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Lei (nº 3/2013) da Televisão

6 Liberdade de expressão e de comunicação social no sistema jurídico guineense

6.1 Proteção material

6.1.2 Legislação complementar

6.1.2.4 Lei (nº 3/2013) da Televisão

Custa acreditar, por incrível que pareça até o presente momento, que a Guiné-Bissau tenha somente um canal televisivo, de matriz, funcionando profissionalmente nesse país. Este canal de matriz é estatal, como será demonstrado mais à frente, no item sobre o CNCS. Há outra agência televisiva, a Rádio Televisão Portuguesa (RTP/África), que entra em cadeia nos países africanos de língua oficial portuguesa. Esta agência de emissora televisiva é no momento a única que tem um pleno funcionamento neste país; já a televisão estatal, conhecida como Rádio Televisão da Guiné-Bissau, na sigla RTGB, não funciona em plenas condições, funciona, digamos, aleatoriamente, devido às suas fragilidades em termos de aparelhos televisivos, como também por questões econômicas, havendo interrupções com muitíssima frequência; as programações não são padronizadas e rigorosamente seguidas, não se fazendo um jornalismo crítico, por ser dependente do poder público, passando meses sem funcionar, por diversas razões que não podem ser explicitadas neste trabalho.

Assistir aos canais televisivos dos países vizinhos tornou-se um hábito na Guiné- Bissau, o que acaba remetendo àquela sociedade em um perigo eminente de suicidar a sua cultura, e absorvendo, assim, a cultura dos países vizinhos, uma vez que estes passam nas suas emissoras somente acontecimentos e hábitos ocorrentes nos seus países, e não na Guiné- Bissau. Hoje é muito comum perceber, na sociedade guineense, o amor pela tradição cultural senegalesa da “luta livre”11 e as músicas, por exemplo. As telenovelas brasileiras têm uma influência muito forte sobre as nossas culturas, pelo simples fato de que uma das televisões brasileiras passa com muita regularidade na Guiné-Bissau, e às vezes acaba sendo a principal opção de diversão popular, uma vez que não há outra opção no canal aberto.

Nossa leitura sobre o assunto seria a seguinte: se o Estado da Guiné gostaria que a identidade guineense, a cultura e a tradição guineenses sejam preservadas, um dos meios

11 Essa luta é similar ao MMA e é muito famosa no Senegal, e hoje é amplamente acompanhada na Guiné

cabíveis para fazê-lo seria a de criar muito mais condições e fazer um investimento pesado sobre a RTGB, por ser o único canal televisivo matriz que se encontra nesse país.

Voltando ao assunto reservado para este tópico, interessa informar que os artigos dessa lei em comento são uma clonagem da lei sobre radiodifusão, estas duas leis são irmãs gêmeas e radicalmente similares, as diferenças são apenas superficiais; a diferença básica é exclusivamente percebida porque uma trata de televisão e outra de radiodifusão. Por isso que os artigos comentados na lei anteriormente abordada sobre radiodifusão podem ser analogicamente interpretados para a lei da televisão e vice-versa. Alguns artigos da lei sobre televisão não foram comentados na lei sobre radiodifusão, e o mesmo acontece desta em relação àquela, o motivo é evitar a redundância, uma vez que são quase iguais. Resolver-se-á selecionar alguns artigos desta lei que acondicionam a atividade televisiva12. No seu artigo 1º,

12 Artigo 1º (Objetivo) 1. A presente lei regula o acesso e exercício da actividade de televisão na República da

Guiné-Bissau. 2. Considera-se televisão, para efeitos da presente lei, a transmissão ou retransmissão de imagens não permanente e sons através de ondas eletromagnéticas ou de qualquer outro veículo apropriado, propagando-se no espaço ou por a cabo, destinada a recepção pelo público, com excepção dos serviços de telecomunicações que operem mediante solicitação individual. Artigo 27º (Recusa de publicidade) 1. A direcção das estações de televisão poderá recusar a difusão das mensagens publicitárias que se mostram contrárias às linhas de orientações ali existentes. 2. A recusa prevista no número antecedente é fundamentada. Artigo 28º (Conteúdo) 1. Toda a pessoa singular ou colectiva, organismo público, que se considere prejudicado ou ofendido por qualquer emissão que contenha elementos invertidos ou errôneos, susceptíveis de afectarem manifestamente o seu bom nome e reputação, dispõe do direito de resposta às referencias em questão. 2. O direito de resposta consiste na transmissão do desmentido ou rectificação na mesma estação de televisão em que tiver ocorrido a emissão que lhe deu origem, e dentro do mesmo horário por ela utilizado. 3. O direito de resposta é independente do processo civil ou criminal resultante da publicação de textos ou imagens ofensivos. Artigo 40 (Responsabilidade civil) 1. A responsabilidade civil emergente dos actos praticados através da actividade de televisão rege-se pelos princípios gerais de direitos privado. 2. Caso o programa tenha sido difundido com conhecimento e sem oposição da direcção da televisão, a empresa proprietária da mesma é solidariamente responsável com o autor do ilícito. Artigo 41º (Determinação da responsabilidade criminal) 1. Pela prática dos crimes de abuso de liberdade de imprensa na televisão respondem: a) O autor do programa ou o produtor ou realizador do mesmo; b) Os responsáveis pela programação ou quem os substitua, quando não for possível determinar nenhum dos agentes mencionados na alínea a); c) Os directores da estação emissora, em caso de exercício ilegal da actividade de televisão. 2. A punição de qualquer das entidades mencionadas no número anterior não obsta à punição das outras aí indicadas segundo as regras gerais da comparticipação. 3. Os crimes de abuso de liberdade de imprensa televisiva consideram-se consumados com a emissão do programa ou da notícia ofensivos. Artigo 42º (Ausência de responsabilidade criminal) Os técnicos que tenham a seus cargo as emissões de televisão não são responsáveis pelo conteúdo ilícito dos materiais difundidos, excepto no caso das emissões clandestinas ou daqueles que se encontrem judicialmente suspensas, que tiveram consciência do carácter criminoso do seu acto. Artigo 52º (Suspensão) A gravidade e frequência dos crimes cometidos por operador de televisão podem determinar a sua suspensão, por mandato judicial. Artigo 55º (Processo aplicável) O procedimento pelas infracções criminais cometidas através da televisão rege-se pelas disposições do Código de Processo Penal e da legislação complementar, com as especialidades decorrentes da presente lei.

