3 DISCURSO E IDENTIDADE
3.4 Linguagem, identidade e análise de discurso
A linguagem, o discurso e a identidade são considerados, na perspectiva teórica adotada neste trabalho, como fenômenos estreitamente relacionados no mundo social. Sob esse ponto de vista, os discursos dos sujeitos acerca das características sociais de seus grupos, do que os diferencia de outros, ou sobre as relações que estabelece com eles – tais como relações de dominação, de conflitos ou de cooperação –, constituem essas relações. Esses discursos têm efeitos sobre o seu curso, moldando os sentimentos, as definições e os modos de classificação mobilizados para dar sentido aos grupos sociais que atuam no interior dessas relações (VELÔSO et al, 2009 - grifos nossos).
Consideramos discurso todas as formas de interação falada – formal e informal – e todos os tipos de textos escritos, sejam eles registros de conversas, romances, novelas, transcrições de entrevistas, dentre outros, sejam imagens. As questões centrais presentes nessa abordagem são “como a linguagem dos participantes é construída e quais são as consequências de diferentes tipos de construção?” (POTTER; WETHERELL, 1992, p. 55). A abordagem de análise de discurso, desenvolvida a partir da Psicologia Social Discursiva, foca sua atenção nas ações e efeitos de um discurso, compreendendo este como uma peça chave para entender a vida social.
Assim, Potter e Wetherell (1992), os autores que estruturaram essa abordagem teórica e metodológica, interessam-se por analisar o modo como um texto constrói uma realidade específica e apresentam possibilidades de descrições e categorizações alternativas, as quais envolvem escolhas que podem levar a muitas consequências, e discutem sobre a estreita interdependência que existe entre a linguagem descritiva e a avaliativa. Portanto, postulam que os textos sociais não apenas descrevem coisas, mas também constroem ativamente uma versão delas.
Outro psicólogo social que tem trazido importantes contribuições para a psicologia discursiva, Edwards (1998), quando comparando esta abordagem com o modelo cognitivista de categorizações sociais, afirma que a análise de como as categorizações de si e de outros acontece no discurso, enfatiza seu caráter de localmente construído e a sua natureza retoricamente orientada. Ele lembra que na teoria da autocategorização há um pequeno interesse em descobrir empiricamente quais categorias as pessoas usam, mas não em como elas as usam. Na psicologia discursiva, o alvo é explicar como as pessoas vão posicionar elas mesmas e outros nessas categorias, de acordo com as situações em que elas se encontram:
Na psicologia discursiva, aquele tipo de modelo mecânico variáveis- e-efeitos é substituído por um no qual as categorizações são estudadas como um fenômeno empírico ocorrendo na fala e no texto. Ao invés de se adequarem a uma matriz causal, as categorizações se caracterizam por versões ativamente elaboradas que constituem a lógica circunstancial na qual elas são usadas. De fato, ‘as situações nas quais elas se encontram’ são não menos sujeitas às variações de categorizações e descrições do que as próprias pessoas25
(EDWARDS, 1998, p. 31 - grifos do autor).
Na sua compreensão, essas categorizações são coisas que as pessoas fazem nas suas falas, daí ele se posicionar a favor do interesse da psicologia pelo modo como o discurso e a interação social funcionam. A categorização pode funcionar como uma maneira de situar alguém como membro de um grupo ou outro, e que a participação nesse grupo pode ser evocada ou abolida a partir de interesses locais ou pessoais. É esse tipo de coisa que as pessoas fazem nas suas falas, e a melhor maneira de ver como eles fazem isso, e o que eles fazem com isso, é estudando suas falas (EDWARDS, 1998).
Categorizações são um fenômeno discursivamente acessível como algo que nós fazemos ativamente, com o qual realizamos ações, como produto e produtor de negociações interacionais, e não apenas uma peça de uma maquinaria perceptual. Perguntar o que as pessoas estão fazendo quando falam, revela que elas atribuem
25 Tradução livre de: “In discursive psychology, that kind of mechanical variables-and-effects model is replaced by one in which categorizations are studied as empirical phenomena occurring in talk and text. Rather than fitting into a causal matrix, categorizations feature in actively worked-up versions, that constitute the sense of the very circumstances in which they are used. Indeed, ‘the situations they find themselves in’ are ordinarily no less subject to the vagaries of categorization and description than the people themselves” (EDWARDS, 1998, p. 31; grifos do autor).
categorizações e descrições para elas mesmas e os outros. Mostra também que são necessárias uma teoria e uma metodologia para lidar com tais descrições, uma abordagem discursiva que as considerem como uma espécie de ação social. No entanto, falta às teorias da cognição social uma teoria da linguagem, uma maneira de lidar com ela empiricamente como um fenômeno social.
Nas categorizações e descrições, as pessoas podem, ainda, se engajar ativamente no exercício de posicionar-se a si mesmo, e ao outro, nas produções discursivas que participam e, desse modo, construir o mundo social e agir nele. Para mapear como os sujeitos sociais se localizam dentro de discursos e narrativas que permeiam os contextos sociais, Harré e Van Langenhove (1999) idealizaram a Teoria do Posicionamento, na qual os posicionamentos são compreendidos como constructos eminentemente discursivos e relacionais, construídos e situados em contextos específicos. Por meio da análise dos posicionamentos é possível identificar algumas posições ou lugares de discurso que os sujeitos podem assumir, negociar ou rejeitar.
Trata-se de uma forma de uma micro análise do discurso desenvolvida pelas escolas anglo-saxãs de análise do discurso, através da qual é possível analisar a complexa e interessante dinâmica da construção de significados e identidades sociais. No desenrolar de “conversas” e interações simbólicas similares, as pessoas podem construir lugares discursivos para si e para os outros; à medida que os sujeitos se posicionam no discurso, posicionam também os outros de forma interativa e estabelecem significados que surgem nos variados contextos de existência, sejam pessoais, históricos, culturais ou sociais.
No capítulo a seguir, no qual descrevemos o nosso percurso metodológico, trazemos mais detalhes de como realizamos as análises do material discursivo colhido na realização da nossa investigação.