• Nenhum resultado encontrado

Limites e vantagens da ética das virtudes

No documento DESAFIOS DO PENSAMENTO JAPONÊS PARA A (páginas 44-48)

Parte I: O problema bioético

III. O paradigma da ética das virtudes

3) Limites e vantagens da ética das virtudes

Ora, como qualquer teoria a ética das virtudes defronta-se com algumas dificuldades e críticas. Um dos elementos mais problemáticos desta ética encontra-se, desde logo, no seu

“essencialismo”, a conceção de uma “essência” ou natureza do homem98 cuja justificação assenta, como nota Santos, no melhor dos casos, numa antropologia filosófica, no pior, numa

94 Neste ponto a ética das virtudes aproxima-se da ética deontológica. As ações têm um valor intrínseco. No entanto, ela distingue-se desta por não ser indiferente às consequências da ação. Isto, simplesmente, porque o que acontece na sequência de uma ação também faz parte da vida do sujeito e, deste modo, deve ser tido em consideração. C.f. Santos, Introdução, 100-101.

95 Ibid., 103-104.

96 Cortina e Martínez, Ética, 34.

97 Santos, Introdução, 101.

98 As virtudes seriam as capacidades de agir inerentes a essa essência e a “vida boa” uma vida preenchida pelo perfeito exercício dessas virtudes.

metafísica99. Além disso, a conceção de uma “essência” do ser humano apresenta uma certa incompatibilidade com a ideia moderna de autonomia da razão e o seu corolário: a liberdade do sujeito e a consciência individual. É de notar também que a conceção de uma “vida boa” a partir de critérios muito concretos – que provêm sempre de culturas locais e, deste modo, são sempre particulares e contingentes – levanta dois problemas fundamentais para a ética das virtudes. Por um lado, o relativismo dos seus conteúdos impede que esta ética aceda à dimensão universal da normatividade moral. Esta apenas poderia ser aplicada a pequenas comunidades homogéneas nas quais essas conceções fossem partilhadas. Mas, mesmo esta solução “comunitária” apresenta-se como problemática na aldeia global em que vivemos, tendo em conta a sua multiculturalidade e a liberdade de orientação dos indivíduos.

Pastura evidencia ainda duas críticas frequentemente dirigidas à ética das virtudes. A primeira levanta o problema das situações que suscitam um conflito de virtudes. Perante uma situação que admite várias ações virtuosas o sujeito estaria desarmado para se orientar, visto que ambas são bens em si. Ora, para a autora, esta crítica esquece que o que orienta a ação não é a realização de um bem particular, uma ação virtuosa, mas o Bem supremo. É à luz deste fim que a ação virtuosa deve ser realizada, o que fornece um critério que permite escolher entre várias ações possíveis a mais adequada100. Este aspeto teleológico teria mesmo a vantagem de manter sempre presente a finalidade da atividade médica (o seu bem interno), isto é, o bem do paciente, o que em casos onde prevalece o respeito da regra (deontologia) ou o maior bem para o maior número (utilitarismo) pode, por vezes, ser relegado a um segundo plano. Uma segunda crítica retoma, quanto a ela, a oposição entre éticas teleológicas e deontológicas para alegar que é impossível obrigar alguém a querer ser virtuoso enquanto que é possível criar regras para serem compridas. Segundo a autora, embora seja verdade que não é possível exigir de alguém que aja virtuosamente, “também não é possível fazer alguém seguir regras, agir por princípios e valores contrários à própria disposição ou vontade”101. A ética das virtudes teria mesmo uma certa vantagem por encarar o problema da ação moral como motivação interna: como o indivíduo deseja alcançar o maior bem, a “felicidade”, ele tem interesse em “agir bem”, em “tornar-se bom”. Ao ser formulada na perspetiva de um sujeito ético que procura agir bem ou melhorar-se a ética das virtudes resolve, logo à partida, um dos problemas mais difíceis de ultrapassar para a ética deontológica, o da motivação para o bem. O sujeito virtuoso é aquele que age naturalmente bem por desejar agir dessa maneira.

99 C.f. Ibid., 103.

100 Pastura Cardoso e Poirot Land, “A perspectiva”, 248.

101 Ibid., 247.

“Agir bem, para o bem, e constituir-se virtuosamente é disposição interna ao agente moral.

Exige consciência da responsabilidade na própria constituição, e essa consciência é vantagem em relação às decisões que seguem regras ou princípios externamente estabelecidos, decisões que não são necessariamente do próprio agente”102. Pelo facto da ética das virtudes não se limitar à estrita questão do dever e integrar na reflexão ética a questão do sentido da vida emerge a necessidade de se constituir como sujeito virtuoso ao mesmo tempo que uma certa responsabilidade do agente moral. Esta maior amplitude da esfera ética é, sem dúvida, uma das suas principais vantagens em relação a outras teorias, como a deontológica ou utilitarista.

A partir destes três elementos, aspeto teleológico da ação, motivação e responsabilidade do agente, a ética das virtudes oferece uma nova perspetiva sobre alguns dos problemas mais delicados da bioética, como o caso previamente referido do consentimento informado. Se o profissional da saúde mantiver sempre como finalidade da sua ação o bem do paciente e estiver motivado a agir para esse bem então podemos esperar que ele não utilizará o consentimento apenas como meio jurídico para se proteger de eventuais acidentes ou simplesmente para respeitar a “autonomia” do paciente, mas procurará saber qual é verdadeiramente o seu bem, que, por vezes, apenas se descobre após um longo processo de diálogo com o paciente e os seus familiares.

Enfim, importa relembrar que a vida é algo de complexo, constituído por uma variedade de situações únicas e, por isso mesmo, parece difícil encontrar regras aplicáveis a todas as situações, regras essas que seriam as melhores e únicas. A norma universal e as regras são demasiado formais e rígidas para oferecerem uma resposta eficaz à diversidade das situações da vida. Ao inverso, se admitirmos com Santos que “aquilo que caracteriza uma virtude é a capacidade do sujeito de reagir de maneira adequada [nós sublinhamos], isto é, excelente ou virtuosa, a um determinado tipo de situações ou fenómenos da experiência humana”103, então, a ética das virtudes ao conceber a ação moral a partir de virtudes adquiridas, sejam elas disposições (Aristóteles) ou capacidades (Nussbaum), parece apresentar uma perspetiva mais adaptada à complexidade da vida. A virtude tem uma plasticidade que a norma universal ou a regra não têm que permite ao agente moral reagir de forma adequada às múltiplas situações concretas da vida. É justamente esta a linha de pensamento da ética das virtudes: “para agir bem, é melhor possuir uma capacidade heurística capaz de determinar a «regra correta» adequada ao particular, em qualquer situação, do que

102 Ibid., 246.

103 Santos, Introdução, 161.

um sistema de regras gerais que nunca seriam suficientemente finas face à singularidade e à complexidade das situações”104.

104 Ibid., 178.

No documento DESAFIOS DO PENSAMENTO JAPONÊS PARA A (páginas 44-48)