são abordadas questões sobre o objetivo principal da própria lei, que seria a regulamentação de acesso, como também de presteza de atividade televisiva na Guiné-Bissau; alerta-se também que somente é vista como atividade de televisão a emissão (transmissão e retransmissão) de imagens e sons por intermédio de ondas eletromagnéticas ou de outro meio similar transmitido no espaço ou a cabo, adquirido pelo público com fins de este ser informado sobre acontecimentos locais, interlocais e internacionais.

O artigo 27º garante que uma emissora televisiva terá o direito de se recusar a transmitir publicidades que não correspondam com a moralidade e ética dos procedimentos objetivos da própria entidade televisiva; nessas condições, a emissora de televisão deve necessariamente justificar expressamente a sua recusa em não difundir tal mensagem publicitária.

Na parte reservada ao direito de resposta, o artigo 28º, ao falar sobre os conteúdos do direito de resposta, alega que a pessoa física ou jurídica/coletiva, ou entidades públicas, têm direito de resposta sobre o qual forem injustamente acusadas ou quando estas entenderem que forem ofendidas por alguma transmissão televisiva com conteúdos não verdadeiros, injuriosos ou caluniosos; este direito de resposta, ou de correção da publicação, ou de rebater as acusações inverídicas e ofensivas, será feito pelo ofendido, nada impedindo também que as pessoas legitimadas o façam, por meio de uma transmissão que deve ser feita na mesma rede televisiva, no mesmo programa e horário em que as ofensas forem feitas; mesmo se a pessoa humana ofendida usar esse seu direito fundamental de resposta, caso achar necessário, terá direito de recorrer ao judiciário para desenvolver um processo criminal e civil contra a pessoa ou entidade acusada.

Na parte referente às responsabilidades, o artigo 40º ora sobre a responsabilidade civil, no qual: a responsabilidade civil sobre comportamentos praticados na televisão é regulamentada pelas normas de direito privado guineense; a emissora televisiva será acionada para responder solidariamente junto à pessoa responsabilizada em casos de transmissão de uma programação com pleno conhecimento e sem barreira da própria emissora de televisão, quando os conteúdos desses programas são contrários ao direito.

Na mesma linha de raciocínio, no item reservado à responsabilidade criminal, o artigo 41º motiva que, para quem comete ilícitos notados como abuso de liberdade de imprensa na televisão, os principais responsáveis serão: o principal titular do programa televisivo, caso for necessário, o produtor ou realizador estarão sujeitos; indo mais, na mesma condição, em casos de dificuldades para encontrar os atores acima citados, os responsáveis

pela programação ou os seus substitutos serão enquadrados no caso típico e antijurídico; já em situações de exercício ilegal da atividade televisiva, as pessoas identificadas como principais diretores da estação de televisão serão enquadradas no tipo penal. Nessa ocasião, as penas atribuídas e aplicadas à emissora independem das punições aplicadas aos atores ali indicados, ou seja, responsabilizar um não obsta a responsabilizar o outro, caso for preciso. No que diz respeito às infrações penais pelo uso abusivo da liberdade de comunicação televisiva, a sua consumação se configura a partir do momento da entrada do programa no ar.

Por outro lado, há condições em que certas personalidades podem ser ausentadas de crimes de responsabilidades, isso foi exprimido no artigo 42º, segundo o qual os técnicos atuantes em um determinado programa televisivo, de modo algum, serão sujeitados a responder pelos teores da matéria emitida no ar, salvo se as transmissões forem clandestinas ou se forem suspensas judicialmente e em pleno conhecimento do risco de ato criminal.

A parte sobre a suspensão da emissora de televisão é abordada no artigo 52º. Dependendo da gravidade de ilicitude penal e dos seus cometimentos reiterados por parte da emissora, as penas podem variar e abeirar-se até a suspensão da própria televisão, lembrando que isso é um ato discricionário do judiciário. E as interpretações dessa lei terminam com o artigo 55º, que assegura que, em casos de crimes cometidos nas redes televisivas, os procedimentos legais que devem ser seguidos para condenação de tais crimes serão de direito processual penal.

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