2.2 O FASHION REVOLUTION PORTO ALEGRE PELA TRAJETÓRIA DE SEUS
2.2.2 Lívia Duda: criatividade e engajamento para transformar o planeta
No exato momento em que conheci a Lívia, entendi a razão pela qual a Cacá havia escolhido ela para substitui-la na representação local do Fashion Revolution. Falamos pela primeira vez na reunião de voluntários para a organização do evento, em 20 de fevereiro de 2018, na qual cheguei um pouco mais cedo para que eu pudesse me apresentar e conversar um pouco com ela sobre a minha pesquisa27. A energia natural que ela emanava era contagiante e, quando ela falava sobre o Fashion Revolution, me parecia que isso se multiplicava e enchia a sala inteira. Era visível como ela havia aceitado essa responsabilidade por completo e como estava empolgada para colocar a mão na massa. Agora, além da minha curiosidade em conhecê-la, eu também queria descobrir os motivos para ela ter sido escolhida como representante. Ela e a Cacá têm personalidades muito diferentes, e eu estava bastante curiosa para acompanhar esse processo pelo ponto de vista dela.
A Lívia tem 33 anos e é natural de Passo Fundo, no norte do estado. Desde a sua pré-adolescência, ela sempre teve uma personalidade marcante, falante, de opiniões fortes e, em certa medida, transgressoras. Rindo, ela contava que gostava de andar de skate, usar macacões e calças enormes, tênis All Star sujo, e que sua irmã mais velha, Mariana Duda, muito mais ligada nesses assuntos, sempre a criticava pelas “escolhas erradas” dos seus looks quando ela tentava se aventurar um pouco mais na produção. Em 2003, ela deixa sua cidade natal para cursar a faculdade de Publicidade em Porto Alegre, onde acabou criando raízes e trabalhando em diversos lugares com Marketing. Nesse processo, e já formada especialista em
Administração, ela foi identificando uma certa frustração com o mercado publicitário, o que a fez se questionar em diversos momentos se o tal egocentrismo dessa indústria seria realmente algo com que ela gostaria de trabalhar. O seu primeiro contato diretamente com a Moda ocorre em 2013, quando sua irmã, Mariana, a convida para ser sua sócia na Envido28, que nasceu justamente do desejo de Mariana em fazer as suas próprias roupas. Ela já havia abandonado a carreira em jornalismo em Passo Fundo para dar vida ao seu sonho e, naquele momento, queria trilhar esse caminho com a ajuda da Lívia. No mesmo período, ela recebeu a notícia de que seu pai tinha sido diagnosticado com um câncer seriíssimo e teria poucos meses de vida. Então, ela decidiu que talvez fosse o momento para iniciar uma nova jornada, ajudar sua família neste momento delicado e começar uma nova carreira, agora na parte administrativa da marca. Felizmente, seu pai, hoje, está curado do câncer e segue morando em Passo Fundo, e a decisão de abandonar a Publicidade para se aventurar na Moda começou a gerar resultados positivos para ela e a irmã.
Sou uma pessoa altamente criativa, por isso fiz Publicidade, e sou uma pessoa pró ativa, que gosta de fazer as coisas, por isso, até, eu me sentia limitada nas próprias empresas, né. Então, me juntei com a Mariana. [...] Mas eu acho que a minha ligação nessa proposta da Moda sustentável sempre foi fazer mais e fazer a minha parte, ser pró ativa, acreditar na colaboração e acreditar que os deveres não são só dos órgãos públicos e dos privados. Os deveres são nossos também. Então, o que me motivou foi muito isso de fazer essa transformação e de causar esse impacto nas pessoas e a partir desse contato com a Moda sustentável que surgiu a ligação com o Fashion Revolution
(DIÁRIO DE CAMPO, 31 agosto 2018).
Para minha surpresa, descubro durante a entrevista que a Cacá é amiga de infância da Mariana, irmã da Lívia, e que, por uma bela coincidência, os seus caminhos voltaram a se cruzar em Porto Alegre, onde a Cacá já atuava como docente do curso de Moda da Unisinos em Porto Alegre e já desenvolvia pesquisas sobre sustentabilidade na Moda. A parceria iniciou devagar, com alguns convites da Cacá para que as meninas fossem participar de alguns eventos e encontros com alunos do curso. Foi então que ela apresentou o Fashion Revolution para as irmãs que, desde a primeira edição em Porto Alegre, em 2016, já participaram realizando algumas oficinas dentro da programação do evento e se engajando com o ativismo da causa.
