CAPÍTULO 3: O BEM JURÍDICO TUTELADO PELA
3.2. A diversidade doutrinária acerca do bem jurídico tutelado
3.2.4. Ordem econômica como bem jurídico tutelado pela
3.2.4.1. Lavagem de dinheiro como tipo penal que protege a
Um primeiro grupo de autores assevera que a incriminação da lavagem de capitais visa a proteger a ordem econômica como um todo, em sentido global.
372 DEL CARPIO DELGADO, Juana. Op. cit. p. 64-65. Além disso, esta autora afirma que “quando o sujeito realiza as condutas de lavagem, não persegue obter benefícios dos bens de procedência delitiva. A finalidade primordial é lograr o desfrute destes bens de forma legal para assim poder invertê-los posteriormente em negócios lícitos; só depois deste processo é que se pode afirmar que logra obter um benefício”. Idem. p. 75.
373 Corretamente definida, em toda a sua extensão, como “o interesse do Estado na conservação da ordem legal da economia, tanto em seu conjunto quanto em suas ordenações parciais, e entendido como o interesse do indivíduo em participar nos bens de consumo e no desenvolvimento de uma atividade adequada à sua vontade profissional de atuação e lucro”. BAJO FERNANDEZ, Miguel. El derecho penal económico. p. 96.
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PITOMBO defende essa ideia, asseverando que basta a leitura da Convenção de Viena, principal documento internacional que inspirou as legislações que incriminam a lavagem de capitais, para concluir que o crime organizado e a ocultação de bens afetam a economia e colocam em risco a estabilidade, a segurança e a soberania dos Estados374.
Para ele, nas duas primeiras fases da lavagem de dinheiro (ocultação e dissimulação), a circulação de bens é imediatamente afetada375. Neste caso, a reciclagem, além de permitir ao crime organizado penetrar, contaminar e corromper as estruturas dos governos, afeta as atividades comerciais e financeiras, prejudica a legitimidade da circulação de bens e dinheiro, diminui a transparência e a confiança que se pode ter nos mercados e atinge a confiabilidade dos próprios negócios jurídicos e do sistema financeiro em geral. Tudo isso, se em grande escala, pode vir a abalar a economia, em sentido lato, de um determinado país.
Mas, segundo PITOMBO, é na terceira fase da lavagem (a integração) que se geram os principais danos à economia376. É nesse estágio que a conduta
374 PITOMBO, Antonio Sérgio A. de Moraes. Op. cit. p. 80.
375 “De qualquer maneira, tanto na ocultação como na dissimulação faz-se a circulação de bens de proveniência ilegal. Circulação que, ao lado da formação e da conservação, emerge como um dos três momentos essenciais da tutela penale della ricchezza, como denominou Francesco Carnelutti.
Na visão carneluttiana, resguardam-se com o Direito penal da circulação da riqueza aqueles interesses privados que coincidem com interesses públicos, protegendo-se os contratos, o Direito de crédito, a moeda e os títulos de crédito. A circulação de bens deve ser compreendida, também, como elemento indispensável para o funcionamento do mercado e para economia. Neste sentido, Tullio Ascarelli ensina, ao examinar os títulos de crédito, que a circulação de crédito constitui fator de desenvolvimento da economia. Cuida-se, pois, de interesse público (art. 174 da CF). aquele que legitima os ganhos ilícitos por meio do uso de instrumentos jurídicos que garantam a circulação de bens atinge a confiabilidade nos negócios jurídicos. Em escala crescente, comportamentos dessa espécie afetam a credibilidade das instituições ou pessoas (físicas e/ou jurídicas) intermediárias. Em proporções maiores, podem abalar, num determinado momento, a economia de um país.ora, tais condutas atingem ou põem em risco os interesses de cada um, individualmente, e da sociedade, como um todo, e violam, pois, a ordem econômica. E, por consequência, conferem ao estado a legitimidade para intervir ‘como garante de limiares mínimos de dignidade para a generalidade dos cidadãos’. (...) De forma direta, a lavagem de dinheiro pode afrontar o sistema financeiro. Disto não há dúvida, na medida em que a conduta criminosa agride a interesses da coletividade e inviabiliza o desenvolvimento do próprio país (art. 192 da CF). Quem hesitar em concordar com a ideia, pode dedicar-se a conhecer amiúde as graves consequências, trazidas pela lavagem de dinheiro, ao sistema financeiro japonês, cujos reflexos são sentidos na economia mundial”. PITOMBO, Antonio Sérgio A. de Moraes. Op. cit. p. 81-85.
376 “Depois de completadas a ocultação e a dissimulação, os bens já com aparência lícita vêm a ser empregados em alguma atividade econômica legítima. o dinheiro, aparentando procedência lícita, acha-se pronto para fazer parte do mundo dos negócios;para incluir-se em determinado setor econômico. Assim, com a integração, completa-se o ciclo para lavar o dinheiro, finaliza-se a reciclagem. Nessa oportunidade, volta-se ao ilícito mediante a prática de condutas que abusam do poder econômico e eliminam a concorrência. Muitas vezes, fomentadas pela grande quantidade de capital ilícito, empresas passam a exercer o monopólio em determinados seguimentos do mercado.
