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Livros

No documento BENS DE HEREGES (páginas 36-47)

3.5 Cuidar do Espírito

3.5.1 Livros

e de cera, não podermos estranhar que, nos meios rurais algumas pes-soas as tenham declarado. Como as abelhas eram dadas à agressividade face aos humanos e aos estragos em vinhas e pomares, as edilidades chegaram a emitir posturas no sentido de os donos das colmeias as man-terem à distância dos espaços urbanos924.

Os réus que arrolaram animais nos seus inventários eram maioritariamente pessoas residentes em espaços rurais, que estavam ligados à posse de parcelas de terras. Porém, estiveram igualmente presentes homens urbanos detentores de quintas nos arredores das cidades, os quais complementavam os rendimentos da sua actividade principal com a exploração agrícola, numa clara cópia dos padrões da nobreza, visível desde épocas anterio-res925. Esta realidade não obstava à presença de animais nas cidades e vilas, em ambientes urbanos, os quais frequentemente eram alvo de legis-lação camarária926 ao mesmo tempo que causavam problemas diversos, nomeadamente de segurança e de salubridade.

poder afirmar -se alguns aspectos gerais que ajudam a compreender as questões afectas à leitura. Sendo o analfabetismo elevado, mais evidente nos meios rurais do que nos urbanos e mais significativo entre as mu-lheres do que entre os homens928, não podemos estranhar que a posse e a leitura de livros fossem pouco relevantes especialmente entre os não privilegiados. Deixando de parte as bibliotecas de instituições religiosas929 e de poucos particulares, mormente de eclesiásticos930 e de nobres931, este é um campo de estudo onde a maior parte do trabalho está por realizar quer em Portugal quer no Brasil932.

Se tivermos em conta a estimativa realizada por António Camões Gouveia, para a segunda metade do século XVIII, em Portugal havia uma biblioteca para cada 1.000 habitantes933. A partir dos inventários de bens em estudo, apenas 84, isto é, 15,3% do total fizeram referências à posse de livros934. Todos pertenciam ou tinham pertencido a homens. Na verdade, em seis casos, as referências a obras estão presentes em inventários femi-ninos mas referiram -se a bens dos cônjuges. Cinco mulheres casadas e uma viúva deram conta da posse de livros dos seus maridos médicos (uma des-tas residia no Brasil) ou advogados, com três casos para cada uma das profissões. Nenhuma mulher solteira, casada ou viúva afirmou possuir livros de seu uso935. 31 inventários eram do século XVII e 53 da centúria seguin-te. Tendo em conta os 84 inventários em estudo, podemos verificar que entre os do século XVIII contam -se 11 residentes no Brasil, isto é; cinco naturais e moradores no Rio de Janeiro e os seis restantes provenientes de Alcains, Celorico, Fundão, Lisboa, Tomar e um de Sevilha e residentes, respectivamente na Baía (os três primeiros), em Vila Boa de Goiás (os dois seguintes) e, o ultimo, em Ouro Preto. Notemos que as obras chegavam ao Brasil a preços mais elevados do que eram praticados em Portugal936 e que só depois da presença da Corte no Rio de Janeiro se começaram a publicar livros e jornais, com a fundação da Impressão Régia, em 1808937.

Se bem que importe sempre fazer a destrinça entre livros para ler e livros para possuir, no sentido de livros para coleccionar938, nas fontes em análise, basicamente, estamos perante bibliotecas profissionais, isto é, bibliotecas em que os livros aparecem como instrumentos maioritariamente relacionados com a profissão do possuidor. Na verdade, nos inventários

masculinos com referências a livros temos 51 médicos (seis residentes no Brasil), três cirurgiões (um residente no Brasil) e dois boticários, 15 advo-gados (um residente na colónia brasileira) e um legista, três mercadores (dois estantes no Brasil), um mestre de meninos, um estudante e um indi-víduo sem ofício. Ou seja, se pela natureza das fontes em estudo, não predominaram nobres e eclesiásticos, os que, por norma, tinham mais obras939, uma vez que estes inventários estão contidos em processos que visaram especialmente outro tipo de indivíduos, também é certo que os

“profissionais liberais” de então eram necessariamente leitores. Não esque-çamos que constituíam um grupo alfabetizado, com preparação académica e, consequentemente, preocupados com a sua formação intelectual. O in-vestimento em livros e a consequente posse de bibliotecas decorriam destas características, o que é mais relevante para médicos e advogados do que para cirurgiões, boticários e mestres de meninos, sempre menos preparados.

A maior parte dos réus não avaliou os livros nem deu conta do núme-ro de volumes que possuía. Informações acerca de autores, títulos, encadernações, locais onde eram guardados e lidos os livros também foram escassas. A circulação dos mesmos, nomeadamente após a morte dos pri-meiros donos, está presente igualmente de forma bastante residual. Se nos fixarmos no número de volumes, a maior biblioteca referenciada no sécu-lo XVII tinha 850 e valeria 300.000 réis. Era propriedade de um advogado.

Se olharmos para a situação inversa, podemos admitir que alguns teriam menos do que uma dezena de livros a avaliar pelo que afirmaram e pela maneira como se referiram às obras. Os valores indicados oscilaram entre os 5.000 e 300.000 réis, embora seja plausível que algumas valessem ain-da menos. A mais rica e valiosa biblioteca inventariaain-da na centúria seguinte seria constituída por cerca de 3.000 livros e valeria 4.000 a 5.000 cruzados, isto é, algo entre 1.600.000 e 2.000.000 réis940.

Quadro 14. Número de Volumes e Número dos que avaliaram as Bibliotecas

Época Indicam n.º volumes Indicam valor da biblioteca

Século XVII 8 13

Século XVIII 31 31

Total 39 44

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No documento BENS DE HEREGES (páginas 36-47)

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