28 Criada em 2011, a marca de roupas é inspirada no modelo slow fashion e trabalha com uma produção baseada no fairtrade, em que todos os colaboradores são respeitados e remunerados de maneira justa. Suas coleções seguem um calendário próprio, sem sazonalidade, e suas peças são projetadas a partir de modelagens autorais que priorizam o conforto e a usabilidade das peças, reduzindo e reutilizando ao máximo os resíduos gerados. Disponível em: <https://envido.com.br/pages/sobre-nos>.
A Lívia me contou como essa transição foi transformadora para ela e que, pelo contrário, a mudança de área de atuação profissional da Publicidade para a Moda foi algo que se tornou complementar e fundamental para a vida dela. Ela nunca teve o costume de acompanhar o universo da Moda, as tendências ou os desfiles. Fato que, inclusive, gerou um incômodo para ela, porque, trabalhando nesse meio, ela percebeu que “não ser fashion” seria um problema. A mesma opinião crítica que ela tinha sobre a Publicidade havia se transferido para a Moda, e toda vez que ela comparecia a algum evento relacionado à marca, ela sentia que estava descumprindo com alguma regra ou etiqueta fashion. Foi com muito esforço e determinação que ela compreendeu que a Moda, na realidade, não se propunha a isso. Ela não seria menos criativa e eficiente só porque não seguia as tendências ditadas pelo sistema vigente (Fast Fashion) e teria que superar esse obstáculo para conseguir trabalhar com esse mercado. Isso fez com que ela se aproximasse ainda mais da sustentabilidade, especialmente por acreditar que o mundo precisa de uma mudança como um todo, não necessariamente na Moda ou na forma de se vestir.
[...] o meu engajamento na questão do Fashion Revolution é muito mais a causa em si do que “precisamos de uma mudança na Moda”, né. [...] o meu ativismo é muito mais a minha preocupação com o consumo excessivo, com o planeta, com essa ideia que a gente tem de ficar comprando uma roupa por dia e ficar com aquele guarda-roupas socado [...] A gente precisa ter essa mudança na mentalidade (DIÁRIO DE CAMPO, 31 agosto 2018).
Quando ela relembra os acontecimentos que a fizeram se aproximar do Fashion Revolution, ela não consegue me precisar o exato momento em que isso aconteceu, mas que muito dessa transição foi por conta da influência da Cacá. A partir do convite para ministrar uma oficina sobre Moda e Ativismo na edição de 2016, a Lívia passou, então, a se engajar muito mais com a causa do movimento e participar intensamente das ações. Por vezes, até a executar algumas delas por conta própria.
[..] como eu te falei, como eu sou uma pessoa que gosta da transformação e sou uma pessoa ativista, eu me motivo, eu me envolvi bastante, daí, com o movimento. [...] eu acabei fazendo stencil e colocando na rua, eu produzi do meu bolso adesivos e fui colando pela cidade. Eu gosto muito de passar essa mensagem pras pessoas através de algum impacto que cause reflexão e, a partir disso, eu acho que veio a minha vontade de acabar fazendo mais, né. [...] Então, como eu havia me engajado bastante em 2016, em 2017 a Cacá me convidou pra ser coordenadora do núcleo de Ativismo. [...] aceitei o desafio e bolamos ações. Uma delas foi colocar a camiseta no Laçador, que foi um desafio grande, assim, da gente estar inseguro sobre, [...] se a gente não ia agredir o povo gaúcho com esse nosso ato. Eu acho que isso, talvez, foi também o que
abriu as portas pra Cacá achar que eu poderia ser representante no outro ano, em 2018. [...] na minha vontade de engajar as pessoas né, eu entrei muito pela questão do ativismo. Muito mais do que por uma questão de alertar as pessoas da Moda, desse universo (DIÁRIO DE CAMPO, 31 agosto 2018).
Naquele momento, diversas coisas começam a fazer sentido para mim. Não só eu tive essa impressão da Lívia quando a conheci, como o que ela me relatava confirmou qualquer suspeita que eu pudesse ter sobre os motivos dela ter sido escolhida representante do Fashion Revolution em Porto Alegre. Espírito de liderança, responsabilidade, criatividade e ideologia. Ela era o pacote completo. Apesar de termos nos visto muito pouco ao longo da FRWeek, tudo o que aconteceu só foi possível devido aos esforços incessantes dela em conseguir salas, auditórios e demais recursos para a execução de toda a programação, tarefas que eram de sua responsabilidade como coordenadora local. Agora, com as atividades do evento encerradas, ela conseguia fazer uma análise geral do que tinha significado o Fashion Revolution Day 2018 para a equipe como um todo, mas que ainda estava processando muitos dos acontecimentos para colocar no papel de fato os pontos que deveriam ser considerados na organização para o próximo ano. Vejo como ela acredita na experiência de vida que a participação no Fashion Revolution proporciona e que isso também deve ser usado para aproximar e engajar novos voluntários, mais comprometidos e interessados.