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Liberdade Assistida, extensão e comunidade

CAPÍTULO 3. CORPO E TERRITÓRIO – PERCURSOS À MARGEM

3.2 Liberdade Assistida, extensão e comunidade

Realizar ações que promovam, discutam e incentivem a inserção dos jovens no mundo do trabalho faz-se necessário, considerando que a faixa etária recorrente de jovens em cumprimento de L.A. na cidade de Campinas é de 14 a 18 anos. Esses jovens pertencem a um grupo social exposto ao risco social, ao racismo e ao preconceito. Além de serem constantemente alvos de discriminação por raça ou etnia, são alvos de violência policial, tanto física como psicológica, e apresentam em suas trajetórias biográficas indícios de negligência e abandono.

Desenvolver-se em condições adversas interfere, sobretudo, em seus percursos escolares. Os jovens inseridos em medidas socioeducativas apresentam um alto índice de abandono escolar, que os leva a acreditar que a inserção escolar não é um fator determinante para garantir o êxito profissional.

Imagem 25 - Visita Técnica Universidade Estadual de Campinas, Grupo de Adolescentes em Liberdade Assistida, Abril 2016.

Foto: Dolores Assaritti.

As vivências realizadas no campus da Universidade Estadual de Campinas adotaram como estratégia metodológica a realização de visitas em três contextos, visitas educativas aos museus, apreciação do cotidiano da universidade e de programações culturais. Para a realização das visitas técnicas à Unicamp, o projeto teve apoio de uma rede de institutos colaboradores. Para isso, identifiquei projetos de extensão comunitária desenvolvida dentro do campus da Unicamp que disponibilizaram o agendamento dos espaços contribuindo para a realização de visitas educativas com os jovens.

Nesse sentido, a Universidade cumpre o seu papel social ao colaborar para o desenvolvimento de atividades direcionadas à comunidade externa e com difícil acesso a vivências disponibilizadas no campus da universidade. Na perspectiva da colaboração acadêmica, adotar o campus no seguimento da sua extensão à comunidade, como um espaço para a coleta de dados, contribuiu sobremaneira para o aprimoramento qualitativo da pesquisa de doutoramento em que essa ação cultural se desdobra.

A escassez de informação e de acesso do público-alvo deste trabalho levou-me, enquanto estudante e pesquisadora, a repensar a contrapartida social da Universidade para as comunidades em vulnerabilidade social na cidade de Campinas, e a refletir de que forma os projetos de extensão e as pesquisas, realizadas no âmbito dos Programas de Pós-Graduação em diversos institutos, podem de fato contribuir para a formação pedagógica e social de um

público inevitavelmente excluído dessas oportunidades, disseminando em outros territórios o conhecimento e a informação.76

Imagem 26- Visita à Faculdade de Educação Física da UNICAMP, Grupo de Adolescentes em Liberdade Assistida, Abril 2016.

Foto: Dolores Assaritti

Nos aspectos relacionados ao incentivo à iniciação profissional dos jovens, o projeto teve como colaborador o Programa de Educação Tutorial - Grupo PET- FEF, que é um programa governamental nacional, subsidiado pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) e pela Secretaria de Ensino Superior (SESU). O projeto PET é desenvolvido por grupos de estudantes com tutoria de um docente, organizado a partir de cursos de graduação das Instituições de Ensino Superior do país, e tem como objetivo promover atividades no segmento de Ensino, Pesquisa e Extensão77.

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De certo modo, esse debate foi realizado com os estudantes da graduação em Pedagogia e dos cursos de Licenciatura na minha experiência no Programa de Estágio Docente (PED) nas disciplinas de Estágio Supervisionado I e II e Escola e Cultura, ministradas pelo orientador desse trabalho Prof. Dr. Rogério Moura e também pela Profª Dra. Alessandra Ancona Faria. Nessa experiência, pude ampliar as possibilidades do campo de estágio a partir da problemática dessa exclusão dos territórios mais vulneráveis na cidade de Campinas e também de apresentar o universo das medidas socioeducativas como um campo de atuação profissional no âmbito da educação não-formal que carece da contribuição de profissionais de diferentes áreas tanto das ciências humanas como exatas.

