Língua, leis, marcas sociais e acadêmicas

No documento Academia: A indústria do texto controle de qualidade da manufatura e choques ideológicos (páginas 62-65)

Saussure (1997), que não pensou a língua como instituição política, mas social, trabalha a partir do ponto de vista de que a língua é uma herança de época precedente, o que exclui toda mudança repentina, inclusive porque, segundo ele, os indivíduos não têm plena consciência das leis da língua. Isso significa que as ações sociais são, antes de tudo, reguladas por leis que estão em sincronia. Ele fala em sincronia no sentido de ordem, de regularidade natural, espontânea. Sendo assim, o pai da Linguística observa que a verdade sincrônica parece ser a negação da verdade diacrônica, mas lembra de que uma das verdades não exclui a outra.

Como não pensa em questões de ordem política, Saussure (1997) sustenta que a língua não existe, senão em virtude de uma espécie de contrato estabelecido entre os membros da comunidade. Ele faz uma descrição sistematizada da linguagem e, principalmente, da língua como sistema, mas, à língua este teórico já chamava de instituição social. Ele ainda compara

esse sistema, como já bem lembramos, a um jogo de xadrez. “Em Linguística, como no jogo

está dizendo que não seria tão simples assim mudar essas regas. E pergunta: “Do mesmo modo que a planta é modificada no seu organismo interno pelos fatores externos (terreno, clima etc.), assim também não depende o organismo gramatical constantemente dos fatores externos da modificação linguística?” (SAUSSURE, 1997, p. 30).

Em outro contexto e outro tempo, com pressupostos teóricos diferentes, Bagno (2015) propõe que as leis que regem a língua sejam mais flexíveis e que deixem não só o falante, mas também o produtor de textos mais livres. Bagno sustenta que quem deveria determinar as regras de funcionamento da gramática normativa deveria ser o usuário. “A ortografia oficial é fruto de um decreto, de um ato institucional por parte do governo, e fica muitas vezes sujeita aos gostos pessoais ou às interpretações dos fenômenos linguísticos por parte dos filólogos que ajudam a estabelecê-la.” (p. 187). Para este autor, há uma inversão nisso, como se as pessoas só tivessem passado a falar uma língua depois de terem acesso à gramática. Em uma analogia semelhante à que faz Saussure, Bagno lembra que, para as plantas existirem, elas não precisaram primeiro ser descritas nos livros de botânica.

Bagno, porém, não nega que o letramento é fundamental para o pleno exercício da cidadania. Este teórico observa que quando falamos ou escrevemos tendemos a nos adaptar às situações em que nos encontramos. Bagno (2015) fala que é inadequado, por exemplo, o uso de gírias ou de expressões regionais por um palestrante em um congresso científico. “Essa nossa tentativa de adequação se baseia naquilo que consideramos ser o grau de aceitabilidade do que estamos dizendo por parte do nosso interlocutor ou interlocutores” (p. 184). Aqui, ele está tratando de sujeitos bem letrados, capazes de se adequar a todos os tipos de auditórios, conforme propõe o pensamento aristotélico. Assim, podemos certificar, mais uma vez, que o texto acadêmico é regido por leis muito específicas, mais específicas do que as exigidas por outros gêneros, determinantes para a consolidação do conhecimento científico.

Neves (2003), referindo-se à produção escrita como um todo, reconhece essas exigências:

Ora, não há como não ver que, na produção escrita, diferentemente do que ocorre na produção oral, ficam muito evidentes as marcas – e a ausência de marcas – de concordância, de regência, de flexão etc., e, assim, ficam testemunhadas as quebras sintáticas. (NEVES, 2003, p. 45).

Como já observamos, estamos tratando não somente de padrões linguísticos, mas também de regras de articulação textual. Tendo em vista a riqueza de recursos da língua, e a tendência à estabilidade da escrita, que é, quase sempre, mais complexa, pensamos que, sem passar pelo crivo das leis, poderia ficar ainda mais difícil a redação do texto acadêmico.

Tanto é que Bagno não nega as regras e as especificidades dos contextos regidos pela língua literária (escrita). E, a partir de um ponto de vista crítico, repressor e restritivo, num percurso parecido com o que faz Saussure, a distingue bem daquela usada nos contextos sociais.

O ensino tradicional da língua, no entanto, quer que as pessoas falem sempre do mesmo modo como os grandes escritores escreveram suas obras. A gramática tradicional despreza totalmente os fenômenos da língua oral, e quer impor a ferro e fogo a língua literária como a única forma legítima de falar e escrever [...]. (BAGNO, 2015, p. 86)

Saussure (1997) diz que a língua, como unidade de estudo25, nos obriga a considerá-la ora estática ora histórica. Este teórico trabalha a partir de duas vertentes: i) a linguística sincrônica, relativa à descrição dos estados da língua, onde se situam o sistema, o espaço, e pode ser chamada de Gramática e, para nós, a academia contempla principalmente a linguística sincrônica; ii) e a linguística diacrônica é relacionada a tudo que diz respeito à evolução no tempo. O meio social contempla mais essa segunda instância. “Se a língua tem um caráter de fixidez, não é somente porque está ligada ao peso da coletividade, mas também

porque está situada no tempo” (SAUSSURE, 1997, p. 88).

Nos pontos de vista, tanto de Saussure quanto de Bagno, em contextos e situações específicas, fica evidenciado que as leis que regem a língua no âmbito social são diferentes das que a regem no meio acadêmico. Porém, a partir de Bagno, podemos dizer que hoje alguns intelectuais e imponentes projetos políticos vêm tentando incluir o seio social no domínio acadêmico, mas parece que não há ainda receitas claras sobre como fazer isso. Por outro lado, as posturas tanto de Saussure quanto de Bagno reforçam que na academia as leis da língua tendem a chegar ao usuário na forma de manufatura mesmo. Isso mostra que talvez não adiante ao sujeito acadêmico fugir da sua condição de instrumento da indústria do texto.

25

Tratando das relações do homem, enquanto ser social, com o conhecimento, Bourdieu (1982) observa que a ciência exerce um poder simbólico muito importante. Mesmo assim, este teórico sustenta que ela é um dos poderes simbólicos menos ilegítimos, “[...] especialmente quando toma a forma de uma ciência de poder simbólico capaz de restituir aos sujeitos sociais a importância de falsas transcendências que a ignorância não cessa de criar e recriar” (p. 56, tradução nossa)26.

As discussões, tanto de Bagno (2015) quanto de Bourdieu (1982), nos fazem pensar que a academia deveria ser mais transparente em relação à sua condição de responsável pela construção do poder científico e, logo, simbólico. Deveria ela também reconhecer que algumas de suas especificidades podem servir para legitimar ainda mais o seu poder simbólico. Se pensarmos na dialética marxista, sobre a qual trataremos logo mais, podemos propor, mais uma vez, que a academia, na condição de espírito pensante, ficaria no topo da pirâmide do saber e sobraria, então, à matéria social a dependência das decisões do espírito acadêmico, ou substância pensante.

5.2.1 Considerações

Como herança social, verificamos que a abordagem da língua pode ser dividida, conforme propõe Saussure, em duas instâncias, uma sincrônica e outra diacrônica. Percebemos, também, que o meio acadêmico pode ser mais diacrônico. Isso significa que a acadêmico deve ser mais propensa a uma herança que estabeleça vínculos não só com a ciência, mas também com o meio. Teorias que tratam de faces múltiplas do signo podem apontar esses vínculos.

No documento Academia: A indústria do texto controle de qualidade da manufatura e choques ideológicos (páginas 62-65)