Ferem-se, pois, a livre iniciativa e a livre concorrência (art. 170, caput e inciso IV, da CF). Nas palavras de Fabián Caparrós, o consumidor ‘perde poco a poco su capacidad de elegir, bien porque
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criminosa – praticada em regra por grandes organizações e em formato empresarial – afeta a igualdade de oportunidades entre as empresas, bem como gera um perigo considerável para a livre concorrência, ocasionando grandes monopólios que acarretam graves prejuízos aos consumidores em geral, que acabam tendo seu poder de escolha gravemente reduzido.
André Luís CALLEGARI pensa de forma similar. Para esse autor, a lavagem surge da necessidade de ocultar o lucro obtido ilicitamente – o que poderia denotar ser a administração da justiça o bem jurídico tutelado por sua tipificação.
Todavia, é a partir da introdução do dinheiro sujo na economia oficial que esse fenômeno mais se apresenta como lesivo. O investimento do lucro ilegal, em grande escala, acarreta o “perigo de que economias inteiras caiam sob seu controle, que se distorça o sistema financeiro e que o sistema democrático, em determinados países, fique sem estabilidade”377.
Marco Antonio de BARROS também comunga desse entendimento, embora afirme que o crime em comento é pluriofensivo:
“Hoje nos parece apropriado afirmar que o crime de ‘lavagem’ de capitais é pluriofensivo, eis que tutela juridicamente mais de um bem. Em apertada síntese podemos dizer que esses bens tutelados são, primordialmente, a estabilidade e a credibilidade dos sistemas econômico e financeiro do País”.378
Na mesma linha de pensamento, Diego J. GÓMEZ INIESTA379 aponta
los oferentes de bienes y servicios que precise no le inspiren credibilidad, o bien porque esa oferta se realice por un número cada vez menor de sujetos’; e para o empresário ‘su margen de actuación se reduce progresivamente hasta llegar a desaparecer, presionado por quienes se suman al mercado despreciando las reglas de la honesta competencia’. Tal constatação leva a identificar a violação a valores socioeconômicos, resguardados pela CF (art. 170, IV e V), os quais vão conferir substância aos bens jurídicos, protegidos pelo tipo da lavagem de dinheiro. é necessário dizer que essa representação do objeto jurídico não se distancia da realidade, porque se quer evitar, com a infração penal em questão, que o crime organizado disponha dos ganhos ilícitos, prejudicando a economia, para consolidar mais poder na sociedade, em especial naquelas onde imperam as liberdades públicas”. PITOMBO, Antonio Sérgio A. de Moraes. Op. cit. p. 86-88.
377 CALLEGARI, André Luís. Imputação objetiva: lavagem de dinheiro e outros temas do Direito penal.
p. 49-50.
378 BARROS, Marco Antonio de. Lavagem de capitais e obrigações civis correlatas. p. 54.
379 “Con la punición del blanqueo no se pretende castigar un sujeto distinto a aquél sobre el que se desea que opere la prevención en una espécie de adelanto de las barreras típicas a la lesión de un bien jurídico, pues, de hecho, y como se verá en páginas posteriores, la pena a imponer es independiente de la estabelecida por la Ley penal para el delito previo; y, además, desde un punto de vista político-criminal el fundamento del castigo reside em el daño que dichos comportamientos ocasionan, al distorcionar los indicadores y la estabilidad reales de la economía de un país, por lo que dichos comportamientos deverían ser clasificados como un grave delito contra la economia al suponer que las organizaciones criminales invierten libremente los bienes procedentes de actividades ilícitas para darles apariencia de licitud. Es decir, los resultados lesivos se dejan sentir notablemente
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que a conduta incriminada acarreta danos à confiabilidade do sistema financeiro e econômico em geral, dada possibilidade que as grandes organizações criminosas têm de movimentar de forma especulativa os grandes lucros que auferem ilicitamente. Com isso, a dissimulação acaba por distorcer indicadores econômicos, chegando a prejudicar, inclusive, a regulação estatal sobre a economia. Tudo isso sem falar na evidente agressão que a ocultação opera sobre a livre concorrência e a livre iniciativa, uma vez que as organizações criminosas fazem uso, na economia lícita, de bens e valores auferidos ilicitamente (consequentemente, sem a incidência de tributos), obtendo assim vantagens em relação aos grupos econômicos que agem regularmente.
Por fim, Carla Veríssimo DE CARLI assevera que a ordem econômica configura o bem jurídico tutelado pelo tipo penal de lavagem de capitais, asseverando que os valores sociais relevantes nessa incriminação vão desde a
“repulsa da coletividade ao uso de fenomenais volumes de dinheiro obetidos à custa da prática de crimes graves” até o “desejo [geral] de desempenhar atividades econômicas em um ambiente minimamente correto, com aplicação de regras igais para todos (...), do desenvolvimento de empresas legitimamente dedicadas à produção de bens e de prestação de serviços , da proteção aos recursos públicos (...), que são geridos pelos funcionários públicos e agentes políticos”380.