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O grupo PET / FEF é um grupo de alunos da Faculdade de Educação Física, pertencente à Universidade Estadual de Campinas, que participam do Programa de Educação Tutorial tendo como tutor o Prof. Dr. Ademir de Marco. O grupo de caráter interdisciplinar consiste num conjunto de ações que visa à ampliação da qualidade dos cursos de graduação nela incluídos (Educação Física, Pedagogia, Artes Cênicas, Medicina, Ciências Biológicas e Ciência da Computação). Disponível em: www.fef.unicamp.br/fef/pet

O Projeto PET atuou como colaborador da ação cultural desenvolvida com os adolescentes em Liberdade Assistida, disponibilizando alunos bolsistas e estagiários do projeto para apresentar a Faculdade de Educação Física da Unicamp (FEFI/UNICAMP), através de uma visita guiada à faculdade. A visita foi finalizada com a apresentação de uma palestra intitulada Descobrindo o profissional de Educação Física.

Imagem 27,28 e 29 - Visita a Faculdade de Educação Física da Unicamp, Grupo de Adolescentes em Liberdade Assistida, Abril 2016.

Foto: Dolores Assaritti

A orientação acerca dessa atuação profissional foi realizada por graduandos em Educação Física, que compartilharam informações relacionadas ao currículo do curso, orientações relacionadas ao vestibular e outras formas de ingresso, e também auxílios sociais para a permanência na universidade pública, sendo informações que os jovens em cumprimento de medida socioeducativa desconheciam.

A apresentação também abordou o oferecimento de cursos de extensão na área de Danças, Lutas, e Atividades Aquáticas disponibilizados pela FEF/Unicamp. Os jovens também foram orientados em relação ao dia-a-dia na universidade, e à possibilidade de bolsas de estudo no âmbito de pesquisa, extensão, e políticas de assistência estudantil78.

Os participantes do projeto também visitaram o Restaurante Universitário da Unicamp (RU). O encerramento da visita à Faculdade de Educação Física da Unicamp foi destinado à experimentação do espaço com a apreciação, por parte dos jovens, das salas de trabalho e do laboratório de Ginástica e Artes Circenses.

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Os participantes do projeto receberam informações na palestra relacionadas ao Serviço de Apoio ao Estudante (SAE), o principal órgão de apoio e assistência estudantil na Unicamp. Seus programas visam garantir que, ao ingressar na Universidade, os (as) estudantes tenham acesso a uma efetiva política de assistência estudantil, que incorpora auxílios referentes à moradia, alimentação, transporte e cultura, além de suportes na área educacional, social, jurídica e do mundo do trabalho. Os programas do SAE são direcionados à permanência atendendo estudantes que apresentem dificuldades financeiras de adaptações sociais e acadêmicas. Disponível em: www.portal.sae.unicamp.br; Consultado em: 18/12/2017.

Busquei explorar junto aos jovens os espaços abertos à visitação dentro do campus da Universidade, buscando contemplar as vivências práticas e ressignificar o aprendizado, através da apreciação de música, das artes visuais, da fotografia e do cinema.

Cabe destacar que promover o encontro de jovens em cumprimento de MSE- Liberdade Assistida com diferentes linguagens no campo das artes vai ao encontro às reflexões propostas por Duarte Júnior (2001), em sua obra “O sentido dos sentidos: a educação (do) sensível”, onde problematiza a “educação do sensível” dos educandos através de visitas a exposições. Nessa direção, o autor destaca que:

A educação do sensível, antes de significar um desfile de obras de arte consagradas e de discussões históricas e técnicas perante os olhos e ouvidos dos educandos, deve se voltar primeiramente para o seu cotidiano mais próximo, para a cidade onde vive, as ruas e praças pelas quais circula e os produtos que consome, na intenção de despertar sua sensibilidade para com a vida mesma, consoante levada no dia-a-dia. A educação do sensível é, sobretudo e primeiramente, a educação de nossos sentidos perante os estímulos mais corriqueiros e até comezinhos que a realidade do mundo moderno nos oferece em profusão quantidade que, evidentemente, não significa qualidade. (DUARTE JÚNIOR, 2001, p.25).

