• Nenhum resultado encontrado

Análise de dados e de Conteúdo

3 OS DADOS DE PESQUISA E O LETRAMENTO INFORMACIONAL

3.3 LETRAMENTO EM DADOS – CONCEITOS E PRÁTICAS

Pelo fato do letramento informacional em dados estar em um período embrionário (CARLSON; JOHNSTON, 2015), a terminologia neste campo ainda não está padronizada (KOLTAY; HORSTMANN; WITT, 2016) e a conceituação passa inicialmente por uma discussão sobre nomenclaturas. Além do uso do termo letramento em dados, há o termo “letramento informacional em dados” adotado por Carlson et al., (2011, p. 2, tradução nossa), “letramento em ciência de dados” usado por Qin e D’Ignazio (2010, p. 2, tradução nossa), e “letramento em dados de pesquisa”, escolhido por Schneider (2013, p. 135, tradução nossa). Koltay (2015a) defende que a terminologia deveria ser unificada em torno do termo “letramento em dados” (KOLTAY, 2015a, p. 403, tradução nossa).

A presente pesquisa, no entanto, adota os conceitos de letramento informacional em dados de Carlson et al. (2011), pois estes autores apresentam diversos letramentos ou

alfabetizações informacionais necessárias no contexto de pesquisa intensiva em dados, distinguido, mais detalhadamente dentre elas, o “letramento informacional em dados” de “letramento em dados”, “letramento estatístico” e “letramento informacional” com relação à produção e ao consumo de informações. Agrupa, dessa forma, as várias formas de letramento ao “unir os conceitos de pesquisador como produtor e pesquisador como consumidor de dados'' (CARLSON et al., 2011, p. 6, tradução nossa).

O conceito de letramento em dados não está separado por uma fronteira rígida do letramento informacional, visto que este último sempre esteve interessado na compreensão e no uso adequado dos dados que são convertidos em informações (SCHNEIDER, 2013). Encontra- se o letramento em dados também na interseção entre a comunicação científica e o letramento informacional (ASSOCIATION OF COLLEGE AND RESEARCH LIBRARIES, 2013).

Carlson et al. (2011) situam as competências em letramento em dados dentro dos padrões de competência informacional da ACRL, a fim de propor os componentes essenciais de um programa de letramento informacional em dados administrado por bibliotecários. A concepção mais ampliada de letramento informacional já é bem conhecida na área da biblioteconomia e muitas universidades oferecem instrução em letramento informacional, seja incorporada em todo o currículo ou como uma série de workshops por meio dos sistemas de bibliotecas (WANNER, 2015).

A instrução em letramento informacional nas universidades geralmente é orientada pelo Comitê de melhores práticas em letramento informacional da Association of College And Research Libraries (ACRL) (ASSOCIATION OF COLLEGE AND RESEARCH LIBRARIES, 2012a) que produziu dois padrões principais que norteiam essas práticas nas Universidades Associadas:

1) os Padrões de Competência de Letramento Informacional para o Ensino Superior, adotados pelo comitê nos anos 2000 (ASSOCIATION OF COLLEGE AND RESEARCH LIBRARIES, 2000), padrão adotado por 15 anos e que foram recentemente complementados pelo Framework de Letramento Informacional para o Ensino Superior (ASSOCIATION OF COLLEGE AND RESEARCH LIBRARIES, 2015);

2) as características dos Programas de Letramento Informacional que ilustram as Melhores Práticas, revisada pela última vez em 2012 (ACRL INFORMATION LITERACY BEST PRACTICES COMMITTEE, 2012).

conceitua o letramento informacional como "um conjunto de habilidades que exigem que os indivíduos reconheçam quando a informação é necessária e tenham a capacidade de localizar, avaliar e usar efetivamente as informações necessárias".

Para Calzada Prado e Marzal (2013), letramento em dados e letramento informacional pertencem a uma espécie de contínuo, enquanto outros sugerem que o letramento em dados é um componente menor de um conceito maior de letramento da informação. Por exemplo, considerando o letramento em informação de dados à luz do framework da ACRL para o letramento informacional, Shorish (2015) argumenta que o letramento em dados deveria ser tratado como qualquer uma das outras competências de alfabetização e incorporado no fluxo de trabalho dos bibliotecários. Porém, ambas as conceituações de letramento em dados e letramento informacional têm aspectos semelhantes pois têm suas raízes no uso e na prática da informação (WANNER, 2015).

Letramento em dados atualmente é uma competência tão essencial quanto o letramento informacional (CALZADA PRADO; MARZAL, 2013). As habilidades literárias acadêmicas e as habilidades de letramento informacional serão cada vez mais vistas como uma das principais competências de pós-graduação (DELANEY; BATES, 2015) e serão ainda mais importantes devido à crescente complexidade do panorama informacional (NEW MEDIA CONSORTIUM, 2013).

Carlson et. al. (2011) descrevem como os professores expressaram entusiasticamente a importância das habilidades de letramento em dados, mas muitas vezes não conseguiram definir com precisão o que é o letramento e reconheceram que nas suas próprias práticas de gestão de dados elas estavam ausentes (CARLSON et al., 2011).

No estudo de Carlson et al. (2011), em muitos casos, o corpo docente expressou que o treinamento de letramento em dados era esporádico, ou que se esperava que os alunos fossem ao laboratório com habilidades em dados já desenvolvidas. Neste estudo, os professores muitas vezes não estavam preparados para ensinar aos seus alunos e assistentes de pesquisa a estrutura conceitual e as ferramentas necessárias para o entendimento do letramento em dados, acreditando no papel dos bibliotecários para apoiar o desenvolvimento dos programas educacionais de letramento em dados, participando ativamente das discussões (CARLSON et al., 2011).

