos socialmente. A língua, em práticas sociais e culturais, é usada, muitas vezes, como a expressão da identidade. Nesse uso podemos observar a marcação ou o estabelecimento de uma estratificação social, a representação de uma unidade em uma determinada comunidade em detrimento de outras.
A língua parece estar Intrinsecamente ligada à cultura de um povo, nacional e regionalmente, sendo assim, podemos encontrar por meio da língua de um determinado povo suas representações ideológicas, sua existência social e, mais importante ainda, sua concepção de nação.
A identidade do indivíduo falante ocupa assim uma posição central na construção da teoria linguística. O Próprio conceito de indivíduo é fiel à sua etimologia. Um indivíduo é invariavelmente concebido como um eu individido e indivisível
(ele é ou categoricamente não é falante nativo de uma língua – não havendo provisão para graus de natividade). (RAJAGOPALAN, 1998, p. 29). Rajagopalan (1998) salienta que o falante “somente” se apresenta como “real” no momento em que se estabelece no seu meio social. É a partir dessa socialização que o indivíduo passa a ter uma estreita relação com sua comunidade de fala. Inserido em sua comunidade, agora ele é um dos elementos da interação e do processo social da existência. Pensando nisso, é importante lembrar que o contexto tem uma participação muito importante na construção da identidade linguística, pois muitas vezes ele vai ditar o que é e o que não é dito. Essa concepção de contexto atravessa diversas práticas linguísticas do falante, não apenas fixa sua identidade como usuário de uma língua, mas também marca a identidade, a depender do contexto, do seu interlocutor. Nessa perspectiva, a mensagem poderá ter seu significado determinado e, assim, refletir a identidade dos indivíduos envolvidos.
As experiências pessoais do indivíduo, assim como a realidade do grupo social em que se enquadra, alteram as múltiplas leituras que se pode fazer dos fatos e do cotidiano. O homem é um ser social. Como ser social depende, em suas realizações e decisões, das alterações pelas quais a sociedade em que se insere passa. As memórias individual e coletiva interagem constantemente. A memória coletiva altera a compreensão do indivíduo sobre a sociedade e suas relações e, assim, age sobre a sua memória individual, modificando crenças e valores, fazendo com que o indivíduo se torne um agente social, e não somente um observador:
A sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o total de atributos considerados como comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias: Os ambientes sociais estabelecem as categorias de pessoas que têm probabilidade de serem neles encontradas. As rotinas de relação social em ambientes estabelecidos nos permitem um relacionamento com “outras pessoas” previstas sem atenção ou reflexão particular. Então, quando um estranho nos é apresentado, os primeiros aspectos nos permitem prever a sua categoria e os seus atributos, a sua “identidade social” – para usar um termo melhor do que “status social”, já que nele se incluem atributos como “honestidade”, da mesma forma que atributos estruturais, como “ocupação”.
[...] Assim, as exigências que fazemos poderiam ser mais adequadamente denominadas de demandas feitas “efetivamente”, e o caráter que imputamos ao indivíduo poderia ser encarado mais como uma imputação feita por um retrospecto em potencial – uma caracterização “efetiva”, uma identidade social virtual. A categoria que os atributos que ele, na na realidade, prova possuir, serão chamados de sua identidade social real. (GOFFMAN, 1988, p. 12).
Com isso, um discurso constrói-se por meio da existência de interlocutores e enunciadores, que interagem em um determinado contexto linguístico. Sendo assim, “o indivíduo é determinado pela socialização, é também determinado pelas memórias que agrega e altera no decorrer de seu convívio social” (LOPEZ; DITTRICH, 2005, p. 1303). Como seres sociais que somos, estamos inseridos na sociedade e, assim, somos sujeitos as suas mudanças. Em uma mesma comunidade podemos encontrar memórias individuais diferentes que interagem coletivamente. Muitas vezes, essas interações podem vir a alterar as memórias individuais, gerando possíveis mudanças nas crenças e nos valores identitários do indivíduo. Essas possibilidades nos mostram que o falante não é apenas um mero observador, ele é, também, um agente social de sua identidade.
A comunicação, de modo geral, parece influenciar o processo de criação de uma identidade linguística para os sujeitos. No que confere ao nosso recorte, acreditamos que a tentativa de construção da identidade mané pelo humorista Darci aparentemente se mostra imbricada em um processo de valorização de uma identidade local, uma tentativa de caracterizar a realidade regional (pensando também na Grande Florianópolis), com a reprodução ou/e marcação ainda mais forte de “falar” próprio, o uso de um campo lexical próprio e uma construção sintática nitidamente marcada por um “manezês”.