O Espaço Cultural Casa do Lago promove espetáculos artísticos, oficinas culturais, seminários e debates acadêmicos envolvendo as produções artísticas e culturais locais, regionais, nacionais e internacionais, nas mais variadas formas de linguagens e expressões79. O espaço tem por finalidade disponibilizar programações que possam socializar e integrar alunos, professores, funcionários e comunidade externa.

Nesse sentido, a Casa do Lago promoveu o acesso dos jovens à apreciação de exposições artísticas, além de sessões de cinema ofertadas gratuitamente pelo espaço. Essa programação, em específico, estabeleceu muitos diálogos com os jovens participantes do projeto devido à oportunidade restrita de acesso ao cinema.

A qualidade da programação cultural oferecida por esse espaço possibilitou que os jovens assistissem a dois filmes: Abril Despedaçado80, com direção de Walter Salles, e Boa

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O Espaço Cultural Casa do Lago da UNICAMP é um órgão da Pró-reitoria de Extensão de Assuntos Comunitários (PREAC da UNICAMP), espaço inaugurado em 18 de abril de 2002. Localizado no campus da UNICAMP, em Barão Geraldo, cidade de Campinas, possui uma área construída de aproximadamente em mil metros quadrados, divididos em sala de cinema, sala multidisciplinar e sala de exposições. Disponível em: www.casadolago.preac.unicamp.br, Consultado em: 30/08/2017.

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O filme “Abril Despedaçado” trata-se da história de duas famílias no sertão nordestino que perpetuam uma disputa pela posse de terras. Tonho filho do meio da família Breves tinha a missão de vingar morte do irmão mais velho, mas sabe que depois disso, lhe restará pouco tempo de vida.

sorte81, com direção de Carolina Jabor. Foi priorizado que as atividades artísticas e pedagógicas, e as temáticas desenvolvidas no âmbito do campus, estabelecessem diálogos com a realidade em que os jovens estão inseridos.

Imagem 30 e 31- Visita ao Museu Exploratório de Ciências da Unicamp; Grupo de Adolescentes; Agosto de 2016.

Foto: Fernanda Lemos.

A programação cultural oferecida aos jovens também perpassou pelo universo dos museus. Neste sentido, realizamos visitas ao Museu de Zoologia do Instituto de Biologia da UNICAMP e, também, ao Museu Exploratório de Ciências. No Museu exploratório de Ciências participamos da programação da 14ª Semana de Museus e Paisagens culturais – com visita mediada às exposições: Praça Tempo Espaço e Pátio Tempo Clima + A Cor da Luz: o código das cores.

O Museu Exploratório de Ciências é um espaço educativo e de comunicação pública de ciência e tecnologia. Sua missão é estimular a curiosidade científica, disseminando o conhecimento tecnológico de forma crítica. O objetivo principal é a formação de cidadãos engajados e ativos na apropriação desse conhecimento. O museu visa à inserção dos visitantes numa perspectiva de educação científica que busca integrar as pessoas à sociedade na qual estão inseridas, pela superação de um olhar meramente técnico e científico.82

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Já o filme “Boa sorte” trata-se do encontro de um adolescente e uma paciente HIV positivo em fase terminal e dependente química em uma clínica psiquiátrica. Apesar do ambiente hostil, os dois se apaixonam e iniciam um romance.

Imagem 32 e 33: Visita ao Museu de Zoologia Unicamp, Adolescentes em Liberdade Assistida, ONG SETA; Setembro 2016.

Foto: Fernanda Lemos

A proposta pedagógica do Museu de Zoologia da Universidade Estadual de Campinas conduziu os participantes à visitação da Exposição Biodiversidade Animal: Estilos de Vida. Visualmente, a visita ao museu proporcionou muita curiosidade aos jovens, devido ao contato com o acervo de vertebrados, peixe, anfíbios, répteis, aves, mamíferos, entre outros. O Museu de Zoologia da Universidade Estadual de Campinas (ZUEC) é um órgão vinculado ao Instituto de Biologia e oficialmente criado em julho de 1992. O museu tem o intuito de se fortalecer como uma instituição de pesquisa, ensino e extensão. O propósito atual é transformá-lo em um museu dinâmico e ampliar seu acervo composto de coleções científicas, de empréstimo e de exposição.83

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3.3 Ação Cultural como estratégia de inserção cultural e social para adolescentes e