Novas percepções de letramento informacional encontraram a ideia de que o conhecimento é “construído social e individualmente”, e a noção de letramento como uma prática social (DELANEY; BATES, 2015, p. 39, tradução nossa). Lloyd (2010, p. 22 apud

DELANEY; BATES, 2015, p. 39)24 sugeriu que “o letramento informacional é uma prática social que facilita o conhecimento sobre os ambientes de informação nos quais uma pessoa está situada”). Portanto, o letramento informacional será alterado de acordo com o contexto de pesquisa.

Wanner (2015) identifica três grandes tendências das quais emerge a importância do letramento em dados:

i) desenvolver habilidades na próxima geração, para a qual a gestão de dados está se tornando cada vez mais importante;

ii) usar as melhores práticas na gestão de dados de pesquisa e;

iii) desenvolver habilidades de pensamento crítico em estudantes universitários, aplicáveis em uma ampla gama de objetivos, incluindo a força de trabalho, a academia e a vida cotidiana.

A abordagem da Association of College and Research Libraries – ACRL (2013), que optou pelo uso do termo letramento em dados (data literacy), está na compreensão ou no direcionamento de como encontrar e avaliar dados, enfatizando a versão do conjunto de dados e a pessoa responsável por ele, não negligenciando as questões de citação e do uso ético dos dados. Para a ACRL (2013), o letramento em dados é uma educação concebida para aqueles que usarão os dados e necessitarão de instrução sobre como compreendê-los e interpretá-los.

Mandinach e Gummer (2013, p. 30) definem o letramento em dados como "a capacidade de entender e usar dados efetivamente para informar as decisões". Eles acrescentam que é um conjunto de habilidades específicas e uma base de conhecimento que permite transformar dados em informações e, finalmente, em um conhecimento utilizável. As habilidades do letramento em dados incluem saber como identificar, coletar, organizar, analisar, resumir e priorizar os dados. As duas últimas habilidades são especialmente dignas de atenção, pois são as habilidades que não aparecem em outras conceituações (MANDINACH; GUMMER, 2013).

O conceito de letramento informacional em dados, de Carlson et al. (2011), foi adotado nessa pesquisa pois funde os conceitos de letramento necessários aos pesquisadores enquanto produtores e consumidores de produtos de dados, baseando-se na integração de outros letramentos (dados científicos, estatística e informação) como um conjunto de habilidades emergentes cujos atributos estão baseados em habilidades funcionais de coleta, processamento, gestão, avaliação e uso de dados (CARLSON et al., 2011).

24 LLOYD, Annemaree. Information Literacy Landscapes: Information Literacy in Education, Workplace and Everyday Contexts. Oxford: Chandos Publishing, 2010.

Igualmente, o letramento em dados permite aos indivíduos acessar, interpretar, avaliar criticamente, gerenciar, manipular e usar dados de forma ética. A gestão, tal como aparece nesta conceituação, compreende a preservação e a curadoria dos dados (CALZADA PRADO; MARZAL, 2013). Calzada Prado e Marzal (2013) também enfatizam a importância de saber como selecionar e sintetizar dados e combiná-los com outras fontes de informação e conhecimento prévio. Eles também enumeram as seguintes habilidades como principais:

 compreender os dados;

 encontrar e obter os dados;

 ler, interpretar e avaliar os dados;

 gerenciar os dados;

 usar os dados.

A compreensão dos dados está ligada ao contexto em que esses dados foram gerados. A dissociação de dados de seu contexto e a perda de contexto torna a reutilização difícil ou impossível (SCHNEIDER, 2013). A condição para a compreensão do contexto dos dados está na forma de documentação e dos metadados, exigência para que os dados sejam reutilizáveis (GIARLO, 2013). Entretanto, um estudo mostrou que a falta de habilidades básicas de gestão de dados, desde o nível de graduação e que se estende aos programas de pós-graduação, é que os alunos tinham uma falta geral de compreensão justamente da documentação e da organização dos dados (RILEY; TREVOR, 2016). Porém, não se limitando a habilidade de documentação, o letramento em dados está na capacidade de desenvolver hipóteses, de identificar problemas, de interpretar os dados, de determinar, de planejar, de implementar, bem como de monitorar cursos de ação, também habilidades necessárias que estão entre os requisitos para adaptar a letramento em dados para seus usos específicos (KOLTAY; SPIRANEC; KARVALICS, 2016).

Um dos estudos mais amplos sobre a gestão de dados de pesquisa cita a falta de treinamento profissional como principal deficiência na gestão efetiva dos dados de pesquisa no longo prazo (COUNCIL ON LIBRARY AND INFORMATION RESOURCES, 2013). Diversas iniciativas de letramento em dados têm se consolidado especialmente nos países que estão sujeitos às políticas mandatórias de depósito de dados de pesquisa. O treinamento em fontes de dados tem sido oferecido em aulas específicas ou como parte de programas de letramento informacional em dados (WHITMIRE, 2015). Whitmire (2015) descreve um programa de letramento em dados para a pós-graduação, já que muitos estudantes de pós-

graduação provavelmente não estão preparados para depositar um conjunto de dados no Repositório Institucional, porque eles não receberam treinamento formal em gestão de dados durante seus programas e, como tal, seus dados não estarão em condições suficientes para serem compartilhados (ou seja, bem organizados e possivelmente documentados). Se preservar e compartilhar os conjuntos de dados produzidos por estudantes de pós-graduação fosse um objetivo compartilhado entre as escolas de Pós-Graduação e da biblioteca universitária, então deveriam ser desenvolvidos mecanismos que capacitassem os estudantes/pesquisadores para alcançar esse objetivo (WHITMIRE, 2015).

3.4 LETRAMENTO EM DADOS COMO UM SERVIÇO DAS BIBLIOTECAS